Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 22 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 21

 

Mais tarde, na sala da casa e depois do almoço, eles observavam as imagens pelo computador. Daniel fotografara tudo com o aparelho de telefone celular e a tela grande do computador permitia ampliação e aumento do brilho, o que poderia ser de alguma ajuda. Usando destes recursos talvez pudessem identificar a silhueta de rebeca ao fundo de alguma fotografia.

Nada.

Tirando a fotografia da chegada ao clube, não havia nem rastro de Rebeca nas outras imagens.

— Já estou começando a ficar irritada comigo... Onde eu estava?

Jamile cuidadosamente falou para Rebeca sobre o reencontro de todos na saída do clube e não deixou de expor suas impressões.

— De alguma forma e eu posso estar errada, parecia que você tinha algo para esconder... Esconder não. Talvez o termo seja exagerado, mas você definitivamente não mencionou nada sobre o local em que ficou durante a maior parte do baile ou sobre o que fez. E eu me recordo de tê-la visto dançar, mas só no começo; depois, não a vi mais.

Na cabeça de Luciana havia uma conexão entre o que acontecera com Rebeca no baile e o acidente dois dias depois. Ela não fazia ideia de qual era esta conexão, mas seu sexto sentido - aquele que lhe aconselhava a lavar a louça e passar todas as roupas, pois Nilo talvez não chegasse de bom humor - acusava a relação. Nestas horas Luciana percebia como as vontades pessoais fragilizam as relações. Todos os amigos envoltos em suas atitudes displicentes na noite do baile, não perceberam a ausência de Rebeca, pois estavam voltados apenas para as suas necessidades. Se eles eram tão amigos, porque ninguém cuidou de Rebeca? Porque ninguém deu por sua falta? De alguma forma aquilo já não importava mais. O tempo havia passado e as atitudes eram ainda as mesmas. Ninguém cuidava dela, ninguém demonstrou incomodar-se com seu afastamento após o casamento.

— Esta informação me deixa mais nervosa, Luciana.

E Rebeca estava mesmo nervosa, tão nervosa que a tensão transformava-se realmente em irritação.

— Acho que o fato de não identificarmos a Beca nas fotos, já é uma pista. Nenhum de nós até então havia dedicado atenção ao desaparecimento dela durante o baile... Agora nos demos conta disso e, de certa forma, temos algo a mais para tentar entender.

Mundo estava certo. Não havia como dizer que a opção de viajar fora um fracasso. Rebeca tivera flashes do baile e eles se deram conta de que apesar de estar lá, ela parecia não estar. Havia algo a mais para entender como ele dissera e, em paralelo, algo a mais para não fazer o menor sentido.

 

Naquela mesma tarde, após muitas especulações sobre possíveis acontecimentos e sobre o desaparecimento de Rebeca durante o baile, o grupo decidiu espairecer. Deixaram a casa ao escurecer e tomaram o rumo de uma churrascaria no centro de Petrópolis. Conversa e boa música os ajudaria na distração, o que parecia ser mais que necessário naquele momento.

Dividiram-se em três carros. No carro de Daniel seguiram ele, Rebeca, Mundo e Luciana. Já no carro de Jamile, ela levou Fernanda e Lionel; enquanto Afonso, por exigência de Ana Paula, seguiu somente com a esposa.

Já no restaurante, sentindo-se um peixe fora d'água, Luciana buscou abrigo na cadeira que ficava entre Rebeca e Mundo. Sentia-se de alguma forma mais segura entre os amigos cuja simplicidade parecia não ter sido perdida com o passar dos anos. Ana Paula escolheu a penúltima cadeira de um dos lados da mesa e insistiu para que Afonso sentasse ao seu lado, na ponta, de forma que mais ninguém ficasse próximo de seu marido.

Alguns curiosos observavam-nos, sua atenção voltada para Jamile e Lionel, que eram conhecidos em decorrência de suas profissões. Algumas poucas pessoas, fingindo discrição, fotografavam o grupo com seus celulares ultramodernos, o que soava estranho para alguns deles e principalmente para Rebeca. Ninguém tinha intenção de ser objeto de fãs que não eram seus, contudo, não havia como evitar a situação. Houve uma mocinha que se aproximou e pediu o autógrafo de Lionel em um guardanapo, mas foi uma só; os demais apenas olhavam para a mesa longa ocupada pelo grupo.

