Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 18 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 17

 

Assim como doze anos antes, a viagem fora agendada para o dia 26 de Dezembro. Rebeca despertou radiante e colocara suas roupas na mesma mala que usara anteriormente. Em relação ao que dependesse apenas de Rebeca, ela estava decidida a fazer tudo o mais próximo possível do passado, ao menos daquilo que antecedera a partida do grupo para Petrópolis e que ainda mantinha-se vivo em sua memória. As diferenças iniciais estavam no transporte: quase todos tinham seus carros e a rodoviária não seria o ponto de partida.

O percurso seria de aproximadamente uma hora, talvez mais conforme o trânsito. Rebeca e Mundo iriam de carona com Dan, assim como Lionel pegaria carona com Fernanda, pois subir a serra de moto era muito cansativo, além de arriscado e a moto era alugada, o que complicava ainda mais a situação. Afonso e Ana Paula decidiram por usar um carro só, viajando juntos, já que não havia necessidade de levarem dois veículos. Somente Jamile viajaria sozinha, mas seria bom poder passar àquela hora ao volante analisando a situação. O que ela mais precisava era pensar, refletir sobre tudo o que estava por vir e a solidão seria excelente companheira. Assim como as balinhas que estavam no porta luvas.

O combinado foi que se encontrassem na propriedade no final da tarde e a moça que cuidava da casa, ciente de que o grupo estava por chegar, teria preparado tudo e estaria lá para recebê-los.

Foi na subida da serra que Mundo deu-se conta da real situação à qual submetia-se. Algumas vezes era como se o tempo abrisse brechas para o passado acontecer de novo; o agora parecia brotar em meio às marcas do que já havia sido, do que já deveria ter ido, mas ainda estava por ali, escondido em algum lugar. Tudo de volta... Tudo muito de repente e com a simplicidade de um momento qualquer, fazendo a dor nascer das cicatrizes. Não era amargura. Não era azedume. Eram apenas as sobras das ranhuras de uma vida ácida em um tempo distorcido e em um corpo frágil, calejado, que voltavam à tona na expectativa de provar algo que ele não conseguia identificar.

 

— Nervosa ainda? - Lionel perguntou, enquanto Fernanda tentava manter-se atenta à subida da serra.

— Eu?... Não. De onde você tirou isso?

A resposta travestida de pergunta saiu seca, azeda e aguda, sem que Fernanda medisse a intensidade de sua voz.

— Eu notei seu nervosismo, Fernanda. Parece que você só aceitou participar dessa viagem para não contrariar a maioria, o que não causaria boa impressão. Contudo, se dependesse somente de você, a ideia seria descartada.

Lionel sempre fora um excelente observador e após a maturidade, tornou-se um homem sagaz. Em paralelo, na ocasião do acontecido, Luciana havia comentado brevemente que vira Fernanda e Rebeca discutindo na cozinha. O fato de conhecer Fernanda e saber que a amiga não tinha limites e não sabia lidar com discussões, na perspectiva de Lionel somava um ponto contra a jovem. Se Luciana era suspeita e se ele era um suspeito, a discussão de Fernanda com Rebeca podia perfeitamente colocar a amiga na mesma lista.

Realmente, Fernanda não estava nem um pouco à vontade com aquilo tudo. Uma coisa era fazer fofoca da vida dos outros, intrometer-se, vasculhar; outra completamente diferente, era inserir-se em contexto onde sentia-se cobaia de um experimento macabro e sobre o qual ninguém tinha expectativas definidas. Ela havia discutido com Rebeca pouco antes da moça ser encontrada desacordada e suas lembranças eram incômodas. Sabia que alguns dos amigos talvez nutrissem impressões dúbias a seu respeito.

— Não sou eu quem deveria estar com os nervos à flor da pele - rebateu. — Se bem me lembro, o que estava ao lado de Rebeca quando Mundo a encontrou, foi o seu violão. Aliás, ele diz que a encontrou, não é? Mas para mim, Mundo já estava lá... Cada um conta a versão que acha que deve, aquela que de alguma forma pode lhe favorecer...

