Dias Vazios
Capítulo 26
Na delegacia, Afonso tinha impressão de que ele e a delegada não falavam a mesma língua.
— Deixar ver se eu entendi o senhor, doutor... Um policial esteve em sua casa ontem para interrogar você e seus amigos, é isso?
A mulher, apesar de jovem, era séria, postura impecável, o que fez com que ele, de alguma forma, sentisse maior segurança em relação ao caso, apesar de ter a certeza de que ela perceberia suas falhas.
— Exatamente. Aliás, não exatamente, pois a casa não é minha, mas foi deste jeito.
— Mas nenhum mandato foi expedido e confesso, não conheço o caso a fundo. Sei do acontecido pelos jornais da época e comentários, mas eu nem policial era àquela ocasião. O caso não foi reaberto e eu não mandei ninguém àquela casa. Talvez seja algum equívoco.
Rebeca sentia que tudo aquilo não os levaria a lugar algum. Ela não queria o envolvimento da polícia e insistira durante todo o trajeto para que Afonso mudasse de ideia.
— E qual era o nome deste policial? - A mulher perguntou.
Afonso, que teve vontade de rasgar seu diploma de advogado quando viu-se obrigado a admitir tamanha falha, titubeou um pouco antes de respondê-la.
— Não sei. Nós não perguntamos e ele, por usa vez, não nos informou seu nome.
— Doutor, o senhor está me dizendo que recebeu um homem que se diz policial em casa e nem sequer lhe solicitou uma identificação? É sério?
Rebeca intercedeu:
—Foi tudo muito repentino, delegada. Nenhum de nós esperava por uma visita da polícia. Estamos aqui em uma tentativa de reunir nosso grupo e me fazer lembrar, apenas isto; não há grandes pretensões. Talvez tenha sido um equívoco como a senhora disse e acho melhor deixarmos isto de lado.
— Não sei, minha jovem. É deixando de lado que as pessoas param de andar pra frente - a delegada, que parecia não entender o que acontecia, mostrava-se sensata. Se aqueles dois chegaram lá para saber sobre o tal policial que os visitara, como desistiam da informação tão rapidamente?
Gabriela Trindade, a jovem delegada, era uma justiceira nata ou carne de pescoço, como diziam seus subordinados. Não aceitava qualquer coisa e não se dava por satisfeita com facilidade. A visita da dupla de amigos logo pela manhã lhe soava como, no mínimo, constrangedora por denotar sua falta de controle em relação ao que se sucedia dentro de sua delegacia. Aparentemente um de seus homens fora ao encontro daquelas pessoas sem que ela ordenasse, para investigar algo que não era de sua alçada. Seu faro dizia que havia algo de podre naquele acontecimento.
— Vocês poderiam ao menos descrever o homem que os visitou? Estatura, idade, características físicas ou algum traço marcante e que ajude na identificação?
E assim eles fizeram. Detalharam as características do policial, bem como a suposta ironia presente em suas atitudes, o que despertou ainda mais a curiosidade e a fúria de Gabriela. Ninguém brincava de ser policial em sua jurisdição. Ela chegaria até este sujeito e descobriria suas reais intenções.
— Sugiro que voltem às suas tarefas e deixem a polícia trabalhar. Farei contato em breve, fiquem certos disto - disse confiante de que tinha trabalho pela frente e apontou a porta de sua sala para que ambos saíssem.
Depois que Afonso e Rebeca deixaram a delegacia, Gabriela chamou seu assistente.
— João! João!
Tão logo o homem surgiu à porta, completou:
— Quero os arquivos do caso da moça que foi espancada em 2006 na minha mesa o mais rápido possível. Quero saber quem estava na casa, quem cuidou do caso na época, o que foi descoberto e tudo mais que constar na papelada. E rápido!
Se antes não havia nenhuma interferência da polícia, ao menos não sob a ótica da delegada, a partir daquele momento, haveria.
Após deixar a delegacia, Afonso viu que havia mensagens de Ana Paula no aplicativo.
_____
Estávamos todos à mesa do café ainda quando o marido da Luciana chegou e ele é estranho, ninguém gostou dele, Afonso. Parece que veio pra ficar, trouxe mochila.
____
Depois da chegada do tal Nilo todos nós ficamos tensos, apreensivos. Não simpatizamos nem um pouco com ele. O cara é ofensivo, parece fingir gentilezas o tempo todo como se precisasse agradar. Você vai demorar pra chegar? Nem leu a mensagem anterior ainda...
