Dias Vazios
Capítulo 33
A área foi iluminada pelos reflexos de faróis que acenderam-se simultaneamente. Em fração de segundos após o tiro, Ana Paula, Afonso, Daniel e Fernanda deixaram seus quartos e chegaram ao jardim. Luciana não. O som acordou a jovem dentro do quarto, mas as sensações que a invadiram impediram que qualquer atitude fosse tomada. Luciana ficou sentada à cama, paralisada, encolhida, abraçando seus próprios joelhos.
—Depois da informação de que um suposto policial veio até a casa, nos atentamos para o fato de que alguém sentia-se em risco. E bastou um pequeno descuido de um de seus cúmplices para que tudo fizesse sentido - a delegada Gabriela explicava.
— Então montamos guarda na frente da casa, pois sabíamos que ele estava aqui - João, o assistente, completou.
O tiro mal dado direcionado à Jamile acertara de raspão o braço da moça que, apesar de ter perdido bastante sangue, recebia os primeiros socorros dados por Daniel ali mesmo.
— Mas o que aconteceu, afinal? O que Nilo tem a ver com tudo isso? -Ana Paula perguntou à delegada.
—Anos atrás, antes de tornar-se policial, Nilo morava aqui em Petrópolis, com o pai, a mãe e sua meia irmã, fruto do primeiro casamento de seu pai. O infeliz sempre quis ser policial, sempre viu na profissão uma maneira de exibir força e tirar vantagens das pessoas. Era covarde, um doente mental, sem sombra de dúvidas - Gabriela explicava. — Naquela noite de Dezembro de 2006, ele foi um dos homens que compôs o quadro de seguranças do clube, recrutado por um dos policiais da delegacia que hoje eu comando. Este policial atualmente está aposentado. Foi ele quem esteve aqui e fingiu vir em missão oficial. À época, ele tornou-se amigo de Nilo, o protegia sabe lá Deus o porquê...
— Semelhanças, doutora. Foram as semelhanças que os aproximaram. Ambos são tão sujos como pau de galinheiro - João completou.
— É verdade - a delegada concordou e depois prosseguiu: — Este policial nunca foi muito certinho, gostava de facilidades e sempre cometeu falcatruas. Nilo também. Na ocasião do baile, Nilo aproximou-se de Rebeca e não sei por qual motivo, dois dias depois ele veio até esta casa e sua visita resultou vocês já sabem em quê...
Gabriela era esperta. O interrogatório de Reinaldo, realizado naquele começo de madrugada, dera-lhe detalhes da situação. Ela sabia perfeitamente que foi movido pela raiva de sentir-se menosprezado por Rebeca, que Nilo fora até a casa. Mas não era conveniente esclarecer tudo de uma só vez. Era preciso juntar os fatos, era preciso esperar e ver o que aqueles jovens acrescentariam à investigação e se seus relatos estariam de acordo com o relato do policial aposentado, uma vez que morto, Nilo não diria mais nada.
— Sim. Conversei com ele naquela noite, na área perto da piscina -Rebeca iniciou sua explicação, atraindo para si os olhares de todos. — Só me lembrei disto agora, quando me deparei com ele no jardim.
Os amigos a encararam.
Ela prosseguiu.
— Eu marquei de encontrá-lo novamente no dia seguinte, em sua casa. Não contei nada aos meus amigos, não queria que fizessem juízo errado... Na realidade eu não queria que ninguém soubesse, queria ter aquele momento só pra mim. Mas não consegui ir ao encontro dele, pois o Dan havia ocupado todo o nosso dia com passeios e não encontrei um jeito de me afastar deles. Então, no dia seguinte eu me irritei. Queria ir ao encontro daquele rapaz de quem eu nem mesmo sabia o nome e para isso discuti com todos. Coloquei o grupo inteiro contra o Dan e sugeri que cada um de nós determinasse o que faria e o fizesse individualmente. Foi a única forma que encontrei de me livrar de vocês. A culpa pelo que aconteceu foi minha. Eu proporcionei tudo... Me deixei levar por um desconhecido, marquei um encontro às escondidas e fiz questão de que nenhum de vocês soubesse. Ao optar por encontrar-me com um estranho, eu coloquei minha vida em risco e para conseguir levar adiante este encontro, criei problemas com meus verdadeiros amigos. Me afastei e os afastei.
