Disque T para titias
Capítulo 5
Eu gosto que Nathan queira me impressionar, porque também quero impressioná-lo. E realmente fico impressionada com ele. Mesmo após dois anos, o que envolve peidos e outros constrangimentos (flatos vaginais, alguém aí?), ainda fico tremendamente impressionada com Nathan. Eu o amo. Quero viver uma vida com ele.
Dane-se a maldição da família. Não importa. Estou em Oxford, Inglaterra. É
aqui que as maldições vêm para morrer. Ao pensar nisso, quase solto uma gargalhada. Nunca parei para refletir sobre como a crença na maldição, mesmo que em parte, me puxa para baixo, mas agora percebo que ela sempre me espreitou, me atribuindo uma data de validade. Porém, é uma estupidez. Por que amaldiçoar o relacionamento se não há nada de errado? Tomo uma decisão.
Quando voltar para casa, vou contar à minha mãe sobre Nathan. Vou lhe contar tudo. Vou contar até para as minhas tias. Vou contar no dim sum de domingo, já que sempre ficam felizes quando comem dim sum. Tudo vai acabar bem.
5
Presente
— Pooorra.
Dor. Muita dor, vinda das profundezas do meu ser, apertando meu peito como um punho vermelho, para então irromper de mim em um gemido. E o som da minha voz, que, de tão rouca de dor, chega a soar diferente, me faz recobrar os sentidos. Pisco. Pisco de novo.
Certo. Estou no meu carro. Não na Inglaterra com Nathan. Meu carro.
Uma luz cintila intermitente na minha visão periférica. É a seta do carro, que emite um barulho infernal de clique. Estendo o braço para desligá-la, e o movimento faz a dor explodir no meu peito.
— Meu Deus…
Com uma última tentativa heroica, consigo tocar o controle da seta. Doce e abençoado silêncio. Olho para baixo, não me atrevendo a virar demais a cabeça. O
cinto de segurança aperta meu peito. Engolindo em seco, empurro o corpo ligeiramente para trás, ainda insegura sobre quais partes estão quebradas ou não. O
movimento alivia um pouco a sensação de esmagamento em torno do meu peito.
Inspiro superficialmente. Depois, respiro fundo. Dói, mas não tanto. Costelas machucadas, mas não quebradas. Solto uma risada trêmula. Inacreditável. Estou bem. Estou…
Viro a cabeça e mal contenho o grito agudo que sobe até minha boca.
Jake!
— Ai, meu Deus — gemo. — Jake… — Minha voz falha. Todas as perguntas que me vêm à mente parecem idiotas demais, desnecessárias demais. Você está bem?
É óbvio que não, não quando ele está caído sobre o painel desse jeito. Você está…
morto? Gemo de novo. Ai, meu Deus. Acho que sim. Há sangue pingando de sua maldita orelha, descendo pelo pescoço, manchando o colarinho da camisa. De alguma maneira, é aquele detalhe, a mancha de sangue cada vez maior em sua camisa polo branca, que faz cair a ficha. Ele está morto. Eu o matei.
Minha respiração ofegante, cheia de pânico, enche o carro silencioso. Olho em volta, desnorteada.
— Socorro — sussurro.
No entanto, não há ninguém à vista. A rua está deserta. Nem sei onde estamos.
Bato na trava do meu cinto de segurança, abro a porta com violência e saio do carro cambaleando, mal conseguindo chegar à calçada antes que meu jantar voltasse inteiro do estômago.
Há um homem morto no meu carro.
Um homem. Morto. No assento do motorista do meu Subaru. Isso não é coisa de um Subaru. Subarus não são carros de assassinos. Os Jeep Wranglers é que são.
Ou aquelas vans brancas sem janelas. Quem fabrica aquelas coisas, afinal? Quer dizer, elas são bizarras para c…
Foco!
Solto um soluço alto. Não. Não posso me dar ao luxo de perder o controle agora. Se eu começar a chorar, nunca mais vou parar. O que eu faço?
A polícia.
Sim. O número da emergência. Certo.
Abro a porta do banco traseiro e tateio lá dentro, desviando meu olhar do corpo de Jake, concentrada em encontrar minha bolsa — aqui está ela. Celular. Nada acontece quando pressiono o botão de ligar. Solto um gemido. Não, por favor. Sem bateria. Trêmula, inspiro e procuro no bolso de Jake. Talvez o celular dele esteja lá.
Quando toco sua calça com a ponta dos dedos, cerro os dentes com tanta força que quase quebro os molares.
Vazio.
A ideia de apalpar a calça de Jake à procura de seu celular é repugnante.
Tudo bem. Tranquilo. Totalmente tranquilo. Vou só… vou só esperar aqui até outro carro passar.
