Dias Vazios
Capítulo 13
— Sim, Rebeca. A casa de Petrópolis ainda está lá, no mesmo lugar e exatamente do mesmo jeito. Meu pai tem aquilo há muitos anos. Ele diz que foi sua primeira aquisição desnecessária e foi mesmo. Ele a comprou somente após ter certeza de que a vida estava estabilizada e poderia dar-se o luxo de manter uma casa extra e fora da cidade. Passamos bons momentos lá, apesar de tudo, e a casa lhe traz boas lembranças - Daniel riu sem jeito, sabendo que para Rebeca não havia lembrança e, caso houvesse, não seria boa.
Após o sucesso de sua clínica e a abertura de mais duas unidades que lhe rendiam boas quantias e garantiam sua estabilidade financeira, o pai de Daniel comprara a casa de Petrópolis para que tivesse onde refugiar-se nos momentos em que o cansaço lhe tomava o corpo e nas férias escolares do filho. A serra sempre o atraiu, bem como a tranquilidade da cidadezinha pitoresca.
— Então, minha ideia não é impossível.
O shopping estava cheio naquele domingo. Além de ser Dezembro e as pessoas estarem envolvidas em compras de Natal, era hora de almoço. Se Dan não tivesse usado de seu conhecimento para conseguir uma reserva de última hora em um dos restaurantes, eles não teriam uma mesa onde pudessem comer.
— Não. Se nós considerarmos somente a existência da casa, não é impossível - ele confirmou, sem querer entusiasmá-la em excesso. — A questão é a disponibilidade das pessoas. Os tempos hoje são outros, Rebeca. São todos adultos, com responsabilidades distintas. O trabalho de cada um deles pode ser empecilho.
Para Daniel cada um dos amigos tinha sua realidade e precisava arcar com as responsabilidades da vida adulta, portanto não havia certeza alguma de que eles estariam dispostos a fazer a viagem. Em paralelo, ele não sabia se seria adequado recriar o cenário de anos antes. Daniel, como médico, era contra estímulos que pudessem influenciar as lembranças de Rebeca e em sua concepção aquele era um estímulo e tanto. Valeria a pena tratando-se de um caso raro na medicina? Os possíveis resultados assombravam o médico.
Já Rebeca precisava do estímulo.
— Pensei nisso também - ela concordou. — Mas acho que não custa tentar. Todos são independentes, sem filhos e nesta época do ano as pausas no trabalho são normais. Caso eles concordem, você faz alguma objeção?
Havia doze anos que Daniel não sabia o que eram comemorações de final de ano. Passara os últimos no hospital por amor, com Rebeca. Em paralelo, frente à apreensão da amiga, não achava justo tolher-lhe a oportunidade. Ele era médico, estaria lá e se manteria atento e preparado para quaisquer eventualidades.
Contudo, lá no fundo, ele não sabia se queria revirar aquele "vespeiro". As incertezas e os receios eram demasiadamente vastos para que sua reação à proposta fosse natural. No que dependesse de sua vontade, a vida seguiria como estava e se porventura Rebeca nunca se lembrasse, o tempo encontraria o rumo certo para que a jovem pudesse prosseguir.
— Não, inicialmente acho que não faço.
Antes que Rebeca falasse novamente, a conversa foi interrompida.
— Oi! Como é bom encontrar vocês aqui.
Era Afonso, de mãos dadas com Ana Paula. Ele sorria, ela não.
Tantos shoppings e restaurantes pela cidade e eu tinha que ter sugerido justo este aqui?-, Ana Paula questionava-se, completamente arrependida. Merda! Antes tivesse pedido comida por telefone e inventado de assistir um filme qualquer na televisão. Enquanto o marido cumprimentava os amigos, ela não sabia o que fazer com as sacolas que carregava.
Rebeca não sentiu-se tão insatisfeita como Ana Paula sentia-se intimamente, mas se lhe fosse permitido escolher, ela teria continuado sua conversa com Dan sem a presença dos amigos. Fora Afonso quem não havia atendido suas ligações mais cedo e, em sua perspectiva, tratava-se de uma recusa. Se ele não quis falar com ela pela manhã, porque se aproximara com tanto entusiasmo agora?
Cumprimentaram-se e Daniel convidou os amigos para o almoço. Afonso aceitou de imediato, o que fez com que Ana Paula, mesmo sem querer, também aceitasse.
— Por um lado é bom que estejam aqui, pois assim já adiantamos para vocês as intenções de Rebeca.
Rebeca não gostou de Dan ter revelado aos amigos que ela havia pensado em algo. Não era sua intenção naquele momento passar a ideia adiante, apesar de já ter procurado por Afonso para falar sobre a possibilidade.
— De que se trata?