Cientes de que a conversa deveria girar ao redor de trivialidades, pois podiam ser ouvidos pelas pessoas ao redor, ninguém falou sobre a situação de Rebeca durante o jantar. Nenhum deles queria que o assunto fosse captado por ouvidos alheios e surgisse na manhã seguinte em alguma página de blog ou coluna sensacionalista de jornal.

Daniel falou sobre seu trabalho no hospital, Jamile, que se absteve à água mineral sem gás e não provou nem mesmo um pedaço de carne, falou um pouco sobre os desfiles previstos para o começo do ano seguinte. Naquele dia ela havia optado pelo jejum. Precisa descontar todos os excessos cometidos ultimamente e apesar de já sentir indícios de tonteira e alguma fraqueza, mantinha-se firme em sua decisão.

Afonso falou sobre filmes e sobre Kall-El, que havia ficado em, um hotel para cães, já que a mãe de Ana Paula não pôde abrigá-lo por causa de seus cinco gatos persa. Luciana apenas ouviu, não havia muito que falar. Até havia... Ela gostaria de poder desabafar com os amigos, mas a vergonha a impedia. Só de pensar na possibilidade de ter que olhar nos olhos de Nilo mais uma vez, sentia o sangue gelar dentro das veias. Mundo, em determinado momento, comentou sobre os planejamentos acerca do centenário da Penha que seria no ano seguinte e sobre as comemorações que proporcionadas pela paróquia, mas somente Rebeca e Luciana pareceram lhe dar atenção. Já Lionel, este não via a hora de conversar a sós com Luciana, que evitava encará-lo diretamente. Fernanda sondava todos, buscando alguma informação na qual pudesse se escorar.

Em determinado momento, o gerente se aproximou.

— Não é minha intenção incomodar, mas meus clientes, assim como meus funcionários, estão lisonjeados com a visita - ele dirigia-se a Lionel. — Você poderia cantar um pouco para nós? Só uma música?... Não é todo dia que recebemos um cantor famoso em nosso estabelecimento.

Sem jeito e ao mesmo tempo satisfeito com o reconhecimento, Lionel subiu ao pequeno palco da churrascaria. A banda que tocava deu-lhe os primeiros acordes de Dias Vazios e ele acrescentou sua voz à melodia.

Para Rebeca, que ouvira a música uma só vez quando assistira ao clipe pela internet, o momento foi mágico. Para Luciana também; apesar de ouvir a música constantemente, ela nunca acompanhara uma apresentação de Lionel, nunca o vira cantar ao vivo e nunca cedera a ele a oportunidade de cantar olhando em seus olhos. A confirmação de que também havia um pouco dela em Dias Vazios foi inevitável.

Na sequência, como se Dias Vazios não fosse suficiente para expressar o que Lionel sentia e sem informar o que faria, empolgado ele pediu que a banda o acompanhasse. Depois, entoou os primeiros versos de Velha Roupa Colorida, composição de Belchior, bravamente gravada por Elis Regina em 1976.

Você não sente, não vê

Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo

Que uma nova mudança em breve vai acontecer

O que há algum tempo era novo, jovem

Hoje é antigo

E precisamos todos rejuvenescer

A canção era antiga e cronologicamente não correspondia ao tempo de nenhum de seus amigos, mas músicas são eternas e a mensagem era direta. Lionel estava certo! Todos entenderam. As mudanças batiam às portas de cada um deles, fosse de um jeito, ou de outro. Era preciso rejuvenescer não para que voltassem a ser os jovens de antes ou ser o que foram no passado, mas apenas para que pudessem ser novamente, na íntegra, com toda a força do verbo.

Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido

O dedo em V, cabelo ao vento

Amor e flor que é do cartaz

No presente a mente, o corpo é diferente

E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Era preciso ressuscitar o grupo, reuni-lo de verdade e apesar de todos os pesares. Se quisessem seguir em frente e fazer ressurgir o tempo em que comungavam suas vivências, o passado, ao menos a parte mais tenebrosa dele, deveria, de alguma forma, ser despido para que cada um pudesse tirar da bagagem construída durante aqueles doze anos, uma nova roupagem. Cada um deveria ser o que de fato era, sem renegar o que se foi, mas privilegiando o que estava por vir. Lionel acreditava no futuro e aquela canção foi a forma encontrada por ele para mostrar sua crença aos amigos.

 

— Quero falar com a Rebeca.

A voz do outro lado da linha telefônica foi incisiva e direta, sem dizer "alô" ou qualquer outro cumprimento quando Amélia atendeu ao telefone.

