Dias Vazios
Capítulo 1
Quando despertou, Rebeca não conseguiu encarar diretamente a luz. Seus olhos ardiam e mantê-los abertos era excessivamente desconfortável. A luminosidade daquele local era absurda, exagerada em contraste com as paredes muito brancas e, por mais que ela olhasse ao seu redor, tudo parecia embaçado, ofuscado e sem formas definidas. As poucas pessoas por ali pareciam flutuar rodeadas por auras que lhes tolhiam as formas e impediam a identificação imediata. Clarões humanos lhe rodeavam, nada mais.
— Ela acordou!
A voz soava-lhe familiar mesmo em meio às emoções exacerbadas de sua emissora, que estavam latentes no tom empregado. Era a voz de sua mãe, ela percebera. Apesar de todo o alvoroço, que deveria fazer com que Rebeca sentisse satisfação por estar desperta, ela estava atordoada. O sonho havia cessado, mas o que ela parecia encontrar ali divergia de sua realidade. Ela não conhecia aquele lugar.
— Mãe... - ela balbuciou sendo de imediato interrompida por um rosto desconhecido e redondo, com olhos arregalados e que quase se colava ao seu.
— Calma. Não diga nada por enquanto, por favor.
E então, mais claridade. A desconhecida, que tinha uma cicatriz enorme em uma das bochechas, acendeu uma pequena lanterna direcionando o feixe de luz para os seus olhos e abriu-os, um de cada vez, com os dedos. Depois, colocou uma das mãos em sua testa como se verificasse a temperatura, antes de perguntar:
— Você sabe seu nome?
— Rebeca Simas.
— Onde você nasceu?
— Rio de Janeiro.
Ser sabatinada por uma estranha após acordar de uma noite tão cansativa, não fazia parte dos planos de Rebeca, porém, sem entender o que se processava, sem saber onde estava ou qual o motivo de estar ali e sem qualquer condição de contestar aquela invasão, ela não interrompeu a mulher.
— Idade?
—Dezesseis...
A mulher, que Rebeca já identificava como uma enfermeira em decorrência do uniforme e da postura, encarou a outra mulher, que estava aos pés da cama. Era a mãe de Rebeca, com um corte de cabelos diferente do habitual. Ela não se lembrava de nenhum comentário da mãe em relação àquela ida ao cabeleireiro e sabia que Amélia usava o mesmo corte havia muitos anos. Era estranho vê-la com os cabelos mais curtos que o habitual.
— E... - ela fez uma breve pausa antes de prosseguir, como se a resposta que receberia em seguida fosse esperada ou temida - ... em que ano nós estamos, Rebeca?
— 2006.
Era o ano de 2006, Rebeca tinha a mais absoluta certeza. Final de ano, Dezembro de 2006, mais especificamente. Ela lembrava-se perfeitamente de ter concluído o ensino médio e prestado vestibular. Fora aprovada com louvor. Cursaria engenharia elétrica em uma das universidades públicas mais renomadas do estado assim que o ano seguinte começasse e sua viagem de final de ano com os amigos estava agendada. Passariam os últimos dias do ano em Petrópolis, na casa que os pais de Dan mantinham na serra.
— De certa forma, esta reação pode ser considerada como natural, Dona Amélia. Ela esteve desacordada por muito tempo e o esperado realmente era que, quando acordasse, acreditasse estar ainda na mesma época. É como se o tempo não tivesse passado para ela - a enfermeira dirigiu-se à mãe de Rebeca, ignorando por completo a face afoita da moça. — Somente o doutor poderá dar qualquer diagnóstico ou explicar melhor o que está acontecendo. Ele não está no hospital, mas vou solicitar que seja acionado e que receba a informação de que sua paciente acordou. Certamente ele virá de imediato.
Rebeca não entendia nada da conversa entre a enfermeira e sua mãe. Ela havia se deitado em seu quarto na noite anterior e agora, após aquele estranho sonho, acordava em um leito de hospital. Nada parecia fazer sentido.
Após dirigir-se à Amélia, a mulher encarou Rebeca com semblante pensativo.
