Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 24 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 23

 

O policial se manteve lá até o começo da tarde. Conversou com cada um deles em separado, sobrando até mesmo para Dona Genoveva, a governanta, que foi interrogada pelo simples fato de estar convivendo com o grupo de amigos durante sua estadia na casa. A última a falar com ele foi Luciana, o que despertou atenção de Rebeca. Se o homem começara por Afonso e Ana Paula, seguindo seu interrogatório em ordem alfabética, o que ela inicialmente imaginou ser apenas uma estratégia banal para que alguma ordem fosse mantida, perdeu completamente o sentido quando ele pulou Luciana e a deixou para o final.

— Seu nome?

— Luciana Sampaio Gusmão.

— Não consta aqui - ardiloso, ele mencionava a lista que Juvenal, um amigo policial, havia lhe arranjado e que trouxera consigo, composta pelos nomes de todos que estavam na casa no dia do acidente.

— Me casei. Na sua listagem deve constar Luciana Pontes Rodrigues, meu nome de solteira - ela explicou imaginando que Ana Paula deve ter recebido o mesmo questionamento, pois assim como ela, a jovem provavelmente tinha outro nome agora. — Eu adotei todo o sobrenome de meu marido, ele fez questão.

— Corretíssimo! Uma boa esposa deve seguir seu marido sempre. E onde ele está agora? Pelo que percebi e de acordo com o sobrenome, não é aquele jovem ao qual a senhora estava abraçada quando cheguei, correto?

— Em casa. Meu marido está em casa e seu trabalho não permitiu que ele me acompanhasse na viagem - ela respondeu séria, mas seus lábios tremeram frente à mentira que contava.

Safada! Mentirosa... Além de desaparecer sem deixar notícias, ainda engana Nilo se agarrando com outro bem nas minhas barbas, afirmando que o corno não pôde vir. Ele não vai gostar nem um pouco de saber que é dono de um par de chifres, apesar disso ser engraçado pra mim. Nilo, sempre tão machão, é chifrudo... Otário! -, Reinaldo pensava consigo.

Luciana sentiu-se incomodada com a observação feita pelo homem. Ela realmente estava abraçada a Lionel, mas não havia nenhuma outra intenção por trás daquele ato além de obter o conforto decorrente da amizade que perdurava por anos. As palavras do homem soaram como um atestado de traição aos seus ouvidos; traição que não existia. Ela causara má impressão e aquilo não passara despercebido para o policial experiente. A culpa pelo ato foi inevitável.

Ao final de todo o interrogatório, o homem foi enfático ao se pronunciar na sala, para que todos ouvissem:

— O caso é complicado. Ao que me parece, temos personalidades distintas aqui, que estendem-se desde um suposto delinquente juvenil até uma adúltera inconfessa...

Todos entreolharam-se, bastante chocados com as palavras do homem. O policial não media esforços em ofendê-los e fazer valer sua suposta autoridade.

— Vou repassar estes dados aos meus superiores e acredito que muito em breve vocês tenham notícias dos desdobramentos do caso.

Depois, deu as costas ao grupo e deixou o interior da casa.

Da sala todos ouviram quando o motor do carro foi ligado e o som de seu afastamento pelos jardins da propriedade.

Na casa, todos pareciam perplexos, enquanto Luciana sufocava com a vergonha resultante da exposição causada pelo policial.

— De onde este homem surgiu? - Jamile foi a primeira a falar, tentando não transparecer o medo, que estava evidente em seus olhos.

— Acho que o fato de Lionel ter cantado ontem na churrascaria pode ou deve ter chamado atenção das pessoas da cidade. Boatos se espalham rapidamente e ele tem fama... O policial deve ter vindo por isso... A polícia soube que estávamos aqui e decidiu esmiuçar. Talvez devêssemos ser mais discretos em outra ocasião. - Rebeca, sem maldar aquela presença, deu seu parecer.

— Meu bem, de onde ele surgiu, eu não sei, mas sei que Afonso mostrou-se um verdadeiro idiota... - foi a constatação de Ana Paula, que pela primeira vez difamava o marido perante os amigos. — Querido, como advogado que é você não deveria ter permitido que ele entrasse sem mandato e falasse daquela forma. Foi abuso de poder, não foi? Como um policial pode usar de termos pejorativos para referir-se às pessoas da maneira como ele fez? Ele nem mesmo se identificou...

Ana Paula, que na véspera também usara de termos pejorativos para referir-se à Mundo, estava certa. Afonso poderia ter intercedido. Mas ele não o fez. Por quê?

— Isso não importa. O homem já se foi e daqui pra frente precisamos analisar toda esta situação com cautela. A impressão que tenho é de que a nossa chegada na cidade despertou a atenção da polícia e não acho que isto deveria ter acontecido. Como falei, o caso fora encerrado por falta de evidências, não foi encontrada nenhuma linha de investigação ou suspeito em potencial. E não posso negar que meu pai intercedeu a este favor... Éramos jovens, ele quis nos poupar de escândalo maior. Apesar do coma de doze anos, que é realmente algo fora do comum, o quadro de Rebeca estabilizou-se e a polícia acabou realmente deixando a situação de lado. Não faz sentido que eles queiram retomá-la agora.

