Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 31 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 30

 

 

Rebeca acordou suada, exausta em decorrência do sonho, que parecia persegui-la e com sede. O relógio sobre a cômoda acusava que eram três e vinte da manhã.

Quando deixou seu quarto em direção à cozinha, percebeu pela movimentação que Luciana e o marido já estavam de volta. Havia luz , provavelmente do abajur, acesa dentro do quarto destinado à Luciana e que agora era ocupado por Nilo também.

Rebeca desceu, chegou à cozinha e serviu-se de um copo d'água. Depois, completamente desperta, seguiu para a sala principal e deixou-se relaxar na poltrona que horas antes fora ocupada por Jamile. Se aquele sonho tinha traços de verdade, o que lhe acontecera envolvia mais de uma pessoa. Contudo, o lapso onírico não lhe permitiu a identificação de feições. Ou talvez fosse apenas um sonho sem qualquer relação com a vida real. Não havia como ter certeza sobre sua veracidade; a mente, sob influência de alguns estímulos, pode nos pregar peças.

Talvez fosse melhor abdicar das lembranças, desistir, retomar sua vida com o que lhe restava do antes e do agora. Mexer e remexer em algo abstrato poderia resultar em nada, poderia levá-la a lugar nenhum. E os amigos? Estavam todos ali, à sua disposição, abrindo mão de seus dias para que se dedicassem a uma promessa que não se efetivava. O que ela lembrava era muito pouco e os sonhos... Os sonhos que tinha não acusavam ninguém especificamente.

Havia em meio a tudo aquilo uma única certeza: seus amigos estavam mudados, estavam mais próximos desde que chegaram a casa. A ruptura ocorrida doze anos antes, sem que ninguém notasse, fora remendada. Um já não acusava mais o outro, ofensas já não eram proferidas. Uma fagulha do que o grupo fora no passado estava acesa novamente e cabia e eles preservar aquela chama e fazê-la crescer, mesmo que para tal pagassem o preço do passado esquecido de Rebeca. Se dentro de alguns dias ela voltasse para a Penha exatamente como chegara à Petrópolis, sem nenhum esclarecimento, mas com todo o grupo de amigos devidamente entrosado, a viagem teria valido a pena.

 

João não contava com a incursão noturna, mas a vida de policial era daquele jeito. Tudo parecia bem, até ficar mal.

Ele nem mesmo tivera tempo de jantar. A confusão estabelecida ainda no começo da noite, quando um dos guardas ouviu Juvenal falando ao telefone dentro do banheiro, estendera-se mais do que o esperado. Algumas pessoas, fosse por medo ou por deverem favores, custavam para abrir o bico, para entregar o jogo, para delatar outras pessoas. Com Juvenal foi assim.

A coisa não terminou depois que Juvenal, pressionado, decidiu dar com a língua nos dentes.

A delegada, que não deixava nada para depois, mandou que um comboio fosse até a casa de Reinaldo e o trouxesse à delegacia. Às duas da manhã ela e João faziam a acareação entre Reinaldo e Juvenal.

— Tem mais de seis anos que me aposentei, delegada - Reinaldo argumentava.

— Eu sei disso e é exatamente por ter se aposentado que não faz sentido algum o senhor ter comparecido à casa do doutor Daniel Assis para interrogar a ele e seus amigos, correto?

— E quem disse que eu fui lá?

— A descrição do homem que esteve lá bate exatamente com a sua aparência física. Seu amiguinho ali - apontou para Juvenal - foi pego no banheiro, ao telefone, falando com o senhor e o assunto não era trivial. Eu só preciso que o senhor me conte exatamente o que está acontecendo aqui -ela mantinha a postura inquiridora, necessária para lidar com aquele tipo de policial. Ou ex-policial.

Filho da puta! -, Reinaldo pensava. Esse Juvenal deve ter falado mais do que devia e agora eu fico aqui, com o cu na mão, sem saber o que dizer.

— Nós não temos a noite toda, então eu sugiro que o senhor fale. Será melhor assim - Gabriela insistia, ciente de que faltava muito pouco para Reinaldo entregar-lhe tudo. Ela conhecia um cagão de longe, pelo faro.

— Não fui eu... Eu não sei de nada... - Reinaldo insistia, com a boca já torta de tanto nervosismo.

— Então eu vou ajudar o senhor... - Gabriela aproximou-se do homem, que se encolheu temeroso. — Doze anos atrás aconteceu um crime na cidade e, sem que fosse desvendado ou sem qualquer explicação, este crime foi arquivado. Agora, sem interferência ou ordem da polícia, alguém resolveu investigá-lo por conta própria ou fingir que o investiga. Este alguém é o senhor, não adianta negar. O que eu quero saber é qual é a sua motivação e qual é o seu real envolvimento com este caso.

O homem olhou para a delegada. Depois, olhou para João, o policial certinho, e para Juvenal, que mantinha a cabeça baixa, encarando os próprios sapatos encardidos. O cerco havia se fechado e como os policiais costumavam dizer entre si, era matar ou morrer. Reinaldo mataria.

Não havia para onde correr.

Não havia o que dizer além da verdade.

Não havia mais nada que Reinaldo pudesse fazer.

Ele falou.

Agora, passado o interrogatório e com Reinaldo bem guardado no xadrez, João estava ali, em um carro à paisana e com mais dois policiais, estacionado perto da casa do doutor Daniel Assis. Em outro carro, mais adiante, estavam a delegada e outro policial.

