Dias Vazios
Capítulo 22
Passava um pouco das sete da manhã quando Hilda atendeu ao telefone. Amélia, exausta desde a véspera e com uma forte de crise de enxaqueca, ainda não havia se levantado.
— Quero falar com Rebeca.
— Bom dia, meu rapaz. Rebeca não se encontra no momento, mas eu posso registrar seu recado.
— E Luciana? Sabe se ela está com Luciana?
— Desculpe-me, mas eu não conheço esta jovem... Quer deixar algum recado? - Hilda insistiu educadamente.
— Vai pro inferno! - Foi a resposta que obteve antes da ligação ser encerrada.
Certamente era o marido da jovem, o mesmo que estivera lá dias antes procurando pela esposa.
Sem titubear, Hilda telefonou para Daniel. A atitude do homem do outro lado da linha lhe era familiar, ela conhecia pessoas grosseiras violentas e teve certeza de que se a tal Luciana estivesse com eles, teriam problemas. A insistência daquele homem não era casual nem normal e não se tratava de preocupação para com a esposa desaparecida, não mesmo. Era posse, era necessidade de controle.
— Acho que me lembrei!
Fernanda, Mundo, Luciana e Jamile, que estavam na sala de estar olharam para Rebeca.
— Foi um homem. Quem me bateu naquela noite foi um homem.
De imediato, Fernanda e Ana Paula, que surgiu no topo da escada, encararam-se para depois fitarem Mundo, a quem suas suspeitas estavam direcionadas desde sempre. Jamile mantinha os olhos arregalados. Luciana, lembrando-se da tensão de Lionel naquela noite, elevou seus pensamentos ao rapaz e teve pena dele. Não havia mais nada que ela pudesse fazer.
Daniel, que havia se afastado para a cozinha, onde ficava o telefone convencional, com intuito de responder à ligação da enfermeira Hilda que ficara registrada em seu telefone celular, apareceu na sala.
— O que houve? - Ele também parecia nervoso e Fernanda não deixou de notar sua alteração.
Fernanda estivera com Daniel minutos antes de Rebeca descer e ele parecia tranquilo. O que justificava sua mudança de humor? Ela se lembrava de que ele, apesar de ter dito que dormira, não estava no quarto naquela noite.
— Eu sonhei com um homem com quem me encontrei no jardim naquela noite. Não vi o rosto e a voz parecia destorcida, mas ele era alto, bem alto.
Ana Paula aproximou-se de Afonso, que voltava de uma caminhada matinal, tomou o braço do marido e não perdeu tempo:
— Excelente! Isso exclui Afonso. Tanto Daniel, como Mundo e Lionel são mais altos do que ele. Podemos voltar para nossas vidas agora?
— Cale a boca, Ana Paula!
Nenhum dos rapazes poderia ser considerado de baixa estatura, todos eram altos, mas mesmo entre os altos, Afonso era o mais baixo, com seus 1,78. Contudo, o egoísmo de Ana Paula irritou Mundo, fazendo com que ele a respondesse daquela forma.
— E quem você pensa que é para falar comigo dessa forma, Raimundo? Um merda... Você não passa de um merda que sempre quis ser como nós, mas a vida não permitiu. Sempre se escorou em Daniel, um otário, já que ele tinha dinheiro e podia situá-lo melhor em nosso meio.
— Ana Paula... - Afonso, completamente envergonhado, tentou em vão repreender a esposa.
Ela prosseguiu, enquanto Lionel, que havia despertado com o falatório, surgiu no topo da escada:
— O filho da faxineira que vivia de migalhas, que destoava por completo de nosso grupo, mas que era mantido nele pelo menino riquinho que gostava de fazer caridade e podia arcar com suas despesas... Não é isso que você sempre foi? Não é isso?! E se naqueles tempos nós falávamos normalmente com você, devia ser por pena, só pena.
Dizem que os menos favorecidos ou injustiçados, se protegem. Foi Luciana quem tomou as dores de Mundo, colocando-se à frente de Ana Paula e peitando a amiga como há muito não fazia com qualquer outra pessoa:
— Fale por você, Ana Paula. Só por você. Eu nunca tive pena de ninguém - o dedo em riste quase tocava o nariz de Ana Paula, que a encarava com desdém. — Eu nunca enxerguei Mundo de outra forma e para mim ele sempre foi um dos nossos. Sempre! Éramos todos iguais, sempre fomos; todos muito próximos. Infelizmente nossas vidas tomaram rumos diferentes e que acabaram por nos afastar. Cada um foi viver o que era seu enquanto Rebeca estava em um quarto de hospital e, falo com a mais plena convicção, um nunca quis saber dos problemas do outro, não é verdade? Só o que sabemos é o superficial... Sabemos que Dan é médico, que o pai de Fernanda enriqueceu, que Lionel é cantor, que Jamile estampa capas de revistas, que Mundo vende pipocas na escadaria da Igreja da Penha, que você leciona e que Afonso é advogado. Só isso! Ninguém conhece o caminho que o outro trilhou para chegar onde está, ninguém conhece suas dificuldades... - o choro começava a subir até a garganta de Luciana, mas ela não se calou: — Vocês sabem que me casei, mas desconhecem a vida que eu levo. Nenhum de vocês sabe, por exemplo, que perdi um bebê nos primeiros anos de casamento, não é verdade? Só conhecemos nossas conquistas e cada um de nós faz a mais absoluta questão de manter as derrotas bem escondidas. Nossos fracassos, como poeira fina que ninguém vai notar, são constantemente varridos para de baixo do tapete.
