Dias Vazios
Capítulo 14
—Você sabe perfeitamente que eu não gosto de aproximações com pessoas que não sejam da família. E em muitos momentos até os parentes devem ser mantidos afastados, já falei isso mais de trezentas vezes, Luciana. A impressão que tenho é de que você é uma débil mental que não entende merda nenhuma do que eu digo... Ou ainda não aprendeu o suficiente e por isso insiste em me contrariar - Nilo queixava-se sentado na poltrona em frente à televisão, assistindo um daqueles programas banais de auditório que inundavam a programação aos domingos, fosse com histórias trágicas ou com apresentação de cantores. Seus pés estavam sobre duas almofadas e uma garrafa de cerveja, a terceira daquela tarde, estava ao lado, na mesinha de canto.
Luciana sabia que se dependesse das vontades do marido ela não daria nem mesmo um "bom dia" para a senhora de 87 anos que morava na casa ao lado. Sabia que ele não gostava quando os amigos telefonavam; aliás, depois de tanto tempo afastada, ela não sabia se ainda podia considerá-los como amigos. Nilo havia destruído tudo o que ela guardava de seu passado e lhe dera dias infernais, fazendo de seu presente algo que não lhe fornecia qualquer visão de futuro. Seu cotidiano estava fadado às paredes daquela casa, nada mais; sua vida era quase em preto e branco e quando surgiam cores, era o vermelho do sangue ou o roxo, dos hematomas.
— Eu sei, Nilo - concordou, pois era o que lhe restava, ainda mais após três garrafas de cerveja.
— E é assim que eu gosto... Obediente. Sem queixas e sem discordar do que eu digo, dedicada somente a mim, já que você é incapaz de me dar um filho, e à vida que levamos. É desse jeito que deve ser sempre, Luciana. Quando você me escuta e segue as regras que eu dito, tudo corre bem.
E riu. Um riso sádico.
Não era o que ela esperava, não era o que havia planejado pra sua vida. Quando era mais nova, Luciana alimentou o sonho de estudar; queria ser professora de literatura, disciplina que adorava. O curso na faculdade foi interrompido pela metade, pouco antes do casamento, pois Nilo insistiu que ela trancasse a matrícula para dedicar-se um pouco a casa recém comprada. Nunca mais Luciana conseguiu voltar aos estudos.
No começo ainda tentava discutir, mas a violência dele a calava. Depois, em alguns momentos tentou negociar, o que deu no mesmo: Luciana apanhou e apanhou muito, diversas vezes. Por fim ela apenas acatava. Não tinha forças para lutar sozinha e não havia quem a ajudasse. Até havia... Havia Dan, mas ele não conhecia toda a história, não sabia que Nilo espancava a esposa.
Quando procurou pelo amigo médico para que ele lhe indicasse um contraceptivo, Luciana alegou não achar adequado ter filhos considerando a rotina de trabalho do marido e Dan, mesmo sem interesse de perguntar o que o homem fazia, acreditou. Talvez porque fosse mais fácil acreditar em qualquer coisa; ou talvez fosse porque Dan estava com sua atenção totalmente voltada para a condição de Rebeca. Dan sempre foi apaixonado por Rebeca, Luciana sempre soube; assim como ela era completamente louca por Lionel, coisa que só confirmou depois de casada, quando o viu em uma apresentação na televisão. Luciana nunca soube direito o que era o amor, confundia o sentimento com qualquer fagulha de alegria que a pessoa pudesse despertar nela. Foi assim com Nilo, mas agora era tarde demais para reverter a situação. Sua alma já estava maculada.
Fernanda não contava de encontrar seu pai no quiosque, assim como não contava com o atraso de Lionel. O amigo continuava o mesmo de anos antes, quase irresponsável. Não houve como evitar: Tão logo avistou o pai,
ela pausou Burguesinha[5], música com a qual muito se identificava e que tocava no Ipod, em sua playlist, e sentou-se à mesa junto de Osvaldo.
O pai naquela tarde, havia caprichado na estampa brega. Trajava camisa laranja, que refletia descaradamente o sol da tarde, com listras azuis em direções variadas. Não havia quem não olhasse para o homem ao passar pelo calçadão e depois disfarçasse o riso. Aquele tipo de situação a deixava encabulada. Na concepção de Fernanda, o enriquecimento repentino fizera de Osvaldo um homem ridículo. Talvez até mais ridículo que Jamile, quando era ainda uma jamanta.
