Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 4 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 3

 

Em casa, com o rosto coberto por creme de tratamento para a pele, Jamile só conseguiu chegar até o aparelho telefônico e atendê-lo após o terceiro toque e não sem antes tropeçar em uma pilha de revistas que estava no chão, próxima ao sofá de dois lugares. Era preciso ser mais organizada, constatou; se tivesse caído e se machucado, poderia perder possibilidades de trabalho. Todo cuidado era sempre pouco em sua área de atuação.

— Alô... - ela disse quase sem fôlego tão logo aproximou o fone de seu ouvido esquerdo.

—Jamile, sou eu, a Fernanda - a voz esganiçada e eufórica do outro lado lhe era mais que familiar e não exigia qualquer identificação. — O Dan me contou... Eu telefonei exatamente quando ele estava indo pro hospital... A Rebeca acordou.

Jamile não soube o que dizer. Foi tanto tempo esperando por alguma reação de Rebeca que a crença de que este despertar viesse a acontecer já não passava de algo remoto, improvável. Tudo havia se transformado ao longo daqueles doze anos e a Jamile de hoje já não nutria grandes relações com a Jamile de ontem, com aquela mesma jovem dos tempos em que Rebeca saíra de cena.

— Jamile... Você ainda está aí?

Fernanda sabia que a notícia pegaria Jamile de surpresa. Ela se lembrava de como as duas eram unidas na adolescência; tão unidas que ela, Fernanda, sentia-se um peixe fora d'água quando estavam as três juntas. O afastamento involuntário de Rebeca havia aproximado-as de forma que Jamile era a melhor amiga de Fernanda, relação que não teria se estabelecido se a vida tivesse seguido seu curso normal; se é que se pode dizer que a vida tem um curso preestabelecido...

— Sim... - Jamile respondeu com a voz embargada.

Elas eram muito próximas. Rebeca fora sua melhor amiga desde sempre, desde antes do catecismo, desde os tempos dos quais podia se lembrar. Cresceram juntas e quando os meninos, fosse na escola ou no bairro, insistiam em chamá-la de "Jamile Jamanta" por causa de seu excesso de peso, era Rebeca quem a defendia. O excesso de peso era incômodo e Jamile morria de vergonha de ser a jamanta do grupo. Ter uma característica física denegrida o tempo todo não era nada fácil! As marcas que ficaram seriam para a vida inteira.

Mas o tempo havia passado e Jamile não era mais uma jamanta. Havia se cuidado e após rigorosas dietas alimentares, que resultaram em muitos quilos a menos, temporadas extensas em spa's, muitas idas ao salão de beleza e alguns procedimentos cirúrgicos, destacava-se no meio da moda, sendo requisitada para os desfiles de grandes marcas ou de estilistas famosos e causava inveja nas rodas sociais que frequentava. O patinho feio se transformara em um belo cisne para o dissabor dos invejosos e, como se não lhe bastasse sua beleza, ela colecionava pretendentes.

— Ficou muda? Pensei que a notícia fosse te agradar.

Fernanda ponderou antes de ligar para a amiga. Caso se tratasse de qualquer outra notícia, ela teria telefonado de imediato, porém, o despertar de Rebeca a fez refletir por cerca de duas horas antes de procurar por Jamile. Levar Rebeca de volta para a vida de Jamile representava a possibilidade de perder uma amiga e Fernanda não sabia se estava disposta a pagar preço tão alto. Em paralelo, era certo que Jamile saberia, então que fosse por seu intermédio. Talvez isto servisse para aproximá-las ainda mais, para solidificar a confiança. E além do mais, ela gostava de ser a portadora de notícias, fossem estas boas ou não.

—Só fui pega de surpresa - a voz de Jamile ainda se mostrava imprecisa. —Acho que após tantos anos é difícil ouvir isto. Aliás, não é difícil; só é... estranho. - ela se consertou.

Toda aquela estranheza era justificada. Não era comum que uma pessoa ficasse em coma por tantos anos e acordasse naturalmente, sem qualquer sequela aparente. Contudo, Rebeca havia acordado, apesar de sua vida já não poder mais ser retomada do ponto onde havia parado. Tudo estava mudado. E Jamile, por mais cruel que este pensamento pudesse parecer, nunca acreditou em uma possibilidade de recuperação.

— E imagine você como eu também me surpreendi! - Fernanda tagarelava do outro lado tentando garantir para si a atenção de Jamile. — Liguei para o Dan por acaso e fui surpreendida com esta notícia. Ele estava no trânsito, dirigindo para o hospital e, de acordo com as informações que recebeu, Rebeca estava bem, acordou lúcida, apesar de não entender o motivo pelo qual se encontra em um hospital. Mas acho que isto ninguém entenderia. Não após tantos anos... É maravilhoso, não acha?

