Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 20 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 19

 

Passava das quatro da tarde quando Nilo despertou. Aquela era a melhor época do ano, sem dúvidas! O trabalho lhe exigia muito, mas a propina rolava solta e a cada incursão, ele buscava algum jeito de garantir o seu, mesmo que para isso fosse necessário fingir não ver algumas situações. E garantia, as somas arrecadadas de maneira ilícita eram sempre altas, compensando o salário de merda que julgava receber da corporação. Nunca foi muito honesto mesmo, seus desvios de verba vinham deste os tempos em que trabalhou como segurança, e não seria sua colocação profissional que lhe acarretaria tal dom. Havia policiais e policiais, e Nilo fazia parte do segundo grupo: os corruptos, orgulhando-se de sempre tirar proveito deste fato.

Com a arrecadação oriunda de extorsão, a grande maioria feita nas blitz rodoviárias para as quais era designado ou incursões surpresa a pontos de vendas não registrados, ou enviada por traficantes dos locais da área pela qual ele e seu grupo respondiam, Nilo enchia a cara. Bebia até que as pernas tivessem força suficiente somente para levá-lo para casa. Na noite anterior fora assim.

Onde estava a mulher? Andou por toda a casa e não achou Luciana.

— Aquela vadia... Puta safada! Deve estar de fofoca na casa de algum vizinho ou então batendo pernas pelo bairro. Provavelmente é o que ela faz enquanto trabalho como um condenado para lhe dar conforto que ela não deveria ter...

Nilo achava que dava muito à mulher e por não ser merecedora de tanto, por não mostrar-se digna, ela apanhava. Bater em Luciana lhe fazia bem. Bater sempre lhe fez muito bem! Ela sempre lha dava motivos... Quando não dava, ele criava só para satisfazer sua necessidade sádica.

A primeira namorada de Nilo apanhou; a segunda também. As muitas garotas com as quais ele havia ficado, sentiram o peso de suas mãos e sem querer, saborearam o amargo de suas palavras. E quando sua irmã mais velha demonstrou que queria abraçar a vida, apanhou também, pra deixar de ser besta. Afastaram-se depois disso e ele nunca mais procurou saber dela, apesar de ter a certeza de que lhe bateria novamente se houvesse oportunidade. Quem não lhe acrescentava, não lhe fazia falta. Bater era prazeroso, era bom. Sua doença sempre fora mantida encoberta sob as palavras adocicadas que ele usava para a conquista de moças que caíam como moscas no mel. No fel.

Com Luciana não foi diferente, ele apenas precisou se conter um pouco para garantir o casamento, fato necessário sob seu ponto de vista. Se batesse nela antes, poria tudo por terra. Mas a porrada prometida não passou da primeira semana - quem mandou ela se engraçar para o cara na barraca de cachorro quente? - e quando ele bateu, o fez com gosto. Ultimamente só usava de força em suas incursões policiais e estava há tempos sem dar uns tapas em uma mulher que fosse sua...

Nilo decidiu que ficaria no sofá, sentando em frente à porta da sala e assim que a esposa entrasse levaria uma sova. Sova das boas, para aprender a respeitar o marido que lhe provia o sustento.

 

Após o jantar, que transcorreu sem problemas, todos reuniram-se na varanda. Rebeca foi quem iniciou a conversa.

— Sei que não há intenção de me revelarem detalhes sobre o que aconteceu, mas alguém poderia me dizer onde foi? Em qual parte da casa?

Todos entreolharam-se.

Talvez aquele fosse o detalhe principal, o ponta pé que faltava para acordar alguma lembrança. Se o fato de estar na casa até o momento não havia lhe trazido recordações, ir até o local do acontecido poderia revirar as coisas e dar à Rebeca algum indício.

— No jardim - foi a resposta dada por Daniel, pois ninguém ousou falar. — Jamile e Mundo a encontraram.

— Epa! Alto lá! Ninguém sabe ao certo qual de nós dois chegou primeiro - Jamile protestou, convicta de que precisava defender-se.