E em pedaços! Meu violão estava em pedaços... -, Lionel pensou confuso. Não saber o que havia acontecido o atormentava, fora assim durante todos aqueles anos em que como em um sopro de luz desconectada do presente, buscou inspiração para compor os dias que estavam por vir. Ele nunca esqueceu que o passado, traiçoeiro de todas as épocas, espreitava por atrás dos ponteiros arredios do relógio. Seu momento seguinte nada mais era que um reflexo do antes, uma interseção entre o que fora e que estava por ser, um epitáfio distorcido. Mas muitas noites passadas em claro, Lionel viu o presente fundir-se com o passado, viu retrocessos que andavam pra frente e seguiam segmentados de lembranças e de fragmentos dos sonhos rasgados. Construiu sua vida e sua carreira no reflexo das bifurcações que apontavam as variantes entre o ir e o ficar, para solidificar-se no ponto exato onde ele apenas existia; onde se fazia presente, sem ser mais passado e sem ser ainda futuro... Oscilava sem sair do lugar frente às incertezas de um pequeno momento apagado.

Mas os devaneios deveriam ser postos de lado, pois Fernanda merecia uma resposta.

— E se eu ainda me lembro, não foi só o Mundo quem encontrou Rebeca. Jamile chegou até ela no mesmo instante... E se pararmos para pensar, todos nós nos deparamos com Rebeca desacordada quase que ao mesmo tempo. Estávamos todos na casa, apesar de termos dito que sairíamos - foi a vez de Lionel rebater.

Aquele era o grande mistério da história que os envolvia. Aquele era tema sobre o qual todos evitavam falar. Podia parecer irrisório, soar como bobagem em um primeiro momento, mas... Em um grupo de nove jovens e pelo fato de sentirem-se atados a uma "agenda" construída por um deles, todos decidiram que sairiam sozinhos naquela noite e todos aparentemente saíram, foram vistos deixando a casa ou em situação que acusava partida breve. Entretanto, nenhum deles saiu de fato e não havia justificativa plausível para que permanecessem no local. Ninguém tinha motivo que pudesse ser considerado justo; todos ficaram por motivos banais ou usaram de motivos banais para justificar sua permanência. Rebeca fora encontrada horas depois, desacordada no jardim. Incompreensivelmente e desafiando todos os preceitos da medicina, dormiu por doze anos.

— Sinceramente, Afonso, eu só espero não ter problemas e espero não precisar ter que lidar com nada que fuja aos critérios de normalidade - Ana Paula dizia enquanto selecionava uma música na playlist.

—Não é uma viagem de férias, Ana Paula, não estamos saindo para divertimento, não vamos enfrentar uma casa assombrada, então o que fugiria à normalidade? Pode até parecer algo associado à condição de férias por causa da época e do local, mas todos nós estamos nesta empreitada por um objetivo...

— Objetivo que não é meu e nem seu! - A esposa de Afonso o interrompeu abruptamente. — Eu não perdi a memória! Se nós estamos aqui neste carro seguindo para Petrópolis agora, é para prestar um favor à Rebeca, esqueceu? Eu não preciso estar lá e nem você. Sei muito bem o que aconteceu em minha vida neste intervalo.

— Mas nenhum de nós sabe o que aconteceu naquela noite. Ou talvez um saiba. É isso que precisa ser descoberto.

— Você fala como se não tivesse medo do que pode vir à tona...

Incrédulo, ele encarou a esposa. A frase de Ana Paula era quase uma acusação. A mulher falava como se desconfiasse do marido, como se soubesse que ele tinha alguma carga de culpa no acontecimento.

Apesar da surpresa e de não esperar que Ana Paula fosse tão direta, Afonso não podia negar que todos eram suspeitos. Ele mesmo havia afirmado que sairia e sua intenção era procurar alguma loja de departamentos que estivesse aberta para vasculhar os últimos lançamentos em vídeo. Ele ainda não havia visto o último filme de Denzel Washington, esgotado em todas as lojas que ficavam perto de casa, e vinha guardando dinheiro para comprá-lo. Mas a chuva fina e a preguiça de andar sozinho pelas ruas, atreladas ao fato de perceber que Rebeca e Dan conversavam no jardim, o desanimaram e fizeram com que ficasse na casa. E quem acreditaria que justamente ele que aceitava de primeira todas as propostas e possibilidades de passeios, se mantivera em casa por preguiça ou frustração? Se havia desculpa esfarrapada e nem um pouco condizente com ele, a desculpa era aquela.

Quanto mais próxima da casa, mas tensa Jamile ficava. No rádio, a canção levava à reflexão.

Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu

É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu

É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações

E assim ter amigos contigo em todas as situações [14]

Ter chegado onde ela estava, assim como suas conquistas, não lhe diziam muita coisa, não sem os amigos por perto, não sem a certeza de que a amizade prevalecia. E havia o medo. Aquela era uma volta e tanto ao passado obeso que a afligia. Ali, dentro daquele carro, ela retorcia-se nos implementos impostos pela existência e renascia nas cinzas que os sentimentos, vez ou outra, reviravam. Era como se conseguisse burlar as defesas suscetíveis aos lapsos, ou como se tropeçasse nos lapsos que suas defesas não conseguiam omitir. No espelho retrovisor, seus olhos refletiam os fragmentos de uma realidade ilusória, mas que lhe era essencial.

