Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 20 de 42

Páginas do PDF

Disque T para titias

Capítulo 17

Nós três a encaramos. Ela nem está olhando para nós; está concentrada nas unhas.

— Onde, Grande Tia?

Ela franze a testa quando enfia o palito em um local complicado.

— Reparei em lavanderia perto de cozinha. Convidados mandam vestidos e ternos para lavanderia, para lavar a seco ou passar. Vou lá dentro, pego terno, e pronto! — Ela ergue o olhar, sorrindo.

Seria tão fácil assim? Mas, pensando melhor, não temos nenhuma alternativa.

— Obrigada, tia. Isso… é, isso seria fantástico. Tenho que correr agora, preciso ir à suíte da noiva, mas volto logo que puder.

— Certo, pode ir, vou checar flores — diz Ma, acenando com a mão para eu sair.

— Imagino que vai sobrar para mim tomar conta do corpo — murmura a Quarta Tia.

Faço uma careta.

— Me desculpe, Quarta Tia.

— Humpf, podia ser pior. — Ela se acomoda na outra cama, bem à vontade, e pega o controle remoto da TV. — Não demorem muito.

Todas prometemos voltar logo e saímos para lidar com a crise seguinte. Uma

coisa posso afirmar sobre os casamentos que realizamos: sem dúvida nunca são monótonos.

17

A suíte da noiva está uma confusão. Encontro a Segunda Tia em seu canto de trabalho, tentando dar os toques finais no cabelo de Jacqueline, que visivelmente faz força para não chorar. Maureen aperta as mãos da amiga, falando com ela em um tom de voz baixo e reconfortante.

— Não acredito que ele está bêbado — diz a noiva — no dia do nosso casamento!

— Eu sei — acalma Maureen, afagando os braços de Jacqueline. — Mas acho que ele está ficando sóbrio agora. Provavelmente vai ficar bem.

A Segunda Tia se ilumina quando me avista.

— Ah, fotógrafa está aqui, não chora mais, está bem? Foto fica ruim.

— Quem liga para as fotos? Meu noivo é um babaca! — choraminga Jacqueline.

— Ah, querida. — Maureen a puxa para um abraço.

Mordo o lábio e dou um pouco de espaço para as duas. A verdade é que as pessoas vivem julgando as noivas, dizendo que são nervosas e as chamando de

“noivas neuróticas”, mas, sinceramente, sem um noivo como Tom, Jacqueline teria sido uma noiva supertranquila. Após alguns minutos, digo com delicadeza:

— Seb está na suíte do noivo, ajudando o noivo e os padrinhos a se aprontarem.

Vai dar tudo certo.

O queixo de Jacqueline treme, e seus olhos brilham com as lágrimas.

— É só que… estamos planejando isso faz mais de um ano, e todo mundo está

aqui e…

— Eu sei. — Eu me agacho para poder encará-la nos olhos. — E todos vão se divertir e se lembrar desse casamento como o mais bonito em que já estiveram, com a noiva mais linda que já viram.

Um sorriso triste toca seus lábios.

— Mas, mesmo que Tom e os padrinhos acordem a tempo, vão estar num estado deplorável, e ele nem vai poder aproveitar o próprio casamento.

— Se quiser cancelar o casamento, adiar ou sei lá, você pode fazer isso —

sugere Maureen.

Meu coração realiza um complicado exercício de ginástica. Issoooo, cancela o casamento! Vamos poder sair mais cedo com o corpo…

Jacqueline balança a cabeça.

— Tem gente que veio lá da Indonésia para o casamento. Se eu cancelasse, teria que pagar um valor alto pra cacete. — Ela inspira profundamente. — Vou ficar bem. Tom é o homem certo para mim. Só tenho que atravessar o dia de hoje, e aí vamos ficar bem. Ele é um noivo de merda, mas vai ser um marido perfeito.

Preciso fazer um esforço consciente para me conter e não suspirar alto de decepção pela oportunidade perdida.

A Segunda Tia retoma sua tarefa de adicionar os toques finais enquanto miro a câmera em Jacqueline e tiro fotos. Essa geralmente é uma das minhas partes preferidas do dia: tirar fotos da noiva. Não há dúvida de que a noiva é o destaque de qualquer casamento. Há um quê de especial em fotografar uma mulher usando um vestido de noiva translúcido e esvoaçante que me faz amar meu trabalho.