A enfermeira Hilda era experiente, formara-se aos vinte e dois e tinha quase trinta anos de carreira. Estava naquele hospital desde os tempos em que ele era gerenciado pelo Doutor Eusébio Gonçalves, conhecido pelos corredores como Caramujão, pois sempre levava consigo uma maleta enorme. Caramujão havia morrido fazia exatos seis anos e Hilda, além de ser a única funcionária que o conhecera e lembrava-se dele, contrariando todas as expectativas, ainda permanecia ali. Ela viu os bancos da recepção, antes de madeira, serem substituídos por cadeiras azuis estofadas; viu os registros, feitos à mão em fichas padronizadas, passarem a computadorizados e engajados em sistema moderno; viu muitos médicos chegarem e deixarem a instituição, assim como enfermeiros e estagiários. De nascimentos a mortes, ela já havia visto muitas coisas em sua extensa estadia ali, mas aquela experiência era nova, completamente diferente de todas as demais. Como profissional, ela sabia que o fato de lidar com um paciente e com sua família era essencial e, por mais que quisesse comemorar aquela conquista, foi preciso manter a compostura. A ética sempre lhe serviu como guia e Hilda não podia meter os pés pelas mãos ou se deixar levar por nenhum tipo de empolgação. Depois de tanto tempo, até mesmo uma melhora perceptível poderia ser provisória, assim como poderia também ser prenúncio de problemáticas maiores. O que quer que ainda estivesse por vir para aquela jovem deveria ser desvendado e revelado por um médico, não por ela, por mais que seus desejos fossem os melhores. Infelizmente, nas relações entre profissionais de saúde e pacientes, os desejos nem sempre se concretizam ou podem ser levados adiante.
—Mantenha a calma, Rebeca. O médico será chamado e logo você entenderá tudo o que aconteceu - a enfermeira disse de maneira enfática, quase ríspida apesar desta não ser sua intenção, antes de deixar o quarto e ainda com um sorriso no rosto.
Após a saída de Hilda, Rebeca, ainda com as palavras da enfermeira povoando seus pensamentos, encarou a mãe que agora mantinha-se próxima à cabeceira da cama. Ela estava diferente. Seus olhos, rodeados por sulcos profundos, pareciam cansados, e o loiro dos cabelos, bem mais curtos, misturava-se ao cinza ou prata ou, conforme se dizia popularmente, "grisalho".
— Fico feliz por vê-la acordada - foi o que Amélia, segurando uma das mãos da filha e com a voz ainda embargada pela surpresa, conseguiu dizer.
Amélia também precisava se conter. Ela sabia que não deveria estender-se ou dar maiores detalhes sobre o acontecido à filha. Foram muitas as conversas com o Doutor Daniel e em todas, ou quase todas, ele a advertia: "E caso ela desperte de hora para a outra, Dona Amélia, pode ser que não se lembre com exatidão de tudo o que aconteceu e nós não devemos ter pressa em lhe dar nenhuma informação. Rebeca precisa tomar ciência dos fatos de maneira gradativa, em seu próprio tempo, pois as consequências de possíveis sustos nestas condições são sempre desconhecidas..." Ela se lembrava perfeitamente das palavras do médico e, apesar do desafeto que nutria pelo homem, respeitaria o que ele lhe dissera. Qualquer orientação ou informação que tivessem que ser passadas à Rebeca, seriam feitas apenas após a chegada do doutor Daniel e quisera o bom Deus que ele não demorasse, pois a filha de Amélia nunca soube esperar.
— Mãe, o que aconteceu? Porque eu estou neste lugar?
Se Amélia admitia, mesmo que somente para si, a necessidade de aguardar a chegada e o parecer do médico para conversar com a filha, Rebeca queria ser esclarecida de imediato. Era preciso entender o motivo que a levara até a cama de um hospital e o quê exatamente a enfermeira quis dizer ao mencionar "estar ainda na mesma época". Foi apenas uma noite que mesmo parecendo longa, havia terminado. Tudo não havia passado de um sonho sem pé e nem cabeça.
Sem saber o que deveria responder e tentando respeitar a decisão médica, Amélia, mesmo frente à grande vontade de revelar a sua filha o acontecido, foi de poucas palavras:
— O doutor Daniel chegará em breve, Rebeca. Precisamos esperar por ele...
Rebeca detestava saber que aqueles que estavam ao seu redor lhe escondiam algo e ali, naquele momento, estava claro que a mãe omitia fatos. O que poderia ter acontecido durante aquela noite de tão grave a ponto de levá-la para o quarto de um hospital? E, o pior: porque as pessoas lhe escondiam tal verdade?
Sem ter o que dizer, apesar de sentir que todas as perguntas lhe inundavam o estômago e subiam em turbilhão até sua garganta, a jovem calou-se e encarou a face da mãe. Amélia havia envelhecido, não restava mais dúvida alguma! E ela, Rebeca, além das lembranças confusas de seu sonho comprido, não se recordava de mais nada; ou, ao menos não recordava de qualquer fato que pudesse justificar uma internação hospitalar. Mas era ali que ela estava: em um quarto de hospital, com cateteres ligados a um frasco de soro e inseridos em sua veia e um maldito monitor cardíaco apitando baixinho sobre sua cabeceira. O que de tão grave poderia tê-la feito despertar em situação tão confusa, tão adversa?
