Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 17 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 16

O Natal transcorreu sem alardes. Aliás, não para todos eles.

Rebeca confraternizou em casa, com a mãe e a enfermeira Hilda. A ceia, primeira em muitos anos, foi especial para mãe e filha, e Hilda sentia-se contente por fazer parte daquele momento. Tivera comemorações felizes em família, mas aquilo era parte de realidade antiga e saudosa, que às vezes voltava sob forma de lembrança para cutucar seu coração. Nos anos anteriores, os mais próximos, ela passara as festas no hospital, portanto, estar ali e sentir-se novamente amparada por uma família de verdade, mesmo que pequena, de algum jeito a acalentava.

Quando já era tarde, Daniel apareceu de surpresa e com um presente: um aparelho de telefone celular moderno, pois o de Rebeca já não tinha funções que correspondessem à realidade de 2018. Ela ficou contente com o presente, apesar de considerá-lo dispendioso. Ele a ajudou com as configurações do aparelho e apresentou à Rebeca uma canção que ela desconhecia, pois havia estourado nas paradas durante seu sono, mas que tinha versos que de alguma forma, pareciam acolhê-la em braços cálidos.

Oração ao Tempo[12], na voz melodiosa de Maria Gadú, passou a ser o toque do telefone de Rebeca e fazia jus à sua história.

Fernanda, ciente de que não tinha como omitir as vergonhas e excessos cometidos pelo pai, convidou Lionel para a ceia. Era justo. Não podia deixar que o amigo passasse a data sozinho em um quarto de hotel. O rapaz, buscando ser cordial, levou flores para Vânia, a mãe da amiga, e uma garrafa de vinho para Osvaldo.

— Já bebi vinhos mais caros, meu rapaz. Bem mais caros, mas agradeço pela lembrança. Sabe como é que é... Cada um dá aquilo que pode, não é mesmo? - Osvaldo respondeu ao deparar-se com a garrafa e sem ter qualquer noção de sua estupidez.

Lionel apenas sorriu frente ao inconveniente e pensou em tudo o que havia mudado nos últimos anos. Ele lembrava-se de Osvaldo perfeitamente e, apesar de alguns conceitos distorcidos defendidos pelo pai de Fernanda tempos atrás, não imaginou que o dinheiro repentino pudesse ter causado tantos estragos. O homem estava esnobe, fazia pouco caso de tudo e não tinha limite algum no que concernia às palavras que proferia. Nem às roupas que usava... Era como se Osvaldo pudesse fazer qualquer coisa, como se o poder monetário lhe desse plenos direitos de diminuir as demais pessoas. E aquilo não era nada bom.

Fernanda arrependeu-se de ter convidado o amigo, mas já era tarde. Seu pai não desperdiçava oportunidades de mostrar-se rico. Ela apreciava a condição financeira que tinham, mas reconhecia que o homem deveria optar por atitudes mais contidas. Mesmo que Fernanda exagerasse em sua tagarelice com frequência e apreciasse o luxo de que dispunha, ela sabia que em alguns momentos, menos era mais. No caso de Osvaldo, a quem menos cores e estampas já ajudariam bastante, menos palavras seriam ainda mais úteis.

Minutos depois, Osvaldo pediu uma fotografia à mesa e foi Vânia quem fez o registro, que imediatamente foi lançado na rede social. Na legenda Osvaldo escreveu: "Eu, minha filha e o amigo dela, que é cantor, preparados para a ceia, com bacalhau do Porto e bebida de excelente qualidade. A vida é pauleira!" A vida de Osvaldo não era "pauleira", era ostentação; mas o bordão patético fazia parte dele, era quase um detalhe abstrato de sua indumentária e a complementava jocosamente.

Ana Paula e Afonso optaram por um Natal a dois, mais por vontade dela do que dele. Ela queria uma noite romântica. A moça agia como se os aqueles dias fossem realmente os últimos ao lado do marido. Não havia garantias em relação ao que a viagem proporcionaria ao grupo. Seus receios eram grandes e ela não estava disposta a perdê-lo. Para desfazer qualquer má impressão, caprichou no presente para o marido: um terno bem cortado, encomendado no melhor alfaiate da cidade. Como se não bastasse, mandou que flores fossem entregues na casa de Rebeca. Tudo vale a pena quando a

alma não é pequena.[13]-, já dizia o poeta; mas Ana Paula sabia-se minúscula frente às possibilidades. As flores talvez soassem como trégua para uma guerra silenciosa, que ela travava dentro de si e com seus próprios pensamentos. Ou talvez fossem apenas afronta. Quem entenderia?

