Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 7 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 6

 

O quintal estava mal cuidado e aquela foi a primeira coisa que Rebeca notou tão logo Amélia abriu o portão. Era como se o tempo tivesse encostado-se àquele muro, como se estivesse cochilando, amparado pela umidade e pelas ervas daninhas que brotavam nas pequenas frestas do concreto. Havia acúmulo de folhas secas pelos cantos. O muro baixo e revestido de pedras ornadas de rabiscos desconhecidos, não recebia qualquer cuidado, assim como a grade que fazia parte dele, não recebia uma nova camada de tinta há tempos. O pé de acácias silenciosamente implorava por uma boa poda. A aroeira, também. A calçada estava gasta, lascada pelo descuido e o numeral estampado na fachada parecia sustentar-se somente pela ferrugem que se instalara em cada um de seus algarismos. Os efeitos da corrosão também podiam ser notados nos portões. A luminosidade bucólica, emanada pelo sol do começo de tarde, fomentava ares saudosistas. A casa havia envelhecido, aquela era a realidade.

Ao chegar à varanda e olhar para dentro da sala foi que Rebeca sentiu-se realmente em casa.

— Sem qualquer trocadilho, a casa está exatamente como ontem.

A observação de Rebeca ao entrar no que ela aprendera a chamar de lar foi verdadeira. Sua poltrona favorita, forrada com uma manta grossa de xadrez, parecia esperar por ela no mesmo canto, próximo à janela. As preocupações de sua mãe estavam do lado de fora e em meio às atribulações do cotidiano hospitalar. Amélia, durante todos aqueles anos, não havia sequer trocado um móvel de lugar na casa que ocupavam na tranquila rua da Penha. Tudo estava exatamente como na véspera tão próxima e enaltecida por Rebeca e tão distante para os demais. Era como se o tempo ali também tivesse parado, o que não deixava de ser reconfortante em sua perspectiva.

O filhote de cachorro, que de filhote já não tinha mais nada, aproximou-se vagarosamente, com o olhar manso e abanando a cauda. Rebeca, somente para si, questionou-se se ele ainda se recordava dela ou se era aquela uma reação instintiva, comum à chegada das pessoas. Quem saberia?

O impacto causado pelo passar dos anos se fez mais forte naquele abanar de cauda. Ela nunca tivera um cachorro, pois a mãe acreditava que era preciso ter maturidade para arcar com as responsabilidades impostas por um animal de estimação. Naquele Natal, em decorrência de seu desempenho no vestibular, foi acordado que o pai a presentearia com um filhote, entretanto, ela não o viu crescer. Dormiu dias depois e acordava agora, quando o animalzinho já tinha a idade bastante avançada. Rebeca perdera parte da vida de seu cachorro.

Fernanda, que havia continuado no hospital até que Dan liberasse Rebeca, e oferecido carona até em casa, estava com elas e não se conformava com a total falta de sensibilidade dos outros amigos que sequer haviam telefonado. Ainda na varanda, sacando o telefone celular do bolso de trás da calça jeans, ela convocou Rebeca:

— Vem cá, Rebeca. Vamos tirar uma selfie e mandar para o pessoal.

— Tirar uma o quê?!

Rebeca desconhecia o termo. Quando entrou em coma, as câmeras digitais eram bastante comuns, mas somente os mais abastados tinham telefones celulares munidos de câmeras; não se tratava de equipamento comum como se vê nos dias de hoje e as câmeras frontais destes aparelhos sequer existiam. Já o termo selfie, caiu no gosto popular em meados de 2013 para 2014 e ela não tinha a menor noção do que se tratava.

— É um tipo de fotografia que a pessoa tira de seu rosto. Os celulares agora vêm com câmera frontal, que facilita este tipo de ação. Já não precisamos da ajuda de outra pessoa quando a intenção é uma fotografia pessoal. Selfie é moda! Todo mundo tira, o tempo todo e em qualquer situação, para publicar nas redes sociais. Nos tempos modernos, querida, uma selfie pode falar mais que muitas palavras... 

Rebeca não se surpreendeu com a informação, era natural que as tecnologias tivessem evoluído; contudo, ficou bastante assustada com a necessidade exagerada que as pessoas tinham de fotografar seus próprios rostos nas situações mais inusitadas.

E não houve tempo para pensar em nada: Fernanda colou sua bochecha na dela e apontou o telefone celular para o click certeiro, registrando junto a si uma Rebeca com ares confusos, apesar de sorridente.

— Vou mandar para a Jamile e para a Ana Paula. Elas vão ficar contentes por saber que você está bem e já está em casa. Já Luciana, infelizmente, não usa telefone celular, diz que não gosta. Nossa amiga parece ter escolhido a reclusão ou então, depois de casada, resolveu voltar ao Século XIX.

