Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 29 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 28

 

 

— Olha só, Reinaldo, já se passou muito tempo. Não há motivo algum para eu esconder esses vídeos e, além do mais, as imagens são tão ruins que dificilmente alguém vai conseguir identificar alguma coisa relevante ali. Pra você ter noção, eles nem demoraram muito tempo assistindo... Devem ter se cansado logo ou notado que não conseguiriam ver nada naquela merda.

— Não me interessa. Você disse anos atrás que manteria tudo muito bem guardado, seu filho da puta imbecil, e eu confiei em você.

— Ei! Sem ofensas... Antes era diferente. Antes você era policial e havia uma troca de interesses, concorda? Eu ficava quieto e você me ajudava quando fosse preciso. Dei fim em todas as fotografias que mostravam a garota, conforme você me pediu. Mas hoje... Hoje você está aposentado, não conta com a parceria de ninguém de peso dentro da delegacia e não há vantagens que possa me oferecer. Já o doutorzinho... Ah! Ele me deu um cheque graúdo, que vai render bem mais que o champanhe da festa.

— E antes você era um merdinha qualquer, subordinado e que precisava se garantir no emprego, não é, babaca? Pra crescer e ter vantagens, você rezou na minha cartilha. Hoje não! Hoje é você o administrador do clube e por isso acredita que pode fazer o que bem entende.

— Está feito, Reinaldo. E isso não vai resultar em porra nenhuma, pode ter certeza. Eles assistiram aos vídeos e foram embora, todos com cara de bunda. Certamente não viram nada demais no pouco que conseguiram enxergar nas gravações.

E desligou o telefone.

Do outro lado, perplexo, Reinaldo não sabia como agir.

Na delegacia, envolta na papelada do caso de Rebeca, a delegada Gabriela tentava juntar as peças daquele quebra cabeças. Doze anos atrás uma jovem fora encontrada quase morta nos jardins de uma residência que era posse de família abastada e influente. O caso, após algumas semanas, fora arquivado. O tempo passa e a moça acorda desmemoriada do estado de coma estabelecido na ocasião e que parecia eterno, para voltar a casa com os amigos e tentar descobrir o que acontecera. Um policial enviado por ninguém se intromete na questão. Os bobos submetem-se ao interrogatório fictício forjado pelo homem.

— Alguma coisa não se encaixa, João - ela disse ao assistente que, apesar de exausto e com horário de plantão esgotado, ainda se mentinha na delegacia.

— E o que a senhora acha que pode ter acontecido, doutora?

Gabriela encarou friamente seu assistente antes de responder.

— Acho que estão todos enganados. Aquele advogado disse que somente o grupo de amigos estava na casa, contudo, uma pessoa de fora tentou aproximar-se após o retorno deles. O pior: se passando por um dos nossos! Se meu faro não me engana e isso nunca aconteceu, havia mais alguém naquela casa e essa pessoa passou despercebida. Talvez sua presença tenha sido encoberta por alguém. Provavelmente o homem que apresentou-se como policial sabe mais do que nós, ele tem algum envolvimento neste caso.

João sorriu orgulhoso do feito de sua superiora. Durante os cinco anos que dividira trabalho com a mulher, ele nunca a viu errar. Se ela falou que havia mais alguém na casa, certamente havia mais alguém na casa mesmo.

Do lado de fora, com o ouvido grudado na porta, Juvenal, policial da banda podre, que estava ali desde os tempos de Reinaldo e conhecia o caso de perto, ouviu tudo e descobriu que foi bom ter retardado sua ida para casa naquele final de tarde. Depois, o homem seguiu para o banheiro onde trancou-se para dar um telefonema.

Quando o celular tocou novamente, Reinaldo, acreditando tratar-se do administrador do clube com mais alguma informação inútil não o atendeu. Somente na terceira ligação ele percebeu que o nome que piscava na tela era de Juvenal.

Atendeu.

— Fala, Juvenal! O que você manda?

— Olha só, Reinaldo, decidi ligar por desencargo de consciência - o homem sussurrava ao telefone. — A delegada resolveu revirar o caso da bela adormecida de ponta cabeça e acho que ela não vai sossegar enquanto não encontrar alguma coisa. E o tal do João, aquele cheira bunda, está ajudando.