Fernanda lhe deu respaldo:

— Sim... Acho que foi Mundo quem chegou primeiro. Certamente foi ele...

— Você chegou depois, Fernanda. Não pode afirmar isso.

Aquela foi a primeira vez em que a voz de Mundo encontrou forças para interceder em seu favor. Por diversas vezes, quando acusado de algo ou quando era seu nome o primeiro a figurar em supostas listas de culpados, fosse pelo lápis que desaparecia em sala de aula ou pelo muro da vizinha que aparecia pixado, ele se calara. Depois de adulto, as situações semelhantes espaçaram-se; ela evitava pessoas que pudessem ofendê-lo vivendo somente para seu trabalho, sua mãe e sua casa. Ali não. Estar com os amigos trazia de volta um passado difícil e ele não podia permitir que este passado o condenasse mais uma vez. Estava farto de injustiças.

Antes que a discussão se agravasse, Lionel tomou a frente e explicou:

— Nós a encontramos desacordada no jardim, Rebeca. E chegamos até você quase simultaneamente. Você estava desacordada e meu violão estava quebrado ao seu lado.

Ele jurava que Daniel protestaria, mas o amigo não disse nada. Foi Rebeca quem se pronunciou.

— Não me lembro de nada e não vejo motivos para que ainda não tivessem me contado isso...

Ana Paula pensava o mesmo. Se alguém tivesse tido a coragem de falar aquilo para Rebeca, eles não precisariam estar ali e ela desfrutaria de suas férias em algum outro lugar, na companhia do marido. Só dele.

Não havia qualquer consternação na voz de Rebeca. O fato de saber que o violão de Lionel estava ao lado de seu corpo, não lhe provava nada, não alterava sua situação. Em sua perspectiva, a amizade deveria sempre sobrepor-se às suspeitas. E ela, apesar de reconhecer as inúmeras diferenças que se estabeleceram naquele intervalo de tempo e lamentar por elas, mantinha a real intenção de acreditar em seus amigos.

— E acho que se estamos aqui para ajudar Rebeca, não custa nada falar -Luciana tomou coragem e intercedeu. —Naquele dia você estava estranha, Rebeca. Fomos ao baile do clube um ou dois dias antes, não me lembro direito, e desde esse baile você se comportou de maneira diferente. Mais calada, fechada, voltada apenas para si. Em alguns momentos parecia que queria dispensar nossa companhia para ficar sozinha... Chegou a ser grosseira. Era como se você nos escondesse algo.

Pronto! Estava dito! Se em casa ela não podia abrir a boca, ali, entre amigos, sentia-se confortável e confiante para expressar seus pensamentos, coisa que não fazia há tempos.

— Então eu fui encontrada no jardim e antes disso eu estava esquisita? -Rebeca recapitulou. —Realmente, não me lembro de nada...

— Lembrará quando chegar a hora, Rebeca - Afonso tentou amainar a tensão da amiga. — E caso não se lembre, minha querida, tocará sua vida para frente mesmo assim, valorizando seu futuro cada vez mais.

As palavras de Afonso eram como uma britadeira para os tímpanos de Ana Paula. Minha querida?...

Dona Genoveva surgiu à porta, trazendo uma travessa repleta de pedaços de bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Jamile foi a primeira a estender a mão para servir-se. Tudo aquilo mexia exponencialmente com seu ânimo. A casa a atordoava, a situação a atordoava; o passado estava mais que remexido.

Jamile sabia que não podia frustrar os amigos, principalmente as meninas. Elas lhe davam força para manter a dieta e não seria uma viagem banal que estragaria seus planos. Já havia perdido dois quilos e almejava perder mais até o final das férias, pois queria que as pessoas percebessem a diferença assim que o ano letivo começasse. Jamile não queria mais ser a jamanta.

