Dias Vazios
Capítulo 29
— Ninguém me chamou pra assistir o filminho... - Nilo falou ao deparar-se com todos ao redor da televisão. — E eu não vi quando você deixou o quarto, Luciana. Você não me avisou.
Nilo requisitava o que acreditava ser de seu direito, sem dispensar qualquer atenção ao fato de Jamile ter desmaiado. Atônita com a condição da amiga, Luciana não respondeu ao marido.
Lionel ao perceber a chegada daquele que em sua concepção não passava de um intruso, apertou o botão do controle remoto e desligou a televisão. Não se tratava de um filminho conforme Nilo dissera e o que quer que viesse a surgir na sequência das imagens não era do interesse daquele homem. Ele não fazia parte do grupo.
— Foi uma queda de pressão, apenas - Daniel constatou. — Pegue um pouco de sal na cozinha, Fernanda, por favor. E um copo d'água também. Ela vai precisar quando acordar.
Fernanda correu à cozinha e Daniel deixou Jamile amparada por Rebeca, que sequer deu-se ao trabalho de olhar para o marido de Luciana tamanha sua preocupação com a amiga desacordada. Daniel então dirigiu-se a Nilo.
— Boa noite. Sou Daniel e esta é a minha casa.
Nilo, surpreso com a abordagem, levantou os braços e fez exatamente com os bandidos fazem quando rendidos, quando pegos no pulo. Na face, um sorriso torto, coisa de quem tentava inutilmente esconder o sarcasmo.
— Prazer, doutorzinho. Sou Nilo e aquela é minha esposa - apontou para Luciana. — Ela está na sua casa tem alguns dias. Eu apenas vim ao encontro dela.
— Certo, eu sei quem você é. Peço que, já que está aqui, respeite não somente os hábitos da casa, mas também os acontecimentos. Se você não percebeu, nossa amiga acabou de desmaiar e temos coisa mais importante para nos preocupar além do que você pensa sobre o fato de termos ou não lhe convidado para assistir ao filme.
Enquanto Fernanda voltava à sala trazendo sal e água, Ana Paula vibrava com as respostas que Dan dava a Nilo. Era mesmo necessário que alguém colocasse aquele idiota em seu devido lugar.
Luciana, que havia escutado toda a discussão sem dizer nada, questionava-se mais uma vez. Ela também não se lembrava de ter dito ao marido que Daniel era médico. Eles não tinham o hábito de conversar, Nilo nunca a ouvia.
Jamile começou a despertar antes mesmo que Daniel pusesse sal em sua boca. A tonteira estabelecida impedia que sua visão fosse sólida e era como se toda a sala e as pessoas presentes ali estivessem embaçadas. Ela conhecia aqueles vultos; todos eles.
— Já estou melhor. Me desculpem pelo transtorno - falou trêmula ainda, misturando nervosismo e fraqueza, porém já tentando se levantar do sofá onde os amigos haviam acomodado-a.
— Espere, Jamile. É melhor que você fique deitada mais um pouco. Não custa esperar. Você pode ter uma recaída... - Mundo alertou, sinalizando para que Rebeca ficasse mais próxima e amparasse a amiga em sua recuperação.
Ao perceber que Jamile estava desperta, Luciana aproximou-se do marido.
— Acho que podemos voltar para casa, Nilo - sugeriu baixinho, sem querer que os outros ouvissem.
—De jeito nenhum! - Nilo respondeu alto e depois completou. — Cheguei hoje e vou hoje mesmo? Não, é muito cedo ainda. A não ser que seu amigo queira que eu vá embora.
Daniel viu que a indireta foi para ele.
— Acredito que não seja necessário - respondeu. — Mas volto a solicitar que respeite a todos nós. Se nós estamos aqui, é por um objetivo comum ao nosso grupo e este objetivo não envolve você, portanto, mantenha-se neutro pelo menos.
— Com certeza! Meu nome é neutralidade. Pode ficar sossegado - a resposta foi irônica mais uma vez. — Vou tomar um banho. Desci só pra ver onde Luciana estava.
Nilo fez menção de subir novamente, mas estancou ao pé da escada e voltou-se para a esposa:
— Acho que podemos dar uma volta pela cidade, Luciana. Comer uma pizza, conhecer um pouco sobre as ruas daqui, sei lá... Qualquer coisa... -ela assentiu com um movimento tímido de cabeça e Nilo seguiu novamente para o andar de cima, certo de que Luciana havia entendido o que ele queria lhe dizer.
Desci só pra ver onde Luciana estava. A frase de Nilo rasgou os ouvidos de Ana Paula e revirou-lhe o estômago. Ela via na expressão a mesma violência que vira mais cedo, através da janela do quarto. Nilo era ameaçador, controlador e a vida de Luciana, certamente não era das melhores. Aproximou-se do marido.
