Dias Vazios

Barbara Nonato · Capítulo 12 de 36

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Dias Vazios

Capítulo 11

 

Foi a enfermeira Hilda quem deu um ponto final ao encontro quando já passava das onze da noite e Afonso parecia ter bebido além da conta. Discreta durante todo o tempo, a mulher buscou circular entre as conversas sem intrometer-se, para obter informações em relação ao que era falado. Dan tinha o intuito de fazer o mesmo, mas ele era um só e a colaboração de Hilda foi de grande valia. Pelo que puderam perceber, ninguém mencionou nada sobre o que levara Rebeca ao coma, apesar da jovem, em alguns momentos, ter tentado colher informações.

Para Ana Paula as coisas não pareciam tão seguras, assim como para Dan. Enquanto a esposa de Afonso tinha receio de que o vinho levasse seu marido a insinuar-se para Rebeca, o médico tinha medo de que ele falasse em excesso, se é que Afonso teria algo para falar. O fato de desconhecer o que havia acontecido fazia com que Dan buscasse tomar todos os cuidados possíveis para que Rebecca não esbarrasse em nenhuma informação que levasse a associações ou possibilidades. Eles buscavam certezas e certezas não admitiam suposições.

O encontro estava encerrado e dali para frente cada um seguiria sua vida, o que dava à Rebeca a perspectiva de vazio. O que ela faria após a saída do último amigo? O que seria dela na manhã seguinte, quando todos seguiriam sua rotina? O que havia acontecido doze anos antes? Não havia como conformar-se com o nada, sua personalidade não lhe permitia. Era absurdo imaginar-se em meio a um redemoinho onde a estagnação era válvula motriz.

— Talvez ela não se lembre nunca - Fernanda comentou dentro do carro, enquanto Daniel dirigia em direção à Copacabana para deixá-la em casa.

— Pode ser. Não há garantia e nem certezas. Rebeca pode não se lembrar, assim como pode acordar amanhã com tudo esclarecido.

E o que viria depois, caso isto acontecesse? Quem seria o prejudicado, se é que se pode chamar de prejudicado o causador de tudo aquilo... As perguntas povoavam os pensamentos de Daniel e ele, sem querer despertar maiores questionamentos em Fernanda ou possíveis suspeitas, se calava.

— E o Mundo? Tem falado com ele? - Fernanda foi incisiva.

Assim como Amélia, ela também não queria Mundo por perto. As diferenças eram claras e, por mais que o passado tivesse os aproximado, em sua concepção o presente já não permitia mais tamanha proximidade.

— Conversei com ele após o despertar de Rebeca, mas, como sabia que ele não seria bem vindo à reunião, o evitei nestes últimos dias para não ter que convidá-lo. Não era minha intenção proporcionar-lhe constrangimentos ou humilhações.

Era verdade; quando não sabia o que dizer ou fazer, Daniel fugia, exatamente como fugiu de Mundo. Depois, o médico completou:

— Ele ficou contente quando soube que ela havia saído do coma. Esteve com ela noite dessas...

— E certamente não disse nada.

O tom de Fernanda foi de provocação; ela queria atiçar Dan, certa de que ele tinha mais a dizer. O amigo sempre defendeu Mundo, a vida toda.

— E o que ele diria?

— Ah! Me poupe, Dan - a irritação falava mais alto que a própria Fernanda. — Todo mundo sabe que a probabilidade de ter sido Mundo o responsável pelo acidente, é grande. Ele foi o primeiro a chegar...

— Todo mundo sabe? Baseados em quê, pode me explicar?

Ela não podia. Não havia justificativa que pudesse acarretar culpa à Mundo, ao menos não que estivesse fundamentada em fatos. Em sua concepção, a culpa caía automaticamente sobre ele por ser o mais pobre, o filho da faxineira; somente por isso. Era mais cômodo que todos o julgassem ao invés de buscar a verdade dos fatos. Contudo, se Mundo poderia ser considerado culpado, qualquer um deles também poderia. Se fossem esmiuçar, todos teriam motivos, mesmo que fúteis ou banais. E ela, apesar de afirmar para proteger Jamile, nem tinha certeza de que fora realmente ele quem chegara primeiro ao local.