Geralmente. Hoje, só quero que tudo acabe logo. E saber que a noiva está triste por dentro não ajuda em nada.

Quando terminamos, a Segunda Tia e eu saímos, dando a Jacqueline e Maureen privacidade para continuarem o esporro no noivo idiota e seus padrinhos idiotas.

Ao sairmos do quarto, eu me viro e tenho um vislumbre de Maureen dando um

abraço rápido em Jacqueline enquanto fala com ela naquele seu tom reconfortante, e fico feliz de saber que Jacqueline tem uma amiga tão boa em quem se apoiar. Fora da suíte da noiva, rapidamente conto à Segunda Tia tudo o que aconteceu.

— Então, agora só esperamos Grande Tia roubar terno da lavanderia? —

indaga ela, incrédula.

Colocando nesses termos, parece loucura. Soa como o tipo de plano que tem tudo para dar errado.

— Bom, não conseguimos pensar em nenhuma alternativa, e aquele cooler foi visto por praticamente todo mundo.

— Tudo culpa da Grande Tia — diz a Segunda Tia, com ar triunfante.

— Bom, eu não diria isso. A câmara frigorífica estava cheia demais, com gente entrando e saindo.

— Ninguém repara em cooler, principalmente se empilhado lá no fundo. Veja, isso que Grande Tia faz. Ela acha que sabe tudo, aí faz coisa sem consultar ninguém.

No fim, cria grande confusão.

— O que eu quero dizer é… a situação é complicada. Acho que não tem respostas certas, sabe?

A Segunda Tia bufa.

— Falo com todo mundo há tanto tempo, não pode confiar só em Grande Tia, mas todo mundo sempre pergunta “Grande Tia, isso bom? Aquilo bom?”. Como Grande Tia sabe? Não, não pode confiar. Vou pensar em alguma coisa, ideia melhor.

— Hum. — Isso parece ruim. Aquela história de que cozinheiros demais estragam a sopa. — Eu realmente não acho…

— Volte lá para dentro, cerimônia do chá já vai começar. Esteja pronta. —

Com isso, ela se afasta, o rosto exibindo a expressão firme de alguém que sabe exatamente o que está prestes a fazer.

Fico parada por um tempo, hesitante. Eu devia contê-la. Ou não? Não sei. Fui

criada de modo a nunca contrariar os mais velhos. Como eu disse, é uma situação complicada, sem respostas certas, e, se estivesse sozinha, eu… bom, honestamente não sei o que faria. Matar um cara e ocultar o dito-cujo está muito longe da minha zona de conforto normal.

Já é quase meio-dia. Inacreditável. Sinto como se fosse o fim de um longo dia, mas ainda falta algum tempo para a cerimônia penjemputan. Nos casamentos sino-indonésios, o noivo e os padrinhos vão à casa da noiva (ou, nos casos em que a noiva já está no hotel, à suíte dela). As madrinhas devem recebê-los na porta e obrigá-los a executar uma série de tarefas constrangedoras antes de terem permissão de entrar e jemput — pegar — a noiva. Imagino que tarefas torturantes as amigas de Jacqueline planejaram, principalmente para se vingarem dos rapazes por encherem a cara daquele jeito. Sem querer, sorrio ao pensar nisso. Eles merecem umas boas palmadas, de verdade.

— Bom, pelo menos alguém está se divertindo.

Ergo o olhar e vejo Nathan atravessando o corredor.

— Ah, oi. — Não consigo evitar que um sorriso se espalhe pelo meu rosto. Ver Nathan. Não consigo descrever. Quer dizer, objetivamente ele é maravilhoso, de fato, mas existe alguma coisa nele que me faz sentir como se estivesse chegando em casa depois de um longo dia.

— Acabei de vir da suíte do noivo — diz ele com um suspiro.

— Eita. Como eles estão?

— Bom, estão acordados, o que já é alguma coisa, mas alguns estão tentando se safar. Estão dizendo que as bebidas deviam estar batizadas para ficarem bêbados daquele jeito.

Eu o encaro horrorizada.

— Sério? — Porra, como eles conseguem ser tão mimados?

Nathan suspira de novo.