Frente a todos eles - quase todos, Luciana permanecia no quarto -, Rebeca assumiu seu erro: ela se encontraria com um desconhecido sem que ninguém soubesse.
— Quando eu já estava por deixar a casa, encontrei Nilo próximo ao muro e ficamos conversando no jardim, onde ninguém poderia nos ver. Ele estava irritado por eu não ter ido à sua casa e havia bebido. Havia bebido muito. Até conversamos por algum tempo, mas em determinado momento Nilo tentou me agarrar e eu me esquivei. Tive medo. Ele irritou-se ainda mais e perdeu o controle. Começou a me bater. Me bateu muito...
E Rebeca, envergonhada, começou a chorar.
Atenciosa ao relato, Fernanda percebeu que algo não se encaixava. Se Nilo aguardava por Rebeca próximo ao muro e não havia entrado na casa, como o violão de Lionel estava quebrado na cena do crime?
— Mas e o violão? Se ele não entrou na casa, como teve acesso ao violão de Lionel? - ela perguntou e daquela vez não se tratava de fofoca.
Sem que esperassem, Jamile, com uma das mãos sobre o ferimento que tinha no braço e ainda amparada pelos amigos, começou a falar.
—Ninguém comeu sobremesa depois do jantar e o pudim de doce de leite foi parar intacto dentro da geladeira. Eu estava de dieta e já tinha perdido alguns quilos, mas um pudim daqueles era uma grande tentação. Era injusto que todos tivessem rejeitado-o e eu precisava de uma fatia - as lágrimas desciam de seus olhos e não se tratava de dor decorrente do ferimento; era mais que isso. —Eu falei que sairia, que iria à uma loja comprar balas dietéticas e fui, mas aquilo não me satisfez. Segui para meu quarto e quando vi a casa silenciosa, desci até a cozinha. Passei por Mundo no caminho, ele me viu - ela olhou para o rapaz que com um aceno de cabeça confirmou o que era dito. Depois Jamile prosseguiu: — Eu precisava do pudim. Eu comeria um pedaço e na manhã seguinte ninguém saberia que fui eu, ninguém tomaria ciência de meu pecado. Quando me aproximei da geladeira e a abri, Luciana apareceu na cozinha. Me assustei, fui grosseira com ela, que saiu de lá sem jeito. Acabei não comendo o pudim... Qualquer um poderia chegar ali e, de certa forma, me dei conta de que era injusto comigo, eu não deveria quebrar minha dieta. Quando segui em direção ao quarto, vi o violão de Lionel no corredor. Lionel... Que sempre fazia questão de destacar meu excesso de peso, que sempre debochou de mim, sempre me deu apelidos ridículos. Eu sabia do apreço que ele tinha pelo instrumento e do tempo que havia demorado juntando dinheiro para comprá-lo. Decidi me vingar. Peguei o violão e saí para o jardim. Minha intenção era escondê-lo em algum canto, pregar uma peça em Lionel. Eu achava que o susto de não encontrar o instrumento seria bom para ele. Foi quando vi que Rebeca tentava se desvencilhar de alguém que a agarrava e batia nela. Não consegui identificar quem era, vi apenas que era um homem. Cheguei mais perto e vi que Rebeca realmente corria risco de vida. Ele batia muito e apertava seu pescoço. Juntei coragem e gritei para afastar o homem. Percebi que ele se virou em minha direção, ele me olhou. Eu parti pra cima dele e levantei o violão que ainda estava em minhas mãos. Aquela era a arma da qual eu dispunha e estava decidida a acertá-lo. Mas ele girou seu corpo, levando Rebeca consigo. Ela ficou na direção do golpe e eu, sem querer, quebrei o violão na cabeça dela. O homem largou