Fernanda não disse nada. O preconceito estampado em sua face já falava por ela. Manteve-se calada até o momento em que Dan estacionou em frente ao prédio onde ela morava para só então despedir-se e seguir para casa.

 

Ao entrar em seu apartamento, Jamile foi direto para o banheiro. O dedo na goela resolveu os excessos do estômago, ingeridos durante a reunião, e era uma pena que ela não pudesse cuidar também de seu excesso de nervosismo. Tensão não pode ser vomitada. Rebeca estava bem, muito bem por sinal, e carregava consigo os traços de sua adolescência, aqueles dos quais Jamile não queria nem mesmo as lembranças. E pensar que tudo havia começado naquela mesma varanda...

— E se a gente fosse para a casa que meus pais têm em Petrópolis?

Foi Dan quem interrompeu a partida de War, hábito que o grupo

mantinha há alguns bons anos, com a sugestão.

— Topo! - Afonso, sempre descompromissado, aderiu à ideia de

imediato. Era certo que seus pais autorizariam.

— Eu também! - Lionel concordou, ciente de que não teria qualquer

problema em conseguir autorização de seus pais.

— Não sei se minha mãe deixaria... - Luciana foi a primeira a falar

sobre a possibilidade de não ter autorização e após seu pronunciamento, as meninas concordaram, com exceção de Fernanda.

Fernanda conhecia bem o pai e Osvaldo não lhe permitia grandes

feitos. Ela não podia fazer quase nada e somente estava ali, na casa de Rebeca naquele momento, por se tratar especificamente da casa de Rebeca; fosse, por exemplo, na casa de Afonso, não teria obtido permissão. E se por acaso, Osvaldo passasse na calçada e visse a presença dos meninos, ela seria posta para casa; era sempre assim. A filha de Osvaldo não tinha direitos, assim como a esposa também não os tinha, situação que mudaria anos depois, após o enriquecimento, quando o tempo do homem se tornaria curto para contar vantagens, beber água de coco em quiosques da orla e publicar fotografias ridículas na internet. Se as amigas achavam que seus pais talvez não deixassem que elas fossem, Fernanda tinha a mais absoluta certeza de que ouviria um "não" de Osvaldo.

— Posso pedir pra minha mãe falar com eles. Meus pais se

responsabilizam, podem ter certeza - Dan insistiu.

— Seria muito legal!

Mundo! Aquela frase só poderia ser de Mundo, aquele que nunca ia

a lugar algum. Mesmo que ninguém fosse, mesmo que a viagem caísse por terra, Mundo estaria lá, como uma mosca varejeira, sobrevoando a riqueza da família de Daniel.

— Nós poderíamos ir para lá depois do Natal, só não sei ainda em

qual dia, e ficaríamos até a primeira semana de Janeiro. Conseguem imaginar como seria bom todos nós em uma viagem dessas?

Ele era generoso, não se podia negar. Petrópolis não era novidade

para Dan, mas ele queria dividir suas férias com os amigos, queria proporcionar-lhes algo diferente.

Jamile gostou da ideia. Teria sido bem pior se Daniel sugerisse

alguma região praiana... Ela se negava a usar maiô em público, o que fazia da serra local perfeito para ajudar a esconder suas imperfeições. Se tivesse sorte, seus pais autorizariam. O único problema remetia ao fato de ter se programado para iniciar uma rigorosa dieta naqueles dias. Fazer dieta em meio a uma viagem não seria nada agradável...

O maiô já não era mais um problema para Jamile e a lembrança do antigo dilema fez surgir um sorriso em sua boca, ainda com gosto de vômito. Não se tratava de passado, era o futuro que estava em jogo e o jogo, definitivamente, não era mais War. Jogo da Vida, talvez; ou Detetive, quem saberia?

