Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 8 de 36

Páginas do PDF

Dias Vazios

Capítulo 7

 

Quando Fernanda foi embora já era tarde, havia escurecido e Rebeca estava exausta. Depois de doze anos dormindo, passar um dia inteirinho acordada tinha seu valor, mas tinha também seu preço. Sua exaustão, entretanto, não remetia ao cansaço físico; pelo contrário: era algo mental, emocional, psicológico. Ela não queria dormir. Tinha como intenção dispor de algumas horas só dela, para pensar em tudo o que havia acontecido, mesmo que a total ausência de lembranças fosse uma barreira intransponível.

Onde estavam os outros? Jamile, Luciana e Ana Paula não deram notícias. Talvez as mudanças ocorridas em suas vidas tivessem afastado-as, fazendo com que apenas Fernanda se aproximasse e demonstrasse interesse. Lionel estava longe, ela entendia, mas e Afonso? O fato de ter se casado com Ana Paula seria motivo para o aparente descaso? E se tratava mesmo de descaso? O grupo, tão unido na infância e adolescência já não parecia ser mais o mesmo e Rebeca sentia por isso. O tempo havia passado para eles; para ela, não. Alguns anos tinham o poder de afastar e distorcer as amizades.

Naquela noite, o céu turvou-se em nuvens. A chuva veio fraca, uma poeirinha molhada que tingia de marrom escuro a pouca terra do quintal e fomentava o verde das folhas, coisa comum àquelas épocas do ano. Passava das dez horas e enquanto Amélia adormecia na poltrona de frente para alguma bobagem exibida na televisão, Rebeca olhava a chuva da varanda quando uma silhueta que esgueirava-se pelos muros e saltava as pequenas poças formadas, tentando em vão não se molhar, despertou sua atenção. Era Mundo, certamente! O rapaz tinha um andar característico, por alguns considerado derrotista. Coisa de pobre!-, diria Fernanda, esnobe desde sempre, mas que para Rebeca não passava de mais um traço saliente de sua timidez e do fardo que ele sempre carregou nas costas. Ela o reconheceria de longe e no escuro mesmo que se passassem noventa anos ao invés de doze.

— Mundo! - Rebeca, sem pensar duas vezes, chamou pelo amigo.

O barulho causado pela chuva não impediu Mundo de ouvir seu nome. Ele identificaria a voz de Rebeca até no meio de um furacão. Sem medir esforços, olhou em direção à casa da amiga do outro lado da calçada e viu que ela estava na varanda e que gesticulava para ele.

Rebeca o chamava.

Mundo respirou lentamente e aproximou-se, certo de que sua aproximação resultaria em problemas.

— Entre aqui - ela disse já no quintal, abrindo o portão. — Espere a chuva passar... Depois você vai pra casa.

— Não precisa. Já estou molhado mesmo e daqui pra minha casa o caminho é curto... É tarde. Não quero incomodar.

Aquele era o mesmo Mundo de antes! Aparentemente, ele não havia se tornado um médico como Dan, não havia emagrecido horrores como Jamile, não estava arrogante ao extremo como Fernanda. Ele não tinha sofrido grandes mudanças conforme os outros. Era o Mundo, só o Mundo; seu humilde amigo de infância que sempre insistia em não incomodar.

— Deixa de ser bobo! Não é incômodo algum.

Mundo entrou.

Em passos apressados, seguiram ambos até a varanda onde, por alguns instantes, miraram a chuva no quintal.

Mundo não sabia o que dizer. Rebeca também não.

— Quando foi? - Mundo, ainda olhando para o lado de fora, se referia ao despertar dela, mas não foi necessário explicitar. Ela entendera perfeitamente.

— Ontem. Mas só consegui receber alta do hospital hoje.

— E como você está?

— Perdida. Completamente perdida - ela falava lentamente, satisfeita por Mundo, diferente de Fernanda, lhe dar oportunidade de expressar-se. — Não me lembro de nada. Quando acordei pensei ter dormido o tempo de uma noite e achei que estava acordando na véspera de nossa viagem. Foram doze anos passados e todos os eventos próximos do coma foram apagados da minha memória. Não me lembro da viagem, não tenho noção alguma do que me aconteceu.

— Meu Deus, Beca!

Somente Mundo a chamava de Beca. Nem mesmo a mãe ou Jamile, que sempre fora a amiga mais próxima, usavam de apelidos para se referirem à Rebeca.

Ele sabia que ela ficara em coma por doze anos e sabia também que seu despertar remexeria em feridas antigas, abriria cicatrizes que muitos omitiam e revolveria a poeira escondida embaixo dos tapetes, porém não esperava que a amiga acordasse sem quaisquer lembranças. Aquilo era assustador. Principalmente para ele.