____
Será que dá pra você me responder?!?!?!?!
Eram três as mensagens, com intervalo aproximado de dez minutos entre cada uma delas. Chegaram enquanto Afonso ainda estava na delegacia, ele sentira o aparelho vibrar dentro do bolso.
— O marido de Luciana chegou. Está na casa - Afonso comentou com Rebeca após a leitura e sem dar-se ao trabalho de responder a esposa. — Ninguém gostou dele.
— Ué! Mas vocês não o conhecem? - Rebeca questionou, surpresa com a informação captada nas entrelinhas.
A pergunta, partindo de uma pessoa que estivera ausente por doze anos, poderia ser natural, banal até, mas não era. A vida nos impõe provas como se precisássemos provar algo a ela, mas basta que sejamos algo para nós mesmos, que sejamos justos, que sejamos corretos. Afonso sabia que não havia normalidade alguma em não conhecerem o homem com o qual a amiga estava casada há anos, casamento este que inclusive resultou no afastamento desta amiga. Onde cada um deles estava enquanto a vida dos outros seguia seu rumo?
— Não. Ninguém foi ao casamento dela...
— Por quê?
— Ora, Rebeca, porque não. Luciana se afastou depois que começou a namorar este sujeito, não nos procurava mais e se um de nós a procurasse, ela nos evitava. Parecia só ter olhos para o namorado. E quando ela casou... Quando ela casou o grupo já estava quebrado. Ninguém foi.
Afonso havia notado que Luciana ficara tensa quando Dan comentou sobre o telefonema. Guardou a informação consigo com intuito de comentar mais tarde com Mundo ou com o próprio Daniel, o que acabou não fazendo. Por um breve momento sua ação pareceu comum: guardar atitudes com intuito de fazê-las e permitir que caíssem no esquecimento. Era sempre assim. Foi assim na noite em que Rebeca foi encontrada... Ele pensou em questionar Ana Paula sobre o que ela fazia no jardim minutos antes, mas em meio a toda aquela confusão, acabou deixando para mais tarde. Doze anos se passaram, eles casaram-se neste intervalo, e a pergunta nunca foi feita.
— E no seu casamento, eles foram? - Rebeca chamou-o de volta à realidade.
— Sim, mas nem todos. Você não foi, claro; e Luciana também não.
— E o Mundo? Ele foi? - Ela perguntou, mas já sabia qual seria a resposta.
— Não. Ana Paula não quis convidá-lo.
Rebeca constatou que seus amigos deixaram de ser amigos e ela não estava lá para ver ou tentar impedir. O grupo, coeso na adolescência e que somente discutia por picuinhas, já não existia, apesar de todos negarem o fato ou fingirem não vê-lo.
— O que faremos agora? - Afonso perguntou, desviando-a de seus pensamentos.
— É possível que Dan ainda esteja no clube. Vamos até lá.
— Não, rapaz. De uns anos pra cá tudo está diferente. O clube oferece o baile na noite de réveillon mesmo, dia 31 de Dezembro, com queima de fogos, ceia especial e tudo mais. Descobrimos que isto atrai público -administrador respondeu a Daniel, quando este perguntou se o baile já havia acontecido. — Hoje é dia 29, o baile será depois de amanhã. Estão todos convidados!
Aquilo parecia coisa de filme ou de livro de mistério e seria óbvio ter que levar Rebeca ao baile, onde anos antes ela tomara chá de sumiço, para que suas lembranças acordassem. Daniel não esperava ter que fazer isto, ele torcia para que tudo fosse resolvido antes.
— Até temos mais material... Algumas filmagens dos bailes e sei que naquele ano foi tudo filmado. Deve estar aqui em algum lugar, mas não posso procurar, não tenho tempo, sabe? Ainda preciso dar um jeito de conseguir os champanhes para a festa... Você acredita que não houve um empresário da região que oferecesse as garrafas de champanhe em doação? Se o clube precisar comprar, o prejuízo será grande... Não sei como vou resolver isso...
— Pensa que sou idiota? Você acreditou mesmo que eu não fosse te encontrar aqui? - Nilo pressionava a esposa.
Ambos caminhavam lado a lado pelos jardins da casa e ele, esperto como só, mantinha um sorriso no rosto. As palavras grosseiras saíam trincadas, pois assim, se alguém estivesse observando-os à distância, não perceberia.
— Eu só queria ajudar a Rebeca...