Em algumas ocasiões, as perguntas idiotas feitas por Fernanda irritavam Jamile. Claro que era maravilhoso! O que mais Fernanda poderia esperar?

— Não resisti! Te liguei assim que eu soube... - Fernanda mentiu para agradar a amiga e acarretar-lhe caráter de importância. — Não sei se, além do Dan, os outros já sabem... Eu pensei em ligar para eles e avisar...

Fofoca! Se havia algo que incomodava Jamile em seu meio de trabalho era a fofoca e quando este tipo de ação se concretizava em sua vida pessoal, vindo de pessoas próximas e envolvendo aqueles que ela considerava como amigos, a coisa duplicava de tamanho, adquiria proporções estratosféricas e ela irritava-se profundamente. Ser o alvo das colunas jornalísticas nos últimos anos de vez em quando a jogava nas muitas tempestades criadas pelos fofoqueiros da mídia, que lhe davam namorados fictícios e problemas diversos. Por isto, em sua vida privada, ela evitava este tipo de pessoa. Menos Fernanda, que mostrava-se uma fofoqueira nata e, em muitas ocasiões, bastante incomodada com o que se passava com as outras pessoas, comportamento que não havia como disfarçar e que Jamile relevava em decorrência dos longos tempos de convivência e amizade. Na perspectiva de Jamile, Fernanda tinha inveja de pessoas bem sucedidas; enquanto Fernanda sempre acreditou que Jamile invejasse quem tinha sua aparência física destacada favoravelmente.

Se Fernanda queria colocar a boca no trombone que o fizesse, pois não seria Jamile quem se prenderia aos problemas de caráter da amiga linguaruda. Sua intenção restringia-se a manter a diplomacia e o bom senso, coisas que Fernanda se conhecia, desprezava.

— E como vou ao hospital, pode ser que um deles queira me acompanhar. Sua agenda, como está? Tem tempo para ir também? Todos nós éramos grandes amigos e acho importante que ela saiba que pode contar conosco neste recomeço. Deveríamos estar lá para apoiá-la.

Fernanda falava mais que uma vitrola enguiçada, teria dito a falecida Dona Quinzinha, avó de Jamile, quituteira de mão cheia e grande responsável por sua condição de jamanta durante os períodos de infância e adolescência. Apesar de ter sim a intenção de visitar a amiga, a notícia de sua recuperação acabara de chegar e Jamile não sabia se aquele era o momento adequado. Ela sequer sabia como agir.

Talvez fosse caso de deixar que a família e a equipe médica estivessem com Rebeca nos primeiros momentos ou esperar que a amiga se acostumasse à sua nova realidade por alguns dias. Em paralelo, nas ocasiões mais difíceis e certamente aquela era uma ocasião difícil para Rebeca, a presença dos amigos podia fazer grande diferença. A possibilidade de Rebeca desejar estar com todos eles lhe povoou a mente. Frente àquelas duas perspectivas, Jamile, que dificilmente sabia o que fazer quando precisava optar por algo, sentiu-se perdida. Escolher entre dois caminhos era complicado, sempre foi. Se seu peso diminuíra com o passar dos anos, sua insegurança somente aumentara, apesar de ser sempre disfarçada em suas atitudes.

Àqueles dias a agenda de Jamile apresentava algumas lacunas. Era final de ano e todas as coleções da estação já haviam sido lançadas de modo que ela era requisitada apenas em festas da sociedade e confraternizações das grandes revistas, eventos que habitualmente aconteciam em horário noturno. Se a intenção de visitar Rebeca fosse levada adiante, ela poderia ir. Ainda assim a dúvida e o medo permeavam seus devaneios enquanto a tagarelice de Fernanda inundava seus ouvidos.

— E então, você vai poder nos acompanhar? - Fernanda insistia do outro lado da linha.

— Fernanda você não falou com os outros ainda. Não acha que seria melhor consultar o Dan sobre esta visita? Ele é o médico de Rebeca e sabe o que é melhor nestas horas. Chegar lá sem avisar pode ser um problema. Não acho certo que a gente se intrometa desta forma...

— Ora, não é intromissão! É só preocupação - a amiga argumentava. — Foram doze anos, Jamile! Doze anos desacordada e sem que nós soubéssemos se ela acordaria algum dia. Justamente quando ela acorda, nós não estamos lá?