— E o que o Dan acha disso tudo?

Os olhos de Mundo encontraram os olhos de Rebeca e ele pôde ver neles a cumplicidade que dividiram por muitos anos. Rebeca era de origem humilde também, apesar de suas dificuldades não chegarem aos pés daquelas enfrentadas por Mundo. Assim como o pai de Mundo, o pai de Rebeca abandonara a casa quando a filha era pequena, lá pelos onze anos de idade, mas nunca deixou de lhe provir o sustento, os estudos e os presentes nos aniversários ou no Natal. Foi o pai de Rebeca quem, em seu último Natal "acordada", mandara o cachorro filhote. Durante a adolescência de Rebeca, Dona Amélia enfrentou problemas financeiros, mas nada que pudesse ser comparado às turbulentas tempestades pelas quais Mundo e sua mãe haviam passado à míngua. O dinheiro enviado pelo pai de Rebeca chegava ao banco todo mês e era quantia fixa. Mundo, por diversas vezes, esbarrara com a fome e só tinha onde morar porque seu pai, antes de desaparecer, tivera a maravilhosa ideia de comprar a casa que ainda ocupavam. Se dependessem de aluguel, certamente, mãe e filho teriam conhecido os recônditos esquecidos sob as pontes.

Ele se lembrava do dia em que, ao acordar pela manhã, não havia leite e a mãe precisou explicar ao filho de cinco aninhos apenas, que a caixa dentro da geladeira velha estava seca, mas que em breve e se Deus quisesse, ela se encheria novamente. A verdade era que o que Dolores, mãe de Mundo, conseguia com suas faxinas era muito pouco se comparado aos altos preços dos alimentos e às contas que chegavam todos os meses. Tudo era muito incerto: se houvessem vinte faxinas em um mês, poderiam ser apenas dez no outro mês ou menos até. Seus rendimentos acumulados no mês anterior lhe eram pagos na primeira semana do mês seguinte pelas caridosas senhoras do bairro, que aproveitavam-se de seu excelente serviço de faxina e de sua excessiva necessidade de trabalho. Entretanto, por mais cautelosa que ela fosse com suas economias, a mulher nunca recebia o necessário para que, quitadas as contas, se alimentassem de forma digna após o vigésimo dia do mês. E havia ainda um menino. Um menino pequeno que fora abandonado pelo pai e que restava a ela, somente ela, amar e cuidar.

— Pelo que eu consegui entender, ele acha que eu preciso me lembrar de tudo naturalmente, sem interferências. Ele não quer que as pessoas me contem nada a respeito - a resposta da amiga o desviou das lembranças despertadas pela cumplicidade dos olhares. — Dan acredita que com o tempo as lembranças podem voltar. Mas não há como precisar este tempo... Pode ser agora, amanhã pela manhã, no mês que vem ou, até mesmo, pode não ser nunca.

A voz de Rebeca se destacava em meio ao barulho da chuva, como se este compusesse o arranjo perfeito para sua entonação afinada. E Mundo sentiu o que nunca gostara de sentir, principalmente em se tratando de alguém tão próximo: compaixão.

 

A mesma chuva que pegou Mundo desprevenido naquela noite, também atrasou a chegada de Ana Paula à sua casa. Ao abrir a porta do apartamento, Afonso estava sentado no sofá da sala com Kal-El aos seus pés, assistindo a um filme de Denzel Washington. Aquele era um recurso comumente usado por Afonso e ela o conhecia perfeitamente! Ana Paula sabia que quando Afonso recorria aos filmes de Denzel Washington, as coisas não estavam nada bem. A escolha não remetia à agressividade, de maneira alguma; Afonso era até bastante pacato, um apaziguador que nutria ainda os sonhos de menino, contudo, o ator era a companhia perfeita para os dias em que o marido tinha alguma questão difícil para ser digerida e quanto mais ação o filme escolhido tivesse, mais tenso ele estava. Era como uma válvula de escape. Ela viu que se tratava de Chamas da Vingança, o que lhe deu a real noção do nível de tensão dele. Sobre a mesa, uma garrafa de cabernet e uma taça pela metade. Ela sabia que o marido só bebia em ocasiões diferenciadas. Muito diferenciadas.

— Soube de Rebeca? - Ana Paula foi incisiva, sem delongas. Não era hora de fingir que nada estava acontecendo.

Ele a encarou e Ana Paula viu que havia algo por trás daqueles olhos, apesar de não conseguir identificar de quê se tratava, se alegria ou tristeza.

