Dias Vazios
Capítulo 20
Não foi somente Rebeca quem teve sonhos ruins naquela noite.
Jamile sonhara com quilos extras, o dobro de seu peso e risadas enlouquecidas de Lionel. Luciana sonhou que Nilo a procurava e encontrava. Ana Paula sonhou que perdia o marido para Rebeca. "Eu sempre amei a Rebeca e nunca me conformei com o fato dela preferir o Dan..."-, Afonso dissera no sonho. Afonso sonhou que era parceiro de Denzel Washington e ambos investigavam um assassinato; o assassinato de Rebeca. Daniel sonhou com um monitor cardíaco estático, acusando a morte de um paciente cujo rosto ele não conseguia identificar. Mundo, em seu sonho, via-se algemado, levado por policiais, enquanto Jamile apontava-lhe o dedo, culpando-o. Lionel tivera o pior pesadelo de toda a sua vida: em cima de um palco e enquanto cantava Dias Vazios, sua platéia composta apenas pelos oito amigos, lhe jogava ovos e tomates podres. Fernanda, que em seu sonho vestia roupas baratas e fora de moda, viu-se entre Mundo e Jamile, cada um deles chamando-a de mentirosa, e em segundo plano no mesmo sonho, Osvaldo dizia que estava na merda, havia perdido todo seu dinheiro. A casa, definitivamente, não fizera bem a nenhum deles. Voltar ao passado tinha seu preço.
Pela manhã, não houve quem estivesse à vontade, era notório. A mais mal humorada era Fernanda; a mais preocupada, era Luciana; Rebeca mantinha-se tensa, enquanto Jamile despertava com uma fome fora do comum, fome psicológica. Lionel tentava parecer indiferente, mas sua atenção encontrava-se toda voltada para Luciana; Daniel, incomodado com os resultados do suposto "experimento", mantinha-se atento a qualquer reação diferente de Rebeca; Afonso, já havia percebido a insatisfação da esposa e por isso procurava evitar Rebeca, enquanto Mundo... Mundo ficava quietinho em seu canto, para não incomodar a ninguém.
Quase nada foi dito na mesa do café e Jamile, para não despertar a atenção de Lionel, tomou apenas uma xícara de chá. Era melhor assim. Depois, quando Afonso já seguia para a varanda com intenção de acender um cigarro, Rebeca decidiu falar:
— Quando estivemos aqui da outra vez, o que nós fazíamos?
Entreolharam-se. Rebeca havia tocado exatamente no motivo da discórdia.
— Foram cinco dias, Rebeca. Ficamos aqui por exatos cinco dias. Chegamos em 26 de dezembro, logo pela manhã e... Enfim, tivemos que voltar para casa no dia 30, quando tudo aconteceu. Durante estes dias nós visitamos os pontos turísticos da cidade e na noite do dia 28, fomos ao baile do clube.
Quando Daniel mencionou a palavra "baile", pequenas luzes piscaram na memória de Rebeca. Não eram luzes metafóricas; eram luzes mesmo: ela viu-se em imagens de lembranças em uma pista de dança.
— Beca? - Mundo percebeu que a fisionomia da amiga se alterara. — O que houve?
— Uma cena... Tudo muito embaçado, mas era uma pista de danças, tenho certeza.
— O baile?! - Fernanda deixou escapar, enquanto todos observavam Rebeca, a espera de mais alguma informação.
Jamile correu até a cozinha e voltou com um copo de água para Rebeca. Afonso, sob o olhar seco da esposa, fez com que a amiga se sentasse e Daniel, de imediato, sacou de uma das gavetas próximas um esfigmomanômetro . Qualquer possibilidade de alteração deveria ser verificada e a face pálida de Rebeca poderia ser indício de queda de pressão arterial. Os demais acompanhavam a cena à distância, alguns consternados, enquanto Ana Paula se roia de inveja.