Rebeca sorriu. Apesar de não ter escolhido, ela também ficara reclusa e sentia-se em outro tempo. Sobre a fotografia, certamente, sua mãe que observava tudo à distância, diria que aquela era uma forma eletrônica que Fernanda encontrara para fazer fofoca. Mas a jovem, apesar de admitir que por muitas das vezes a amiga falava demais e não se continha mesmo nos momentos mais sérios, ainda acreditava que não havia necessariamente maldade por trás de suas atitudes. Aquele era apenas o jeito de ser de Fernanda e, se ela era assim desde sempre e Rebeca sabia que era, dificilmente mudaria.

 

Quando abriu a fotografia no aplicativo de mensagens, Ana Paula de imediato arrependeu-se por não ter ligado para Fernanda na véspera. Provavelmente aquela era sua urgência e, diferente de outras ocasiões, não se tratava de simples fofoca ou de algo inútil. Rebeca havia saído do coma e o que Fernanda queria era contar a novidade.

— Que merda! - Ana Paula falou baixinho, só para si e deixou que os pensamentos expressassem outros palavrões.

O susto foi grande. Ela estava preparada para qualquer coisa, qualquer bobagem, entretanto aquela notícia foi mais que inesperada. Após tantos anos, presumir que Rebeca ainda viesse a despertar era acreditar no improvável. Em seus pensamentos, a antiga amiga passaria o restante da vida naquele hospital até que, em um dia qualquer, simplesmente perderia seus sinais vitais, o que não necessariamente se tratava de um desejo, eram apenas probabilidades. Mas Rebeca estava ali naquela fotografia, de olhos bem abertos na varanda de casa e sorrindo ao lado de Fernanda, o que abalava sua segurança. A certeza de que daquele momento em diante as coisas se complicariam caiu sobre a cabeça de Ana Paula como uma tempestade de raios.

Seu humor foi por água abaixo e foram os pobres funcionários coordenados por ela, que pagaram o preço. Ana Paula tinha personalidade controladora e, quando irritada, conseguia ser uma verdadeira tirana em seu ambiente de trabalho, proibindo as ações mais banais e condenando qualquer coisa, por menor que fosse, que fugisse de seu controle. Naquela tarde, ninguém teve autorização nem para usar o banheiro.

E os problemas não paravam por aí.

Contar ou não para Afonso era possibilidade que lhe causava outro tipo de desconforto; causava-lhe medo. Ela ainda se recordava da atenção que ele dispensava à Rebeca quando eram adolescentes e do malfadado desentendimento em Petrópolis. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, ele saberia. O marido mantinha contato constante com Dan e se este não lhe contasse, Fernanda não pensaria duas vezes antes de fazê-lo. Como não sentir-se prejudicada com a situação? A maldita tempestade de raios destilou mais uma forte rajada sobre a cabeça confusa de Ana Paula.

Jamile, em seu telefone celular, recebeu a mesma imagem e, apesar de já saber que a amiga havia despertado do coma, também espantou-se. Pela fotografia via-se que Rebeca já estava em casa. Já estava em casa e com Fernanda ao seu lado. Nos tempos remotos, certamente seria ela, Jamile, quem teria um primeiro contato com Rebeca e não Fernanda. Fernanda, assim como Ana Paula, não era tão próxima de Rebeca a ponto de acompanhar a moça daquele jeito. Luciana conseguia ser mais próxima, mas era a presença de Jamile que prevalecia ao lado nos momentos mais distintos.

Diversas certezas povoaram os pensamentos de Jamile: Fernanda seria quem ouviria as primeiras lembranças de Rebeca sobre o acontecido; Fernanda contaria à Rebeca o que quer que a amiga quisesse ouvir e responderia, sem titubear, todas as suas perguntas; Fernanda repassaria para Rebeca as informações que tivesse vontade e de acordo com sua perspectiva, enquanto ela estava distante, causando a pior das impressões que era o abandono. Apesar de elas estarem em pontos distintos, a tempestade de raios que caiu sobre Ana Paula, também rodeou a cabeça de Jamile. Era uma pena não ter outro pote de sorvete no freezer.

Em casa, ainda na varanda, sentada em uma cadeira de ferro ornado e somente para si, Rebeca ansiava pela partida de Fernanda para poder dedicar-se ao fato de estar de volta ao que sempre foi seu. Com a amiga ali era inviável, pois Fernanda não parava de tagarelar e a atropelava com informações banais e desnecessárias. Fernanda falava de tudo e de todos, mas não mencionava nada em relação ao acontecido doze anos antes e que havia afastado Rebeca da realidade.

