Dias Vazios
Capítulo 32
— Você... - Rebeca disse.
— Sim, eu. Quem diria, não é? Doze anos depois e estamos nós aqui, no mesmo lugar. A diferença é que eu sei perfeitamente o que aconteceu, enquanto você...
As lembranças de Rebeca vieram em um turbilhão.
Ela conhecera um homem no baile e ele mostrou-se interessado. Era gentil, bonito até, apesar de mais velho. Conversaram por horas perto da piscina do clube. Ele falava mais do que ela e ela buscava esconder sua falta de experiência.
Somente depois, quando voltava para casa com os amigos, Rebeca deu-se conta de que, após a brincadeira de adivinhar o nome do homem em troca de um beijo, que caiu no esquecimento frente a tantos assuntos, ele não havia dito seu nome.
Não fazia mal.
Ela tinha seu endereço e daria um jeito de ir ao seu encontro.
Mas a agenda estabelecida por Daniel e com a qual todo o grupo concordou, impediu que Rebeca fosse vê-lo logo no dia seguinte.
—Eu preciso me livrar deles. Como vou conseguir chegar até a casa do rapaz se só saímos em grupo? Não quero ter que levar alguém comigo, o que ele vai pensar de mim? Vai achar que sou boba, que só ando em patotas como uma adolescentezinha... E Dan! Dan insiste nessa coisa de escolher aonde vamos, de decidir por todos - pensou durante a noite daquele 29 de Dezembro de 2006, após um cansativo passeio que durou o dia todo.
Na manhã do dia 30 Rebeca despertou irritada. Sem querer havia dado um bolo em seu pretendente e, se tivesse sorte, ele a perdoaria. Afinal, fora dele a sugestão de encontrarem-se sozinhos...
— Estarei em casa amanhã o dia todo e vou esperar por você. Só por você... Apareça - ele dissera, mas ela não apareceu.
Talvez ele ainda a esperasse.
Talvez não fosse tarde demais, mesmo em se tratando de outro dia.
Rebeca, durante a tarde deste dia, programou-se para um "grito de liberdade", que deu na primeira oportunidade, tão logo sentiu-se excessivamente limitada por aquela amizade que na sua opinião fazia de nove pessoas, uma só. Distanciou-se dos amigos.
— Não há nada, Fernanda. Eu juro - disse quando Fernanda perguntou-lhe sobre seu comportamento.
Fernanda era fofoqueira. Rebeca jamais contaria para ela que havia arranjado um pretendente. Não para Fernanda. Não mesmo.
Depois, queixou-se com Luciana e revoltou-se ainda mais quando a amiga deu razão à Dan:
— Pois eu já estou de saco cheio. Me sinto presa! E vocês parecem um bando de idiotas aceitando tudo o que ele sugere!
E foi então que Rebeca percebeu que somente conseguiria livrar-se da presença dos amigos - que tornara-se incômoda e incompatível com seus objetivos - se sugerisse que cada um deles fosse para um lado. Somente desta forma ela poderia visitar o "rapaz sem nome" no endereço que ele lhe dera.
E foi o que aconteceu. Ela criou uma discussão com Daniel e mediante a situação, todos aceitaram a possibilidade de cada um arcar com seu próprio entretenimento ou fazer o que bem entendesse.
— Meu Deus! O que foi que eu fiz?! - pensou alto tomando consciência de que suas atitudes colaboraram com o que lhe acontecera.
Rebeca trocou a amizade de anos por um encontro furtivo; desprezou seus amigos e criou situação adversa para poder desfrutar de momentos ao lado de alguém que ela não conhecia e sequer tinha noção das intenções. Se eles estavam ali para descobrir um culpado, ela acabava de saber-se culpada.
— É verdade toda essa história de esquecimento ou você está fingindo para que seus amigos não saibam que você não passava de uma putinha, que queria sair de casa pra encontrar com um cara?
As palavras de Nilo soaram pesadas para a mentalidade de dezesseis anos ainda tão presente em Rebeca. Putinha?
— O que você faz aqui?
Rebeca sabia que aquele era o indivíduo com quem ela conversara no baile, porém não sabia que se tratava do marido de Luciana. Dividira o mesmo espaço com ele na casa durante o desmaio de Jamile e sequer olhara na cara do homem.
— Sou daqui, nasci em Petrópolis e passei parte de minha vida nesta cidade. Mas me mudei após o seu acidente... Naqueles tempos eu tinha amigos na polícia local e recebi ajuda. Hoje sou policial e me casei com Luciana, sua amiguinha idiota. Me aproximei dela e consegui engambelar a tonta e me infiltrar mesmo que indiretamente no meio de vocês, para manter algum controle da situação.
— Ninguém me chamou pra assistir o filminho...