Minutos depois, aparentemente recuperada, Rebeca sugeriu o que ninguém estava preparado para ouvir:
— Vamos voltar a este clube. Pode ser que eles tenham algum registro, fotografias desse baile e elas me ajudariam.
— Puta que pariu... - Jamile falou, sem que os outros entendessem sua reação.
Talvez tudo parecesse uma grande bobagem para as pessoas que estavam de fora ou que vivenciavam indiretamente a situação. Para Rebeca, não. Era o passado dela que estava em jogo e se quisesse seguir em frente, era preciso entender este passado. Ter ficado em estado de coma por doze anos, saindo dele sem nenhuma sequela, era quase um milagre, se não o fosse de fato; mas não bastava se calar e fingir que nada acontecera. Ela tinha pressa e sua pressa era justa.
— Eu vou com você - Lionel foi o primeiro a oferecer-se.
— Eu também - Mundo prontificou-se a ajudar.
Fernanda, como se acusar fosse regra, não perdeu tempo:
— Claro!... Um sabe que seu violão foi a arma do crime; o outro já nasceu com cara de culpado. É evidente que os dois se ofereceriam...
— Lógico! É conveniente estar por perto para esconder uma possível pista - Ana Paula concordou rapidamente com a amiga.
Rebeca apenas encarou as duas por alguns segundos que pareceram longos. Depois, olhou para a cara de cada um naquela sala. O que havia acontecido que desviara tanto o grupo de amigos? Onde estava a cumplicidade de tempos atrás?
— Tudo isso é desnecessário - ela disse pausadamente, como se Fernanda e Ana Paula não tivessem capacidade para entendê-la — Não sei onde nos perdemos... Talvez eu até saiba, mas certamente estou mais perdida que todos vocês aqui. Cada um tem sua vida estabilizada hoje, eu não tenho, não sei o que aconteceu comigo. Há doze anos estávamos aqui, nesta casa, quando algo me deixou desacordada... Doze anos! O que vocês faziam nestes doze anos? O que viveram? Vocês têm noção do tamanho da lacuna que se estabeleceu dentro de mim? Vocês sabem o que é olhar para trás e não ver nada, não se lembrar de nada? Sabem o que é acordar aos vinte e oito anos acreditando ter ainda dezesseis?
Todos entreolharam-se e era perceptível que a desconfiança transitava entre eles. Luciana, preocupada e ciente de que Rebeca estava certa, pediu a palavra.
— Eu quero falar e Dan, por favor, não me interrompa. Há doze anos nós viemos para cá e durante os dias em que ficamos na cidade tudo foi maravilhoso. Nós nos divertimos muito até que uma picuinha boba nos desviou - ela encarava Rebeca. —Você, Rebeca, queixou-se dos passeios em grupo e de ser Dan quem sempre escolhia o que faríamos. Você sugeriu que naquela noite cada um de nós tomasse seu próprio rumo e foi assim que nos separamos para nos reunirmos ao seu redor, quando você foi encontrada desacordada no jardim. O grande problema é que, apesar de cada um de nós demonstrar ter um interesse fora daqui, nós descobrimos depois que ninguém saiu desta casa naquela noite; estávamos todos aqui quando alguém atentou contra a sua vida, não sabemos se deliberadamente ou ao acaso. Isto faz de todos nós possíveis suspeitos e possíveis culpados também, porque não? Todos, sem exceção e não é fácil admitir isso, não é fácil imaginar que em algum momento houve tamanha ruptura entre nós -dessa vez, Luciana encarou Fernanda e Ana Paula. — O que mais me intriga nisso tudo, foi a sua vontade de não estar aqui, foi sua insistência em sair sozinha. Era como se você nos evitasse ou quisesse se livrar de nós, como se nos escondesse algo. Até foi grosseira comigo.
Pronto. Mais uma vez Luciana havia falado o que ninguém tivera coragem até então. Não se tratava de culpar Rebeca, mas situá-la dentro da questão que os movia.