— Agora que a pressa em relação ao vídeo está suspensa, acho que posso falar...
— Já sei, Ana Paula. Você vai reclamar por eu ainda não ter lido sua última mensagem.
— Não, não vou - ter ciúmes de Afonso havia se tornado um pequeno detalhe, quase um capricho; Ana Paula reconhecia que a situação de Luciana era urgente e deveria ser analisada. —Vi a forma como esse tal de Nilo trata a Luciana e, se meus sentidos não falham, ela não se afastou só por ter encontrado um marido como Fernanda sempre sugere. É mais do que isso. O homem é violento e eu acho que ele obriga Luciana a fazer algumas coisas... Acho que seu afastamento se deu contra sua vontade; ela foi obrigada a nos evitar, Afonso - depois respirou fundo e completou: — Luciana apanha deste imbecil, Afonso.
Incrédulo, Afonso olhou nos olhos da esposa.
Não era comum que Ana Paula se preocupasse com fatos que não envolvessem diretamente seu próprio casamento e sua excessiva necessidade de ter o marido sempre consigo, ou seu trabalho. Ali, naquele começo de noite, ela mostrava-se preocupada com o que acreditava acontecer com uma amiga. A esposa parecia mudada e sua atitude merecia todo respaldo.
— Será?
— Tenho certeza - ela afirmou. — Conversei com Mundo, apesar de eu ainda não ter dito a ele o que vi pela janela, mas ele também não gostou de Nilo. Pense, Afonso: Mundo conhece todo tipo de gente, já trabalhou em situações extremas e passou por muita coisa. Se ele cismou com o homem é sinal de que eu não estou tão errada. Mundo não se enganaria.
Ela tinha razão. A vida difícil tinha o dom de destruir uma pessoa, arrastando-a para os caminhos mais tortuosos em busca de sobrevivência. Aquele não era o caso de Mundo que sempre primou pela honestidade e nunca deixou-se conquistar por supostas facilidades, mas o amigo sempre trabalhara duro e sem qualquer reconhecimento. Suas funções variadas e muitas vezes trabalhando em condições extremas, levaram-no a lidar com pessoas de todos os tipos; a falta de privilégios, também. Ana Paula até poderia se enganar; Mundo, não.
Os amiguinhos da sua mulher estiveram no clube e aquele tonto mostrou o vídeo do baile pra eles. Parece que eles saíram de lá de boas, sem perceber nada, mas é bom que você saiba disso. E tem mais! O Juvenal me ligou da delegacia, avisando que a puta da delegada desarquivou o caso de bela adormecida. Ela vai fuçar em tudo novamente e com ajuda do João Babacão, que arrasta uma asa pra ela, faz tudo que a vadia quer. Tome cuidado, se você der mole, o bicho vai pegar.
A mensagem de Reinaldo piscou na tela do telefone de Nilo, que acabara de chegar ao quarto. Ele não sabia sobre a ida de Afonso e Rebeca até a delegacia e por isso não entendeu o que levava a delegada a remexer no caso. Imaginou então que talvez fosse culpa do próprio Reinaldo. O policial aposentado era enrolado e sempre, nos momentos mais cruciais, dava mancadas ou deixava rastros que não deveriam ser deixados. Reinaldo deve ter dado com a língua nos dentes pra alguém e esse infeliz falou para a delegada. Certamente, se ele tivesse feito apenas o que eu mandei, ela não ficaria sabendo de nada. -, concluiu em pensamentos e já planejando uma próxima ação.
De qualquer forma, sua intenção era atender à solicitação de Luciana e ir embora, mas o faria apenas no dia seguinte pela manhã. E não se tratava de agradar à mulher; era necessário para não levantar suspeitas. Até lá, acreditava, estaria resguardado.
Por volta das oito da noite, Nilo e Luciana já haviam deixado a propriedade. Daniel, sem querer parecer controlar os horários do casal, entregou à Luciana uma cópia da chave da porta de entrada, para que ninguém precisasse se manter acordado esperando por eles.
Os demais, libertos daquela presença nefasta, conversavam entre si, em pequenos grupos, após o jantar. Em um canto estavam Ana Paula, Mundo e Fernanda; no outro, Rebeca, Daniel, Afonso e Lionel. Apenas Jamile mantinha-se afastada, prostrada em uma poltrona. Ela usou a desculpa de que havia comido um pouco de salada que não caiu bem em seu estômago vazio, mas não era só isso. Jamile sabia que em algumas situações a vida podia revirar as pessoas de cabeça para baixo, sendo dessas pessoas a responsabilidade de retornar ao padrão de posicionamento normal. Já fazia muito tempo que ela estava de cabeça para baixo.