Fernanda aceitou uma limonada e manteve-se atenta ao redor, pois sabia que precisava ver Lionel antes dele se aproximar. Caso o rapaz chegasse até a mesa e visse seu pai, certamente soltaria uma de suas piadinhas toscas e engendraria conversas infinitas, onde Osvaldo, que não era bobo, só contaria vantagens. Ela não tinha intenção alguma de passar constrangimento por causa do deslumbramento de seu pai. Ao mesmo tempo, apesar de reconhecer todos os exageros do homem, sabia que seu enriquecimento fora proposital e lhe trouxera benefícios. A vida teria sido bem diferente se não fosse aquele prêmio lotérico.
A situação nem sempre fora daquela forma. Apesar de ser um homem rigoroso com a educação da filha, nos tempos em que era pobre Osvaldo parecia ter alguns limites e ela, Fernanda, não sentia vergonha do pai. Agora tudo era diferente e apesar de fazer-se de desentendida, ela sabia que Copacabana inteira o conhecia pela extravagância, pelo que havia de mais patético em sua personalidade. E ela era a filha do homem mais brega e ridículo do bairro. Não havia dinheiro que arcasse com os custos desta vergonha, apesar dela desfrutar de todas as suas vantagens. Afinal de contas, ela não pediu para ter pai rico.
— O inquilino daquele apartamento já saiu, Fernanda. Entregou as chaves ontem. Já mandei pintar as paredes e coloquei placa para alugar. Amarela, pra chamar atenção, sabe como é que é?
"Amarela, pra chamar atenção...", - se havia coisa de que Osvaldo gostava era chamar atenção. Enquanto o pai falava e ele falava com a rapidez característica do interior de Minas Gerais, sua terra de origem, Fernanda olhava ao redor buscando Lionel, o que deixou Osvaldo completamente irritado.
— O que você tanto procura, Fernanda? Parece até que não está prestando atenção em mim... - e ele olhou também, percebendo que Lionel se aproximava. — Olha ali! Não é aquele seu amigo que virou cantor? -Osvaldo apontava para o lado contrário ao qual Fernanda olhava.
Puta merda! Porque eu não olhei pra esquerda?, - Fernanda pensou apesar de não verbalizar. Seria crueldade expor ao pai suas reais intenções. Ela tinha orgulho do dinheiro do pai, mas morria de vergonha do homem que ele havia se tornado após o prêmio lotérico.
Lionel chegou até o quiosque. Ele ria. Depois, tirou os fones do ouvido e, sem medir o tom, fez um elogio ao pai da amiga.
— Uau, seu Osvaldo! Como o senhor está... diferente! E essa camisa laranja? Sensacional! Dá pra ver o senhor lá de longe! - O tom de escárnio podia ser notado por trás das palavras de Lionel.
Irônico. Lionel sempre foi irônico. Ele jamais deixaria passar a camisa laranja com listras azuis de Osvaldo. Algumas pessoas eram imutáveis. Osvaldo mudara após o prêmio lotérico, enquanto Lionel, por mais que tivesse alcançado a fama tão almejada pelo pai de Fernanda, continuava o mesmo garoto de tempos atrás.
— Bonita, não é? E foi cara! Gastei um bom dinheiro nela, mas dinheiro não me falta - enquanto falava, Osvaldo alisava uma das mangas da camisa. — Eu não sei que graça vocês jovens veem em usar só roupas pretas.
— Ora, sou roqueiro, seu Osvaldo. O preto faz parte. Se eu subir ao palco com uma camisa igual a sua, ninguém vai prestar atenção em minha música.
Lionel, ao responder, mantinha ares de riso no rosto enquanto Fernanda o encarava seriamente.
Osvaldo ajustou os óculos escuros espelhados sobre o nariz e passou as mãos pelos cabelos negros, recém pintados, antes de responder:
— E eu sou rico, rapaz. Posso usar o que eu quiser.
— Tenho certeza disso - Lionel respondeu.
Foi interrompido por Fernanda.
— Vamos? - Depois ela dirigiu-se ao pai: — Nós vamos dar umas voltas- e puxou Lionel pela mão, sem que ele tivesse tempo de despedir-se adequadamente de Osvaldo, que dirigiu-se ao garçom e pediu uma água tônica.