A frase ouvida logo após o desmaio de Jamile ecoou dentro de Rebeca. Se estivesse mais atenta, se tivesse olhado para o marido de Luciana na ocasião em que ele chegou à sala... Talvez as memórias tivessem voltado e ela não estaria ali, em risco.
— Ah! Rebeca... - Nilo prosseguia. — Se você tivesse aparecido lá em casa como combinamos, teríamos bons momentos. Mas você não apareceu e eu fiquei esperando como um idiota. Tem noção de como me revoltei? Meu amigo debochou de mim...
Como nos sonhos que Rebeca costumava ter, outras memórias voltaram.
Ela caminhava pelo jardim. Havia enfim se livrado de todos e poderia ir ao encontro do "rapaz sem nome".
— Ei! Psiu! Aqui, Rebeca...
Alguém a chamava perto do portão.
O coração de Rebeca quase explodiu de alegria. Ele estava ali! Ele foi ao seu encontro! Rebeca nunca viu tamanha demonstração de interesse.
Aproximou-se.
— Oi. Você se incomoda de irmos mais para o fundo do jardim? As pessoas podem nos ver aqui e eu ficaria sem graça.
Nilo não se incomodou e Rebeca, sem saber, deu-lhe de bandeja a oportunidade de mostrar que não deveria tê-lo feito de otário.
— Você poderia ter confiado em mim, Jamile. - Lionel dizia para amiga chorosa no quarto.
— Eu sei! Sei que deveria ter dito para você ou para qualquer um dos outros... Mas ponha-se em meu lugar, Lionel. Eu não tinha provas, ninguém havia visto nada. Seria a minha palavra contra todas as evidências e quem acreditaria na gorda que mentia por um pedaço de bolo? Quem acreditaria na jamanta que afirmava não ter jantado ainda só para jantar novamente na casa dos amigos? Quem? O que as pessoas falavam a meu respeito sempre me machucou, sempre tolheu minhas ações - as palavras de Jamile mostravam sua dor. —Foi muito sofrimento, só eu sei tudo pelo que passei. Por ser gorda eu sempre carreguei dois estigmas: o de gorda, propriamente dito, e o de invejosa. Sempre fui vista como aquela a quem o peso atrapalhava, a quem o peso deformava e as pessoas acreditavam que eu sentia inveja de suas conquistas, das vidas que elas levavam. Achavam que eu invejava seus relacionamentos por não ser capaz de construir um. Achavam que eu invejava as roupas que usavam e às quais eu não tinha acesso, pois não cabiam em meu corpo. Achavam que eu invejava sua perfeição, enquanto a minha imperfeição era evidente. Ninguém olhava pra mim, ninguém se interessava por uma obesa... E, para os outros, eu teria todos os motivos para tentar destruir o relacionamento de alguém, você me entende? Um gordo sofre por seu excesso de peso, mas sofre ainda mais pelas considerações que lhe são direcionadas. Ninguém acreditaria.
— Não fale assim, por favor. Você se deprecia, se diminui.
— Não, Lionel. As pessoas me depreciavam o tempo todo. Isto interferia em meu psicológico e interfere ainda. Naqueles tempos eu não sabia lidar com as diferenças e sempre achei que seriam estas diferenças que me condenariam.
E Jamile chorou ainda mais.
— Vamos procurar os outros. Vamos falar com eles sobre o que aconteceu - Lionel disse, certo de que poderiam resolver tudo naquela mesma noite.
— Sim, mas eu preciso me acalmar primeiro. Não quero que tenham impressões erradas mais uma vez - ela disse, secando as lágrimas que escorriam em seu rosto.
Se pudesse voltar no tempo, voltar às tantas vezes em que chamou Jamile de jamanta, Lionel o faria e ao invés de ofender a amiga, lhe daria um forte abraço. Seriam muitos os abraços, ele tinha certeza, visto que foram incontáveis às vezes em que a xingara acreditando que apenas brincava. Há um abismo enorme e escuro entre o que é falado e os resultados destas palavras. Lionel havia acabado de despencar neste abismo.
Ao deixarem o quarto com intuito de irem até a cozinha, Lionel e Jamile encontraram Mundo no corredor. Ele havia acordado e também saía para beber água.
Desceram à cozinha e foi lá que Mundo foi informado sobre o acontecido. Ao término do relato da moça, ele tremia.
—Eu entendo, Jamile, juro que entendo. Sei como é difícil ser desprezado e correr o risco de ter que suportar o peso de todas as culpas, mesmo aquelas desconhecidas. Mas você se calou quando deveria ter falado e eu passei doze anos de minha vida carregando fardo que nunca foi meu. As pessoas me apontavam, me evitavam - ele tentava não julgar, mas era inevitável. Era mais cômodo condenar o pobre, o menos favorecido, a vê-lo como semelhante.
—Mas quantas foram as ocasiões em que as pessoas me evitaram também? Quantas foram as ocasiões em que me apontaram com deboche?