Rebeca que caiu desacordada e correu. Ele fugiu. Eu não vi quem era, não consegui ver seu rosto. Então me aproximei de Rebeca e achei que ela estivesse morta; achei que eu havia matado-a. Gritei. Foi o meu grito que todos ouviram e que fez com corressem para o jardim. Logo depois de gritar, com medo de que me acusassem, corri para uma das portas de acesso a casa. Aquela porta - ela apontou. — E vi que Mundo vinha de lá de dentro. Então me virei, dando a entender à Mundo que eu não estava deixando o local, mas chegando, assim como ele também chegava. Foi então que Fernanda apareceu e nos encontrou. Não foi Mundo quem chegou primeiro ao corpo de Rebeca, como afirmamos e acreditamos durante todos estes anos. Fui eu, que já estava lá, que fugia de lá. E eu nunca disse nada por medo. Tive medo de ser mal interpretada. As pessoas sempre acreditaram que eu, por estar sempre acima do peso, as invejava. Ninguém conhece a dor do drama que eu carrego, ninguém sabe o que é ser desrespeitada e virar motivo de chacota por ser ou estar gorda. Era certo de que cada um entenderia como bem quisesse... Eu tive medo de que todos pensassem que a gorda havia invejado a amiga por ela ter um encontro ou um namorado e por isso se vingou.
Foi em sua última frase, ao falar de si na terceira pessoa como se a dissociasse do que fora no passado, que Jamile demonstrou aos amigos todo o peso do bullying que sofreu na adolescência. A perversidade que lhe fora direcionada alterara por completo sua capacidade de entendimento e percepção, fazendo com que ela buscasse proteger-se até mesmo quando não havia necessidade e quando questões graves eram postas em jogo.
— E nem após a chegada de Nilo você não o associou ao homem que atacou Rebeca? - Fernanda questionou mais uma vez.
— Não - Jamile respondia com a voz ainda embargada. —Aquele canto do jardim estava escuro e eu não vi o rosto do homem, vi apenas sua silhueta. E quando Nilo apareceu aqui, eu tive nojo. Só nojo. Mas ainda assim, não pude associá-lo àquela silhueta.
Quando concluiu seu relato Jamile percebeu que Mundo estava ao seu lado e que segurava uma de suas mãos. Ele a abraçou forte, sem qualquer resquício de raiva. Fernanda aproximou-se também, tentando entender as dores da amiga.
— De acordo com o laudo médico, a causa do coma de Rebeca foi a batida que ela recebeu na cabeça. - Daniel informou.
Não era sua intenção prejudicar Jamile, mas ele era um médico e como tal deveria primar pela ética. Evidentemente aquele detalhe seria descoberto pela delegada, não havia como ocultá-lo.
Jamile chorou ainda mais.
O dia já havia raiado.
O corpo de Nilo, coberto por um saco preto, esfriava no jardim, cercado por três policiais que aguardavam a chegada do rabecão. Lá em cima, no quarto, sem que ninguém soubesse, Luciana tremia ainda agarrada aos próprios joelhos. O medo, velho amigo de tantas horas, estava por ali e lhe fazia companhia.
Na sala, Ana Paula servia um café recém passado aos amigos, à delegada, que acabara de receber mensagem através do telefone celular e a João, que coletavam mais informações, quando Hilda surgiu à porta.
— Bom dia - ela parecia nervosa e de imediato dirigiu-se respeitosamente a Daniel: — Me desculpe por parecer enxerida, doutor. Mensurei toda a situação antes de me deslocar para cá...
Todos entreolharam-se e foi a delegada quem fez a pergunta:
— Quem é a senhora?