— Esperar pra quê, mãe? Eu não me lembro, não sei o que aconteceu... Não faço ideia do motivo de eu estar em uma cama de hospital - ela começava a ficar tensa. Aliás, ela começava a não conseguir conter sua tensão. — Porque eu preciso esperar que um estranho chegue para explicar o que aconteceu comigo?
Amélia sabia que o doutor Daniel precisava chegar logo. Ela conhecia bem o gênio da filha e previa que dentro de pouco tempo a jovem não mais esperaria por suas respostas; ela as buscaria, de algum jeito buscaria. Desde bem pequena Rebeca sempre fora assim e, mesmo não apegando-se às corriqueiras pressas do dia a dia, a filha de Amélia nunca soube esperar pelas situações que eram de seu interesse ou por qualquer outra coisa que julgasse necessária. Se houvesse uma dúvida, Rebeca buscava uma forma de dissolvê-la; se houvesse um problema, era Rebeca quem brigava por sua solução.
— Ele não deve demorar, Rebeca, e peço que você tenha um pouco de paciência - Amélia insistiu.
Se havia algo que Rebeca conseguiu apenas pouquíssimas vezes, foi mudar o pensamento ou as decisões de sua mãe. Os atritos eram constantes, as divergências também. Seus gênios eram semelhantes e assim como a filha, quando Amélia cismava com algo, o levava consigo até o final. Se ela decidira não revelar nada até a chegada do médico, decerto assim seria. E, cá entre nós, ter paciência não era uma especialidade de Rebeca.
— Deve ser simples para você dizer isso. Você sabe o que aconteceu enquanto eu não sei de nada... Mas, se ponha em meu lugar! Acordei em uma cama de hospital sem saber por que estou aqui e ainda escuto uma enfermeira pedindo sigilo em relação ao acontecido... - a tensão dava lugar à irritação, que a tomar conta de Rebeca.
— Tudo será esclarecido em seu devido tempo.
Mais uma vez Amélia fugia do assunto como se não soubesse que para Rebeca o tempo sempre fora o agora. Não que ela fosse uma jovem mimada e cheia de vontades, ela não era nada disso. Era batalhadora, era o tipo de pessoa que intrigava-se facilmente e mediante suas indagações corria atrás de todas as respostas sem que necessariamente fosse preciso companhia. Porém, ali Rebeca sentia-se completamente impotente. Não havia recurso que pudesse ser empreendido de imediato na busca pela resposta para aquela condição, e Rebeca não sabia sequer identificar qual entre todas as suas perguntas era a mais relevante. Não havia quem lhe falasse o que quer que fosse sobre sua estadia em um hospital. A mãe só a encarava e ela não sabia se seus olhos refletiam medo ou pena.
Na parede, os ponteiros arrastados do relógio de fundo branco, marcavam dez e meia e o sol que entrava pela janela acusava que era manhã. Para Amélia aquela era "a" manhã; para Rebeca era um estranhamento. De fato, ela dormira além da conta! Por mais tarde que fosse se deitar, Rebeca nunca passava das oito. Dormia pouco desde pequena, quando habituou-se com o despertar para as aulas diárias. Ainda assim, seu acordar tardio era perfeitamente entendido pelo tanto de sonhos confusos que a alimentaram naquela noite.
Os pensamentos de Rebeca foram interrompidos pela enfermeira Hilda, que retornou ao quarto em companhia de um rapaz, provavelmente um auxiliar.
— Nós vamos coletar seu sangue, Rebeca, e eu preciso que tome este medicamento. Não é nada forte, mas vai te deixar mais calma até a chegada do doutor Daniel. Consegui fazer contato e ele já está a caminho do hospital. Não deve demorar, certamente.
Por mais que fosse contra toda aquela situação, não havia como Rebeca questionar ou insistir em obter respostas. Estava mais que comprovado que apenas o tal doutor Daniel daria as informações pelas quais ela ansiava. Em resignação forçada, Rebeca ingeriu o comprimido minúsculo oferecido pela enfermeira enquanto o rapaz preparava todo o aparato para a coleta de sangue.
Amélia, de um canto próximo à janela, apenas observava. E de seu leito, Rebeca observava a mãe enquanto Hilda e seu auxiliar moviam-se ao seu redor. Sua visão gradativamente foi ficando turva, tão turva quanto a eficácia do remédio "nada forte" que havia acabado de tomar. Ao perceber que dormiria, ela teve medo. E se o sonho voltasse?