Sim, foram doze anos de um afastamento involuntário, porém legítimo, Jamile reconhecia aquilo.

— E, além do mais, se eu for consultar o Dan, sei que ele vai criar problemas... Vai usar de sua posição de médico para nos impedir e ter a Rebeca só pra ele. Ele vai decidir por nós. Você sabe que sempre foi assim!- Fernanda insistiu ainda mais.

Talvez as atitudes de Fernanda se justificassem pela total falta de acontecimentos significativos em seus dias. A amiga, apesar de ter estudado, não tinha qualquer ocupação, não trabalhava, sendo sua única responsabilidade ver os dias passarem. Osvaldo, o pai, havia enriquecido inesperadamente através de um prêmio lotérico. Vivia de rendas: investira o valor ganho em imóveis que alugava. Tornara-se um "novo rico", o sujeito mais deslumbrado e brega de Copacabana, o tipo que usava óculos escuros dentro de casa, blusões com as cores e estampas geométricas mais inusitadas, calças e sapatos brancos, smoking para ir ao bar; e empregava-se das redes sociais para a ostentação, exibindo fotografias ridículas, trajando as roupas recém compradas e esnobando as outras pessoas por meio da irônica legenda "a vida é pauleira". A esposa, uma coitada provavelmente, o acompanhava de cara fechada nestas empreitadas, era cúmplice do ridículo que o homem insistia em passar. Muitas vezes, as pessoas sujeitam-se ao absurdo por medo do que poderia estar por vir e, neste caso, Vânia sujeitava-se às loucuras de Osvaldo, pois sabia que qualquer indício maior de insatisfação seria um problema. Ela não sorria, quase nunca mostrava os dentes, sua presença não cheirava e nem fedia, mas ela estava sempre ali, ao lado de Osvaldo e era parte de algumas das fotografias mais patéticas. Ele a sustentava e aquilo lhe bastava. Ele já a ameaçara de separação em outras ocasiões e a rua da amargura não era o destino que ela almejava.

A vida de Fernanda era vazia, apesar dos muitos requintes proporcionados pelo pai e de todo o envolvimento com a sociedade. Para Jamile, que dividia seu tempo entre passarelas de moda e grandes eventos, observar os dias, um após o outro, sem qualquer evento significativo, conforme Fernanda costumava fazer, não deveria ser nada agradável.

— Quando terminarmos esta nossa conversa, eu vou telefonar para a Ana Paula e o Afonso. Acredito que eles topem a visita.

Na concepção de Jamile, não se tratava de acreditar que eles topassem; Fernanda tinha a intenção de convencê-los, assim como tentava convencê-la. Quando seus interesses eram postos em prova, não havia qualquer cálculo em relação aos esforços empreendidos: Fernanda insistia e insistia e insistia, até que vencesse as pessoas pelo cansaço.

— E então, você vai?

E ela continuava insistindo.

— Realmente, eu não sei. Não sei se é certo e tenho receio de atrapalhar. Acho que antes de combinarmos qualquer visita, precisamos consultar o Dan. Como médico de Rebeca, ele saberá nos orientar melhor em relação a esta possibilidade.

Para Fernanda, aquele senso de adequação sempre foi o que diferenciava Jamile dos demais amigos. E desde bem jovem! Não havia como pensar de forma contrária: a amiga, apesar de espalhafatosa em alguns momentos, era sempre correta em suas ações; ou ao menos tentava ser o mais correta possível. Jamile não agia de maneira impensada, não se deixava levar por impulsos, não se permitia muitos devaneios. Antes de tomar uma decisão, todos os prós e contras eram mensurados e Jamile somente levava uma ideia adiante se tivesse total segurança em relação ao seu resultado. Já ela, Fernanda, era movida por suas emoções. Se sentisse vontade de fazer algo, o faria; se sentisse a necessidade de dizer algo, diria sem rodeios. "Certamente, as atitudes de Jamile justificavam-se pela obesidade vivenciada por anos e que fez com que ela sentisse inveja de Rebeca por sua beleza." -, Fernanda pensava.

Se Jamile já se destacava por seu tamanho avantajado, era natural que tentasse manter a discrição em suas atitudes para chamar um pouco menos atenção dos demais. Não deveria ser nada fácil pesar o dobro do que era proporcional à sua estatura e ter que comprar roupas somente por encomenda. Entretanto, por mais que a amiga tivesse superado esta questão em termos físicos, sendo hoje uma modelo conhecida e enaltecida internacionalmente, os incômodos emocionais experimentados por ela no passado muito provavelmente eram memórias ainda presentes. Um trauma será sempre um trauma. As ranhuras eram tão vívidas que faziam de Jamile a pessoa mais sensata e discreta do grupo atualmente.