— Sou Hilda. Sou enfermeira da equipe do doutor Daniel e acompanhei a internação de Rebeca. Tenho grande apreço por esta menina, mas não estou aqui por sua causa. Estou aqui por causa de Luciana - depois, Hilda voltou-se para Daniel. — Foi quando o senhor falou o nome do marido da moça ao telefone que eu juntei as peças. Não pode haver dois Nilos com o mesmo temperamento... E, quando pensei um pouco mais, pude identificar a voz dele. Este Nilo, marido de Luciana, que apareceu na casa de dona Amélia procurando por Rebeca e andou telefonando para lá também, é meu meio-irmão, filho de meu pai com sua segunda esposa. Foi nas mãos de Nilo, logo após ele começar a se achar homem, que eu comi o pão que o diabo amassou. Foi por causa dele que abandonei a casa que meu pai havia deixado para mim. Eu já não aguentava mais apanhar... E por causa dele que carrego esta cicatriz no rosto - Hilda levou uma das mãos à face. — Eu vim porque imaginei o motivo de Luciana ter vindo para cá sem avisá-lo e que ao encontrar a esposa ele se voltaria contra ela. Temi pela segurança da moça e fiz o que estava ao meu alcance.
Luciana, que reunira coragem para descer, estava aos pés da escada e presenciara a chegada da enfermeira.
— Ele sempre me bateu. Sempre. Desde a primeira semana de casados. No começo, durante nosso namoro, tudo parecia maravilhoso; tão maravilhoso que me afastei de meus amigos para me dedicar apenas a ele, exatamente como ele me pedia. Exigia na realidade, mas eu não considerei sua maldade, não vi a situação desta forma. E eu acreditava que fosse amor, acreditava que Nilo me queria só para ele por me amar muito. Não percebi que era doença. Continuei não vendo após as primeiras surras, sempre achei que um dia seria diferente, que ele pararia. A gente acredita em cada coisa!... Depois, quando percebi que havia algo de errado em seu comportamento, eu já não tinha mais o que fazer, com quem contar ou a quem recorrer. Não havia saída. Ele havia me afastado de todos em quem eu confiava e eu não sabia como estas pessoas me receberiam de volta. Me senti sozinha e apavorada.
— Você podia ter nos procurado... - Ana Paula disse e foi silenciada pela delegada.
— Deixe que ela prossiga, por favor.
Luciana prosseguiu.
— Houve uma ocasião em que ele me bateu tanto que eu perdi o bebê que esperava. Foi quando o procurei, Dan, pedindo indicação de contraceptivo
Daniel assentiu com um gesto de cabeça, permitindo que o peso da negligência se instalasse sobre seus ombros e sobre sua consciência. Luciana, sua amiga de infância, tinha um problema grave. Ele não havia lhe dado a devida atenção. Preocupado somente e excessivamente com seu trabalho e com sua carreira profissional, Daniel não foi o amigo que deveria ter sido. Sem saber, ele fechou os olhos e não viu o que deveria ter visto. Quando alguém fecha os olhos pra determinada realidade, a dita cuja não se esvai, não deixa de existir. Ela permanece lá e exatamente do mesmo jeito. A única diferença é que aquele que fecha seus olhos não sofre os infortúnios da promessa de incômodo embutida no que não foi visto. Nenhum deles viu os problemas dos outros... Onde a amizade havia se perdido para ceder espaço aos interesses pessoais e exclusivos de cada um deles? Quantas situações poderiam ter sido evitadas apenas se Daniel se dispusesse a conversar com ela na ocasião?
— Eu já não queria um filho, não de Nilo. Não queria gerar uma criança para que ela passasse por tudo que eu passava. Ele usava de sua profissão para me intimidar ainda mais e eu sabia que não tinha para onde correr, pois sempre haveria um amigo que o ajudaria a descobrir onde eu estava. Sempre tive medo de Nilo, muito medo.
Mundo caminhou na direção de Luciana e, amparando a amiga, indicou uma poltrona para que ela se sentasse. Ela sentou-se e prosseguiu:
— Quando Fernanda me falou sobre o encontro marcado por Rebeca, percebi de imediato que eu não teria como vir. Eu sabia que ele jamais permitiria. Então veio o Natal. Nilo encheu a cara e colocou uns amigos dentro de casa. Quando estes amigos foram embora, eu apanhei. Ele disse que passei a noite me oferecendo... Depois, no dia marcado para a viagem, enquanto ele dormia eu arrumei uma bolsa com alguns pertences, tomei um ônibus na rodoviária e vim para cá, sem avisar a ele e nem a vocês. Cheguei cedo, antes do horário combinado pelo grupo.