— Sim, eu concordo que ele seja estranho e que suas atitudes incomodam até mesmo a nós que não o conhecemos, mas não sei se isto é motivo para julgamentos - Mundo afirmou após Ana Paula questionar-lhe sobre Nilo.
— Eu vi a forma como ele segurava Luciana pelo braço. Havia agressividade em seu toque e era como se ele a ameaçasse, como se a forçasse a fazer algo - Ana Paula acrescentou, convicta de que não havia se enganado.
— Eu entendo. Mas se pararmos para pensar, quantas são as ocasiões em que julgamos as pessoas apenas pela aparência? E não se trata de defender Nilo ou de tentar parecer benevolente, de forma alguma. Ele é nocivo, sua presença parece arrastar algo pesado consigo, mas não o conhecemos -Mundo explanava seu raciocínio. — E vocês me desculpem, mas a comparação é inevitável... Quantas vezes eu fui julgado apenas por pertencer a uma classe social supostamente inferior à de vocês?
Ele estava certo e não se tratava de defender-se ou fazer-se de coitadinho; aquela era a mais absoluta verdade. Tanto Ana Paula como Fernanda nunca pararam para ouvir o rapaz e apontavam-lhe os dedos na primeira oportunidade.
— Me desculpe - Fernanda pediu. —É tudo tão confuso hoje e na ocasião foi tudo tão assustador. Eu não tinha maturidade... Nunca tive maturidade para lidar com o que aconteceu à Rebeca. Quando me deparei com você e Jamile olhando-a no chão não somente eu o julguei, como o condenei sem ouvi-lo. E tem outra coisa... Todos vocês sempre foram mais próximos a ela - depois, consertou-se: — Não necessariamente todos, pois você não era tão próxima, Ana Paula. Eu só queria que Rebeca me visse como uma amiga de verdade, como uma amiga tão próxima como Jamile sempre foi e acho que isto nunca aconteceu. Saber que ela o considerava mais do que a mim, me incomodava, Mundo.
Ana Paula não se surpreendeu com a narrativa e nem com o pedido de desculpas direcionado a ela. De fato, sua proximidade com Rebeca era deficiente. Não havia como ser uma grande amiga de sua rival. E Fernanda também não tinha tanta proximidade, eram Jamile e Luciana as grandes amigas de Rebeca.
—Tempos passados. O que me importa agora é Nilo. Eu tenho certeza de que Luciana não vive bem com ele - ela deu seu veredicto mais uma vez, visivelmente irritada com a suposta covardia e preocupada com tudo o que imaginava que a moça passava.
No outro canto da sala, era Afonso quem colocava os demais a par das suspeitas de Ana Paula:
— Ana Paula viu os dois discutindo mais cedo, logo após a chegada de Nilo e ele demonstrava agressividade. Ela acha que Luciana passa poucas e boas nas mãos desse infeliz.
— Desgraçado! - Lionel interrompeu.
— Sei que nosso objetivo aqui é outro, mas não podemos deixar que isto passe em branco. - Afonso completou, mostrando que assim como problemas pode afastar pessoas que eram próximas, também os problemas tinham o poder de uni-las. Se antes eles se afastaram após o acontecido com Rebeca, as suspeitas de que Luciana enfrentava dificuldades, agora os aproximava, sem sombra de dúvidas.
— Não, não podemos - Daniel concordou. — Já fechamos os olhos em outra ocasião e não foi uma atitude correta. Se estivéssemos mais atentos à Rebeca, talvez nossa vida hoje fosse diferente e não estaríamos aqui, acusando uns aos outros, nos encarando com desconfiança ou tentando entender o que aparentemente não faz sentido.
Rebeca apenas ouviu, não disse nada. Não havia o que pudesse ser dito. Preocupada em ajudar Jamile em seu desmaio, quando Nilo desceu para a sala no começo da noite ela nem mesmo olhou em sua cara. Deveria ter prestado mais atenção no homem, não tinha dados para julgá-lo. Contudo, as informações sobre a violência presenciada por Ana Paula eram mais que suficientes para sua indignação. E caso fosse mesmo daquele jeito, Luciana, sempre tão doce, não merecia passar por tal situação.
Mais tarde, após todos terem se deitado, Jamile não conseguiu pregar os olhos. O medo de ser julgada era constante, sempre foi. As pessoas a julgavam quando comia em excesso e faziam o mesmo se ela deixasse de comer; as pessoas a julgavam por não ter um namorado e acreditavam que era ela quem julgava aquelas que conseguiam arranjar um. Após o rótulo de gorda que metaforicamente grudavam em sua testa, vinham os rótulos de coitadinha e invejosa. Todos acreditavam que em decorrência do excesso de peso, ela invejava aqueles que eram mais bem sucedidos em seus relacionamentos amorosos, principalmente às amigas. Acarretariam toda e qualquer atitude sua àquela inveja. E jamais acreditariam nela, mesmo que jurasse o contrário.
