Dias Vazios
Capítulo 18
—Ela chegou cedo, antes do horário de almoço ainda - a tal senhora, que Rebeca soube mais tarde chamar-se Genoveva, explicou ao perceber que todos estranhavam a presença de Luciana.
— Oi - Luciana disse sem jeito, acenando e sem saber se sorria ou se mantinha a face desanimada de sempre.
Foi Rebeca quem reagiu e partiu ao encontro da amiga de infância, dando-lhe um abraço apertado. A saudade que sentia era de muito tempo. Luciana retribuiu ao abraço, sentindo-se acolhida e forte pela primeira vez em muitos anos.
— Não sabia que você viria, mas fico feliz por ver que está aqui -Rebeca disse ao ouvido de Luciana, ainda enquanto a abraçava.
Luciana também não sabia que iria.
Após a noite de Natal, havia remoído tudo o que vinha lhe acontecendo depois de seu casamento com Nilo. No revival alegórico de suas feridas, viu brotar novas vontades. Aquilo não era vida! Viver para atender ao marido como se fosse uma empregada e apanhar cada vez que ele cismasse que ela não havia feito algo corretamente, nunca fez parte de seus planos. Ela se casara por amor ou por acreditar que amava aquele homem que conhecera ao acaso, passando por cima de todos os sentimentos que nutria por Lionel até então.
Lembrava-se perfeitamente de seu primeiro contato com Nilo, alguns meses após a hospitalização de Rebeca. Ela já havia visto-o pelas redondezas, mas foi naquela ocasião em que ele se aproximou.
Ela seguia para o ponto de ônibus.
— Posso ajudar a moça? Uma moça bonita como você não deveria carregar tanto peso.
Ele era um pouco mais velho, ela notara; mas era um sujeito gentil, bastante preocupado ao perceber que ela levava tantos livros pesados nos braços.
Luciana, que não sabia como agir quando cortejada, ficou sem jeito, mas sorriu para o rapaz que lhe sorriu de volta. Um sorriso bonito, encantador até.
Ele a ajudou com os livros até o ponto do ônibus enquanto conversavam trivialidades. Disse que era policial em início de carreira. Trocaram telefones. Depois veio o primeiro encontro formal. O segundo, o terceiro. Ela gradativamente afastou-se dos amigos, pois um namorado exigia tempo e aquele especificamente, exigia-lhe atenção. Toda a atenção que pudesse receber. Anos depois, casaram-se em cerimônia religiosa simples e o inferno começou.
— Eu também não sabia se conseguiria vir, mas, como vocês podem ver, estou aqui - e sorriu de novo, quase aliviada por sentir-se perto de pessoas que compunham seu passado mais feliz.
O desconcerto de Luciana não passou despercebido a Daniel. Havia algo de forçado na fala da amiga, ele percebeu; era como se ela precisasse demonstrar naturalidade da qual não dispunha. Não naquele momento.
Seu último contato com ela foi quando Luciana o procurou pedindo indicação de contraceptivo. Como médico, ele estava habituado às situações mais adversas e sua ética não lhe permitia julgar as vontades de um casal em relação a ter ou não ter filhos. A realidade era complicada; a vida, difícil e cada um deve saber o que escolhe para si. Com a intenção única de ajudar, ele lembrava-se de ter consultado a ginecologista da clínica na ocasião em busca de uma solução para a questão trazida por Luciana. O medicamento fora receitado e Luciana nunca mais o procurou. Mas ela estava tensa naquela ocasião e para Daniel foi como se Luciana omitisse algo, como se não lhe contasse o que realmente acontecia ou quais eram seus reais motivos para não almejar filhos. Não se importou. Talvez até tivesse se importado, ele não sabia exatamente, mas esmiuçar a situação seria em demasiado trabalhoso e ele já tinha Rebeca para cuidar. Daniel apenas deixou passar. Fernanda sempre cuidara de saber da vida de todos e se houvesse algo de estranho ou de errado com Luciana ela teria descoberto e espalhado aos quatro cantos. Se Fernanda nunca comentara nada, era sinal de que tudo estava bem.
Após os cumprimentos, entraram todos na casa.
Rebeca estava encantada com a magnitude do lugar que ela julgava não conhecer.
— Isso aqui é lindo!
— Você também achou lindo da outra vez, Rebeca. Eu me lembro bem...