O fato de Amélia acreditar que Rebeca estava com Daniel facilitou os planos da jovem. Após o almoço, naquele final de tarde, ela aceitou a carona do médico somente até um ponto de ônibus perto de onde morava, alegando que precisava reaprender a andar sozinha pelo bairro. Ele concordou, sem saber que sua real intenção era procurar Mundo antes de ir para casa.
A Igreja da Penha com seus 382 degraus seculares, apesar de situar-se no mesmo bairro, não ficava próxima à rua onde Rebeca e Mundo moravam; ficava do outro lado da linha férrea. A distância até poderia ser percorrida a pé, mas para chegar à matriz que recebia o nome da santa, passaria pelas as
ruínas do antigo Curtume Carioca[6], que tornava a área erma e perigosa. Era mais cômodo e seguro tomar um ônibus. E foi exatamente o que ela fez. Àquelas horas, era certo que Mundo já estava por lá com sua carrocinha de pipocas, para vender antes da missa.
A carrocinha de Mundo ficava na subida da escadaria, onde os degraus começavam e tão logo chegou ao largo, Rebeca o viu. Ele atendia a uma senhora sem sapatos, que tinha duas crianças também descalças pelas mãos. Certamente estavam ali para pagar promessas.
— Oi, Mundo - ela disse assim que se aproximou.
— Beca! Você aqui?
A surpresa demonstrada por Mundo não remetia especificamente à ação de Rebeca apesar dele não esperar por sua visita. Tratava-se de Dona Amélia. Considerando que a amiga havia despertado do coma recentemente, ele imaginava que a mãe não permitiria que ela saísse sozinha às ruas. E muito menos que procurasse por ele.
— Eu precisava falar com você - ela explicou. — Tive uma ideia e gostaria de poder contar com a sua ajuda.
Rebeca iniciou as explicações sobre seu plano e enquanto ela falava, diversas recordações povoaram a memórias de Mundo.
Sem saber que rumo tomaria, antes de decidir-se Mundo, aproveitou pra ir ao banheiro, mas ninguém notou. Os amigos dificilmente lhe davam atenção e esperar que sentissem por sua falta era querer muito. Além do mais, àquele momento estavam todos distraídos com suas próprias vontades, cada um deles havia seguido seu caminho e apenas ele não tinha um caminho definido. Porque cargas d'água Rebeca criara aquela situação? Ele não via problema algum em manter os programas sugeridos por Dan; pelo contrário, até gostava, pois aquilo fazia com que ele conhecesse melhor a cidade. No entanto, por decisão dela, cada um tomaria seu próprio rumo naquela noite.
A casa era grande, tinha diversas salas distribuídas em seus três pavimentos. No primeiro pavimento ficavam a sala de estar e sala de jantar, uma ampla cozinha, sala de vídeo, escritório e um banheiro social. No segundo pavimento, interligados por corredores que se cruzavam, ficavam os quartos, dois banheiros, a biblioteca, a sala de jogos e outro escritório, que aparentemente era de uso da mãe de Dan. No terceiro pavimento ficavam o terraço e o salão de festas. Do lado de fora, em um terreno enorme, havia jardins bem planejados, piscina, sauna e outro espaço para festas, este ao ar livre.
A casa toda estava na penumbra, silenciosa; e a noite estava fria, típica da serra. Mundo não tinha pressa. Com a decisão dos amigos de terem noites independentes, ele não sabia para onde ir. Não conhecia a cidade, não tinha noção alguma do que visitaria e o dinheiro que carregava consigo era quase nenhum. Ficar na casa lhe pareceu o mais certo.
Mundo subiu ao andar dos quartos e enquanto estava no corredor, pensando no que faria, o rapaz sentiu um encontrão. Jamile, que vinha apressada, dobrou o corredor atrás dele, sem vê-lo e acabou por esbarrar em suas costas. Ela tinha ares assustados na face, como se... fugisse de algo? Ou como se tivesse feito ou estivesse por fazer alguma grande bobagem?...
— Então, é isso - Rebeca concluía sua explicação. — Nós estamos pensando em passar uns dias na casa após o Natal e eu gostaria de saber se você vai.