Sentia-se lutando contra um demônio maldito, que lhe acenava com quilos extras a cada refeição, a cada passeio que faziam. As tentações eram muitas, eram exageradas, eram doces e salgadas. O cuidado tomado pelos pais de Dan para que nada faltasse ao grupo era tudo com o que Jamile não esperou deparar-se: almoços fartos, lanches mirabolantes, jantares extraordinários. E as sobremesas? Uma melhor que a outra... Na noite do acontecido, fora pudim de doce de leite. Um suculento e generoso pudim de doce de leite injustamente dispensado por todos eles, que haviam comido em excesso e não aguentavam a guloseima. O pudim foi parar na geladeira, inteirinho...

Quando ela pegou o segundo pedaço de bolo de cenoura, veio a piadinha infame:

— É! Parece que a jamanta também veio para nosso encontro e quer voltar ao corpo que um dia foi seu...

Lionel. Sempre Lionel, o maluco beleza que nunca ligou para regras e nunca se preocupou em mensurar as próprias palavras; o desajuizado que sempre buscava ganhar a atenção dos outros através de situações que não tinham a menor graça.

Fernanda tentou sem êxito disfarçar o riso que se apossou de sua face. Ela nunca foi gorda, não sabia o sofrimento que Jamile carregava.

— Imagina... Jamile está ótima, Lionel. Não vai ser um pedaço de bolo que vai alterar esta realidade - Luciana, que percebera o incômodo da amiga, intercedeu em seu favor. Inclusive, interceder em favo dos outros estava se tornando hábito após sua chegada a casa. — Se a vida pode ser um pouco mais doce, por que não?

— É verdade. Há ocasiões em que, se quisermos viver de fato, precisamos deixar algumas questões incômodas de lado - Mundo complementou.

Ele se referiu à sua estadia ali, só não entendeu quem não quis. Se fosse considerar todos os agravantes, Mundo teria recusado o convite, pois sabia que entrava em uma floresta escura e mal povoada, onde lobos sob pele de cordeiro não iriam se privar de arrancar pedaços de sua carne, para degustá-la com ânsia desconhecida. Fazer o inesperado para safar-se de coisas ainda mais inesperadas, era estratégia de muitos e ele conhecia bem aquele tipo de atitude.

A frase dita pelo rapaz despertou a atenção de Ana Paula, que o considerou abusado. Era ele o diferente ali! Como principal suspeito e persona non grata, Mundo deveria abster-se o máximo possível de dar opiniões. Fernanda ficou séria e Ana Paula constatou que seu pensamento era semelhante ao dela.

Jamile apenas sorriu para Luciana. Ver suas fraquezas postas às claras e em sua cara, era algo com o qual ela já não sabia mais lidar. Sua realidade era de elogios e enaltecimento, as pessoas com as quais se relacionava desconheciam a jamanta. E havia ainda os quilos adquiridos recentemente... Pediu licença e foi ao banheiro. Ainda dava tempo de devolver o jantar e o bolo de cenoura.

A conversa prosseguiu na varanda, porém a tensão estabelecida não seria dissolvida com facilidade.

Eles estavam de volta a casa onde algo havia acontecido e tirado Rebeca de cena por doze anos. Naquela noite, todos sem exceção, deveriam ter saído da casa. Foi o que combinaram após inúmeras queixas de que Dan decidia sobre seus passeios e controlava a liberdade do grupo. Ninguém saiu. Em paralelo, ninguém assumiu que ficaria na casa o que fez com que cada um deles ali acreditasse estar sozinho. A amplitude da propriedade favorecia tal percepção, havia tanto espaço que perder-se ali era possível. Somente quando Rebeca foi encontrada, por Jamile e Mundo inicialmente, e pelos demais que chegaram até a cena segundos depois, levados pelo grito que ouviram, eles constataram que estavam todos na casa. Uma casa, nove jovens; um acidente - atentado? -, oito possíveis culpados.

Quando chegou ao jardim, Fernanda deparou-se com Jamile e Mundo observando Rebeca que estava deitada no chão. Logo depois chegaram Luciana e Lionel por um lado, e Afonso e Ana Paula por outro. Daniel foi último a aparecer. Mas eles não deveriam estar todos fora de casa? Não fora isso o que combinaram? E o que havia acontecido à Rebeca?