Ana Paula sempre vira Rebeca como uma possível ameaça à suas intenções com Afonso. Doze anos haviam se passado e as intenções da adolescência agora eram fatos: ela o havia fisgado e eles estavam casados. Mas seria este um empecilho caso o marido decidisse reacender seus antigos interesses? O compromisso era para Afonso tão sólido como era para Ana Paula?

— Sim - foi a resposta que ela obteve.

Ana Paula detestava quando Afonso usava monossílabos!

— E? - Retribuiu monossilabicamente também.

— Dan me contou, falei com ele no final da tarde.

Dan! Era evidente que ele falaria. O médico patético, decerto queria mostrar que seu trabalho enfim surtira algum efeito e em momento algum pensara nos resultados que a informação causaria à Ana Paula e ao seu relacionamento com o marido. Provavelmente, para Daniel não havia mal algum em revirar a vida deles de cabeça para baixo, desde que todos soubessem que após anos em seus cuidados, Rebeca havia despertado graças aos seus cuidados e parecia estar bem. Era somente sua vida profissional que ele valorizava.

— Pois é! Acordou e já está em casa, surpreendentemente ciceroneada por Fernanda - Ana Paula não conseguia disfarçar seu incômodo, não conseguia esquecer o medo. Nem tentava.

— E isto te surpreende por quê?

Afonso não se espantava, qualquer ação de Fernanda, por mais absurda que pudesse parecer, era esperada.

— Me surpreende porque sempre foi Jamile a melhor amiga de Rebeca, seguida de Luciana, no entanto, a fotografia que recebi cedo mostrava a cara de Fernanda grudada na cara de Rebeca... Por outro lado, considerando a vida que Jamile leva nos dias de hoje e as ausências de Luciana, é natural que Fernanda tenha chegado na frente. Jamile não perderia muito tempo com a amiga do subúrbio. As capas de revistas e presenças em festinhas lhe rendem muito mais. E Luciana... Ah... Luciana vive reclusa naquele casamento e não nos dá a mínima importância.

Afonso não gostava quando Ana Paula falava daquela forma. Em alguns momentos, por trás da bela fachada que a esposa sustentava, viam-se as ruínas deixadas pela amargura. E ele não conseguia aceitar tanta amargura. Não via motivos para tal.

— Exatamente. Nada mais natural se considerarmos que Fernanda tem mais tempo livre, não é? - Afonso pensou por breves segundos, mas não resistiu: — Posso ver a foto?

Puta merda!-, Ana Paula reagiu mentalmente, Pra quê eu disse isso? Pra quê falei da foto?...

Na tela de sessenta polegadas instalada confortavelmente sobre o móvel da sala, Denzel Washington, acompanhado de muitos tiros, perseguia seu algoz, mas Afonso já não lhe dava qualquer atenção.

Ana Paula sacou o celular da bolsa e abriu a fotografia para que o marido a visse, com a mais plena certeza de que muito em breve, de brava passaria a completamente arrependida.

Enquanto ele olhava a foto, ela olhava para ele e sentia que as mãos firmes do ciúme, como raízes de uma árvore antiga, agarravam seus pés e subiam por suas pernas, deixando-a completamente sem forças. Não havia mais para onde correr e lhe restava apenas esperar que as coisas não ficassem piores para o seu lado. Se Deus quisesse e o capeta também, não ficariam. Tudo fora muito bem pensado.

Por mais que Ana Paula, movida por ciúmes, pensasse em quaisquer outras possibilidades, para Afonso o retorno de Rebeca era apenas uma forma de fazer justiça. E se havia coisa pela qual ele lutava, era a justiça. Em algum momento toda a situação seria esclarecida, ele tinha a mais absoluta certeza, apesar de temer pelo final daquela história.

— Frango de novo? Como você repete o mesmo tipo de carne por dois dias seguidos, Luciana? Comeu merda? - Nilo não media palavras, nunca mediu. — Você deve estar de sacanagem com a minha cara.

Luciana sabia que Nilo detestava quando ela se repetia, mas só havia frango no congelador e ele não lhe dera qualquer autorização ou dinheiro para ir até o mercado.

— Posso fritar um ovo...

Ele a interrompeu:

— E eu tenho cara de quem chega em casa após um dia inteiro de trabalho pra comer ovo frito?

Intimidada, a voz de Luciana começava a tremer.

— Frango era só o que tinha. Mas, se você deixar, amanhã eu vou ao mercado e faço compras - respondeu com a voz embargada, certa de que o desagradaria.

— É só isso que você quer, não é? Sacudir o rabo na rua...