Mas… só Deus sabe há quanto tempo estamos aqui e ninguém passou. Não há casas nem lojas de conveniência nem nada que possa conter vida humana por perto.
Parece que as fábricas não são usadas há anos; muitas das janelas estão quebradas e há um silêncio absoluto. Não posso esperar aqui por muito mais tempo. Não vou suportar. Dou uma olhada no carro de novo. Por incrível que pareça, apesar de ter batido em uma árvore, aparenta estar em bom estado de modo geral. O capô está amassado, é óbvio, e há uma rachadura enorme na lateral do para-brisa, mas, fora isso, acho que dá para dirigir.
— Não — murmuro para mim mesma. Não posso dirigir o carro.
Principalmente porque tem um cara morto no assento do motorista.
Então tire o homem de lá.
Meu corpo inteiro se contrai ao pensar em encostar nele de novo. Mas minha mente é como um animal selvagem enjaulado, rosnando e jogando-se contra as grades. Preciso sair daqui. Não posso ficar aqui nem mais um minuto, na esperança de que alguém passe, na esperança de que esse alguém seja legal e vá parar e me ajudar.
Com a respiração entrecortada, abro a porta do motorista, dando um grito quando o corpo de Jake desaba na calçada. Ai, meu Deus, eu não esperava que isso acontecesse. Espere aí. Eu deveria verificar o pulso dele. Será que devo? Ele está obviamente morto. Sim, sim, eu devo. Choramingando um pouco, pressiono um dedo trêmulo em seu pulso. Consigo mantê-lo lá por dois segundos inteiros antes de recolher a mão e limpá-la furiosamente na camisa. Morto. Cem por cento
defunto. Respiro fundo de novo, abanando o rosto para apagar as chamas nas minhas bochechas, e aí estico o braço e agarro os braços de Jake.
Ainda estão quentes. Argh. De alguma maneira, isso piora tudo. Sinto a bile subir pela garganta, mas cerro os dentes e o puxo com força. Devido ao meu trabalho, tenho que fazer exercícios físicos religiosamente — carregar minhas duas câmeras pesadas e todas as lentes por dez horas seguidas é como o inferno nas minhas costas e nos meus ombros; por isso, faço todo o possível para aumentar força e resistência. Até me dou ao luxo de pagar uma aula semanal com Dinah, a melhor personal trainer da minha academia. O que significa que, quando puxo, o corpo de Jake de fato se desloca, de uma maneira surpreendentemente fácil. Dinah ficaria orgulhosa.
Tudo bem, Dinah não ficaria orgulhosa de eu conseguir mover um homem morto de mais de oitenta quilos. E por que estou pensando na Dinah justo agora?
Porque — argumenta minha mente enquanto arrasto Jake pela calçada até a traseira do carro — você precisa pensar em alguma coisa, qualquer coisa que não seja “Puta merda, estou arrastando um cadáver!”.
Puta merda, estou arrastando um cadáver.
Onde? Para onde eu o levo? Não posso largá-lo aqui. É cruel demais. Mas não tenho estômago para acomodá-lo no banco traseiro do carro enquanto dirijo. Olho o porta-malas. Certo. Vai ser no porta-malas.
Pensando melhor, pego um moletom que guardo no banco traseiro e enrolo no rosto dele. Jake era um babaca quando vivo, mas, agora que está morto, sinto uma necessidade inexplicável de tratá-lo com respeito. Vou precisar de muita terapia para processar tudo isso.
Depois de fechar o porta-malas e tirar Jake do meu campo de visão, sinto-me um pouco melhor. Mais no controle. Controle? Quem estou tentando enganar?
Tenho um cadáver de verdade dentro do meu carro. Balanço a cabeça. Não vamos nos atormentar com isso agora. Com um calafrio, volto para o assento do motorista.
Por favor, pega, por favor…
O motor liga com um ronco assim que giro a chave. Solto um suspiro de alívio e aguardo um pouco para me acalmar. Ou pelo menos tentar. Só vou dirigir até encontrar um telefone público e aí vou ligar para o número da emergência. Certo.
Recuo lentamente, estremecendo com o som de raspagem que o meu para-choque produz no asfalto da estrada. Talvez eu devesse descer do carro e tentar consertar isso, mas não. Não tenho estômago para mais um segundo nesse lugar amaldiçoado. Minha respiração ainda sai em arfadas rasas e apavoradas à medida que sigo pela via e, quanto mais iluminadas ficam as ruas, mais pânico sinto. Isso é maluquice. O que foi que eu fiz? Guardei um corpo no porta-malas do meu carro. O
que os policiais diriam quando eu os chamasse? O que eu ao menos teria para dizer?