Foi Dan quem a havia colocado contra a parede. Rebeca desconhecia, mas em uma breve saída do quarto do hospital para fumar no jardim, Fernanda fora interceptada por Dan.

— Sei que você vai acompanhar a Rebeca, Fernanda, e espero que não comente nada sobre aquela semana em Petrópolis. Assim como também espero que os outros se mantenham neutros quando a visitarem.

O olhar de Fernanda para Daniel, com sua sobrancelha esquerda levantada, foi questionador. Caso ela argumentasse, ele certamente se valeria de seus conhecimentos enquanto médico para justificar o silêncio que era exigido da amiga de infância, mas seria apenas por questões médicas que ela deveria se calar? Ou teria Dan algum outro interesse em uma possível omissão de fatos?

Anos antes, quando eram ainda bem jovens, a aproximação de Daniel em relação aos adolescentes com os quais ele passou a conviver e desenvolveu amizade, se deu devido ao fato de seu pai ser sócio de uma clínica médica local. Daniel não era um garoto suburbano como os outros, ele apenas acompanhava o pai ao trabalho com frequência e, em uma das muitas tardes em que deixou a clínica para passear pelo bairro, conheceu Rebeca e Mundo e acabou por aproximar-se deles e fazer parte daquele grupo. Apesar de todas as diferenças que existiam entre ele o os outros, Dan nunca tratou os amigos com superioridade. Entretanto, era ele quem levava os melhores jogos para que jogassem nas tardes chuvosas, quem sempre tinha dinheiro para alugar o último lançamento disponível na locadora de vídeos e quem sugerira o fatídico passeio à Petrópolis, na casa que seu pai mantinha.

Para Fernanda, soava estranho que Daniel fosse muito próximo de Mundo àquelas épocas, ela se lembrava. Em algumas ocasiões, parecia haver alguma proteção por parte de Daniel, como se o adolescente buscasse, a todo custo, inserir Mundo naquele grupo que apesar de não demonstrar, via o menino pobre como alguém diferente, mesmo não o destratando diretamente. Nos tantos passeios feitos ao shopping, era Daniel quem pagava a pipoca e o ingresso de cinema de Mundo e ela não sabia se a atitude do amigo era fruto de sua bondade ou de excessiva vontade de demonstrar ter mais que os outros. Por não acreditar muito em solidariedade, na dúvida, Fernanda sempre ficava com a segunda opção. Ela era a mais cismada.

Já Rebeca não e Fernanda também se recordava. Rebeca não via maldade alguma nas atitudes de Daniel para com Mundo, faria o mesmo se estivesse ao seu alcance. Ela também era bem próxima do garoto. Mundo morava na mesma rua que Rebeca e Afonso, porém muitas casas depois, na parte onde a rua ganhava ares de ladeira, e eles se conheciam desde pequenos. Se pudesse, seria Rebeca quem ajudaria Mundo a participar das atividades em grupo, exatamente como Daniel sempre fizera.

— E porque eu não devo dizer nada? - Fernanda encarou Daniel com desconfiança, louca de vontade de que ele falasse em excesso e acabasse por se complicar.

— Por questões médicas apenas. Somente por este motivo e eu acredito que você deva respeitar esta recomendação - o amigo foi direto. — Rebeca precisa se lembrar do que aconteceu naquela noite, mas essa lembrança não deve sofrer nenhum tipo de interferência. Nem eu, nem você, assim como nenhum de nós supostamente sabe o que houve e, sendo assim, a única pessoa que pode nos dar pistas em relação ao acontecido, é ela. Tudo isto é necessário para que possamos entender o que de fato houve e caso receba informações, há grande possibilidade de que Rebeca sofra influências que gerem pistas falsas... As lembranças devem vir espontaneamente e não porque alguém disse alguma coisa ou porque Rebeca foi levada a acreditar em algo, entendeu?

Fernanda entendia, mas detestava aquela maneira de falar dele, como se fosse o dono da verdade! Foi exatamente assim em Petrópolis anos atrás... E não era uma recomendação, era decisão! Por mais que Daniel justificasse as razões pelas quais exigia seu silêncio, ela ainda mantinha todas as suas pulgas atrás da orelha e muito bem alimentadas. Tudo poderia ser, assim como também poderia não ser. Somente o tempo e as lembranças de Rebeca mostrariam a realidade e Fernanda, lá no fundo, temia aquela revelação. Mas ele estava errado pelo menos em um ponto: nem eu, nem você, assim como nenhum de nós supostamente sabemos o que houve; um deles deveria saber, ela tinha certeza, e era este o culpado.

O discurso incessante de Fernanda foi interrompido por Amélia, que chegou à varanda trazendo uma bandeja com café e sequilhos.