— Certamente não a evitaram ou a apontaram por suspeita de crime - ele foi catedrático.
Não havia como deixar de expressar-se. Mundo, com a permissão de Jamile, fora mal visto e mal quisto durante todo o período de internação de Rebeca, fora evitado pelos amigos e por Dona Amélia, que em diversas situações fora cruel em suas considerações. Se ela amargara períodos difíceis, ele passara pelo mesmo, porém, sem ter nada a ver com tudo aquilo.
Jamile estava decidida a esclarecer a situação, ao menos a parte da situação que era de seu conhecimento. Contudo, foi quando os três voltavam ao andar dos quartos para reunir os demais que Jamile percebeu que a porta que dava acesso ao jardim estava aberta, escancarada. Por quê?
Nilo se aproximou de Rebeca.
— Hoje sou um policial. Tenho as costas quentes. Faço o que quero e do jeito que eu quero. Não achei que você pudesse acordar, não mesmo, apesar de ter sido prevenido e ter me cercado através de meu casamento com a demente da Luciana. E agora, já que você acordou, bela adormecida, não vai ficar por aí pra complicar minha situação. Luciana eu sei que morre apanhando, mas não me entrega, mas você... Quem me garante que posso confiar em você?
Em um dos cantos do jardim, Rebeca e o "rapaz sem nome" conversaram por um bom tempo. Mas ele quis mais. Não era homem de sair de casa para conversar com garotas bobas. Se quisesse conversar encararia os caras do boteco. Ele queria um beijo e tudo mais que tinha direito.
— Vem cá, chega mais perto. Deixa eu sentir você - ele a puxou e ela sentiu seu hálito. Ele havia bebido.
— Calma, você está se precipitando.
— Que nada... Se você tivesse aparecido ontem já teria te beijado há tempos.
Ele a puxou e ela tentou desvencilhar-se daquele contato.
O sangue de Nilo ferveu. Ninguém fugia dele. A raiva pelo bolo que levara na véspera aumentou frente à rejeição.
Nilo segurou Rebeca e puxou seus cabelos com força.
— Fique quieta, porra! Pensa que sou o que?Você acha mesmo que eu sairia de casa só pra conversar?
E a beijou à força. O lugar estava escuro e a escuridão o protegia. Ninguém os veria ali e se porventura alguém os visse, dificilmente poderia identificar mais que sua silhueta. Nilo escorava-se na segurança proporcionada pela noite para cometer suas atrocidades.
Quando ele afastou seu rosto, Rebeca acertou-lhe um tapa na face. Depois disso, ela só apanhou.
Nilo a socava e chutava, segurando-a para que ela não caísse e para que fosse mais fácil desferir e acertar os golpes. Somente o que ela via era seu reflexo na pequena poça deixada pela chuva de horas antes. Tudo se esvaía, desde sua coragem até sua força física.
Sem qualquer condição de reagir, Rebeca sentiu-se aliviada quando uma voz disse atrás de Nilo:
— Para!
Neste momento, ele virou a cabeça e encarou o dono da voz, desferindo-lhe uma ofensa. Depois girou seu corpo levando Rebeca consigo. E foi então que ela sentiu que levava uma porrada forte na cabeça.
— Estou aqui e o destino resolveu me ajudar, me fez deixar o quarto pra dar umas fuçadas pela casa e, enquanto todos os outros dormem, eu a encontro no jardim. Você deveria ter pensado que revirar o passado não traria bons frutos. Foi arriscado. Mas agora acabou - ele mostrou a arma que portava. — Não vou pagar o preço de coisas do passado e nem vou te deixar por aí, pra falar mais do que deve. Se antes deixei passar, hoje, a experiência que adquiri me confere outras possibilidades. Ninguém vai ouvir o tiro, a arma tem silenciador. E ela não tem registro, achei em uma casa em uma das incursões que fiz e me apossei dela, então nunca saberão que é minha. Você vai dormir sem chances de acordar desta vez, vai morrer e sou eu quem vai achar seu corpo. Vou dizer que não consegui dormir. Que saí para dar umas voltas e encontrei você morta. Ninguém vai desconfiar de um policial, não é mesmo? Posso, inclusive, demonstrar interesse, me oferecer para ajudar nas investigações. Depois, vou dar um jeito pra culpa cair em cima de um de seus amigos... A gorda, talvez ou Luciana, pois esse casamento já encheu meu saco e assim me livro dela. Ou qualquer outro que me dê uma brecha...
Um barulho ali perto atraiu a atenção de Nilo.
O grito veio em seguida:
— Para!
Ele se virou, arma em punho.
Atirou.
Jamile teria ido ao chão se Lionel e Mundo não tivessem amparado-a.
Depois, outro tiro foi ouvido.
Nilo caiu. O sangue brotou de seu peito.
Ele estava morto.