Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 6 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 5

 

 

Na manhã seguinte, Rebeca não se conformava.

— Eu não entendo porque preciso continuar no hospital! - Rebeca reclamava com a mãe, enquanto encarava uma xícara morna de café com leite mal adoçado. — Já deu para perceber que estou bem e eu já entendi que passei doze desgraçados anos dormindo nesta porcaria desta cama. Por quanto tempo mais vocês vão me manter aqui? Vão esperar que eu enferruje ou que eu crie mofo?

Amélia não tinha como argumentar e mesmo toda sua severidade ficava rendida frente aos apelos da filha. Ela entendia suas necessidades, sabia perfeitamente que Rebeca queria correr para a vida, mas também sabia que o quadro clínico era incerto, apesar de aparentemente estabilizado. O caso era raro e a medicina parecia desconhecer as possibilidades de um despertar após tantos anos em coma, por isso Dan insistia em manter a paciente e amiga hospitalizada por mais alguns dias. Amélia conhecia as histórias e morria de medo da tal melhora da morte.

— Eu entendo sua pressa, Rebeca, mas acho que depois de tanto tempo, agora você está acordada e um ou dois dias não farão diferença se comparados aos doze anos que você...

— É lógico que fazem diferença! Quem dormiu fui eu! - Rebeca se alterava cada vez mais, enfurecida com todo aquele mistério. —Dormi por doze anos, mãe, e todo este tempo pra mim foi apenas uma noite acompanhada de um sonho longo e esquisito. Enquanto isso as pessoas viviam; as pessoas estudavam, trabalhavam, construíam histórias. Eu não. É como se eu não tivesse uma vida para viver...

Paciência não era uma virtude de Rebeca, nunca foi. Quando o tema em voga era a vida, sua ânsia a atropelava e ela não esperava, até mesmo por saber que a vida jamais esperaria por ela. Os doze anos em coma comprovavam sua teoria: ela dormiu enquanto a vida continuou acontecendo. Sua mãe envelhecera; seus amigos haviam encaminhado suas vidas, conforme as poucas notícias que a mãe lhe dera durante a noite; seu cachorro, ganho no "último" Natal, já não era mais um filhote, era um ancião gordo e preguiçoso, com o focinho repleto de pelos brancos. O que mais Rebeca deveria esperar?

— Apaguei com dezesseis anos e estou acordando com vinte e oito. Passei doze anos sonhando um sonho de uma noite só! Quanto tempo mais eu vou perder, mãe?

Amélia não sabia responder, mas torcia para que a estadia da filha ali fosse breve. Em paralelo, quando recebesse alta, era provável que Rebeca tentasse abraçar o mundo e aquilo a assustava. Aqueles que seguiram suas vidas talvez não percebessem as diferenças, pois as acompanharam gradativamente, mas a realidade não era mais a mesma, o mundo havia mudado. Tudo estava muito diferente e ela sabia que a filha, por não ter acompanhado todas aquelas mudanças, não tinha a maturidade pertinente à sua idade ou à realidade que se descortinaria quando estivesse fora do hospital. Por sorte, Dan entrou no quarto e interrompeu os questionamentos de Rebeca.

— Bom dia, Rebeca - ele disse ainda enquanto fechava a porta atrás de si.

— Só se for pra você, Dan. Eu não vejo nada de bom em ter que ficar com as costas coladas a uma cama quando não estou sentindo nada que me impeça de sair daqui.

Ela foi direta.

Rebeca era sempre direta, inconsequente até; medir palavras nunca foi seu forte e talvez por ter este tipo de personalidade, a situação a irritava tanto. Era quase insuportável ter que se adaptar aos planos que aparentemente outras pessoas tinham traçado para ela. Foi assim anos antes, apesar dela não se lembrar.

Ele a encarou de maneira diferente daquela que usou para encará-la durante toda a sua internação e Amélia percebeu. Quem a olhava naquele momento não era o doutor Daniel e sim o Dan, que alimentou as saudades da amiga pelos longos anos em que acompanhou a recuperação de sua paciente. Rebeca estava à sua frente, acordada, e lhe cobrava explicações.

— Rebeca, será por pouco tempo. Um ou dois dias talvez...

Ela foi enfática mais uma vez:

— Se isto não faz diferença para você, fique ciente de que para mim faz e muita! Passei doze anos dormindo, sem saber o que acontecia ao meu redor. Doze anos, merda!

Amélia engoliu em seco frente ao palavrão dito pela filha, que prosseguiu:

—E pra quem dormiu por doze anos, perder mais dois dias não é nada agradável. Se parece pouco para você, saiba que não é pouco para mim.

Rebeca não conhecia o Dan médico e por isso não sabia lidar com ele. Recordava-se do Dan brincalhão, um rapaz alegre e que, apesar de ser de família com condições financeiras bem melhores que os demais do grupo, não se deixava levar por aquela suposta vantagem; conhecia o Dan que divertia-se com eles pelas ruas e varandas do subúrbio carioca e cujo pai era dono da casa em Petrópolis para a qual ela viajara, mesmo que sem ter qualquer lembrança de ter posto seus pés lá. O Dan médico, que dedicava-se exclusivamente ao trabalho e deixava a vida pessoal de lado, era uma novidade trazida por seus doze anos de afastamento involuntário e com a qual ela teria que se habituar. Teria?