A pergunta partiu de Ana Paula, que associou o fato aos telefonemas que interceptou mais cedo.
— Uma volta à casa de Petrópolis no intervalo entre o Natal e o Ano Novo, para ver se Rebeca consegue se lembrar de alguma coisa...
— Ué! - Ana Paula o interrompeu, visivelmente incomodada com a possibilidade. — Mas não é você que acha errado provocar lembranças?
— Sim, eu acho...
Foi Afonso quem o interrompeu desta vez:
— Pois eu topo. O final de dezembro é ocasião em que habitualmente damos uma pausa nos trabalhos no escritório. Ana Paula também já estará de férias no curso e sendo para ajudar Rebeca, nada mais justo que possamos todos colaborar - e sorriu, o que deixou a esposa ainda mais irritada.
Ele realmente tinha intenção de ajudar. Afonso imaginava o tamanho do desconforto de Rebeca por não se lembrar de nada e havia Dan... Ele tinha visto Dan e Rebeca no jardim na noite do acontecido. Ambos estavam envolvidos em uma discussão.
Se o marido, descaradamente, havia acabado de aceitar o convite, não seria Ana Paula quem ficaria de fora. Ela precisaria estar lá para vigiá-lo, para garantir que seu casamento não desmoronasse.
— É claro... Nós vamos - disse entre dentes, forçando o sorriso.
Rebeca podia parecer estacionada no tempo, mas não era idiota. Ela notou a insatisfação da amiga e inevitavelmente associou-a a ciúmes em relação ao marido. Percebeu claramente que antes de ajudá-la, Ana Paula tinha como objetivo tomar conta de Afonso e tentar reduzir as possibilidades de contato do marido com ela. Não importava. Ter ciúmes, por mais que perecesse infundado, era um direito de Ana Paula e ela, Rebeca, precisava da presença de todos.
— Nós ainda não falamos com todos os outros... - explicou. — Eu e Dan estávamos começando a pensar na ideia quando vocês surgiram.
Então ela primeiro procurou pelo Dan? Eu já devia esperar por isso... Rebeca sempre demonstrou ter uma queda por ele. -, foi o pensamento de Afonso, saudoso dos tempos em que após todos terem ido para suas casas, era ele quem sobrava na varanda de Rebeca para conversas que estendiam-se até a hora em que Dona Amélia, furiosa, mandava a filha entrar para dormir.
— Não sabemos se todos estarão disponíveis ou dispostos - Ana Paula comentou.
O desdém estava claro em sua voz. Lá no fundo Ana Paula imaginava que se um ou dois dos amigos rejeitasse a ideia, o encontro não aconteceria e ela estaria livre dos riscos. Se não fosse possível reunir todo o grupo, os demais desistiriam também e ela agarrava-se àquilo, apesar de ter plena certeza de que não competia a ela discordar.
— Vocês toparam... Lionel eu acho que topa. Ele cancelou os shows que faria antes do final do ano e só retorna aos palcos em meados de Janeiro, portanto, imagino que estará livre de compromissos. Acredito que Jamile possa fazer isso também. Desconheço seus compromissos, mas ela sempre foi a melhor amiga de Rebeca e certamente não negará ajuda. Fernanda... Fernanda é completamente descompromissada e não perde nada. É certo que aceite. Ficamos na dependência de Luciana e Mundo.
Involuntariamente, Ana Paula arregalou os olhos antes de se pronunciar:
— Mundo? Você só pode estar de sacanagem, Daniel!
Afonso não gostou da reação da esposa e sua única reação foi dar uma cotovelada em Ana Paula, mas somente após ela já ter falado, o que apenas reforçou a impressão que Rebeca tinha.
— E porque ele estaria? - Rebeca questionou. — Mundo também esteve lá. Ao menos, eu acho que esteve e foi o que me disseram. Todo o nosso grupo conseguiu autorização dos pais para passar aqueles dias na casa de Petrópolis, todos nós tomamos o ônibus na rodoviária naquele final de Dezembro. Estávamos todos lá, os nove! E se a intenção é trazer de volta as minhas memórias, o ideal é que estejamos todos lá mais uma vez. Mundo faz parte desta história.
Daniel percebeu que Rebeca estava alterada e Ana Paula havia colaborado com a irritação da moça. Quando ela vai perceber que não era Rebeca quem gostava de Afonso e sim o contrário? Ana Paula vai fazer o impossível para estragar esse passeio... -, pensou também irritado.