Quando encerrou seu discurso, Luciana chorava. Lionel, que já havia descido e se encontrava ao lado da amiga, a abraçou. Jamile, que não se alimentava havia mais de vinte e quatro horas e percebia sua visão enevoada, como se pensasse alto, completou:
— Não houve quem sentisse a dor do outro, ninguém nem mesmo percebe que ainda há dor.
Afonso sentiu vergonha da esposa. Rebeca, sem saber o que dizer, apenas observava a cena, certa de que algo entre seus amigos havia se quebrado enquanto ela dormia e sem qualquer condição de contestar a amiga. E antes que qualquer um deles pudesse postergar a discussão, a campainha se fez ouvir.
Foi Daniel quem se dirigiu até a porta. Ao abri-la, deparou-se com um homem desconhecido do outro lado.
— Bom dia, rapaz - o sujeito atarracado, de cabelos grisalhos e com um bigodinho roto, tentava olhar além dele.
— Pois não? - Daniel respondeu sem se incomodar com a presença do estranho. A situação dentro de sua casa era muito grave para ele deter-se àquele fato.
— O portão de entrada da propriedade estava aberto e por isso subi com meu carro pela alameda. Sempre o deixam aberto? Isso é perigoso...
O homem pareceu divagar por um breve momento e mais uma vez Daniel não lhe deu atenção. Considerando a extensão do terreno que circundava a propriedade e os antigos costumes de seus pais, não havia motivo para deter-se àquela questão. O portão de acesso a casa sempre ficara aberto.
— Quem é o senhor?
— Policial. Sou policial lotado no batalhão de polícia militar da cidade na ocasião em que uma das moças aí sofreu um... acidente? É assim que chamam o evento? - O homem pigarreou, esticando o pescoço mais uma vez para olhar além de Daniel e depois prosseguiu: — Eu soube que vocês estão de volta e gostaria de tomar alguns depoimentos.
Fernanda despencou na primeira cadeira que encontrou e buscou o olhar confuso de Jamile. Ana Paula aproximou-se de Afonso, enquanto Lionel apertou ainda mais Luciana em seus braços. Rebeca solidarizou-se com Mundo, como se pressentisse que o amigo teria problemas. Daniel olhou para trás e encarou o grupo. Se em algum momento houve cumplicidade entre eles, ela parecia ressurgir naquela sala, sob os questionamentos de um policial que nenhum deles conhecia e que muito provavelmente não deveria estar ali.
O homem entrou. Esquadrinhou o cômodo e Mundo teve impressão de que ele se deteve um pouco mais em Luciana e Lionel, ainda abraçados.
Reinaldo, por sua vez, identificou de imediato a mulher de Nilo agarrada a outro homem no meio daquela sala. Ele não a conhecia pessoalmente, nunca estivera com ela, mas o amigo lhe enviara uma fotografia pelo aplicativo de mensagens. Era ela. Aquela era a putinha que havia abandonado Nilo para entregar-se ao desfrute com um cara mais jovem e bem apessoado. Certamente Nilo não gostaria nem um pouco de saber daquilo e a atitude não teria perdão.
— Só acho estranho que um policial venha até aqui para falar sobre um caso que já foi encerrado... - Daniel tentou interceder ao ver que o homem impunha-se dentro de sua casa.
— Encerrado? Só se for para você que talvez tenha interesse em esconder alguma coisa... Será que eu estou certo? Acredito que sim - ele mesmo respondeu.
A risada que veio depois, seguida de uma coçadinha indiscreta na barriga, foi irônica, quase espalhafatosa.
A gargalhada do homem fez com que os pêlos da nuca de Luciana se ouriçassem e sua musculatura se contraísse. A atitude fez com que ela lembrasse do marido. Lionel sentiu a tensão da amiga que acomodava-se em seus braços e percebeu que a presença do policial a incomodava. Talvez, ele pensou, Rebeca estivesse errada; talvez não tivesse sido um homem quem a agredira. A imagem de Luciana tensa na noite do acontecido ressuscitou nas memórias do cantor trazendo desconfiança que ele não queria ter, mas que parecia inevitável. Seu coração espremeu-se dentro do peito mais uma vez.
— Não, policial, o senhor não está certo. É de nosso interesse entender o que aconteceu naquela ocasião e por isso nos reunimos aqui.
— Ah!... Uma investigação por conta própria? Sem aval ou participação da polícia... Interferir neste tipo de questão é deveras complicado, principalmente quando há vidas em jogo. Acho que não começamos muito bem, meu rapaz.
O estômago vazio de Jamile revirou-se e ela precisou deixar a sala. Vomitar, muitas das vezes, virava hábito em sua condição, era como uma válvula de escape das angústias que a realidade instalava em seus dias. Era preciso expurgar o que não condizia com seus desejos, era preciso que o sofrimento fosso posto para fora e seguisse esgoto abaixo.
Ana Paula apertou a mão do marido e Luciana afastou-se um pouco de Lionel, causando no rapaz a impressão de que ela buscava defender-se com o próprio corpo, impondo-se e mostrando postura mais firme. Mundo se manteve estático e certo de que poderia se complicar, pois, se fossem questionadas, algumas pessoas manteriam as acusações de anos atrás. Sem que os demais notassem, Fernanda enviou uma mensagem ao pai, informando que tinha problemas.
E o homem sentou-se na poltrona, com o queixo em riste e olhar inquisidor. Parecia disposto a esmiuçar a situação e, estava claro, não pouparia nenhum deles. Não havia o que fazer... Dali pra frente, seria como Deus quisesse.
— E o que especificamente o senhor quer saber?
Foi Rebeca quem o questionou, certa de que era ela quem deveria tomar alguma atitude e, se possível, defender seus amigos.
O policial riu mais uma vez e depois respondeu:
— Tudo.