As coisas estavam se enrolando, Reinaldo percebeu.

— O que?! O João Babacão se meteu nisso também?

— É isso mesmo que eu falei e acho que vai dar merda. Liguei só mesmo pra avisar... E tem mais: não quero ter problemas. Se vire sozinho, não conte comigo. Falta pouco tempo pra minha aposentadoria e não é minha intenção me meter em encrencas. Apesar de eu ter as mãos limpas neste caso, eu sei perfeitamente o que aconteceu e, por respeito aos velhos tempos de parceria, decidi te precaver. Só isso. Não devo favores à vocês e não espere que eu tome atitudes. Não conte comigo pra mais nada.

O recado estava dado.

Juvenal desligou o telefone.

 

Não havia qualquer necessidade de manter o volume da televisão alto, as imagens eram o que interessavam e não a música estridente ou o falatório constante. Reunidos na sala e com a máxima atenção, os nove observavam as cenas gravadas.

— É com enorme satisfação que declaro aberta a pista de danças e convido ao centro o senhor Lair De Barros Figueiredo, ilustre presidente deste clube, e sua esposa, Dona Maria Júlia de Barros Fugueiredo - dizia o mestre de cerimônias ao microfone.

Dali pra frente foi preciso redobrar a atenção, pois a luz fraca dificultava qualquer identificação. Mas eles conheciam-se e, certamente, identificariam uns aos outros mesmo à meia luz. E assim foi.

A primeira a ser localizada no vídeo foi Ana Paula, que passou discretamente e foi seguida pela câmera, que só parou quando a moça parou também, ao lado de Afonso. Ana Paula disse algo e ele aparentemente não ouviu, o que fez com que ambos se aproximassem e ela falasse novamente com o rosto colado ao rosto dele. Viu-se então um leve sorriso nos lábios de Afonso.

— Foi uma cantada? - Lionel perguntou e recebeu olhares de reprovação. — Já sei! Não é hora para brincadeiras. Vou ficar quieto.

Depois a câmera voltou a trafegar pelo salão e após algum tempo, ao fundo, nas proximidades do bar, a silhueta de Jamile foi identificada. Ela esticou uma das mãos e pegou algo que o atendente do balcão lhe entregava. Um sanduíche, que de imediato foi levado à boca.

A câmera seguiu. Mais danças, mais pessoas. Daniel e Mundo apareceram rapidamente conversando e depois, Fernanda juntou-se a eles.

Durante um intervalo considerável, nada de relevante foi localizado, até que em outra volta da câmera, Jamile foi vista novamente, ainda no balcão do bar e ela comia algo em uma tigela.

— Meu Deus! Eu comi a noite inteira... - foi a própria Jamile quem fez a observação e parecia arrependida.

Na sequência, surgiram Lionel e Luciana. Eles dançavam, embalados por música romântica e, logo atrás deles, Rebeca!

Rebeca não estava só.

Ela tinha um par. Um homem alto, cuja face permanecia oculta na luz deficiente. Eles pareciam estar deixando a pista de danças no exato momento em que a câmera passou pelo local. Tudo foi muito repentino e a imagem não perdurou por mais que três segundos na tela.

— Volta! - Fernanda, como boa observadora, gritou.

Eles perderam as contas das tantas vezes que voltaram a cena. Tudo era muito rápido, de relance. Rebeca estava com um homem que não podia ser identificado. Depois ambos de mãos dadas, deixavam a pista de danças.

Mais duas horas de gravação estenderam-se após aquela cena e em momento algum Rebeca foi vista novamente.

— Acho que está explícito! Rebeca conheceu alguém no baile e por isso desapareceu - Ana Paula foi direta, não havia motivo algum para ser diferente.

— Eu?!

Rebeca nunca soube o que a levou a falar daquele jeito. Era exatamente aquilo que o vídeo mostrava. Pra que negar? Pra que fingir que não? Sua reação mostrava defesa desnecessária, descabida. Não há como negar algo que está evidente.

— Sim, Rebeca, parece que foi exatamente isso - Dan concordou com Ana Paula.

Para Daniel, era difícil admitir que ele, que sempre amara Rebeca, fora trocado por outro, um desconhecido, em um baile no qual ele mesmo sugerira a presença do grupo. Aquilo doía.