E era por julgar conhecer a amiga tão bem, que Fernanda sabia que naquele momento não tiraria dela nenhuma resposta.

— Eu volto a telefonar então, Jamile. Assim que tiver a resposta dos outros, eu ligo para saber o que você decidiu.

Fernanda desligou sem esperar qualquer resposta de Jamile. Não adiantava insistir. Era preciso dar à Jamile tempo para pensar.

Após ouvir o sinal de ocupado do outro lado da linha, Jamile chorou. O passado estava ali, batendo às portas de uma realidade que, apesar de lhe pertencer, fazia com que ela se sentisse vazia, distante, em um caminho tortuoso e que poderia se esvair em qualquer momento, jogando-a em um longo abismo. Reaproximar-se dos amigos de outrora interrompia sua caminhada individual e fazia com que ela desse alguns passos para trás e esbarrasse naquela que um dia fora: a gorda.

Depois, caminhou até a cozinha e sacou do freezer um pote com dois litros de sorvete de flocos. O aglomerado de gordura e açúcar, com gosto de nada e salpicado de fragmentos de chocolate, estava lá havia alguns meses, guardado por qualquer eventualidade e a tal eventualidade acabara de bater às portas de sua realidade.

 

Do outro lado da cidade, na porta de seu apartamento, Afonso agradecia ao entregador do restaurante japonês, enquanto Ana Paula o aguardava à mesa.

—Só vou telefonar para ela após o jantar. Por mais que a Fernanda tenha dito em sua mensagem que o assunto é urgente, acredito que minha fome seja mais urgente. Além do mais, nós conhecemos perfeitamente os tipos de urgência que ela costuma criar e não é minha intenção perder o apetite -divagava a mulher enquanto mirava a caixa que o marido trazia.

Afonso riu ciente de que quando Fernanda surgia inesperadamente, trazia consigo alguma notícia travestida de falatório. A amiga parecia ter o dom de deturpar as situações e aumentar sua gravidade. Seus estardalhaços eram sempre desnecessários.

— Mas é verdade e você sabe disso! - Ana Paula defendeu piamente seu ponto de vista.

De certa forma, sempre fora assim. Desde os tempos de colégio, quando Ana Paula e Fernanda dividiam a mesma carteira na sala de aula, as conversas propostas pela amiga eram reflexos de alguma fofoca ou intriga. Os alvos eram variados. Ana Paula se lembrava de que, entre as diversas pessoas com as quais lidavam no cotidiano escolar, fossem alunos, professores ou funcionários, Rebeca era o foco favorito de Fernanda, apesar de ela nunca ter entendido o real motivo, já que, aparentemente, ambas sempre se deram muito bem.

Para Fernanda os avanços da tecnologia, que fizeram com que as pessoas se comunicassem com extrema facilidade e rapidez, eram válidos, porém ela preferia o olho no olho ou qualquer outro tipo de tête-à-tête mesmo que telefônico. Gostava de redes sociais, pois estas a mantinham a par de informações novas. Era interessante saber para onde Fulano havia viajado no último feriado ou que Beltrano perdera o emprego de anos. Porém, as mensagens escritas não a agradavam muito e eram empregadas apenas para chamar seu interlocutor, conforme fizera com Ana Paula. Fernanda apreciava poder acompanhar as reações, as levantadas de sobrancelhas, os ares de espanto ou as alterações no tom de voz. Nada a alimentava mais, ou melhor, do que os efeitos causados por seus relatos. Nada era mais rico que a constatação do dever cumprido e dever, para ela, era espalhar aos quatro ventos o que quer que pudesse ser espalhado.

Afonso também sabia como a amiga costumava agir, apesar de nunca ter se dado muito bem com Fernanda. Sendo ele dois anos mais velho, eles não frequentaram a mesma turma na escola, mas conhecia perfeitamente a fama que a jovem carregava. Ele fora, inclusive, vítima de suas fofocas na fatídica viagem para Petrópolis e, apesar de muito tempo já ter se passado, ele ainda não havia perdoado sua atitude. Afonso se lembrava de tudo.

— Ana Paula está caidinha por você, Afonso. Eu percebi... Mas e Rebeca, como fica nesta história toda?

Eram raras as ocasiões em que Fernanda direcionava-se a Afonso e quando o fazia sempre tinha intenções dúbias resguardadas.

— O que tem a Rebeca, Fernanda?