Ela chegou cedo, antes do horário de almoço ainda. -, Rebeca lembrou-se da frase dita por dona Genoveva naquela tarde, quando chegaram a casa. Antecipar-se foi a solução encontrada por Luciana e que passou despercebida, assim como tantas coisas sempre passavam. Ninguém via.
— Foram anos apanhando, foram anos sem botar a cara na janela para que os vizinhos não vissem um olho roxo ou a minha boca inchada. Foram anos sem poder expressar meus pensamentos e obrigada apenas a concordar com o que ele dizia ou queria. Eu esperava poder contar com vocês quando cheguei aqui, esperava que pudessem me ajudar. Mas assim como eu, meus amigos já não eram os mesmos. Encontrei um grupo quebrado, cada um de vocês estava voltado para sua própria defesa, para provar inocência em relação ao acontecido com Rebeca. Ninguém percebeu o que acontecia comigo. E eu tinha vergonha de falar sobre o que passava...
— Nós percebemos depois que ele chegou - Ana Paula a interrompeu mais uma vez sem dar importância ás advertências da delegada. — Tanto por sua reação como pela forma como Nilo agia, eu notei que havia algo de errado. Conversei com Mundo a respeito e depois, com Afonso.
— Foi - Mundo confirmou.
— E você sempre soube que foi seu marido o responsável pelo que aconteceu à Rebeca anos atrás? - Gabriela perguntou, torcendo para que aquela moça indefesa realmente não soubesse e desta forma não fosse considerada uma cúmplice.
— Não. Eu nunca soube de nada, nem desconfiei. Ouvi lá de cima os comentários de vocês.
Somente João, que conhecia a bondade da delegada como conhecia as linhas das palmas de suas mãos, percebeu o alívio no rosto da policial após a resposta de Luciana. E foi ele quem concedeu maiores detalhes à jovem.
— De acordo com informações de Reinaldo, um policial aposentado da corja de seu marido, o homem que esteve aqui para interrogá-los, Nilo se aproximou de você justamente para manter-se ligado ao grupo. Foi uma forma de controlar a situação. Foi tudo de caso pensado.
— Então ele nunca me amou de verdade - Luciana disse baixinho.
— Ele nunca amou ninguém, minha filha. Nem mesmo a própria mãe -Hilda tentava acalmar Luciana.
— Infelizmente, este é um fato. Recebi uma mensagem minutos antes. Mandei que um de meus homens investigasse o paradeiro da mãe de Nilo.
— A mãe dele já faleceu, ele nunca fala dela, mas me contou em certa ocasião, ainda nos tempos de namoro, quando perguntei - Luciana tentou poupar o tempo da delegada.
— É mentira. A mãe de Nilo está viva, internada em um asilo deplorável, em péssimas condições e que acabou de ser estourado pela policia. O policial que a procurava foi até o local, constatou sua precariedade e fez a interdição. Os internos serão transferidos para hospitais ainda hoje e passarão por avaliação médica. A mãe de Nilo aparentemente está bem se comparada aos outros pacientes, porém mal alimentada e não fala.
Mesmo depois de morto, a perversidade daquele homem fazia-se presente. Frente à informação da delegada, Hilda lamentou por ter deixado à madrasta com aquele traste e comoveu-se com o destino da velha senhora.
— E onde ele está agora? Eu ouvi um tiro - Luciana perguntou sem saber de onde tirava forças para tal.
— Morto no jardim, no mesmo local em que ele quase matara Rebeca doze anos atrás. Foi alvejado pela polícia após desferir um tiro contra esta moça - a delegada apontou para Jamile.
Hilda fechou os olhos em oração pelo meio-irmão recém falecido. Não se tratava de nenhum sentimento nobre, Nilo não era digno. Tratava-se de um hábito. Ela fechava os olhos em oração sempre que constatava a morte de algum dos pacientes que acompanhava.
Luciana também fechou seus olhos. Por alívio.