— Um cafezinho!... - disse Fernanda. — É tudo o que eu preciso.

Já Rebeca estranhou a chegada do café. Em outros tempos, sua mãe teria servido um copo duplo de leite achocolatado.

 

Naquela tarde, quando passou pela parte baixa da rua rumo à igreja para vender suas pipocas, Mundo teve certeza de que aquelas duas pessoas na varanda eram Rebeca e Fernanda. Ele não foi visto por elas e não sabia que Rebeca havia despertado, não tinha quaisquer notícias dela havia muito tempo e sentiu vontade de se aproximar.

Não o fez.

Não por Rebeca, com quem desde pequeno sempre se deu muito bem, mas por causa de Fernanda e de Dona Amélia, que deveria estar na casa também. O rapaz sabia que qualquer tipo de aproximação poderia gerar problemas ou humilhações, coisas pelas quais ele já não tinha vontade alguma de passar. Nem estômago! Era bastante provável que Fernanda não o poupasse de suas piadas sem graça ou de algum tipo de injúria. E a mãe de Rebeca não o olhava nos olhos desde o dia em que soube que sua filha fora hospitalizada.

Durante grande parte de sua vida Mundo fora humilhado por ser pobre, como se pobreza fosse motivo de escárnio, como se sua condição financeira o fizesse menor que os demais. Estudava em escola pública e seu desempenho escolar era excelente, mas as coisas não eram fáceis. Sempre lhe faltava condição de ter um item mais sofisticado em seu material escolar, e por isto os colegas o olhavam de lado; quando ele assumia que não iria a uma excursão porque sua mãe não podia pagar, eles riam; e se por acaso alguém lhe desse algo, era certo que aquela doação renderia assunto. A caridade prestada lhe era jogada na cara o tempo todo e, ainda que ele não tivesse vergonha de suas origens ou de sua condição, incomodava-lhe o fato de ver que as pessoas se aproveitavam de sua humildade para tentar diminuí-lo. Mundo não era pequeno, nunca foi; e apesar da escassez de recursos em que fora criado, mesmo que ninguém visse ou soubesse ou reconhecesse, sua alma era enorme.

Desde criança Mundo acostumou-se com sobras. Ganhava a roupa que não servia no primo mais velho; ganhava os sapatos que o tio julgava estarem gastos, mesmo que estes ainda não lhe coubessem nos pés; ganhava os livros que a enteada do irmão de sua mãe usara no ano anterior. Em alguns dias, ganhava até o pão que tinha sobrado na casa da vizinha, para torrar na boca do fogão e comer no café da manhã do dia seguinte. Mundo nunca teve vergonha disso, não renegava seu passado e muito menos suas possibilidades de futuro por mais restritas que lhe parecessem; mas guardava consigo as mágoas despertadas pelas palavras duras que, sem pedir ou precisar, também passara a vida "ganhando". A vida sempre fora

cruel com Mundo, mas a arte, conforme dizia a música[1] que ele adotou pra si desde a primeira vez em que ouviu, era viver da fé e ele vivia, mesmo quando não sabia no quê deveria acreditar.

Fora criado apenas pela mãe. O pai de Mundo, assim como muitos outros pais de outros Mundos mundo afora, havia abandonado a família quando ele era apenas um menino, quando tinha três anos de idade. O homem, de hora para outra, resolveu trocar a vida de pintor de paredes no Rio de Janeiro pela possibilidade de riqueza na mineração. Deixou a promessa de fazer contato assim que estivesse estabilizado em algum canto e com serviço decente. Sumiu. O menino cresceu sem o pai e sem notícias de seu paradeiro. Depois que cruzou a porta, o pai de Mundo não mandara sequer uma carta e foi a mãe quem, à duras penas e fazendo faxina na casa dos outros, arcou com todas as responsabilidades em relação ao menino. Somente quando já estava adulto, Mundo soube através de um breve e impessoal telegrama que seu pai perdera a vida em 2015, com o rompimento de uma barragem em uma cidadezinha de Minas Gerais. Mariana era o nome da cidade. Virou estatística em um meio midiático desgraçado e repulsivo. O corpo nunca fora encontrado e as riquezas sonhadas não foram conquistadas. Não receberam nem mesmo uma indenização.

Apesar de todas as diferenças sociais que os permeavam, Daniel nunca o tratara mal. Pelo contrário: o amigo o respeitava e recebia dele todo o respeito de volta, respeito este que muitos juravam tratar-se de interesse. Afirmavam que Mundo se mantinha próximo de Daniel para aproveitar-se das supostas vantagens que o amigo oferecia. Coisas de quem não preza a amizade verdadeira, só podia ser!