— Ah! Pensa que não sei? Você arrasta suas asas pra ela há tempos... Mas também não quer perder Ana Paula, não é isso? Assumir interesse em Rebeca, que parece preferir o Daniel, pode afastar Ana Paula de você. Eu entendi seu jogo...

A voz era irônica, o sorriso também.

— Pensei inclusive em falar com ela, tentar descobrir quais as impressões que Rebeca tem a seu respeito...

— Não, Fernanda. Você pensou em bisbilhotar, fazer fofocas, nada mais.

E saiu, deixando Fernanda sem saber o que dizer.

Mais tarde, naquele mesmo dia, ele a vira puxando Rebeca para um canto e segredando-lhe algo. Depois disso, Afonso teve impressão de que Rebeca passou a evitá-lo.

— Você está me ouvindo? - Ana Paula chamou o marido de volta à realidade.

— Sim, eu sei - ele confirmou. — Sei perfeitamente que ela não vai parar enquanto não tiver destilado seu veneno. Só sossegará depois que receber um telefonema seu.

Enquanto se preparava para comer, Afonso imaginava Fernanda em casa, sentada em um sofá, roendo as unhas e sem desgrudar os olhos do telefone celular, esperando pela ligação de sua esposa. Aquela imagem e a certeza de que ela estava exatamente daquela forma o divertiam. As impressões causadas por Fernanda eram as piores possíveis, infelizmente.

— E eu não vou correr qualquer risco de perder o apetite. Não mesmo! Vou ligar para Fernanda, mas só depois de ter jantado. E se eu cismar, nem ligo hoje - Ana Paula reafirmou, afastando o marido de seus pensamentos. — Passei o dia trabalhando, estou cansada e o que mais quero quando chego a minha casa é tranquilidade, elemento que segue em direção oposta aos questionamentos de Fernanda.

Grande verdade. Fernanda não era de dar sossego às pessoas, nunca foi. A impressão que tinham aqueles que lidavam constantemente com ela era de que todos estavam em sua linha de tiro e causar discórdia era seu principal foco. Por mais que uma ou duas atitudes da moça parecessem normais, não havia qualquer traço de neutralidade nelas; tudo o que Fernanda fazia era premeditado e escondia alguma intenção. Ela não dava ponto sem nó.

Afonso e Ana Paula formavam um belo e bem sucedido casal. Ela, professora de línguas, lecionava em duas universidades e administrava com punhos de ferro um curso de inglês; ele, advogado de renome, tinha seu próprio consultório em um prédio no centro da cidade, próximo ao fórum, e liderava uma equipe excessivamente competente e respeitada no mercado. O desempenho em suas profissões havia retirado ambos do subúrbio e alçado-os à alta sociedade carioca, além de render um belíssimo apartamento de cobertura e infinitos metros quadrados no Leblon, um dos bairros mais nobres da zona sul da cidade. Suas responsabilidades resumiam-se ao trabalho, à vida a dois e a Kal-El, o mimado shitzu com pedigree e chuquinha. O nome foi escolhido por Afonso, em homenagem ao Superman. Por opção, não tinham filhos. Quem os conhecia hoje, não diria que ambos cresceram cada um com seus dois pés bem longe dali e em meio a muita simplicidade, que Afonso ainda mantinha, apesar de Ana Paula ter deslumbrado-se um pouco. Talvez, todo este sucesso no casamento não tivesse sido possível se não fosse o acontecimento que envolveu Rebeca.

A condição social deles era mais uma questão que, em algumas vezes, parecia incomodar Fernanda. De todos os amigos do grupo, ela, mesmo desfrutando também do luxo, que lhe era proporcionado pelo pai, não havia progredido muito. Não dedicava-se à sua formação apesar de ter concluído curso superior, não tinha um emprego e toda a sua condição social e financeira encontrava-se atrelada ao pai, sendo apenas isto que a destacava em seu meio. Sozinha ela não era ninguém e o respaldo que recebia vinha das rodinhas dos quiosques e bares do calçadão, dos contatos que Osvaldo mantinha. Fernanda morava com os pais em um apartamento em edifício de destaque de frente para o mar, mas se quisesse comprar um vestido, era preciso pedir autorização para o uso do cartão de crédito e às vezes esperar dias por uma resposta. Em muitas destas ocasiões, quando a autorização lhe era concedida, o vestido havia esgotado. Evidentemente este tipo de situação que ela considerava como "vergonhosa", "catastrófica" ou "o ó" eram mantidas bem guardadas, escondidas dos amigos. Não era necessário que eles soubessem que a independência financeira de Fernanda era fachada, era quase parte de um acordo dela com o pai para que as pessoas os julgassem superiores.