— Eu também achei. Te questionei naquela noite... Tentei conversar, mas você foi grosseira comigo também. Você estava muito diferente, Rebeca, e era como se fizesse questão de nos manter afastados. Isso não necessariamente nos exclui da situação ou nos inocenta, mas havia algo acontecendo e sobre o qual nós não tínhamos nenhuma noção ou possibilidade de controle.
Em um sopro de sensatez, aquela foi a primeira vez que Fernanda mostrou-se imparcial, sem culpar ninguém. Algumas verdades tinham o dom de fazer com que as pessoas acordassem. Talvez as palavras ditas por Luciana tivessem despertado a lucidez de Fernanda.
A imagem vislumbrada momentos antes voltou à cabeça de Rebeca. A pista de dança, a euforia, pouca luz, os amigos dançando... Uma silhueta ao longe. Um sorriso. O que quer que tivesse acontecido, provavelmente tivera início no tal clube.
— Quem era? - Hilda perguntou tão logo Dona Amélia chegou à cozinha, referindo-se à pessoa que tocara a campainha e que a mãe de Rebeca havia acabado de atender ao portão.
— Um rapaz, mas eu não o conhecia. Disse que é marido da Luciana, amiga de Rebeca. Estava procurando a esposa... Eu soube do casamento à época. Eu me lembro de Fernanda ter comentado que Luciana tinha conhecido um rapaz e se casado alguns anos depois do acidente, mas mesmo antes do casamento ela já não visitava mais Rebeca no hospital. Foi se afastando aos poucos. Dizem que é assim, não é? Quando uma doença se estende por muito tempo, as pessoas somem.
— Em alguns casos, sim - Hilda falava manso. — A pessoa doente muitas das vezes pode soar como um fardo para os mais fracos ou para os desinteressados. No começo as visitas são até exageradas, constantes; mas se a situação se estende um pouco além do previsto, cada um segue para um lado. As visitas dão lugar aos telefonemas. Depois, passado algum tempo, nem mesmo o telefone toca mais.
A experiência de Hilda não era apenas técnica, era humana. A vida, antes mesmo da formação profissional, ensinara muito àquela mulher. Com a morte do pai, a situação de Hilda na casa onde morava se transformara em um verdadeiro inferno. O meio-irmão, anos mais novo, quando viu-se adulto não a poupou de sua perversidade, o que fez com que ela abandonasse a casa e optasse pela solidão. Aliás, talvez solidão não fosse o termo, pois ela sentia-se acolhida em ambiente de trabalho e sentia-se útil ao cuidar de seus pacientes. Aquelas eram as pessoas que verdadeiramente precisavam dela e, por mais que lhe doesse sentir-se sem uma família para chamar de sua, era a elas que Hilda se dedicava.
— E o que a senhora disse a ele?
— Ah... Fui sincera. Falei que não vejo Luciana há muitos anos e nem mesmo tenho notícias dela. Disse também que Rebeca está em Petrópolis com os amigos e se estivesse em casa, talvez ela pudesse ajudar, talvez soubesse de algo. Depois disso, ele me deu as costas e se afastou... Nem mesmo agradeceu. Mas antes... Posso estar enganada, às vezes temos impressões errôneas, contudo acho que ele ficou muito bravo. Vi raiva em seu olhar antes de me dar as costas.
Hilda conhecia a raiva quando refletida nos olhos de uma pessoa e sabia perfeitamente o que vinha depois, apesar de não mais precisar experimentar este depois.
O administrador do clube precisou de explicações antes de mostrar os arquivos do estabelecimento.
— Me lembro do caso - ele afirmou. — Foi bastante comentado na ocasião, mas depois caiu no esquecimento. Cidade pequena é assim, nada dura por muito tempo.
— E nós cuidamos para que a questão tivesse realmente algum sigilo.
Daniel não era um sujeito esnobe, mas em alguns momentos, se julgasse necessário, ele sabia se impor. O fato de sua família ser respeitada na cidade o favorecia e o administrador percebeu que não adiantaria tentar obter informações.