Com medo e tentando desviar a atenção do marido, ela mudou de assunto:

— Você se lembra do caso da minha amiga que estava em coma há anos? Ela despertou ontem. Fernanda telefonou para contar.

Apesar de ter feito uma pergunta e de imediato ter dado uma explicação, Luciana esperou por resposta que não veio. O marido conhecia perfeitamente o caso. Onze anos mais velho que a esposa, Nilo já era almejava ser policial na época em que Rebeca entrou em coma e já circulava em meio à outros profissionais do ramo. Ele sabia que nada fora descoberto à ocasião e que o caso fora abafado, para que o tal médico em ascensão não saísse prejudicado da história. Lembrava-se perfeitamente. Para se proteger, as pessoas que tinham dinheiro acabavam, mesmo sem intenção, por proteger outras pessoas, as verdadeiras culpadas.

Já em relação à Fernanda, ele nem se lembrava direito de quem ela era. Nilo não conhecia os amigos da esposa, nunca quis estabelecer contato e fez o possível para afastar Luciana da vida que ela levava antes do casamento. O passado, por mais que se repetisse devido à suas manias, estava lá atrás e o que lhe importava eram o agora e o depois, sendo ambos perfeitamente delimitados por ele que quando cismava, usava em casa a mesma mão de ferro com a qual prendia ladrões.

Frente à reação do marido, ela não sentia fome; sua única vontade era desaparecer, sumir dali, buscar uma vida diferente em qualquer outro lugar. Nunca lhe passou pela cabeça viver situações tão adversas, receber um sorriso para, em seguida, levar um tapa, coisa que comumente acontecia caso o humor de Nilo se alterasse repentinamente. E ficar sem respostas?... Somente ouvir sem obter respaldo em qualquer fato que mencionasse... Aquilo era demais, apesar de ser corriqueiro.

As amizades de adolescência voltaram com força às suas lembranças, assim como os sorrisos que lhe estampavam a face àquela época. Como era bom viver, como tudo parecia mais leve, mais agradável! Sentiu saudade dos amigos, saudade de estar com eles e de compartilhar suas emoções com aqueles que realmente as valorizavam.

 

Não havia nada que segurasse o nervosismo de Jamile naquela noite e se fosse necessário comparar a situação com qualquer outra, ela arriscaria associá-la os primeiros dias do ano letivo. Nestes dias, antes de chegar até a escola e descobrir com quais pessoas deveria conviver durante o período, sua tensão também era paralisante. Uma pessoa obesa nunca sabe como será recepcionada por estranhos e com Jamile foi deste jeito a vida inteira: deboche, escárnio, apelidos. Os primeiros dias de aula eram os piores. Depois, ela acostumava; as provocações não diminuíam, mas ela se habituava à situação e permitia que tudo se mantivesse até a época de férias. Não havia outro jeito.

A certeza de que com o retorno de Rebeca algumas coisas seriam reviradas trazia a perspectiva de passado, dos tempos onde o excesso de peso a orbitava. Jamile não queria que o tempo parecesse voltar, não após tantas transformações, não após ter se tornado a modelo mais cogitada do país para as capas de revistas.

— É tarde, Rebeca.

Amélia não gostou nem um pouco de chegar à porta que dava para a varanda e ver que Mundo estava com sua filha. Ela não queria aquele homem ali, não mais!

— Eu sei, mãe. Vou entrar daqui a pouco - ela respondeu sem olhar para a mãe.

— Vai entrar agora.

Amélia foi seca.

Se Rebeca sentia-se com dezesseis anos, a mãe parecia manter sua postura como se a filha ainda tivesse realmente aquela idade.

— Eu vou indo, Rebeca. A chuva já diminuiu.

Mundo tentou remediar a situação, puxando para si o encerramento daquela conversa. Ele sabia da implicância que Amélia adquirira ao longo de todos aqueles anos de dúvidas e respeitava seus pensamentos. Rebeca não. Ela não sabia de nada e em momento algum viu motivos para que mãe destratasse seu amigo.

Para evitar maiores problemas, Rebeca achou por bem não contestar. A despeito do que a mãe pudesse fazer após tamanha grosseria, era melhor deixar que Mundo se fosse e depois de sua partida, questionar Amélia.

Foi exatamente o que aconteceu.

— O que houve, mãe? Ele é meu amigo... Porque tratar o Mundo daquela forma?

Ela perguntou enquanto a mãe fechava a porta da casa, dando indícios de que se recolheria.

Amélia não sabia o que dizer. Não medira sua atitude ao ver aquele sujeito em sua varanda, mas agora se lembrava das orientações dadas pelo doutor Daniel. Ela não poderia extrapolar, não poderia falar muito ou insinuar quaisquer de suas impressões e suspeitas, por mais valiosas que estas lhe parecessem. Não disse nada.