Rebeca sorria e Mundo viu em seu sorriso a esperança de uma vida inteira. Como dizer não? Como negar ajuda a uma amiga tão querida? Por mais que os demais não fizessem questão de sua presença e ele sabia que não faziam, Rebeca precisava de todos lá. Em paralelo, afastar-se do trabalho naquela época seria ruim. Final de ano sempre atraía turistas e no ano seguinte o bairro completaria seu centenário, o que além de levar mais pessoas à igreja que o nomeava, também inseria Mundo nos planos festivos da paróquia. Talvez não fosse adequado ausentar-se. Mundo sobrevivia com as rendas de suas vendas e se ele não estivesse aos pés da igreja, não venderia; não haveria arrecadação e as contas mão seriam pagas. E havia os olhares também... Ele não fora convidado para o encontro do grupo na véspera... Ninguém gostava dele, principalmente Fernanda, e apesar dele desconhecer o real motivo, lembrava-se de que naquela noite, ela apareceu logo após ele e Jamile terem chegado até Rebeca. Fernanda o acusou, lhe apontou o dedo sem pensar duas vezes mesmo vendo que Jamile também estava no local.
Mas como negar ajuda a Rebeca?
Rebeca o encarava, esperava resposta. Ele não sabia o que deveria dizer.
— Não sei se os outros estariam de acordo com a minha presença, Beca.
— Não importa - ela foi direta. — Eu preciso ter todos lá, preciso tentar revirar minhas lembranças que devem estar esquecidas em algum lugar...
Mundo entendia perfeitamente. Se ele tivesse uma chance, por mais remota que fosse, de refazer aquele dia, o faria. Se a vida antes fora difícil, depois ficara muito pior. Ele já colecionava doze anos de olhares de condenação e repúdio, de descaso. Se estivesse passando pela rua em paralelo à mãe de Rebeca, Dona Amélia trocava de calçada e se pudesse ela influenciava os vizinhos, colocando-os contra o rapaz. Frente a tudo isso, as contas pendentes eram meros detalhes.
— Eu vou. Se Dan que é o dono da casa não fizer nenhuma objeção, estarei lá.
Dan não faria, Mundo tinha certeza.
Rebeca também.
Enquanto Fernanda e Lionel caminhavam nas areias mornas e já estavam
quase chegando à Mureta do Leme[7], o telefone celular dela tocou. Era Daniel, para falar sobre os planos de Rebeca.
— O que?! Voltar à casa?... Você deve estar de sacanagem!
Fernanda falou alto, claramente incomodada. Lionel, que pacientemente aguardava o fim do telefonema a encarou, confuso com sua atitude.
A conversa ao telefone não se estendeu e após desligar, Fernanda explicou para Lionel o que acontecia.
— Quer dizer então que Rebeca quer todos nós na casa de Petrópolis novamente este final de ano? - Lionel repetiu por repetir, tudo estava muito bem entendido, principalmente a insatisfação de Fernanda em relação àquela possibilidade.
— É.
Mais um disparate, ele notou. Fernanda sempre falava em excesso, mas ali, naquele momento, escolheu um monossílabo cuja tonicidade saiu quase apagada em sua voz embargada. Ela realmente não havia gostado da ideia.
A verdade era que Lionel não fazia questão alguma de sair naquela noite. Ele preferia que os amigos tivessem optado por ficar na casa e juntos, pois as conversas que tinham sempre rendiam inspiração para as músicas que o aspirante a cantor escrevia escondido. Um dia ainda faria sucesso! E, além do mais, ele havia encontrado vodka na casa e, como havia bebido um pouco para experimentar, não estava muito ciente de si, o que tornava arriscada qualquer investida em uma cidade desconhecida.
Enquanto os amigos preparavam-se para deixar a casa, com a desculpa de que buscaria por algo no quarto antes de sair, Lionel deixou a sala, levando o violão consigo. Havia uma biblioteca em algum lugar e ele queria bisbilhotar um pouco. Livros, principalmente os mais antigos, também eram fonte de inspiração. As páginas amareladas e capas gastas, ambas carregadas de histórias, sempre despertavam nele algo mágico, assim como suas dedicatórias. Livros antigos sempre continham dedicatórias inspiradoras.
Encontrou o cômodo e entrou. As estantes eram amplas e recobriam todas as paredes. As obras ali dispostas eram das mais variadas. Lionel perdeu-se em meio a tantos livros até que selecionou dois de capa dura, letras douradas nas lombadas, e os levou consigo para uma poltrona que ficava ao canto, perto da janela.