— Temos fotografias - o sujeito divagava enquanto os guiava até uma sala dentro do clube. — Talvez vocês possam identificar algo nas imagens. Acredito que esta seja a única maneira que eu tenho de ajudar neste caso.
Três minutos depois, Daniel, Rebeca, Lionel e Mundo foram deixados na sala, com uma remessa de álbuns de fotografias e a recomendação de que "ficassem à vontade e não tivessem pressa". Quando Rebeca insistiu em ir ao clube, Mundo e Lionel ofereceram-se para acompanhá-la de imediato. Daniel decidiu-se depois, tanto por causa de seu conhecimento e contatos no local, como também para levá-los de carro.
— Os álbuns têm datas. Não vai ser complicado encontrar o de 2006.
Mas foi. Eram muitos álbuns, inclusive dos últimos anos, apesar de toda a tecnologia recente e que levava a maioria à hospedagem de fotografias online ou em ferramentas que divergiam do papel. O clube, tradicionalmente mantinha o hábito de ter fotografias impressas, o que acumulava muito material e a inscrição "2006" estava etiquetada em nove álbuns, sem maiores detalhes. Seria necessário revirá-los até que descobrissem qual tinha as imagens do baile de ano novo.
Foi Mundo quem o localizou.
— Achei!
A fotografia mostrava a fachada do clube muito bem iluminada e com a grande faixa que fora instalada lá na ocasião: "Reveillon 2006! Feliz Ano Novo, cidadãos petropolitanos!"
Bastou passar duas páginas para que uma foto deles surgisse. Era todo o grupo, os nove amigos fotografados quando chegavam ao clube. Na legenda: "Daniel Assis, filho do Doutor Luis Assis, e amigos em sua chegada ao baile." Mais fotografias vieram, de pessoas chegando ao local e momentos variados da festa. Eles estavam lá, registrados naquelas imagens, em várias delas, ora juntos, ora separados.
Menos Rebeca.
Rebeca só aparecia na primeira, na fotografia que registrava a chegada do grupo ao clube.
— Onde eu estava? Isso é absurdo. Se eu tenho memórias da pista de dança, como não apareço em nenhuma outra fotografia?
Realmente, era tudo muito esquisito. As imagens retratavam inúmeros momentos da festa, pessoas diversas, exceto Rebeca.
— A única prova de que eu estive neste baile é a fotografia da minha chegada... Onde eu fui parar depois disso?
Daniel lembrava-se de ter visto Rebeca no baile, assim como Lionel e Mundo também lembravam-se, porém, em seus pensamentos e apesar de não terem atentado-se para isto, ela realmente não foi vista algum tempo após a chegada ao local, reencontrando-se com eles somente na hora de ir para casa.
— Oi. Quase não encontro mais vocês! - Rebeca chegou esbaforida à portaria do clube, onde todos combinaram de se encontrar ao final do baile.
— Sumiu! - Fernanda foi quem comentou, percebendo que o suor escorria pelo rosto da amiga e que já não havia nenhum sinal de batom em seus lábios.
— Só me atrasei.
Aquela foi a primeira vez em que Rebeca respondeu secamente aos amigos. Não fazia parte de seus planos revelar-lhes onde estivera.
— Nós esperaríamos por você, Rebeca. Não arredaríamos os pés daqui sem que você chegasse.
Daniel nem bem terminou a frase e Ana Paula já o rebateu:
— Fale por você, Dan. Eu não esperaria nem mais um segundo. Estava prestes a convidar Afonso para me acompanhar até a casa - e sorriu para Afonso, que nem mesmo olhava para ela.
— Pois é, mas agora eu estou aqui e já podemos seguir para casa.
Rebeca não disse nem uma palavra durante todo o trajeto. Caminharam por cerca de meia hora até a casa de Dan e tanto Jamile como Luciana, perceberam que a amiga mantinha expressão diferente na face. Era como se Rebeca estivesse "encantada" com algo e insatisfeita por ter de deixar o clube.