— Ela não está. Quem quer falar com ela?

Na sala, atenta, Hilda já colocava sua cabeça para funcionar. Se Rebeca estava na serra com os amigos e eram somente estes amigos que costumavam telefonar para a jovem, quem estaria ao telefone com Dona Amélia?

— Não importa... - a voz masculina respondeu secamente.

— Não quer deixar recado? - Amélia insistiu, com olhar questionador direcionado para a enfermeira.

— Eu disse que não importa.

O sinal de ocupado se fez ouvir.

O homem havia desligado.

Puto, Nilo colocou o fone no gancho.

Procurar por Rebeca fora apenas pretexto para tentar localizar a esposa. O fato de ser um policial e dispor de conhecimentos tinha suas vantagens. Não foi difícil conseguir o número de telefone da casa da bela adormecida, mas ela ainda não havia chegado. Era certo que a porra da viagem se estenderia por alguns dias e considerando ainda o desaparecimento de Luciana, ela provavelmente estava com o grupo. Contudo, qualquer outra pessoa que estivesse realmente preocupada com um desaparecimento e livre de qualquer culpa, registraria queixa em uma delegacia passadas vinte e quatro horas. Ele não.

Maldita! Se não sabe respeitar o marido, vai aprender mesmo que seja na marra. Ah, vai!... Ninguém brinca com a minha cara desse jeito e sai ilesa da situação. Luciana vai descobrir o que é apanhar de verdade, vai aprender a não me contrariar. Já fiz isso antes...

Em casa, assoberbada com a ligação àquelas horas da noite, Amélia não conseguia fazer com que a situação apresentasse sentido.

— De fato, enfermeira, é tudo muito esquisito. Rebeca não se dá com ninguém além destes amigos e eles estão lá com ela. Nenhum dos rapazes teria motivo para procurá-la em casa. E a voz... Não sei especificar, mas acho que já ouvi esta voz em algum outro momento.

— Não havia mais ninguém com quem ela talvez tivesse alguma relação e que tenha sabido de seu despertar, que possa ter decidido por procurá-la somente agora?

— Ora, claro que não! Ela nunca se envolveu com estranhos, Rebeca sempre foi muito sensata. Eu conhecia todos os amigos de minha filha e nos últimos anos ela não fez nenhuma nova amizade, não é? - Amélia tinha convicção do que dizia. — As pessoas com as quais Rebeca tem alguma ligação, estão com ela em Petrópolis agora.

Os muitos livros lidos sempre forneceram à Hilda certezas que estendiam-se para além do que estava ao alcance dos olhos e ela sabia que as pessoas, em sua maioria, só viam aquilo que queriam ver. Era assim o tempo todo... No hospital, por exemplo, parentes de seus pacientes insistiam em ver melhoras inexistentes em quadros clínicos gravíssimos, apenas para amenizar seu desespero. Na vida, a madrasta nunca vira os erros do meio-irmão, protegendo-o e deixando que ele vivesse de forma deliberada, sem regras. Talvez aquele fosse o caso de Amélia; talvez a confiança que a mulher depositava na idoneidade da filha fosse uma ilusão.

Enquanto Hilda revirava suas quase certezas, em casa Nilo também pensava. Era preciso agir, mas qualquer atitude que ele tomasse poderia complicar sua situação. Se Luciana passasse muito tempo com aquelas pessoas poderia sentir-se confiante a ponto de contar sobre o que acontecia dentro de sua casa. Seria necessário ter algum respaldo e como bom covarde que era, Nilo decidiu que não agiria sozinho.

— Reinaldo? - Nilo mencionou o nome do amigo policial por hábito, pois ele sabia que era o próprio do outro lado da linha telefônica.

Reinaldo era mais velho, mais experiente, cascudo na linguagem dos amigos da corporação e sabia exatamente como agir em situações duvidosas. Já estava aposentado, mas trabalhara em Petrópolis, onde também morava. Era Reinaldo quem anos trás e antes de Nilo entrar para a polícia, lhe arranjava bicos de segurança em bares e festas noturnas. Fora dele a iniciativa de desvios nas diversas ocasiões em que Nilo envolvera-se no começo, tão logo passou a compor o quadro efetivo da polícia. Eram cúmplices em muitas empreitadas e um sempre encobriu o mal feito do outro. Porém, algumas atitudes de Reinaldo, consideradas impróprias para a profissão levantaram suspeitas e ele foi afastado das ruas, atuando em serviços internos durante os últimos anos de carreira. Reinaldo certamente poderia ajudá-lo.