Na adolescência, nas tantas vezes em que começara uma dieta, viu-se tentada a voltar atrás. A fraqueza que sentia era tão pesada quanto seu corpo e deparar-se com guloseimas que não deveria comer, era realmente algo tentador. Ela não sabia resistir, sua mente não lhe permitia tal ato.

Jamile admitia que precisava perder peso e aceitar passar aqueles dias em Petrópolis na época foi prova de que correria todas as tentações. Era certo que os pais de Daniel providenciariam boa comida e ninguém se lembraria de cozinhar chuchu ou ovos e preparar gelatinas dietéticas para a sobremesa. Além disso, os passeios eram oferta farta de calorias, fosse no café colonial ou nas inúmeras lanchonetes visitadas. As amigas, ao mesmo tempo em que a incentivavam para que se mantivesse na dieta rigorosa, vez ou outra lhe forneciam as desculpas esfarrapadas de sempre: "...é só um pedacinho, que mal tem?"; "...uma colherada não interfere em nada!"; "... mas e se você só provar?" As frases proferidas só não ecoavam mais alto que os xingamentos. Jamanta! E aquele só um pedacinho, era via que não permitia volta; depois do primeiro pedacinho, vinha o segundo, o terceiro e mais um sem fim de outros.

Hoje a situação era diferente e ela saberia lidar com qualquer disparate. Achava que sabia. Não se deixaria levar por lembranças de um passado ruim e que, apesar de distante, ainda revirava suas angústias e ameaçava puxá-la para trás. Bastava ter em mente seu progresso, seu sucesso nas capas de revista e os inúmeros convites para desfiles. Os dois quilos adquiridos após o despertar de Rebeca não eram nada de tão relevante e ela os perderia com facilidade.

 

A tarde já começava a cair quando o carro de Daniel estacionou no jardim, em frente à fachada da casa. Rebeca, que estava no banco de trás, foi a última a deixar o veículo. Ela fez questão de respirar fundo antes que seus pés tocassem a alameda que circundava o jardim da frente.

Não teve lembranças. Ela, que tanto acreditou que ao chegar ali fosse ouvir o grito de suas recordações, foi tomada pelo silêncio das vozes que a abandonaram no meio daquela história e incapacitaram sua premissa. Um sentido poderia ter vindo em auxílio do outro... No tremular do silêncio ela quis que se fizessem as imagens do passado, quis sentir os aromas de tempos remotos e dos sonhos guardados no fundo da gaveta. Mas nada se fez.

Não havia nada pudesse ser mais frio do que aquela beleza triste; nada que pudesse ser mais vazio do que aquela presença ausente; nada que pudesse ser mais estranho do que aquele todo de realidade conhecida que ela acreditava desconhecer. Era um passado novo, um futuro velho, acontecendo outra vez, em outro tempo, em um mesmo lugar. Rebeca sentia-se como uma bailarina de caixinha de música tão logo a tampa é aberta; uma bailarina que bailava um mesmo acorde de um novo eco, e que levantava-se na propulsão de uma mola, para acontecer novamente em um tempo difuso do seu e cujos contornos, ainda indefinidos, sequer projetavam sombras. Contudo, seu passado estava ali e ela chegava para resgatá-lo.

— Confiante, Beca?

Mundo, que tentou aparentar tranquilidade durante toda a viagem, sorria para ela.

— Não sei dizer... Acho que estou confiante e temerosa ao mesmo tempo. Confiante pela possibilidade de me lembrar do que aconteceu, e temerosa por não saber ao certo o que vou descobrir.

Frente às tantas possibilidades, o maior medo de Rebeca era ter a certeza de que um de seus amigos era culpado por seu estado nos últimos doze anos. Apesar do combinado de que ninguém lhe daria pistas, ela havia percebido que, de alguma forma, algo de difuso estabelecera-se entre os membros do grupo. Os olhares e as reações eram de acusação na maior parte das vezes. Era como se cada um deles tivesse seu "culpado favorito", enquanto ela não culpava ninguém.

Repentinamente a porta da frente da casa se abriu e uma senhora surgiu no vão estabelecido. Por trás dela, uma moça aparentemente abatida. Luciana.