Foi Luciana quem disse, recebendo de imediato o olhar de reprovação de Dan. Mundo, ao notar que a situação não era das melhores, ficou sem graça. O combinado era não dizer nada que provocasse lembranças e deixar que estas surgissem naturalmente. Mundo entendia, mas entendia também que Luciana provavelmente por causa de seu afastamento, não estivesse a par daquela "regra". Daniel não gostou nada do que ouviu.
— Não devemos fazer qualquer menção em relação ao que aconteceu ou a como Rebeca se portou na ocasião, Luciana. Todas as lembranças devem partir dela espontaneamente, sem estímulos.
Foi grosseiro. Suas palavras soaram estúpidas, o que deixou Mundo ainda mais sem graça. Se havia coisa com a qual Mundo nunca soube lidar era a ignorância, a grosseria, provavelmente por ter sido vítima deste tipo de ação durante sua vida inteira.
— Me de-de-desculpe...
Os ouvidos sensíveis de Mundo captaram o estrago que a resposta dada por Daniel causara em Luciana. Após a fala da moça foi notório que aquilo a afetara e ele ficou sem saber como agir, exatamente da mesma forma em que ficara por diversas vezes em seu passado, quando era destratado ou humilhado por outras pessoas. Sensações antigas subiram por seu estômago, estacionando em sua garganta e travando todas as suas reações. Seria possível que aquela casa tivesse capacidade de mexer tanto assim com seu ânimo, revirando seu passado e jogando-o na sua cara? Ele também fora humilhado ali e não foi uma vez só.
— Será que o anfitrião não deveria estar na porta, esperando por seus convidados?
A voz ecoou atrás deles.
Era Jamile, com uma bolsa grande a tiracolo e uma mala de rodinhas pela mão. A moça sorria descontraidamente parada à porta de entrada. Depois, largou a mala e juntou-se aos demais, cumprimentado-os.
— Acabamos de chegar também - Rebeca disse e depois consertou-se: — Eu, Dan e Mundo, pois a Luciana chegou cedo.
— Ah!... - Jamile pareceu decepcionada. — Eu vim sozinha, Luciana. Dirigi esse estirão todo sem companhia. Se tivesse me avisado, poderia ter vindo comigo.
Luciana, que não via Jamile havia bons anos, surpreendeu-se não somente com a aparência da moça, mas também com sua desenvoltura. Ela sabia que Jamile estava bem mais magra e a vira em alguns trabalhos para revistas, mas fotos eram apenas fotos e vê-la pessoalmente era completamente diferente. Quanta força havia em Jamile! Quantas conquistas! Quanta segurança! Sentiu-se ainda mais fraca, insignificante. Sua realidade era completamente destoante mesmo, fato que a fez questionar-se sobre o que fazia ali. A resposta mental veio automaticamente: Você está fugindo de Nilo, sua idiota!
Naquela manhã, Luciana havia acordado decidida. Na verdade, ela já dormiu sabendo o que faria após o telefonema dado para Fernanda, onde a amiga informou-lhe sobre os planos do grupo. Independentemente das consequências, ela sabia que não mais cabia na vida que levava.
Os ônibus para Petrópolis tinham saídas frequentes da rodoviária e, apesar do marido não lhe dar qualquer autonomia financeira, sem que ele soubesse, ela tinha ainda aquele dinheiro que ganhara da mãe em seu último aniversário. Era pra comprar um presente e ela até queria comprar alguns livros e ter roupas novas, mas a compra envolvia sua saída de casa. Como não tinha autorização para sair, o montante acabou esquecido no fundo da gaveta de calcinhas. Foi este dinheiro que pagou o táxi até a rodoviária e sua passagem para Petrópolis.
Saiu de casa assim que clareou, enquanto Nilo roncava como um porco, ocupando quase toda a cama. O intervalo entre o Natal e o Ano Novo era regado a bebedeiras com o pessoal da delegacia após as inúmeras incursões que faziam em busca de achacar alguém e tirar-lhe dinheiro ou após as contribuições daqueles a quem policiais como Nilo, acobertava, portanto chegar embriagado naqueles dias era de praxe. Ele não notou quando ela se levantou e não ouviu quando, decidida, fechou a porta atrás de si, trancando um passado para o qual não tinha a menor intenção de retroceder.