— Em primeiro lugar, sou um policial e tenho minhas fontes. Não é difícil descobrir aquilo que me interessa e quando percebi que você havia fugido de casa, esmiucei a vida dessas pessoas e te encontrei. Desta forma, sei que um é médico e o outro advogado; sei que a modelo quase explodiu de tão gorda no passado, quando mais nova, e sei que o tal do Mundo é um fodido, que não tem onde cair morto, por exemplo. Em segundo lugar, desde quando você me faz perguntas ou me cobra satisfações? Será que míseros dias em companhia destes desgarrados são suficientes para levá-la a me desrespeitar, Luciana?
A pergunta de Nilo não pegou Luciana desprevenida. Ela havia se arrependido quando já era tarde, segundos depois de questionar o conhecimento do marido em relação aos amigos. Sabia que teria problemas, que devia ter mantido a boca fechada. Nilo não aceitava contestações.
— Sugiro o seguinte - ele retomou o assunto. — Nós acabamos de comer aqui e depois voltamos a casa. Amanhã pela manhã tomamos o primeiro ônibus de volta para o Rio e quando estivermos em nossa casa, conversamos a respeito. Você ainda me deve explicações.
— Não tenho fome. Se você quiser, já podemos voltar - Luciana sugeriu com voz miúda, temerosa da interpretação que Nilo acarretaria à sua ideia.
— Mas eu tenho. Se paguei, vou comer tudo que tenho direito nessa merda de pizzaria. E além do mais, não quero precisar mostrar os dentes para aqueles babacas. Quanto mais tarde chegarmos, melhor, pois todos já estarão dormindo.
O momento pedia discrição, Nilo sabia. E sabia também que, àquela altura dos acontecimentos, era melhor não ser visto pelos amigos da esposa.
Ele enrolou o máximo que pôde. O casal deixou a pizzaria quando já passava das onze da noite e por sugestão de Nilo, caminharam pela cidade, bastante movimentada, por quase duas horas. No percurso, passaram por turistas encantados com a beleza local, por crianças que em outra época já deveriam estar em suas camas e até mesmo por um comboio policial, com suas sirenes a todo vapor, provavelmente em incursão, em busca de algum criminoso.
Era madrugada quando chegaram a casa e todos já estavam recolhidos.
— Sairemos cedo, assim que clarear - Nilo disse para Luciana. — Pode dormir. Eu vou ficar acordado por mais algum tempo.
Minutos depois, da janela, ele observava os jardins lá embaixo. O silêncio e a escuridão da madrugada trouxeram lembranças para Nilo.
____________________
Eu já estava do lado de fora, no jardim.
Não via muita coisa, aquele canto era escuro. Não sei o que eu buscava, sei apenas que andava por ali. Não sentia medo, nenhum medo; nem mesmo a noite conseguia tolher o que me motivava. Mas o que me motivava?
Foi então que ouvi a voz dele. Ele estava ali e não sei se era para ser desta forma. Eu estava confusa. Era como se algo em relação ao que eu almejava não fizesse sentido.
Ele se aproximou.
Ele insistia em me abraçar, me beijar. Eu queria, mas não queria; queria sem querer.
Ele foi ficando nervoso, irritado.
Me repreendeu. Eu não esperava por aquela atitude. Neste momento, tive medo.
Ele percebeu. E gostou.
Seu nervosismo aumento e não conseguia identificar se o que ele sentia era raiva por eu demonstrar ter medo dele, ou prazer.
Levei um safanão no braço. Ele fazia perguntas, mas eu não as ouvia claramente, não encontrava forças para respondê-lo.
Ele me bateu, me bateu na cara. Depois bateu de novo. Quase cai.
Vieram os socos: um no estômago e o outro do lado, na região das costelas. Eu sabia que era sonho, mas a dor era quase real.
Tentei gritar, mas minha voz saiu baixa. Depois, ele pôs as mãos em minha boca para me silenciar. E continuou me batendo. Muito.
O tempo, mesmo extenso, parecia não passar. Eu queria que tudo aquilo acabasse, queria acordar.
Até que senti a presença de uma força que não partia de mim e nem dele. Talvez houvesse mais alguém ali. Havia. Em meio a todo o meu desespero consegui ouvir uma terceira respiração. Mas não enxerguei nada, o breu da noite impedia minha visão.
Uma voz diferente disse algo que eu não entendi.
Ele pareceu perder o equilíbrio. Depois, virou-se abruptamente, me lavando junto. E algo pesado bateu em minha cabeça.
Senti quando ele me largou e parecia que eu caía em câmera lenta. Depois, ouvi passos largos, apressados pesados. Acho que era ele correndo, meus olhos já estavam fechados. Então ouvi um soluço, o soluço de quem ficou. E apaguei.
____________________