 

Na subida para a serra durante a madrugada, dentro do ônibus, a enfermeira Hilda rogava a Deus para que sua presença fosse de alguma ajuda. Ela, que passara o dia inteiro dividida entre agir ou não agir, torcia para que pudesse fazer algo em relação à cunhada desconhecida. Era certo que aquela moça tinha medo, era certo que precisava de ajuda. Passado o susto de ouvir o nome do meio-irmão sendo proferido pelo doutor Daniel ao telefone, a dúvida se desfez. Não se tratava de um nome comum e era pouco provável que houvesse mais de uma pessoa tão próxima com este mesmo nome e comportamento semelhante. Até mesmo as coincidências tinham limites; Nilo, não. O Nilo ao qual se referira o médico era o mesmo que lhe acertara o espelho e deixara impressa em sua face a marca da humilhação sofrida naquela noite. E a voz... Depois de ligar os fatos, foi fácil constatar que a voz na ligação que atendera era de seu meio-irmão, coisa que passaria despercebida se Daniel não tivesse citado aquele nome: Nilo.

 

Não eram os roncos de Afonso que impediam o sono de Ana Paula. Tensa com os acontecimentos do dia, ela solicitara que o marido dormisse em seu quarto, mas nem mesmo sua presença foi suficiente para tranquilizá-la. Ana Paula ouviu quando Nilo e Luciana chegaram. Depois, ouviu que alguém passou pelo corredor e descera as escadas. Cerca de meia hora depois, esta mesma movimentação se repetiu: alguém deixara um dos quartos e descera as escadas. Sem coragem, em nenhuma das duas ocasiões ela procurou saber de quem se tratava. Havia se passado algum tempo, estas pessoas ainda não tinham retornado e àquelas horas ela ainda estava acordada.

Mundo dormia. Apesar dos transtornos causados pela presença de Nilo e de todas as divergências do caso de Rebeca, ele sentia-se aliviado por perceber as mudanças na forma como Ana Paula e Fernanda o tratavam. De algum jeito aquilo gerara satisfação. Era bom sentir-se aceito novamente.

No quarto de Lionel, ele e Jamile conversavam baixinho. Havia chegado a hora da conversa prometida mais cedo e ela reunira coragem para falar. Seu sofrimento parecia sufocá-la e mesmo tendo apenas salada no estômago, a ânsia de vômito era grande. Não se tratava de culpa pela comida consumida, não daquela vez. O que ela precisava vomitar eram palavras. Palavras guardadas há doze anos e que ecoavam dentro dela como uma melodia tediosa e melancólica.

Fernanda em seu quarto mantinha-se pensativa. Ela, que era quem ainda mantinha algum contato com Luciana, parecia agora entender a forma como Nilo costumava tratá-la ao telefone. Ela também teve a impressão de ouvir duas pessoas transitarem pelo corredor em intervalos distintos.

Daniel, por via das dúvidas, decidiu verificar os registros da ocasião em que Rebeca fora hospitalizada e que ele trouxera consigo. De acordo com o laudo, dado por outro médico, pois Dan na ocasião era ainda um estudante, ao dar entrada no hospital desacordada, a situação de Rebeca era crítica. Ela apresentava escoriações por todo o corpo, tinha duas costelas fraturadas provavelmente por socos ou pontapés, marcas no pescoço que acusavam tentativa de estrangulamento e uma pequena hemorragia no baço. Contudo, apesar da gravidade dos ferimentos, o que segundo este médico a levara ao coma, foi a porrada que ela levara na cabeça, provavelmente com o violão que estava estilhaçado no chão.

Nos fones de ouvido, Renato Russo dava o tom aos seus questionamentos e confrontava sua realidade com a realidade dos amigos anos antes, traçando um paralelo com o agora. "Voltamos a viver como há

dez anos atrás e a cada hora que passa, envelhecemos dez semanas..."[18] Não eram dez anos, eram doze; eles haviam envelhecido, mas não haviam amadurecido, e já não viviam como no passado. Algo havia se perdido.

 

Rebeca acordou sem acreditar que havia cochilado por quase uma hora sentada à poltrona da sala. Eram quatro e quinze da manhã! O dia ainda não havia raiado, mas ela saiu para o jardim. Precisava pensar, refletir sobre o que sentia. A falta de perspectivas alterava completamente sua percepção; a sensação de tempo perdido, também.

Talvez sua mãe estivesse certa e a viagem não levasse a lugar algum. Talvez o mais adequado fosse esquecer-se de tudo aquilo e seguir adiante, libertando os amigos do fardo que ela havia depositando sobre seus ombros. Nem sempre aquilo que se quer está ao alcance das mãos, nem sempre as coisas são exatamente como gostaríamos que elas fossem e era preciso aceitar quando a realidade não colabora com as expectativas. Em algumas ocasiões, resta somente conformar-se e Rebeca aprenderia a viver em conformidade com o que viesse.

Caminhava pelo jardim analisando sua situação quando ouviu passos.

É coisa da minha cabeça. Estou impressionada com o sonho e com os últimos acontecimentos. -, pensou.

Porém os passos foram ouvidos novamente, mais próximos.

Ela virou-se e viu o homem.

— Oi, Rebeca.

A voz...

Ela já havia escutado aquela voz.

Aquela face... Não dava para distinguir...

Dizem que a hora mais escura é aquela que antecede o amanhecer.