Nos ouvidos, os fones do antigo MP3 que guardava dos tempos de adolescente, refletiram seus desejos durante toda a viagem e sob forma de uma única canção:
Eu quero uma lua plena
Eu quero sentir a noite
Eu quero olhar as luzes
Que teus olhos não me têm deixado ver
Agora eu vou viver[15]
Ela estava disposta a viver de novo.
— Nem pensei nisto, não me lembrei que poderia tentar conseguir carona com alguém. Como me decidi em cima da hora, apenas segui para a rodoviária e tomei um ônibus - e Luciana sorriu de leve, tentando recobrar o controle em relação aos seus sentimentos. — Ao chegar descobri que não foi tão em cima da hora assim, já que vocês chegariam bem mais tarde.
Na resposta da amiga Jamile constatou mais uma vez a imensidão que emana do verbo não dito. Se não é falado, não é ouvido e talvez nunca seja notado. Falar é necessidade. Mesmo sem conhecer as dores de Luciana, a modelo imaginou que as dores talvez doessem menos se fossem compartilhadas com alguém. Jamile guardou as suas durante a vida inteira.
Rebeca esquadrinhou ao redor mais uma vez, tentando identificar alguma familiaridade na casa onde passara alguns dias. Nada. Nenhuma pista, nenhuma possibilidade de lembrança imediata, o que lhe soava bastante esquisito. Era de se esperar que por ser um lugar tão diferenciado, tão imponente, a casa lhe trouxesse algum resquício de memórias. Talvez tudo tivesse se apagado sem quaisquer chances de volta.
Dona Genoveva voltou à sala trazendo café para os recém chegados. A conversa seguiu serena, apenas trivialidades. Ninguém ousou mencionar a possibilidade de traçarem planos para os próximos dias. Daniel até pensou em sugerir uma volta pela cidade, mas absteve-se do comentário. Foi exatamente isso que gerou discórdia da outra vez... Eu decidi todos os passeios que faríamos e Rebeca se revoltou, sugerindo que cada um de nós seguisse seu rumo naquela noite. Se não fosse minha mania de controlar tudo, talvez nada do que aconteceu tivesse se efetivado... -, pensou.
Para Mundo o pior ainda estava por vir: Fernanda. Depois de Dona Amélia, a mãe de Rebeca, era Fernanda quem mais o desprezava. Dentro de pouco tempo ela estaria na casa e ele teria que lidar mais uma vez com todo o desprezo que lhe era direcionado. O tempo havia passado, as pessoas estavam diferentes, mas Fernanda mantinha a mesma mentalidade preconceituosa de sempre. Pessoas como ela não mudavam com facilidade. E seus receios confirmaram-se mais tarde, quando os outros chegaram.
Os dois carros surgiram simultaneamente no terreno, circundaram o jardim principal e pararam na alameda de acesso a casa. O movimento e os sons levaram todos para a varanda. Afonso e Ana Paula desceram do primeiro veículo. Depois, Fernanda desceu do seu carro.
Lionel não encontrou forças para levantar-se de imediato do banco do carro. A visão de Luciana na varanda, parada ao lado de Mundo, pareceu lhe tirar o chão. Ele não havia se preparado para vê-la, imaginou que a amiga não estivesse presente, ao menos fora exatamente isto que Fernanda sugeriu. Respirou fundo. Não via Luciana desde a noite do acontecido. Nas poucas vezes em que visitou Rebeca no hospital, ela não estava lá. Depois, cada um seguiu seu rumo e ele, assim como os outros, não foi ao casamento dela. Ainda bem!-, era o que pensava todas as vezes que se lembrava. Seria doloroso ver seu amor entregue a outro.
Quando Lionel surgiu à porta do veículo, foi a vez de Luciana emocionar-se. Emoção boa, daquelas que, fazia anos, ela não experimentava.
Todos se cumprimentaram, abraçaram-se e a algazarra foi grande. Por um breve momento pareceu que o motivo que os levara até Petrópolis fora esquecido, posto de lado. O grupo era só confraternização e o fato de Fernanda mal falar com Mundo - os olhares que ela dirigia ao rapaz eram de desconfiança velada - foi pequeno perto da alegria que Afonso e Lionel demonstraram ao vê-lo.