— Quer dizer então que a tua mulher meteu o pé? - Reinaldo disse após Nilo explicar-lhe a situação.

O velho aposentado era irônico, sempre foi, o que irritava Nilo profundamente. Para Nilo, suas ironias eram válidas, somente as suas. O policial não tinha o hábito de aturar desaforos ou ser contestado, porém ali, naquele momento, era preciso engolir o sapo se quisesse tirar proveito da experiência do homem e contar com sua ajuda. Não havia nenhuma outra pessoa a quem Nilo pudesse recorrer e se fosse de sua intenção alterar a situação, o jeito seria submeter-se às piadas idiotas de Reinaldo.

— Acho que ela está com esses amigos em Petrópolis - respondeu secamente, tentando não dar margem para mais comentários patéticos. — Sabe como é... Durante todo este tempo eu consegui manter a Luciana no cabresto, mas com essa merda da garota ter saído do coma, eu acho que ela se empolgou, acho que resolveu acreditar que é gente e foi atrás deles. Só pode ter sido isso... É muita coincidência ela ter desaparecido justamente quando o tal grupinho do passado resolve se reunir.

— Sei sim, sei bem como é. Em algumas ocasiões, parece que o passado vem à tona só pra destrambelhar a vida da gente... O passado é uma merda, meu amigo, e pode ter certeza de que se ele não estiver muito bem enterrado, ressuscita de repente para acabar com o futuro.

Filosofia? O mundo se acabando sob os pés de Nilo, sua mulher desaparecida e Reinaldo filosofando? Quanta babaquice! Ainda assim, Nilo não disse nada. Aguardou para ver o que Reinaldo diria.

— Por sorte, minha Isaura nunca me deu esse tipo de problema, nunca me deu trabalho - Reinaldo prosseguiu. — Sempre tive meus casos, minhas garotas, e ela, se sabia, nunca disse nada. Mas eu sei que tem mulher que não se conforma, que não se conserta mesmo com o pior dos corretivos.

Reinaldo riu. Ele sabia que Nilo era violento e que nem a esposa escapava de sua ira.

— E o que você quer fazer?

— Quero trazê-la de volta pra casa - Nilo foi direto, ciente de que Reinaldo o conhecia bem e sabia do que ele era capaz.

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Eu chegava a sentir o vento frio batendo na minha pele apesar de o salão ser fechado. Me sentia perdida em meio àquele monte de pessoas o que era mais que natural, pois eu nunca havia estado em uma festa daquelas. Tudo era excessivo, desde a música alta até as luzes tremulantes que me ofuscavam a visão. Porém, em meio às pessoas que dançavam, uma destacava-se e ele parecia ser muito bonito.

Houve um beijo. Sim, um beijo longo, acelerado! O perfume ficou marcado e era como se eu pudesse senti-lo. Olhou ao redor para ver se outros a observavam, pois não era de sua intenção que os demais soubessem daquela... relação?

Depois, um flash mudou toda a cena. Eu já não estava mais no clube, estava no jardim, perto dos bouganvilles. Havia chovido, poças lastravam-se pelo chão e uma delas refletia minha imagem e o muro de tijolos de concreto que cercava a propriedade. Atrás de mim, alguém.

Me virei, deparando-me com a mesma silhueta.

Um relógio me foi mostrado; dedos fortes apontavam para um relógio grande, de pulso. Talvez eu estivesse atrasada; talvez o atrasado fosse ele e mostrar o relógio fosse forma de justificar-se. Não sei...

A silhueta veio em minha direção.

Ele ria, mas sua risada não era algo normal. Era uma risada nervosa, apesar de baixa para que não fosse ouvida.

Fiquei tensa, mas não se a tensão que eu sentia era boa ou ruim.

Chegou mais perto e me deu um beijo. Me deixei levar pela emoção daquele momento, que rapidamente tornou-se tumultuado, confuso.

Havia algo mais naquele contato. A força foi aumentando e senti que meus cabelos estavam enrolados em seus dedos. Ele me puxou. Depois, ainda pelos cabelos, levantou meu rosto para que eu o encarasse, mas eu não o via; tudo estava enevoado.

Eu sentia dor, muita dor. Eram solavancos, socos, pontapés. Alguém falou... O violão veio certeiro sobre a minha cabeça... Ouvi o barulho de madeira se quebrando. Depois, eu não conseguia abrir os olhos, não mais...

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