Dias Vazios
Capítulo 25
Apesar de a campainha ter soado cedo na manhã seguinte, Afonso e Rebeca já estavam fora, a caminho da delegacia local, e Daniel já seguira para o clube. Foi Genoveva quem atendeu à porta, enquanto os remanescentes terminavam o café da manhã na grande mesa da sala de jantar.
Segundos depois, a governanta adentrou o cômodo.
— Tem um senhor na porta e ele procura por você, Luciana. Disse que é seu marido.
Luciana sentiu seu corpo congelar. A mão direita, que segurava a xícara de café, tremeu, o que não passou despercebido para Mundo e Lionel.
— Ora, vejam só! Vamos enfim conhecer o Nilo!
A frase de Fernanda poderia ter soado irônica, mas não foi. Nenhum deles conhecia Nilo pessoalmente e apesar de reportar-se diretamente ao homem nas ocasiões em que ele a atendera no telefone, ela nunca o vira. Depois que Luciana engrenou o namoro e afastou-se do grupo, não houve quem se sentisse à vontade para comparecer à sua cerimônia de casamento. E depois do casamento, não houve como Luciana reaproximar-se do grupo. Uma coisa levou à outra, como habitualmente acontece. O suposto desinteresse dos amigos em seu casamento e as atitudes do marido fomentaram o afastamento de Luciana, fazendo com que ela não os buscasse nem mesmo nos piores momentos.
Nilo havia encontrado a esposa. Estava do lado de fora e aguardava por ela. Era certo que a levaria embora, que a faria passar vergonha. Provavelmente não lhe levantaria a mão, guardaria as agressões para quando estivessem sozinhos. Mas o medo a tomou.
— E o que a senhora disse para ele? - Perguntou, apavorada com a resposta que teria.
— Eu disse que viria chamá-la.
Aquela foi a sentença.
Luciana levantou-se devagar, seu corpo pesava e se pudesse, ela postergaria seu encontro com Nilo o máximo que conseguisse. O constrangimento era inevitável. Se fosse possível arrastar-se pelo chão lentamente até chegar à porta de entrada, o faria; se fosse possível desaparecer como em um passe de mágica naquele momento, o faria; se fosse possível morrer repentinamente para não ter que encará-lo, o faria também.
Ao chegar à sala de estar, sem perceber que os amigos estavam atrás dela, Luciana apenas encarou o marido que tinha uma mochila nas costas. Nilo, de frente e com visão privilegiada de todo o grupo, fez seu teatro:
— Nossa, quanta saudade! Alguns dias sem você são como tortura pra mim, sabia? - Ele sorria, mostrando simpatia fora do comum.
Luciana ouviu apenas uma palavra de seu discurso: tortura.
— Juro que tentei me manter em casa, mas não consegui. Viajei de madrugada... Pedi dispensa de alguns dias no trabalho para ficar com você e espero que não seja uma atitude inconveniente de minha parte... Espero que seus amigos não se incomodem com minha chegada repentina - ele encarou o grupo.
Para os demais, a situação não trazia nada de errado. Certamente, ao informar que viajaria, Luciana deixara o endereço com o marido e ele, movido por preocupação ou por saudade conforme dissera, decidiu ir atrás dela. Para Luciana tudo estava bem claro: Nilo conseguiu o endereço usando de suas facilidades como policial e estava ali para aplicar-lhe um corretivo.
— Não há problema algum, imagine! - Fernanda foi que respondeu, sorrindo para o homem, e depois apresentou-se: — Sou Fernanda. Sou eu quem às vezes telefona para a sua casa para falar com Luciana...
E você nunca a chama, sempre inventa alguma desculpa esfarrapada e me despacha... -, completou em pensamento, perguntando-se como aquele homem, que não era bonito, mas era muito simpático, podia ser tão grosseiro ao telefone.
— Então, muito prazer, Fernanda. Eu sou o Nilo.
Lionel torceu o nariz. Não era de sua intenção chegar a conhecer o marido de Luciana, ele nem mesmo se lembrava que o homem existia, contudo o infeliz estava na sua frente.
Mundo, sempre atento como a vida o obrigara a ser, percebeu que havia uma estranheza no ar. Luciana não dissera nada, apenas encarava o marido e, mesmo sem poder ver seu rosto, ele sentia que ela estava decepcionada. A presença do tal Nilo não era somente inesperada, era também desaprovada, apesar do silêncio da esposa. Voltando seus olhos para as mãos de Luciana, percebeu a instabilidade. A moça tremia.