 

Ana Paula estacionou seu carro dentro da garagem, na vaga ao lado de Afonso, que fazia o mesmo. Chegaram simultaneamente ao prédio onde moravam. Ao deixar o veículo, ela foi direto para o elevador e ele a seguiu. Somente ao entrarem no apartamento, após terem sido saudados por Kal-El, ele se pronunciou:

— Achei que Rebeca está bem...

— É? Achou? - Ela não esperava que ele elogiasse a rival descaradamente. — Não reparei.

Ela havia reparado sim e sabia que fisicamente Rebeca estava bem, sua aparência era excelente quando considerado o tempo que a jovem esteve ausente.

— É até curioso ver que todos estamos diferentes e ela continua quase do mesmo jeito. Até o corte de cabelo ainda é o mesmo.

— Sim, pateticamente ela se mantém como se tivesse seus dezesseis anos ainda...

Ana Paula não sabia se a força que fazia para esconder o ciúme era suficiente, parecia que não. Anos antes, o interesse de Afonso em Rebeca era notório, todos percebiam e o fato de saber que não teria chances com o bonitão não impedia sua amizade com a jovem. Mas agora a coisa era diferente! Ela teve a chance enquanto a amiga brincava de Bela Adormecida e soube agarrá-la; não havia intenção alguma de perder o marido.

Sem saber mais o quê dizer, seguiu para o chuveiro. Na sala, Afonso serviu-se de um cálice de vinho e ligou a televisão para acompanhar o noticiário. Era os acontecimentos políticos que o motivavam naquele momento, apesar de sua mulher acreditar que seus pensamentos estavam voltados para Rebeca.

 

Na penumbra do quarto de hotel, Lionel sacou o violão e entoou os primeiros acordes de Dias Vazios. Ele soube disfarçar durante o encontro com os amigos, entretanto era exatamente daquela forma que se sentia: vazio.

Depois que você se foi, não sei dizer quem ficou,

Não consigo ler o que restou, quem sobrou

Conheço as dores de um espaço qualquer,

Vejo lembranças remotas, coisas que ninguém mais quer

Luciana não compareceu e ele esperava revê-la. Os outros pareciam todos envoltos em inverdades, como se buscassem disfarçar o passado, omiti-lo no véu turvo que encobria o presente. Buscavam por respostas que talvez um deles tivesse e que somente Rebeca poderia confirmar, mas para isso era preciso reaver as lembranças.

Todos poderiam ter culpa. Todos. Inclusive ele mesmo. Quem mandara escolher justamente aquele dia para um pileque que lhe apagaria todas as recordações daquela fatídica noite? Que merda! A bebedeira serviu-lhe para uma única coisa: nunca mais ingerir um só gole de álcool. A lição foi bem aprendida.

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Havia uma porta ali e à minha frente, uma cortina de tecido fino. Era somente aquilo que eu conseguia ver. O vento, que parecia traiçoeiro, insistia em movimentar a tal cortina, mas, ainda assim, não me revelava nada. Eu não conhecia aquele lugar, nunca o vi.

Nenhum som se fazia presente, sem sonoridades além daquela provocada pela chuva fina lá fora. Sim, havia alguma chuva, apesar de pouca. Sem saber onde estava ou como havia chegado até aquele lugar, eu chamei por Luciana, mas não obtive resposta. Era como se o local estivesse completamente vazio, sem ninguém, apesar daquela porta aberta e do vento que insistia em chacoalhar a cortina. E apesar das pegadas.

Vi pegadas no chão, marcadas pela umidade. Alguém, em momento recente, havia varado aquela porta e esgueirado-se pelo cômodo, mas quem? Que lugar era aquele?

Eu corri, mesmo sem saber onde estava e sem saber aonde chegaria. A cada passo dado, a escuridão aumentava, ou minha visão ficava turva, eu não sabia distinguir; não conseguia. Chamei por Fernanda, por Jamile, por Daniel, mas ninguém respondia; não havia voz que se fizesse ouvir além da minha. O único som presente remetia a passos pesados, quase arrastados, e cada vez mais próximos. E o cheiro... um perfume que me era familiar...

 

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