Já Amélia, depois de todos aqueles anos, conhecia bem o Dan médico, apesar de não ter boas impressões dele. Não se tratava de suas ações, pois ela admitia que a dedicação profissional do médico sobrepujava-se a qualquer outro aspecto de sua vida. Ela o culpava pelo acontecido com sua filha, o culpava pelos anos de internação e pelo tempo perdido. Se Dan não tivesse inventado a tal viagem para a casa de seus pais, se não tivesse insistido tanto, talvez Rebeca não tivesse passado pelo que passou. Amélia agarrava-se àquele talvez com todas as suas forças e fazia dele razão para os olhares de ódio disfarçado que ainda direcionava ao rapaz. Nem mesmo o fato de os pais de Dan terem arcado com todas as despesas hospitalares de Rebeca e do rapaz ter escolhido aquele hospital como seu local de estágio e, após a conclusão do curso, ter se mantido lá para acompanhar o andamento do caso, amenizavam a amargura e os ressentimentos da mulher. Se não fosse aquela casa em Petrópolis, nada daquilo teria acontecido, a vida teria seguido seu curso normal e sua filha teria vivido plenamente os últimos doze anos. Amélia só desconhecia que não há um curso normal estabelecido para as vidas das pessoas.

— E não venha com esta história de ter calma, pois eu não tenho! Quero a minha casa, quero o meu quarto, minha cama e as minhas coisas. Este lugar não é meu e eu não quero permanecer aqui, será que você não entende?

Ele entendia. Rebeca não via, não percebia, mas ele entendia. O que ele não conseguia entender era o que havia acontecido com ela naquela noite em Petrópolis. Entretanto, não adiantava argumentar e a alta hospitalar seria inevitável. Passarinhos não haviam nascido para gaiolas; Rebeca também não. Aparentemente, tirando sua pressa pela vida, ela estava bem, muito bem por sinal, e era preciso dar-lhe um voto de confiança assinando sua liberação.

— Certo, vou assinar a sua alta.

Amélia, que esperou aquela informação por anos, não acreditava no que acabara de ouvir. Rebeca iria para casa, ela iria para casa. Tudo seria diferente. Após anos vivendo pelos corredores hospitalares e passando em casa apenas para arcar com algumas responsabilidades, ela poderia voltar a habitar o que era seu e, o que tornava tudo ainda melhor, levando a filha consigo. Uma lágrima furtiva lhe escorreu de um de seus olhos.

Rebeca não teve tempo de comemorar. A porta do quarto se abriu e um rosto conhecido e com um sorriso amarelo surgiu na fresta criada.

— Oi!...

A interrupção pegou a todos de surpresa. O monossílabo saiu arrastado, com um "o" mais esticado se comparado ao "i".

Era Fernanda, que cansada de esperar pelo aval de Dan, decidira visitar a amiga. Daniel levou uma das mãos à testa, como se pudesse prever a confusão que se estabeleceria. Amélia levantou uma das sobrancelhas e sua insatisfação foi notável.

Rebeca encarou a amiga e teve mais uma vez a confirmação de que o tempo se passara. O corte de cabelo de Fernanda já não era o mesmo daqueles tempos que ela chamava de "véspera", a pele ao redor dos olhos da moça também não: algumas marcas de expressão se instalaram ali de um dia para o outro em sua concepção. As roupas de Fernanda eram diferentes também e destacavam-se pelos pequenos selos que gritavam suas grifes caras. Apesar de não ser Fernanda a primeira visita que ela esperava receber, Rebeca sorriu.

— Eu quase não acreditei quando soube que você havia acordado!... -Fernanda, como nos tempos de infância, não continha sua euforia. — Quase enlouqueci ontem sem saber se era adequado fazer uma visita. Ah!... Me desculpe, pois não sei se me precipitei, mas ficar mais um dia esperando para te ver não estava nos meus planos e, sendo assim, aqui estou eu. - ela abriu os braços em sinal de reverência, como se estivesse se apresentando a um grande público.

Aquela era Fernanda! Rebeca desconhecia o que havia acontecido com a amiga durante aqueles anos, não sabia nada sobre sua vida, mas ao menos o temperamento da moça não havia mudado. A Fernanda com quem, em suas memórias, havia conversado ao telefone na noite anterior, salvo as diferenças físicas perceptíveis e as alterações no estilo, era a mesma que acabara de entrar em seu quarto.

— Se você tivesse esperado um pouco mais, Fernanda, poderia visitar Rebeca em casa. Ela será liberada hoje. - Daniel não privou-se de mostrar sua insatisfação pela teimosia de Fernanda.