A explicação de Daniel era viável. O fato de o grupo ter voltado à cidade não deveria ser considerado como reabertura do caso, até mesmo porque ninguém a solicitara e, tirando o administrador do clube, nenhuma outra pessoa conhecia os planos que eles tinham para a viagem. O que estaria acontecendo?

 

— Ela está na casa, sim, eu vi. Tua mulher estava lá, Nilo...

... E agarrada num cara bem mais novo e bem mais apessoado que você, corno! -, Reinaldo se segurava para não completar a informação. O riso contido remexia sadicamente o estômago do homem. Nilo sempre se vangloriou de sua fama de machão e saber que esposa, além de ter fugido de casa, ainda se enroscava com um roqueiro, mexeria com seu brio e renderia boas gargalhadas aos amigos que trabalharam com ele em sua antiga corporação. Mas Reinaldo preferiu guardar a informação e usá-la somente em momento oportuno, quando e se fosse preciso puxar os freios de Nilo.

— Vou avisar na delegacia que preciso me afastar por uns dias e sigo hoje mesmo pra Petrópolis, acho que no final da tarde - Nilo respondeu, sem noção alguma do que o amigo omitia.

— Certo... Mas veja bem: toda e qualquer ajuda que eu lhe dê, será por baixo dos panos, compreendeu? Estou aposentado, mas tenho pessoas lá das quais posso vir a precisar ainda; pessoas que me prestam favores e não quero comprometê-las. A delegacia hoje é chefiada por uma mulher... Uma delegada toda certinha, bonita, novinha e cheia de frescuras, que não engole qualquer sapo... É certo que se a história chegar até os ouvidos dela, os problemas serão grandes. E se ela souber como você age, se imaginar como trata sua mulher, meu amigo, você estará fodido.

— Puta que pariu...

Se havia algo que Nilo detestava, era ser comandado por mulher, nunca admitiu tal coisa. Saber que havia uma mulher chefiando aquela delegacia, o incomodava. Saber que ela tinha o hábito de defender outras mulheres era ainda pior. Ele descobriu que deveria manter a discrição se não quisesse ter problemas.

— E você pode ficar lá em casa. Eu moro sozinho desde que minha Isaura morreu. Vai ser bom ter companhia, podemos relembrar os velhos tempos, jogar conversa fora e dar umas risadas... - Reinaldo ofereceu.

— Sim, vou ficar lá mesmo, ou você acha que eu teria o prejuízo de pagar por estadia só pra dar umas porradas na Luciana e ensinar pra infeliz que lugar de mulher é em casa, sob os olhos do marido?

Reinaldo lembrou-se mais uma vez de Luciana abraçada a Lionel e precisou segurar o riso. Nilo era realmente um imbecil.

Após combinarem sobre a chegada de Nilo, a ligação foi encerrada.

Nilo, em casa, sorriu satisfeito. Ele sabia exatamente o que faria.

 

Na casa de Petrópolis, apesar do policial ter ido embora no começo da tarde, ninguém quis almoçar naquele dia. A comida não desceria, o nervosismo de todos era evidente. A amizade, tão bem nutrida na adolescência e que parecia ter lhes escapado das mãos quando a idade adulta chegou, fora posta em teste por um homem que ninguém conhecia, que ninguém imaginou que pudesse aparecer. Cada um tinha seus segredos, suas fraquezas e eram estas fraquezas que poderiam colocá-los em enrascadas. Todos tinham a real noção de sua inocência, mas desconheciam esta possibilidade quando voltavam seus pensamentos para os demais. Já não havia confiança. Tirando Rebeca, a vítima, cada um de seus oito amigos parecia enxergar sete possíveis culpados e nenhum deles tinha um álibi perfeito, uma justificativa que os livrasse do fardo da culpa.

— Tem uma coisa... - Daniel falou e ele estava ciente de que precisava colocar os amigos a par dos acontecimentos. —Há um homem telefonando para a casa da Rebeca. Ligou hoje pela manhã, a enfermeira Hilda foi quem me avisou. Eu falava com ela ao telefone quando o tal policial chegou. O homem não se identificou, mas perguntou também por Luciana - ele encarou Luciana, que o olhou de volta visivelmente preocupada. —E parece que seu marido esteve na casa de Rebeca logo após nossa viagem, Luciana. Ele procurava por você. Juntando os fatos, Hilda acredita que tenha sido ele quem telefonou.

O mundo de Luciana desabou por inteiro ali, naquela sala de estar. O peso das mãos de Nilo e acidez de suas palavras puderam ser sentidos mesmo à distância. Não havia segurança quando se tratava de Nilo; não havia esconderijo que fizesse jus ao nome. Se atrasar o jantar era motivo para surras homéricas, uma fuga poderia resultar em algo muito pior, algo ainda mais grave. Ela teve medo.

— Ele deve estar preocupado comigo... - foi o que conseguiu dizer, enquanto todos a encaravam.

— Ué! Mas você não avisou que vinha?