Jamile também não deu muita atenção para Mundo. Ela e ele foram encontrados junto ao corpo de Rebeca. Apesar de Fernanda, que chegara em seguida, defendê-la com unhas e dentes, Mundo insistiu em afirmar que foi Jamile quem chegara ao local primeiro. O grupo nunca soube qual dos dois realmente fora o primeiro a chegar; nenhum dos dois assumiu para si tal responsabilidade. Mas Fernanda, que tinha suas cismas em relação à Mundo, jurava de pé junto que tinha sido ele. Como angariar certezas frente à situação tão desconexa? Independentemente da confusão, manteria suas convicções até o final.
E Rebeca, Jamile já havia notado, estava mesmo muito bonita. Na adolescência, a amiga magra nunca precisou de maquiagem ou penteados mirabolantes para despertar atenção nas pessoas; tudo se dava naturalmente. Já Jamile, sempre chamou atenção pelo excesso de peso e se resolvesse usar algum penteado, ficava parecendo um bolo de casamento, grande e fofo. Agora, contudo, ela definitivamente precisava de um doce.
Em meio ao falatório, Luciana tinha uma única certeza: não podia deixar que a felicidade se instalasse. Tudo era provisório e ela torcia para que o marido não a encontrasse. Pedia a Deus para que Nilo não associasse seu desaparecimento aos amigos, para que ele não se lembrasse das poucas vezes em que ela lhe contara sobre a história de Petrópolis. Sem expectativas... O Deus para o qual ela fazia a súplica era o mesmo que trouxera o homem violento para sua vida e Luciana não sabia se era válido acreditar.
Já Ana Paula não conseguia desgrudar seus olhos de Afonso. Porque diabos ele insistia em manter-se perto de Rebeca? O ciúme era o mesmo de anos atrás, porém suas dúvidas divergiam. Seria a necessidade de defender-se que o levava a cercear a moça ou seriam somente os sentimentos antigos que se aprumavam e ganhavam solidez? De uma coisa ela estava certa: seu objetivo era ali era ajudar Rebeca a recuperar a memória; perder o marido estava fora de cogitação. E Mundo? O que ele fazia ali? Ela não conseguia acreditar que ele tivera a cara de pau de aceitar o convite.
Todos foram alojados em seus quartos por Genoveva conforme Daniel a havia instruído na véspera, por telefone, mantendo as mesmas acomodações de anos antes. Era preciso deixar a realidade atual o mais próxima possível da antiga e depois descobrir o que aconteceria.
Ana Paula não gostou nem um pouco daquilo. Enquanto o marido parecia não se importar com a questão, ela se incomodava. Havia se casado com Afonso e era justo que ambos dividissem um quarto. A moça já ia abrir a boca em protesto quando levou um cutucão de Jamile.
— Fique quieta! São os mesmo quartos que ocupamos no passado, não percebeu?
Jamile. Mais uma vez era Jamile quem a continha. Sempre foi assim...
— Afonso não desgruda dela... - Ana Paula comentou naquela tarde em Petrópolis, sem ter noção do que a noite reservava para o grupo.
— Isso é coisa de sua cabeça, Ana Paula. Eu não vejo diferença alguma na forma como Afonso trata Rebeca - Jamile respondeu discretamente.
— Lógico que não! Às vezes você não vê nem mesmo seu reflexo em um espelho... Parece que não percebe sua própria condição...
Algumas pessoas eram assim: quando perdiam ou não tinham argumentos, partiam para ofensas. Ana Paula referia-se ao excesso de peso de Jamile, aquilo estava evidente.
— Pois vou lhe dizer uma coisinha: Não há nada entre eles, mas se você continuar agindo desta forma, vai acabar despertando essa possibilidade e aguçando a curiosidade de Afonso. Mantenha a calma, encare tudo com maior tranquilidade e pare de me chamar de gorda, mesmo que indiretamente.
De certa forma Jamile tinha razão e Ana Paula viu que manter a diplomacia poderia lhe favorecer.
Ela percebera perfeitamente, assim como percebera também que Dan mantinha-se atento aos detalhes mais banais. Banais em sua perspectiva, principalmente por afastá-la de Afonso. Mas se Rebeca pensava que aquilo os aproximaria, ela estava enganada. Assim como anos antes, Ana Paula não permitiria que ela se aproximasse de Afonso, mesmo que para tal tivesse que tomar decisões extremas mais uma vez.