— Ninguém toca nela! - Dan gritou, fazendo jus ao curso de medicina que havia iniciado.

— O que aconteceu?

A pergunta que Fernanda fez foi direcionada à Mundo. Ela olhava fundo nos olhos do rapaz sem importar-se com o fato de ao chegar ter visto que Jamile também estava ali.

— Não sei... Ela já estava assim quando chegamos.

— Não... Chegamos, não! Foi você quem chegou aqui primeiro - Jamile retrucou em sua defesa, excessivamente nervosa.

— Não, Jamile. Eu esbarrei em você lá em cima, no andar dos quartos e sei que não saiu da casa. Depois disso, foram apenas alguns minutos até que chegássemos aqui por acaso e ao mesmo tempo. Houve um grito...

— Sim, houve! - Jamile confirmou.

— Nós ouvimos e por isso viemos - Luciana interrompeu Mundo.

— Nós também - Afonso afirmou, buscando compreensão no olhar de Ana Paula, não sem antes considerar a maneira estranha como ela se aproximara dele pouco antes, na sala de vídeo. Ana Paula havia entrado pela porta que dava acesso àquela área do jardim. Coincidência?

Enquanto todos discutiam e Rebeca agonizava, Luciana observava os pedaços do violão de Lionel e comparou a fala de Mundo ao que ela havia encontrado. Se Mundo dissera que Jamile parecia nervosa, ela também notara nervosismo em Lionel quando o viu próximo à biblioteca. Teria ele alguma culpa? Seria burro a ponto de deixar vestígio tão seu no local do acontecido?

— E onde vocês estavam?

Foi Daniel quem questionou, tentando entender o que acontecera.

— Na casa - a resposta ecoou inteira, de todos.

Os oito entreolharam-se. Lionel devolveu a pergunta para Daniel, apesar de temeroso em relação ao que Luciana poderia ter feito. A amiga parecia tão perdida minutos antes, como se escondesse algo.

— E você, onde estava?

— Na cozinha. Também não sai da casa.

Nove pessoas na casa e uma delas gravemente ferida. Oito suspeitos, todos disseram que sairiam e naquele momento estavam aparentemente sem álibis que justificassem permanência na casa. Um não sabia o que o outro fizera. Certamente um deles atentara contra Rebeca. Quem? Por quê? A confiança estava quebrada. O grupo nunca mais seria o mesmo.

Mais tarde, quando recolheram-se, todos sabiam que os dias que teriam pela frente seriam pesados. Lidar com a desconfiança era algo complexo e cada qual ali tinha seu suspeito, ao mesmo tempo em que precisava provar-se inocente na certeza de que era o suspeito de alguém. As histórias contadas nunca fizeram sentido, nunca foram capazes de silenciar as perguntas... Todos sairiam da casa, mas todos ficaram nela e, apesar de alguns eles terem se esbarrado lá dentro, suas defesas eram frágeis. Afonso trocou a possibilidade de sair por um filme na televisão, que levou à conversa desconcertante com Ana Paula, que nunca disse por que optara por não sair, depois de ter mencionado que iria à sorveteria. Luciana optara por dormir e Lionel pela biblioteca que ficava no mesmo andar dos quartos, e quando se viram lá em cima, ambos estavam estranhos, tensos. Mundo trafegou pela casa, deslumbrado com a riqueza do lugar, e encontrou Jamile nervosa no andar dos quartos; minutos antes, Luciana vira Jamile na cozinha e amiga a tratara friamente. Jamile, acreditando estar sozinha na casa surpreendeu-se duas vezes: primeiro quando Luciana entrou na cozinha e depois, a segunda vez, quando esbarrou com Mundo fuçando um dos andares de cima. Depois, ouviu Daniel afirmar que estivera na cozinha, mas ela não o vira lá. Fernanda, que discutira com Rebeca, acreditava ter ouvido Daniel afirmar que iria dormir, mas ela havia passado pelo quarto dele e a porta aberta, revelava a cama vazia. E na perspectiva de Daniel, se todos sairam, o que Fernanda fazia pelos corredores da casa altas horas, quando ele levantou-se para ir ao banheiro?