Fernanda fingiu que não ouviu, certa de que, se ela tivesse esperado, ainda estaria em casa, sentada em frente ao aparelho telefônico ou consultando o aplicativo de mensagens a cada trinta segundos em busca de informações.

— Mas me diga, como você está? - Fernanda mantinha sua atenção totalmente direcionada à Rebeca.

— Estou bem. Meio fora do tempo... - a moça sorriu timidamente. — Mas, na medida do possível, acho que estou bem.

— Pois me parece muito bem mesmo! Dormir por doze anos deve ser muito mais que um sono de beleza, querida.

"As antigas piadas de mau gosto!"-, pensou Daniel, que detestava aquele tipo de brincadeira, principalmente em seu ambiente de trabalho. Fernanda era vulgar e inconveniente e, definitivamente, sua inquietude gritava de dentro para fora e para quem quisesse ouvir. Aparentemente, ela não era uma má pessoa, apesar de sua fama de fofoqueira, porém, conseguia ter atitudes dúbias e, em muitas das vezes, sua curiosidade surgia disfarçada de boa intenção.

— Bem, vamos às novidades então! - Fernanda não conseguia tirar o sorriso do rosto. — Meu pai ganhou na loteria e hoje somos uma família rica, moramos em Copa... Te mete... - ela falava alto e gesticulava muito, como se seus braços tivessem vida própria. — Afonso e Ana Paula se casaram e eles não querem filhos. Ou ao menos dizem que não querem... Já a Jamile... Ah! Rebeca você acredita que a Jamile emagreceu e é modelo? Capa de revista!

Apesar de não esperar que sua primeira visita fosse Fernanda, pois o seu contato com Jamile e Luciana era muito maior, em um primeiro momento Rebeca gostou de sentir-se querida. Entretanto, tão logo a moça começou sua narrativa de "novidades", um incômodo preencheu o olhar de Rebeca. O que mais ela havia perdido? O que deixara de viver? Todos, com exceção dela, haviam andado pra frente.

— Tudo ao seu tempo, Fernanda. Rebeca está em recuperação ainda e as informações devem chegar gradativamente. É preciso tempo para assimilar a vida que recomeça. Nós não queremos lhe causar nenhum choque, não é mesmo?

Como um pai autoritário e retrógrado, Daniel usava de sua condição de médico para tolher as ações de Fernanda que, em sua perspectiva egóica, não se poupou em responder-lhe à altura:

— O que dá choque é fio desencapado, Dan. Informações apenas trazem as pessoas para a realidade.

De certa forma, ela estava certa. Ele sabia e era incrível perceber que Fernanda apresentava características que contrastavam: ao mesmo tempo em que era extremamente fútil, ela também tinha um senso de realidade exacerbado. Fernanda não era apenas a jovem fofoqueira e deslumbrada com sua condição social recém adquirida; em alguns momentos como naquele, ela demonstrava ter sensatez. Mas Daniel conhecia os possíveis resultados oriundos da nova realidade de Rebeca e eles o incomodavam e amedrontavam. Não havia como deixar os riscos de lado.

Fernanda prosseguiu, sem mensurar as consequências:

— Luciana também se casou e está mudada, quase não nos vemos, pois ela se dedica ao marido o tempo todo. Aliás, dizer que quase não nos vemos é bondade minha; não nos vemos mesmo!... Já Lionel, esse virou músico, cantor de rock, faz sucesso até e vive passeando pelo país. Agora está morando em Curitiba.

Ciente de que toda aquela conversa poderia levar a lugar algum e prejudicar a recuperação da filha, foi Amélia quem após Daniel, discretamente tentou cessar os ímpetos de Fernanda:

— E quando Rebeca estará liberada, doutor?

Ouvir sua mãe chamar de "doutor" o amigo de infância, aquele que muitas vezes havia brincado com ela no quintal e lanchava na cozinha de sua casa, era esquisito para Rebeca. O tempo, de fato, havia passado sem que ela visse e as relações entre as pessoas que a rodeavam estavam muito mudadas.

— Considerando sua condição e vontade de ir para casa, agora - ele sorriu de leve. — Vou preparar os documentos - depois, direcionou-se à porta, onde fez uma breve pausa e olhando para Fernanda, proferiu em tom baixo e catedrático: — Sem excessos, por favor.

A moça respondeu com uma careta, arrancando, sem querer, a primeira gargalhada genuína de Rebeca em doze anos. Ao ouvir a risada atrás de si, Daniel cogitou a possibilidade de que em se tratando de Fernanda, talvez o diabo não fosse tão ruim como o pintavam.

Rebeca voltaria para casa. A partir dali, o futuro seria uma incógnita, assim como o seu passado também era. A vida, ela diria, era uma janela aberta para o ontem, onde o belo, aquilo de que ela se recordava, poderia ser notado quilômetros atrás de si, enquanto à sua frente havia uma vastidão de coisa nenhuma. Havia uma lacuna instalada involuntariamente no miolo de sua vida e, de alguma forma, ela deveria preencher aquela lacuna.