— Bem, Nilo, já que você chegou, entre... O dono da casa não está, mas fique à vontade. Estávamos tomando o café da manhã. Você já tomou café? Aceita nos acompanhar? - Jamile, sem saber se agia corretamente, disse ao homem.
Em qualquer outra situação, Lionel não perderia a piada. Diria de imediato que Jamile Jamanta estava fazendo seu melhor: oferecendo comida. Mas não vinha ao caso, não mesmo. A tensão de Luciana, que ele assim como Mundo, também havia notado, o impedia de qualquer brincadeira idiota. A presença daquele homem também.
— Eu aceito - Nilo respondeu, entrando e passando um de seus braços sobre os ombros da esposa, que viu-se obrigada a acompanhá-lo.
Antes mesmo antes de apanhar, Luciana já sentia o peso da presença do marido instalado sobre seu corpo. Se tivesse sorte - tinha? - ele a levaria embora e guardaria suas reais intenções para quando estivessem em casa, privando-a da humilhação perante seus amigos.
Com todos de volta à sala de jantar, Nilo sentou-se à mesa ao lado da esposa e serviu-se de café e uma generosa fatia de queijo. Depois, depositou sua mão direita propositalmente sobre a coxa de Luciana que estava ao seu lado, visando demonstrar controle, intimidar qualquer iniciativa que ela viesse a apresentar e que pudesse prejudicá-lo.
— É um grande prazer conhecer os amigos de minha esposa. Sinto que este contato pareça tardio, claro, mas sempre há tempo para fazer novos amigos.
Ana Paula, que se mantivera calada até então, assim o permaneceu. O homem era falso e era quase impossível imaginar que seus amigos acreditavam nele. Por trás de toda aquela falsidade, havia uma segurança exagerada e era como se ele estivesse blindado, como se nada pudesse atingi-lo ou incomodá-lo. E Luciana... Meu Deus, ela não disse uma palavra depois que ele chegou-, pensou.
— Caramba! Estou sentado na mesma mesa que pessoas famosas. É realmente um grande prazer... Aprecio muito aquela sua música, rapaz, Dias Vazados...
— Dias Vazios. O nome da música é Dias Vazios - Lionel o corrigiu, dirigindo-se ao homem pela primeira vez e pondo sua insatisfação às claras, para quem quisesse vê-la.
Nilo o ignorou, dedicando-se a bajular Jamile:
— E você é modelo, famosa pelas capas de revistas.
A falsidade ficou ainda mais clara para Ana Paula que, ao olhar ao redor, encontrou cumplicidade nos olhos de Mundo, que parecia buscar também algum alento para aquela situação patética. Ela decidiu deixar a mesa, seu asco era grande demais para permitir que continuasse ali.
— Se me dão licença, já terminei a refeição e vou esperar por Afonso em meu quarto.
Mundo fez o mesmo:
— Também já terminei. - e seguiu pelas escadas, atrás de Ana Paula.
Lá em cima, no corredor, um parou para ouvir o outro, coisa que há tempos não acontecia.
— Você percebeu o mesmo que eu? - Mundo perguntou, certo de que Ana Paula, que claramente concordava com as impressões de Fernanda e habitualmente o ignorava, lhe daria um fora.
— Que o homem é falso? Claro! Um bajulador de marca maior que não foi convidado, mas chega com uma tremenda cara de pau e ainda com ares de bom moço. Não gostei dele, Mundo.
Mundo. Ela o chamara de Mundo, o que não fazia desde a adolescência. Dias antes ele era Raimundo, o merda... Foi exatamente assim que ela havia dito, ele se lembrava. Mas ali, frente a uma suposta adversidade que nenhum dos dois conseguia entender por completo, a aproximação se deu.
— Nem eu. É como se ele escondesse algo... E Luciana não demonstrou satisfação ao vê-lo.
— Parece que não, ela não disse nada, nem uma palavra sequer depois que se deparou com ele à porta, mas ao mesmo tempo... Luciana falou com ele ontem por telefone e pode ser que tenha o convidado. E o pior é não saber se os outros também perceberam tudo isto.
— Lionel percebeu - Mundo a respondeu.