O tempo passou, os relacionamentos haviam se alterado, assim como os interesses de cada um deles também; o afastamento foi algo inevitável e somente um fator os aproximava agora: Rebeca.

 

— Você há de convir que não há como não me preocupar... Todos ali têm suas vidas estabilizadas, mas minha filha... Minha filha parece ter estacionado em um tempo que já não existe mais. Ela não tem maldade... Se tivesse seria mais cuidadosa e não optaria por viajar sabendo que um deles foi quem a feriu.

Nada do que Hilda dissesse convencia Amélia. Fazia quase meia hora que a mãe de Rebeca reclamava sem parar, o que para a enfermeira era completamente sem razão. A mulher já havia vivenciado tantas situações ruins, fosse em sua vida pessoal ou na profissional, que em sua perspectiva Amélia deveria estar grata. A maturidade adquirida por Hilda bem como o sossego conquistado, lhe permitiam visão mais leve da vida e ela acreditava piamente que momentos ruins deveriam sempre ser deixados para trás, para que pudessem ceder espaço para novos acontecimentos.

Ela abandonara seu passado ruim quando optou por não mais passar por humilhações e constrangimentos na casa deixada pelo pai após sua morte e que também era sua. Quando as lágrimas derramadas no escuro do quarto, deixaram de amenizar suas dores, e quando a realidade cotidiana mostrou-se cruel aos seus olhos, Hilda mudou-se de cidade. Largou a madrasta e o meio-irmão, que eram somente o que ela tinha de família, em troca de paz, que garantiu através de sua dedicação árdua ao trabalho. Apesar de temer pelo que poderia acontecer à velha senhora na ocasião e de sentir saudades dela, não se arrependia. Nunca se deixou voltar atrás. Há situações que não permitem arrependimentos e na maioria das vezes, estas situações remetem à sobrevivência ou garantia de sanidade. Hilda sabia que precisava manter-se sã e sobreviver e assim o fez, dedicando-se mais do que nunca àquilo que alimentava sua alma: seu trabalho e às pessoas que dependiam dele.

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O sonho estava fragmentado; as imagens formavam-se a partir de flashes e não havia muita correlação entre elas. Em um momento eu estava fora da casa, em lugar desconhecido e com pouca luz; em outro, já estava do lado de dentro, em ambiente silencioso. Mas havia mais alguém. Passos podiam ser ouvidos.

Depois, o jardim, onde a umidade do ar parecia favorecer minha tensão. A chuva deixara poças no chão. Estava frio, provavelmente resultado da noite que ia alta. A casa, enorme e vazia, não servia como companheira naquelas horas. Talvez, se eu andasse um pouco mais, poderia entender o que havia acontecido. A verdade estava lá, em algum canto daquele jardim. E eu a procurava, fuçava tudo.

Mais um flash. Voz. Uma voz desconhecida e uma silhueta que eu não conseguia identificar. Primeiro de longe, depois mais perto. A pessoa se aproximava vagarosamente e pelos passos não era alguém que tinha intenção de esconder-se; aquela pessoa esperava por mim e, acredito, sabia que eu estaria ali. Na silhueta sem face, surgiu um sorriso e este eu vi com perfeição. Não reconheci, não sabia de quem era. O nervosismo me tomara por completo.

— Eu já estava esperando aqui por um bom tempo... Você demorou...

Um relógio... A pessoa, dona daquela silhueta, me cobrava horário, como se eu tivesse me atrasado para algo, como se algo não estivesse de acordo com o esperado. E então uma mão veio em minha direção.

Outro flash. O violão... O violão de Lionel - era mesmo o de Lionel? -veio em minha direção.

A escuridão aumentou. Os poucos sons tornaram-se ocos e distantes até que derem lugar a um silêncio absoluto.

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