Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 35 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 34

 

Ciente de sua responsabilidade, a delegada Gabriela cuidou para que tudo fosse processado o mais rápido possível. Antes das nove de manhã o corpo de Nilo já tinha sido recolhido e levado ao Instituto Médico Legal para que fosse periciado e emitido o atestado de óbito. Hilda foi quem o reconheceu no final da tarde, o que a praxe exigia, e tratou de sua liberação para o enterro, que aconteceria na manhã seguinte.

Naquela mesma tarde os amigos, com exceção de Luciana que fora poupada inicialmente devido à morte do marido, prestaram depoimentos e fizeram a identificação de Reinaldo. O policial aposentado acabou arrolado como cúmplice de Nilo, tanto por ajudá-lo na investida realizada ao grupo em Petrópolis, como por ter acobertado o que acontecera no passado. Juvenal não tinha ligação direta com os acontecimentos, não participava de nada que pudesse incriminá-lo. Contudo, ele conhecia o passado podre de Nilo e de Reinaldo. Desta forma, Juvenal cedeu algumas informações em delação, entregando as atividades ilícitas que eles realizavam e suas tantas extorsões, o que fez com que sua situação fosse considerada de forma diferenciada pela delegada.

O administrador do clube também foi convocado a depor e deixou escapar que durante anos alimentou conchavos com policiais locais e isto gerou vantagens mútuas. O homem confessou ter dado fim nas fotografias em que Rebeca aparecia próxima de Nilo durante o baile do réveillon de 2006 para que não houvesse como identificá-lo em troca de algumas pequenas regalias para o estabelecimento.

A situação de Jamile era diferente e exigia cuidados. Jamile escondera informações e tinha envolvimento com o caso. Ela foi quem desferiu o golpe de violão na cabeça de Rebeca, já bastante debilitada em decorrência da agressividade de Nilo. Contudo, ninguém sabia o que de fato teria acontecido se a moça não tivesse chegado e não tivesse planejado sua vingancinha adolescente contra Lionel. Afonso assumiu o caso. Seria ele, com o aval e apoio do grupo, inclusive da própria Rebeca, quem defenderia Jamile.

Foi exigência da delegada que todos permanecessem na cidade durante os próximos dias. E assim eles o fizeram.

Quando soube que a filha realmente estava envolvida em um caso de polícia, Osvaldo seguiu com Vânia, sua esposa, para Petrópolis com intenção de ajudar se fosse necessário. E foi.

Luciana e Hilda não tinham condição de arcar com o enterro de Nilo. A primeira porque todo o dinheiro que o marido tinha em conta estava congelado, retido pela polícia, visto que sua origem exigia confirmação; e a segunda porque seu salário de enfermeira não lhe dava condição de manter reservas financeiras.

— Se é pra ter certeza de que ele está morto e enterrado, mortinho da Silva mesmo, e de que não vamos mais ter problemas com este desmiolado, eu pago o enterro do infeliz. Faço questão de arcar com tudo, tudinho -Osvaldo disse e depois completou com um suspiro: — A vida é pauleira!

Não houve quem se incomodasse ou se ofendesse com a sinceridade do homem. Desta forma, Osvaldo foi quem custeou o enterro de Nilo, que aconteceu em Petrópolis mesmo, na manhã daquele 31 de Dezembro. Além dele, que foi convencido por Fernanda a pedir emprestada uma camisa preta de Lionel para que não usasse nada espalhafatoso na ocasião, Hilda, Luciana, Daniel e João, como representante da polícia local, compareceram à rápida cerimônia de corpo presente realizada às portas de uma das capelas do cemitério. Nilo não teve um velório. Pra quê?

Após o enterro, Hilda foi até o hospital onde a mãe de Nilo estava internada. Ao vê-la, a mulher de magreza evidente e que parecia ter sido muito maltratada pela vida, chorou e Hilda nunca soube exatamente qual emoção morava atrás daquele choro. Abraçaram-se como se o abraço trocado pudesse apagar as impressões cultivadas por décadas ou dissolver as falhas do passado. Naquela tarde, Hilda cuidou de sua madrasta: penteou seus cabelos, cortou-lhe as unhas e a ajudou na refeição servida no horário da janta, dando-lhe colheradas à boca.

Antes de deixar o hospital, prometeu voltar, prometeu que cuidaria dela e que lhe daria o amor que ela realmente merecia. Sua sensação ao deixar a instituição não era das melhores em decorrência do que vira e do arrependimento por ter deixado a madrasta anos atrás, mas ainda assim a revigorava. Ter a chance de fazer algo de bom na vida de alguém que realmente precisava, era algo que Hilda não sabia descrever, porém experimentaria em breve, assim que o hospital desse alta à mulher. E mesmo ciente de que algumas lembranças ruins jamais seriam apagadas, ela faria o possível para proporcionar dias melhores àquela senhora que já sofrera tanto.

Também em 31 de Dezembro, Dona Amélia chegou à Petrópolis no começo da tarde. Ela havia conversado com a filha por telefone na véspera e, já informada sobre o acontecido e sobre o verdadeiro culpado, decidiu que, apesar dos pesares, passaria a noite de ano novo com Rebeca.

Amélia não foi só.

Quando o táxi estacionou nos jardins da propriedade, além de Amélia, Dolores, a mãe de Mundo, também deixou o interior do veículo.

— Sei que não haverá comemoração. Mas seu eu vou passar a noite de ano novo em companhia de minha filha e aliviada após a resolução do caso, Dolores também tem o direito de compartilhar deste momento com Mundo- Amélia disse ao chegar à varanda.

Depois, mesmo vendo que sua filha a aguardava, a mulher passou direto por Rebeca, parando na frente de Mundo.

— Sei também que não serão meias palavras que poderão consertar os erros de tantos anos, meu filho, mas peço que me perdoe por ter me enganado, por ter me negado a ouvi-lo.

Mundo, que sempre foi dono de um coração enorme, apenas abraçou a mulher. Não havia passado que não pudesse ficar para trás.

Naquela noite de ano novo, reuniram-se todos na casa enquanto o baile corria solto no clube. Ninguém comemorava nada, o clima era de consternação, mas, em paralelo, a realidade que chegava com 2019 mostrava-se mais limpa e mais leve para todos eles. Quando os fogos romperam com a madrugada, os abraços foram de paz, uma paz que há anos nenhum deles conseguia sentir e os sorrisos, eram sinal de recomeço e de esperança em tudo o que estava por vir.