— Será? Lionel sempre gostou de Luciana e talvez a reação dele tenha sido apenas pela chegada do homem e não necessariamente por suas atitudes. Nessas horas, a presença de Daniel faz falta. Acho que como dono da casa ele poderia impor-se mais que nós.
— Sim, poderia, mas a educação do Dan não permitiria que ele colocasse o homem para fora... Talvez ele até ficasse cismado, como eu e você estamos agora, mas permitiria que ele entrasse e ficasse.
Era verdade.
Mundo tinha razão, Daniel não seria deselegante a ponto de não concordar com a presença de Nilo na casa.
— Vou ficar de olho nele e fique você também, caso não se importe. Se notar alguma coisa que pareça divergente, que escape à normalidade, me fale, por favor.
Ele pediu e ela, após sorrir com sinceridade, concordou:
— Pode deixar!
Lá embaixo, todos já haviam deixado a mesa, quando Nilo sugeriu à esposa:
— Querida, percebi que o terreno da casa é grande e que há belos jardins aqui. Se incomoda de darmos um passeio lá fora?
Luciana concordou com um breve acenar de cabeça. Concordar era o que lhe restava.
Quando percebeu que ambos haviam deixado a sala, Lionel aproximou-se de Jamile. Ela, de imediato, na defensiva e habituada com as piadas grosseiras do rapaz, defendeu-se:
— O que é? Vai fazer alguma piadinha de gordo mais uma vez?
— Não. Acho que, assim como eu, você também não gostou dele. Estou errado?
— Não, Lionel, você está certo, muito certo. Ofereci café da manhã porque não havia outro jeito... O homem já havia chegado! Fico com a impressão de que há algo por trás desse sujeito, suas atitudes me parecem... conhecidas... Mas não gostei da presença dele e acho que Luciana também não gostou.
— Ah! Disso eu não tenho a menor dúvida...
— Alguém sabe o que ele faz da vida? - Jamile perguntou, estendendo a conversa à Fernanda, que também estava na sala.
Fernanda não sabia nada a respeito do homem, não se recordava de ter ouvido de Luciana qualquer informação detalhada. Em paralelo, seguindo seu comportamento habitual, ela analisou as cismas e questionamentos de Jamile. Seria inveja por Luciana ter um marido, coisa que ela, Jamile, não tinha? Na adolescência os comentários sobre o fato de Rebeca parecer ter Daniel e Afonso aos seus pés incomodavam Jamile que por ser gorda, à época nunca tivera um namorado ou pretendente. Fernanda sempre acreditou que Jamile nutrisse inveja das amigas e de Rebeca principalmente, o que poderia ser visto como algo suspeito. Algumas pessoas matavam por inveja.
— Eu não sei - ela respondeu. — Pode parecer esquisito já que aparentemente sou eu quem tem mais contato com Luciana, mas nunca conversamos sobre o marido dela. Ele sempre foi muito seco ao telefone, nas poucas vezes em que me atendeu quando liguei. E, confesso, nunca tive curiosidade em relação a ele... Ou vocês se esqueceram que depois de casada Luciana simplesmente ignorou os amigos? Pra ser sincera, nem sei por que eu ainda a procurava...
Por fofoca! -, Jamile pensou. Mas você só faz fofoca sobre temas que são de seu interesse e não lhe cabia esmiuçar sobre o marido de Luciana já que você não tem um... -, completou o pensamento, certa de que era Fernanda quem invejava algumas conquista das amigas. Inclusive ela se lembrava dos inúmeros comentários de Fernanda sobre Afonso e Daniel não esconderem o interesse que tinham pela jovem, e lembrava também do quão irritada Fernanda ficava com a aparente disponibilidade de pretendentes de Rebeca.
— Agora está feito, ele vai continuar aqui pelos próximos dias... Cabe a nós apenas prestar atenção, pois se trata de um estranho. Nossa intenção era reunir o grupo e ajudar a Rebeca. O fato de ter alguém de fora em nosso meio pode nos desviar de nossos planos.
Lionel estava certo. Desta forma, os três, a jamanta, a fofoqueira e o maluco beleza, selaram o pacto de observar Nilo. As diferenças e os desentendimentos corriqueiros foram postos de lado em prol de um bem comum, exatamente como faziam Mundo e Ana Paula no andar de cima.
Nenhum deles notou, mas os cacos nos quais o grupo havia se tornado, começavam a se juntar.