Jamile aceitou o convite de um empresário da moda e compareceu à festa patrocinada pelo homem, na cobertura de um famoso edifício de Copacabana. O ambiente, apesar de requintado, não era dos melhores. As pessoas pareciam exaltadas, muitos embriagados e outros entorpecidos por substâncias mais pesadas, o que a fez deixar o local antes do previsto. Ela também era apreciadora de substâncias indevidas, mas suas favoritas eram as que encontravam-se na deliciosa composição química do chocolate e no turbilhão de sensações causado pelo açúcar. Inclusive, havia percebido que nas últimas semanas vinha abusando de doces e outras guloseimas. Se não se cuidasse, seus amigos em breve teriam a jamanta de volta. Passou o restante da noite em casa, tentando em vão distrair-se com a programação da televisão. Os filmes já não eram os mesmos e a tela era inundada de bobagens, diferente de seus tempos de criança, quando os clássicos do cinema eram exibidos na noite de Natal. Aquela era uma das poucas partes saudosas de sua infância.

Na casa de Mundo, a ceia foi simples, assim como a pequena e antiga árvore montada em um cantinho da sala. Ele e Dolores, sua mãe, puderam arrumar uma mesa graciosa e sem exageros, mas que atendia perfeitamente aos dois. Um generoso frango, com arroz e salada; e como sobremesa, rabanadas e a mousse de maracujá que ele tanto gostava. E panetone! O panetone não poderia faltar, Mundo adorava panetone com café na manhã seguinte à noite de Natal. Antes da refeição, uma oração para agradecer à Santa que, lá do alto da escadaria, acompanhava suas lutas e abençoava suas conquistas.

Já para Luciana... Para Luciana a noite de Natal não trouxe sorrisos, assim como os dias comuns também não traziam. A esposa de Nilo passara a tarde preparando a ceia, esperançosa de que ele, quando chegasse do trabalho, a levasse até a casa da mãe, que ela não via há meses. Quando Nilo chegou, já havia escurecido e Luciana estava no banho. Sua surpresa foi grande ao, após deixar o banheiro, notar que ele estava acompanhado de três amigos da delegacia.

— Traga cerveja, Luciana.

Foi somente o que ouviu. Nada de "boa noite" ou "como foi seu dia?"; apenas ordens. Luciana serviu a bebida. Mais tarde, Nilo e os amigos, armas na cintura, sentaram-se à mesa, onde fartaram-se do que ela havia preparado. Comiam como porcos, revirando as travessas e deixando que grãos de arroz escapassem de suas bocas abertas e salpicassem a toalha de renda da mesa, também ornada pelas rodelas de umidade deixadas pelos copos de cerveja. Ela apenas observava, sem qualquer vontade de compartilhar daquele momento. Natal para Luciana era sagrado, era coisa de família; mas Nilo desconhecia este conceito. Ela sentiu asco.

Sentou-se à poltrona e buscou um canal que exibia um filme natalino. Naquele momento, a ficção era mais tênue que a realidade e ela precisava de toda aquela leveza, precisava escapar do contexto grotesco estabelecido na sala de sua casa e buscar subterfúgios no impossível oferecido pela TV a cabo.

Quando os homens foram embora já era madrugada e Nilo, obviamente, estava embriagado.

— Você não se comportou, Luciana... Mais uma vez eu trouxe amigos para confraternizarem comigo e você não se comportou adequadamente. Todas as vezes que a cerveja acabou foi preciso que eu te mandasse buscar mais na geladeira... Todas as vezes que eu olhei pra você, suas pernas estavam cruzadas, joelhos à mostra, e você claramente se oferecia para meus amigos...

Ela não se oferecera para ninguém. Mas Nilo via somente o que lhe convinha e quando não via nada, criava. Oferecer-se estava fora de cogitação e tornava-se algo ainda mais absurdo em se tratando daqueles homens. Ela tinha nojo deles, só nojo.

— Será possível que sempre que eu trago alguém aqui você precisa mostrar o corpo, precisa se exibir como uma puta na vitrine da zona?

Ele não media palavras, não mensurava as ofensas que dirigia à esposa.

— Aqueles homens são meus amigos, entendeu? Meus amigos, sua ridícula! E o que você faz? Me faz passar vergonha, agindo como uma piranha.

Ele apenas aproximou-se e Luciana se preparou para o que estava por vir. Seu Natal acabara antes mesmo de começar.