— E não me retruque. Não pense você, Luciana, que só por estarmos aqui, eu vou deixar isso passar barato. Não vou mesmo - ele falava olhando ao redor e, como não havia ninguém por perto, pegou o braço da esposa com força e a puxou para si, antes de completar: — Você vai ficar caladinha até amanhã, quando iremos embora. Seus amigos sabem que sou um policial? - ela negou com a cabeça e ele prosseguiu: — Não quero que fale para eles, não quero que conheçam minha função. Não quero que comente sobre nosso casamento, sobre nossa relação - ele falava das surras, ela entendeu. —Tenho as costas quentes, tenho conhecimentos, você sabe disso e se eu tiver algum problema, por menor que seja, não terei receio algum de apagar um deles e não vai ser só por doze anos, entendeu?
Nilo passava dos limites.
Luciana tentou desvencilhar-se do toque e ele apertou seu braço com mais força, levando-a a expressar em seu rosto a dor que sentia.
— Bem abusadinha, hein? Os amigos lhe dão coragem? - ele torceu-lhe o braço. — Pois vou repetir: se alguém desconfiar do que acontece em nossa casa, eu não tenho nada que me impeça de me defender apagando esta pessoa. Ficaremos aqui hoje, para socializar com esses imbecis e não levantar suspeitas e amanhã cedo tomamos um ônibus para casa. Lá você vai aprender a não brincar comigo. Já deveria ter aprendido, mas como você é burra e parece que ainda não aprendeu direito, vou te ensinar novamente.
— Mas Nilo...
— Não adianta nem implorar, Luciana. Você está errada! Errada, entendeu? - Nilo sacudia a esposa pelo braço e, para não despertar a atenção e nem erguer o tom de voz, mantinha seu rosto colado ao pescoço dela, suas palavras repletas de ódio eram vociferadas ao pé do ouvido de Luciana. — Você me deve obediência... Não pode me largar em casa e sair pelo mundo como se fosse uma puta sem dono, acompanhando meia dúzia de babacas que estão brincando de detetive. Maldita foi à hora em que essa garota acordou... Devia ter morrido, ter seguido pra terra dos pés juntos! Agora vamos voltar para a casa, não quero despertar a curiosidade dessa gente.
E seguiram rumo à entrada da casa, ela tensa, ele ostentando um sorriso falso e patético no rosto.
Lá de cima, da janela do quarto que ocupava, sem que eles percebessem, Ana Paula viu tudo, apesar de não ter escutado nada. Depois, sem saber ao certo o motivo, caminhou até a porta do quarto e a trancou. Sentou-se à cama e enviou uma mensagem para Afonso:
Acho que esse Nilo é violento. Vi pela janela que ele discutia com Luciana no jardim. Segurou-a pelo braço e a sacudiu com força... Definitivamente eu não fui com a cara dele e não estou gostando nem um pouco de sua presença na casa.
Depois, ciente de sua falha da facilidade de ter em mãos um telefone celular, constatou: Eu deveria ter fotografado isso!
Na sala, o telefone de Fernanda apitou de forma estridente. Era o alarme de mensagens, que ela fazia questão de manter em tom alto, para que não perdesse as informações que lhe chegavam.
Vi sua mensagem e você falou em polícia. Está com algum problema? Quer que eu vá ao seu encontro? Prefere que envie alguém... Um advogado?
Era Osvaldo e ela arrependeu-se de ter comunicado ao pai sobre a visita do policial. O homem não exagerava somente nas roupas, exagerava em suas atitudes também e se ela não tivesse cuidado, provavelmente ele daria
jeito de Skerlock Holmes[16] ou Miss Marple[17] aparecerem ali para investigarem o que acontecia. Para Osvaldo não havia impossível que pudesse ser considerado como tal. O dinheiro não lhe impunha limitações.
Está tudo bem, pai. A situação já foi resolvida. Diz pra mãe que mando um beijo.
Respondeu e de imediato Osvaldo devolveu-lhe seu bordão:
A vida é pauleira! Sua mãe também manda um beijo.
— Tudo bem? - Lionel perguntou ao ver que Fernanda se comunicava pelo aplicativo de mensagens.
— Sim - ela respondeu. — Era apenas meu pai, preocupado com a incursão do policial ontem.
Lionel meneou a cabeça e rebateu:
— Acredito que agora nós devemos nos preocupar com outra incursão...- e apontou para Nilo, que entrava pela porta da frente, segurando Luciana pelo braço.