Lionel nunca soube ao certo quanto tempo ficou ali. Cochilou em determinado momento, ou acreditava ter cochilado. Os efeitos da bebida não eram dos melhores e sua mente estava um pouco turva, a cabeça doía. Mas ao acordar, ele acreditava ter ouvido um grito... Deixou a biblioteca. Em determinado momento, percebeu-se no corredor, ao lado de Luciana, que, atônita, poderia estar chegando ao andar naquele momento, como se buscasse fugir de algo. Será que ela não havia ouvido o grito? Ou será que entrar na biblioteca seria sua única alternativa?
A amiga parecia assustada.
— O que foi? - Luciana perguntou com a voz embargada.
— Um grito. Veio lá de fora.
Lionel pegou Luciana pela mão e fez com que ela o acompanhasse até o térreo. De lá, ambos seguiram para o jardim, buscando entender de onde viera o grito. Caminharam desnorteados - ele por causa da vodka, mas e ela? qual seria o motivo de seu descontrole? -, até que encontraram Mundo e Jamile tensos em um canto do jardim. Lionel seguiu a direção dos olhares dos amigos e viu o corpo de Rebeca estirado no chão. Para piorar a situação, ao lado do corpo ele percebeu destroços que eram de seu violão. Ele sabia que havia levado o violão consigo quando deixou a sala, mas não sabia o que fizera com o instrumento. Maldita curiosidade! Maldita dose de vodka!
Algo de muito grave havia acontecido. Rebeca parecia machucada... Ele vira a tensão nos olhos de Luciana quando a encontrou. Porque a amiga parecia tão nervosa? O que seu violão fazia lá embaixo, junto ao corpo de Rebeca? Era somente o corpo de Rebeca ou ela tinha vida ainda?
— Puta que pariu... - falou entre dentes, certo de que alguém, provavelmente ele, se enrolaria.
— O que mais me espanta é o fato do Dan ter concordado com essa merda toda - Lionel deu seu parecer e Fernanda percebeu agitação em sua voz. — Não era ele quem falava em preservar a Rebeca? E aquela história toda de que as lembranças devem ser espontâneas?... Eu acho que ir até a casa é provocar lembranças deliberadamente!
Fernanda sabia que Lionel tinha razão, só não entendeu o aparente nervosismo do rapaz. O violão dele estava ao lado de Rebeca, porém, Luciana fora seu álibi. Ele afirmara que esteve com ela lá em cima, no segundo andar da casa. Luciana... Justamente Luciana, que era apaixonada por ele e logo depois surgiu com um novo namorado, casou-se e passou a evitar o grupo. Estranho... O que Lionel temia?
Em casa, incomodada com o fato de Rebeca ainda não ter chegado, Amélia queixava-se com a enfermeira Hilda que tentava, sem sucesso, acalmá-la.
— Mas se ela está com o doutor Daniel, eu garanto à senhora que não há motivo algum para preocupações...
— A questão é que, apesar da idade, Rebeca não amadureceu, não teve oportunidade. Foram anos desacordada e o mundo está diferente... Já era violento antes, mas hoje, a senhora sabe, está pior.
Apesar de passar a impressão de que vivia confinada em um hospital e realizava-se somente mediante seu trabalho, Hilda conhecia bem o mundo. Sua vida não fora fácil quando nova e após a morte da mãe tudo havia ficado ainda pior, restando-lhe esforçar-se para que nada faltasse, já que o pai não arcava adequadamente com suas responsabilidades. Ele havia se casado logo após a viuvez e a nova mulher já chegara grávida. Anos depois, com a morte do pai, a jovem Hilda sentia-se uma estranha na casa. A madrasta era atenciosa e sempre a tratava bem, mas o meio-irmão a desprezava. Hilda trabalhava durante o dia e estudava em horário noturno. As coisas ficaram ainda piores quando o garoto chegou à adolescência e sua verdadeira personalidade começou a despontar. Por sorte, Hilda sempre foi muito boa em sua profissão, o que lhe proporcionou deixar a casa. Depois disto, Hilda não teve mais notícias deles. Acalentou a solidão dos dias vividos ciente de que era aquela sua única maneira de manter a sanidade e, apesar de sentir por ter abandonado a madrasta, sabia que se tratava de recurso único. Quando uma situação mostra-se excessivamente nociva, se a pessoa não reage logo no início corre risco de soterrar-se, de afundar-se até não ter mais forças para emergir. Hilda escolheu reagir e o fez enquanto havia tempo.
— Vai ficar tudo bem, tenha fé - Hilda insistiu com um sorriso que amansou a ansiedade de Amélia.