— Será que ninguém percebe que eu preciso entender o que está acontecendo?

— No tempo certo, Rebeca. No tempo certo você vai entender - a mãe tentou amainar as expectativas da filha.

— E são vocês que escolhem qual é o tempo certo? São vocês que vão ficar me impondo limites e decidindo o que eu faço ou deixo de fazer, bem como com quem posso conversar?

O tom empregado por Rebeca foi de desafio, coisa com a qual Amélia não sabia lidar.

— Não - a mãe respondeu séria. — Não somos nós, ninguém vai decidir nada. O tempo apenas vai chegar pra você e é esse tempo que vai nos trazer as respostas que buscamos.

— Se eu continuar trancada aqui, sem contato com as pessoas, nunca vou conseguir fazer qualquer associação que remeta aos acontecimentos. Não é justo que me escondam as coisas. Eu preciso saber o que aconteceu comigo!

— Nós também - foi a resposta seca dada por Amélia.

E depois, a mãe de Rebeca seguiu em direção ao quarto, onde teria sua primeira noite de sono após a volta da filha.

 

Em seu quarto, Rebeca não dormiu.

Mesmo que sem ter noção do que havia acontecido ou sensação de que o tempo que havia passado, ela sabia que se tratava da primeira vez em doze anos que se encontrava sozinha naquilo que era seu. Estava com suas coisas, por mais que muitas delas já não correspondessem à sua idade. Os livros lidos para as provas escolares ainda estavam na estante: A Droga da Obediência, O Mistério do Cinco Estrelas, Éramos Seis, Vidas Secas e Dom Casmurro, que lera mais recentemente, entre outros. A agenda de 2006, com bobagens e adesivos em todas as páginas, jazia inerte e esquecida sobre a mesinha de canto. Talvez tão esquecida como a própria Rebeca. Ao lado da agenda, um aparelho de telefone celular fora de moda, ainda com flip e sem a câmera frontal que era tão valorizada por Fernanda. E no canto esquerdo, próximo à janela que dava para o jardim, sobre a escrivaninha, o computador e os cadernos do último ano cursado no colégio. Tudo estava ali, intacto, exatamente como ela havia deixado.

Ligou o computador. Apesar do sistema quase obsoleto, talvez ele pudesse lhe trazer alguma informação, algum indício do que acontecera. No Google, não encontrou nada, não havia qualquer rastro do acontecido com ela. Decerto, caso se tratasse de algo com grandes proporções, estaria ali, noticiado em algum site. Provavelmente o fato não havia despertado a atenção da imprensa ou daqueles que se mostravam sensacionalistas. Ou, em outra hipótese... tudo fora apagado. Mas o que levaria a isso? Pra quê? Quem teria poder suficiente para excluir da rede todos os registros sobre seu trágico passado? A situação já estava passando dos limites.

Tentou as redes sociais e sua surpresa foi grande ao perceber que o Orkut já não existia mais. Com o pensamento imaturo de dezesseis anos ainda, Rebeca se deu conta de que tudo o que ela compartilhara ali estava perdido, parte do passado realmente parecia ter ficado para trás e tornava-se inalcançável. Não há como revirar aquilo que fora desfeito. Na caixa de email, spams e informativos de lojas virtuais, nada além disso. Restava-lhe o Facebook, que ela quase não utilizava em 2006.

No perfil, a fotografia de uma adolescente ainda com sardas. Poucas notificações para tantos anos de ausência. Treze solicitações de amizade, apenas tios e primos distantes que haviam feito suas contas naquela rede social após ela ter entrado em coma. Na caixa destinada às mensagens, alguns registros de Fernanda, datados de anos antes e esperando por sua recuperação. Só Fernanda?

Certa de que aquela não seria a fonte onde saciaria suas dúvidas, Rebeca desligou a máquina revoltada. Lá fora, a chuva permanecia, fraca, e o tempo parecia mais fresco, quase frio para um Dezembro. A luz do abajur trazia apenas lembranças antigas, frescas a seu ver. A mala, feita na véspera, fora organizada doze anos antes; o cachorro, ganho no último Natal, havia envelhecido; seus amigos, cada qual a seu modo, haviam encontrado caminhos para suas vidas e suas fotos no Facebook mostravam faces amadurecidas, envelhecidas até. Ela estava ali, no quarto, meio que com dezesseis anos ainda, tentando enxergar tudo aquilo que seus olhos não viam e tentando ouvir o que o silêncio da madrugada era incapaz de contar.