— É que quase nenhum de nós tem contato com ele. E, além disso, também não sei se Luciana aceitaria... Ela é casada e, diferente do meu caso, seu marido não faz parte de nosso grupo. Ele não tem nenhum contato conosco, nós nem mesmo fomos ao casamento dela... Pode ser que não esteja de acordo e não acho conveniente termos uma pessoa estranha ao grupo entre nós. -Ana Paula respondeu à pergunta de Rebeca de forma evasiva. — Provavelmente, se eu fosse casada com outra pessoa ou se Afonso fosse casado com outra pessoa, as coisas seriam diferentes. - a voz saiu embargada. Imaginar o marido casado com outra pessoa era inadmissível para Ana Paula.
Percebendo o incômodo de Ana Paula e sem saber se deveria ou não insistir para obter resposta plausível, Rebeca prosseguiu:
— Já falei com Jamile e ela aceitou.
— Vamos tentar falar com os outros - Daniel encerrou o assunto e o garçom trouxe os pratos que eles haviam pedido.
O restaurante demorou a entregar a lasanha, o frango assado e os dois potes de sorvete, de baunilha e pistache respectivamente, que Jamile havia encomendado para o almoço. Enquanto aguardava, a jovem encheu um copo com Coca-Cola e fez o que não fazia havia alguns anos: revirar fotografias antigas.
Eram duas caixas de sapatos pesadas de recordações que, na maioria das vezes, Jamile preferia esquecer. Aqueles eram os registros concretos dos tempos em que ela era maior, muito maior, e se pudesse evitá-los, ela o fazia. Naquele momento, entretanto, sentiu necessidade de recorrer ao passado. Porém, quando as coisas ficavam ruins, não havia recordação que amainasse sua fome.
Uma fotografia do grupo completo, na rodoviária no dia da viagem, foi a primeira que Jamile encontrou. Afonso, entre Rebeca e Ana Paula, compunham a fileira de trás, com Mundo sorridente em uma das pontas e Fernanda na outra. Na frente deles estavam Daniel, Luciana e Lionel e abaixo, sentada de lado no chão, com os braços abertos e fazendo um biquinho escandaloso, como se jogasse um beijo para a câmera, ela, Jamile, a jamanta. Porque os gordos insistem em querer aparecer nestes momentos? Onde eu estava com a cabeça naquela época?-, pensou sentindo-se ridícula novamente. Mas ela sabia a resposta. Defesa. Sua simpatia deveria destacar-se para que a gordura e o excesso de peso ficassem em segundo plano, já que não havia como passarem despercebidos. Era melhor rirem do que ela fazia do que rirem dela. Sempre foi assim.
Havia mais fotografias na caixa; familiares, aniversários, presentes de Natal. Jamile bebê rechonchudo, Jamile criança fofinha, Jamile adolescente obesa. Gorda! Gorda! Gorda! -, o termo lhe voltava à mente repetidamente, entoado por diversas vozes, vozes que ficaram para trás, vozes que ecoavam no pátio da escola durante o recreio ou na hora da saída, quando cabisbaixa ela seguia solitária para casa e, pra compensar, se fartava durante o almoço.
Rebeca não tinha este problema, nunca teve, nunca foi gorda, pelo contrário: destacava-se por sua beleza, que sempre atraiu os olhares dos rapazes. Nas fotografias seguintes era possível notar os olhares de admiração que Afonso e Daniel direcionavam à amiga linda e magra.
Eles nunca a olharam da mesma forma... Era verdade que não faziam parte do grupo que debochava constantemente de Jamile, mas, vez ou outra, soltavam alguma piada de gordo com duplo sentido. Lionel, com seu jeito brincalhão, era mais debochado, sempre lhe jogava alguma indireta... Aliás, somente Mundo nunca havia direcionado comentários sobre seu peso ou feito piadas. Mundo era diferente e apesar de suas dificuldades serem diferentes também, Jamile entendia o que ele passava. Se riam dela por ser gorda, riam dele por ser pobre. E foi exatamente a pobreza do rapaz que fez com que os amigos se afastassem dele após o acidente. De certa forma, para Jamile, era melhor assim; não havia motivo para ela dedicar-se aos problemas de Mundo. Jamile conhecia seus traumas, ninguém mais; e eles lhe bastavam.
Nas poucas vezes que telefonava para a casa de Luciana, Fernanda detestava quando era Nilo quem atendia. O marido da amiga fazia questão de ser grosseiro e sua desculpa era sempre a mesma: Luciana não está. Fernanda já sabia que, se Nilo estivesse em casa, não conseguiria falar com a amiga. O homem era possessivo e ela tinha quase certeza de que o afastamento de Luciana em relação aos amigos era acarretado por seu temperamento. Ligou então para Lionel, que estava hospedado em um hotel próximo, e combinaram de se encontrar na praia, no quiosque que Osvaldo, seu pai, frequentava todas as tardes. Fernanda precisava falar, precisava de alguém que a ouvisse.