Rebeca de certa forma, precisava admitir que Ana Paula tinha razão. A probabilidade de ela ter deixado o salão em companhia do sujeito com quem dançava era grande. Estranho era ninguém ter visto que ela dançava com um desconhecido.

Mas para este fato eles já tinham a explicação: cada qual, como sempre, encontrava-se voltado para os seus próprios interesses, o que impedia os cuidados com um amigo.

Foi Fernanda quem surgiu com uma nova observação:

— Ninguém a viu durante o baile e quando Rebeca apareceu para voltarmos para casa, ela estava sozinha. Foi depois do baile que suas atitudes mudaram e agora, juntando tudo isso, eu pergunto: será, Rebeca, que você insistiu em se livrar de nossa companhia naquela noite para encontrar-se com este cara?

— Mas o acidente não foi no dia seguinte ao baile - Rebeca afirmou, buscando defender-se. Ela não conseguia imaginar-se trocando seus amigos por alguém de quem nem mesmo se lembrava.

— Não, não foi - Mundo afirmou. — Mas isso não é garantia. E foi realmente após o baile que você mudou, tornou-se distante e ríspida em algumas vezes.

— Sim, foi exatamente desta maneira. Mundo está certo - Fernanda concordou.

Ela começava a ver Mundo com outros olhos. Aquele era um detalhe que poderia ser banalizado, mas Mundo não o permitiu. Se ele tivesse algum envolvimento no acontecido, certamente não estaria tão interessado em desvendar o mistério ou não estaria tão atento aos meandros da situação. Talvez ela tivesse se enganado por doze anos.

— Pois é. Mundo está certo - Ana Paula completou. — Talvez você não tenha conseguido encontrá-lo logo no dia seguinte ao baile, mas quisesse vê-lo e por isso inventou aquela palhaçada de irmos cada um para um lado. Ou então, pode ser que você e ele tenham marcado um encontro para dois dias depois e, neste caso, nós não éramos bem vindos. Quem vai saber?...

A tristeza e a frustração estavam estampadas na face de Rebeca, Afonso percebeu. Ela, que sempre fora muito próxima de todos eles, via-se ali obrigada a, mesmo sem lembranças, reconhecer que trocara os amigos por um cara qualquer, por momentos apenas. A adolescência parece ter o dom de interferir negativamente em tudo aquilo que aprendemos ser correto, fazendo com que impulsos prevaleçam e sobreponham-se à razão.

— Gente, mas uma parte da história não faz sentido - Luciana interrompeu o raciocínio dos amigos. — Se Rebeca queria sair sozinha e aparentemente foi ela quem primeiro deixou a casa, porque foi encontrada desacordada no jardim?

— Sim, você tem razão - Lionel concordou com Luciana.

— Eu a vi deixando a casa, falei com ela no jardim - Daniel completou a informação dada por Luciana anteriormente.

Mundo buscou certezas:

— Você a viu deixando a casa ou apenas a viu no jardim, Dan?

— É. O fato de eu ter falado com Rebeca no jardim mostra apenas que ela foi para o jardim, não garante que ela tenha deixado a casa. Eu não esperei por lá tempo suficiente para vê-la atravessar o portão.

Ele jamais esperaria. A frustração frente à atitude de Rebeca fez com que Daniel seguisse para casa, para o seu quarto.

— Eu vi vocês dois conversando no jardim - Afonso informou. — Depois entrei e fui procurar algum filme para ver na televisão. Passado algum tempo, Ana Paula entrou e sentou-se comigo no sofá.

— Eu pensei em sair, mas desisti quando percebi que você havia ficado, querido. Eu estava no jardim, mas não cruzei com Rebeca por lá - a esposa de Afonso disse ciente de que ele a vira entrar do jardim, local onde supostamente Rebeca estava, e sem querer que qualquer culpa lhe fosse acarretada.

— Ela pode ter saído e voltado depois, pode não ter demorado muito na rua - Daniel sugeriu.

— Ou posso não ter saído.

Todos encararam Rebeca.

Nilo, descabelado e emburrado, surgiu no alto da escada.

Jamile, calada até então e visivelmente debilitada pelo jejum de dias, desmaiou.