Fernanda não mediu as palavras e nem o tom empregado. O casamento de Luciana sempre lhe soara estranho demais e apesar de não conhecer Nilo pessoalmente, nas ocasiões em que falara com o homem ao telefone, ela percebera que ele era controlador, indigesto.

— Avisei - Luciana mentiu.

Mentir foi necessário e ali, em meio aos amigos, ela podia mentir. Ninguém lhe bateria se descobrisse a verdade - ao menos ela acreditava que não! - e a mentira lhe daria tempo para pensar em alguma atitude que pudesse tomar.

Foi Ana Paula quem interrompeu a conversa, desviando-a por completo:

— Olha só, Dan, eu acho que isso não vem ao caso. Certamente se eu tivesse viajado sozinha e já estivesse fora de casa há alguns dias, Afonso também me procuraria cheio de ciúmes - olhou para o marido, convicta de que ele correspondia, mas frustrou-se; a atenção de Afonso estava voltada para Luciana.

Alguns anos de tribunal deram a Afonso experiência para perceber quando uma pessoa omitia dados. Luciana escondia algo, ficou claro para ele.

—Talvez seja bom que Luciana dê um telefonema para o marido. Isso certamente vai acalmá-lo - Afonso sugeriu.

A sugestão foi maneira encontrada para testar a amiga que, sem saber, lhe entregou a situação de bandeja ao gaguejar em sua resposta.

— Sim... Vo-vou telefonar para ele a-agora.

— Pode ligar da cozinha. Há um telefone convencional lá - Daniel informou, ciente de que Luciana não portava um telefone celular e ela, com as pernas trêmulas, deixou o cômodo.

Ele, assim como Afonso, também percebeu que ela parecia tensa e buscou o amigo com os olhos. A cumplicidade daqueles olhares mostrou que a amizade de anos sobrevivia.

Foi Mundo quem retomou a conversa após Luciana desaparecer no vão que dava acesso à cozinha

— Eu acho que a presença desse policial só acelera nossa função aqui. Se ele chegou com intenção de se intrometer e se isso não nos agrada, independentemente do motivo e mesmo que vejamos como tal motivo apenas sua autoridade desregrada, precisamos buscar as respostas para a questão antes que ele nos incomode mais uma vez.

— Falou aquele que quer fugir da polícia - Fernanda disse entre dentes, porém alto o suficiente para que todos a escutassem.

— Chega! - Lionel tomou a palavra. — É perceptível que cada um de nós tem suas cismas, assim como cada um de nós também isenta-se de culpa. Somos todos culpados. Todos, sem exceção! Nos perdemos naquela época e, de algum jeito, permitimos que interesses pessoais se sobrepusessem ao interesse inicial do grupo, que era a diversão em conjunto. A distância que estabelecemos em uma única noite foi a principal responsável pelo que aconteceu à Rebeca. A banalidade de nossos atos levou nossa amiga ao coma por doze anos e nos afastou de vez, ou alguém aqui ainda se considera próximo de um de nós como era antes?

Ninguém respondeu e ele prosseguiu:

— É natural que não sejamos mais o grupo que brincava com jogos de tabuleiro na varanda até altas horas, mas desconfiança é outra coisa... É mais grave. Nenhum de nós se preocupou com os problemas que o outro poderia ter, nem antes e nem agora. Se pararmos para pensar, talvez nem mesmo a preocupação em entender o que aconteceu com Rebeca seja genuína e estamos todos aqui com o intuito único de livrar o próprio couro ou de mostrar o progresso que a vida nos proporcionou - respirou fundo e completou: — Eu não conheço o que realmente se passa com Fernanda, por exemplo, apesar de falar com ela por telefone constantemente; ela não sabe os dramas que vivencio, apenas ouve minhas músicas no rádio e vê minhas apresentações nos programas de televisão. Imagino que isso se dê com vocês também: nenhum de nós conhece a vida pessoal do outro, seus anseios, suas vontades, suas verdadeiras dificuldades. Temos notícias em relação às vitórias e é só isso. Eu arrisco afirmar que a intenção de cada um aqui é provar a própria inocência, nada mais.

Ele estava certo.

— E se nós não nos aproximarmos agora, dificilmente o faremos em outra ocasião. - Mundo completou.

Era agora ou nunca.

 

Incomodado com a reação de Luciana, Daniel logo após a conversa na sala e sem que ninguém percebesse, foi até a cozinha, tirou o telefone do gancho e apertou a tecla redial. Após o terceiro toque, uma voz de mulher disse alô do outro lado da linha.

—Boa tarde. Quem fala?

— Amélia.

— Olá, Dona Amélia. Sou eu, o Daniel... Posso falar rapidamente com a enfermeira Hilda?

— Sim, doutor, vou chamá-la.

Não havia nada que Daniel quisesse falar com Hilda, mas era certo que a enfermeira entenderia e saberia disfarçar depois, quando e se Amélia a questionasse. Sua única intenção era confirmar uma suspeita. Se o último número discado era o número da casa de Rebeca, ele fora a última pessoa a usar o telefone ainda pela manhã, quando respondeu à ligação de Hilda. Sendo assim, Luciana que deixou a sala com intuito de telefonar para o marido, não havia feito ligação alguma.