— Sério. Infelizmente esse tipo de atitude não é incomum. Você não faz ideia

do número de vezes que os hóspedes nos acusaram de alguma coisa aleatória só para salvarem a pele ou conseguirem um bônus.

— Que merda. Dá para imaginar. Lido com pessoas no dia mais estressante de suas vidas, então… é isso. Não costumo ver o melhor dessas pessoas.

A boca de Nathan se curva em um sorriso torto que faz meu coração acelerar.

— Você não quis dizer “o dia mais feliz de suas vidas”?

— Eu quis dizer o que eu falei, cara. É lógico, é uma ocasião feliz com alguns momentos realmente lindos, mas também é muito estressante, ainda mais quando você é sino-indonésio e convida duas mil pessoas para o evento.

— Verdade. — Ele continua a sorrir para mim, como se eu fosse muito interessante em vez de uma mulher esquisita falando bobagens. — Bom, ahn, tenho uma confissão para fazer.

Tenho que engolir em seco antes de falar:

— Tem?

— Tenho pensado muito.

— Ah. Não exagera.

Seu sorriso se amplia, e posso apreciar uma visão completa de sua beleza. É um ataque fulminante. O rosto dele deveria ser ilegal, o modo como seus olhos cor de chocolate amargo se franzem nas pontas e o modo como aparecem as covinhas. Ele parece uma combinação de Daniel Henney e Lewis Tan, uma combinação tesuda demaaais para o seu próprio bem.

— Tenho pensado principalmente sobre pés.

— Ah. — Epa, essa não é a direção que eu imaginava que a conversa ia tomar.

— Bom, fico feliz que você tenha arrumado um fetiche depois da faculdade…? —

Sorrio, querendo parecer uma pessoa de mente aberta. Desconfio que o sorriso acabou parecendo levemente desvairado.

Nathan ri.

— Desculpa, não me expliquei bem. Se bem que é interessante pensar que esse

foi o caminho que sua mente seguiu.

— Ah, como se houvesse um jeito diferente de interpretar “Tenho pensado sobre pés”.

— Bem colocado. Enfim, para ser mais específico, tenho pensado sobre os seus pés. — Ele estremece e acrescenta rápido: — Tá bom, espere, isso saiu muito mais assustador do que devia.

— É, saiu muito assustador mesmo. — Solto uma risada, embora imaginar que Nathan pense em qualquer coisa relacionada a mim me faça sentir coisas aqui dentro.

— Estive pensando sobre como, quando você vai dormir, seus pés se agitam para a frente e para trás.

Mordo o lábio à medida que as lembranças voltam a toda velocidade. De nós dois, rolando embaixo dos lençóis sem sair da cama por dias a fio. Das conversas que tínhamos entre os momentos em que nos devorávamos, minha cabeça no peito dele, escutando as batidas de seu coração. Falávamos sobre tudo, de física e jogos a amigos em comum, e observávamos o céu mudar de preto profundo para roxo esfumaçado, e ficávamos nos perguntando como havíamos passado a noite inteira acordados e não nos sentíamos nem um pouco cansados.

Na primeira noite em que passamos juntos, quando eu estava cochilando, ele perguntou:

— Você sempre faz isso com os pés?

Meus pés ficaram imóveis.

— Faço o quê?

— Não, não pare. Eles estavam meio que abanando para a frente e para trás embaixo das cobertas. — Ele virou a cabeça para me olhar, sorrindo. — É muito fofo.

— Desculpa — murmurei. — Minha mãe diz que meu futuro marido vai reclamar dos meus pés inquietos.

Ele riu.

— Seu futuro marido?

— Bom, de acordo com ela, só posso compartilhar a cama com um cara na vida, o meu marido. — Estremeci por dentro com a magnitude da afirmação. — Não que eu esteja dizendo que você é meu futuro marido, quer dizer, você não é o primeiro cara com que dividi uma cama. Já dormi com vários antes. Não vários, mas, tipo, você sabe. Não quero me casar com você, é o que estou falando. Quer dizer, não tipo…

A boca dele cobriu a minha em um beijo suave que terminou com nós dois dando risadas, nossos lábios ainda se tocando.

— Entendi o que você quer dizer — falou ele delicadamente. — Não esquenta.

Seus pés não me incomodam nem um pouco.

Então caímos no sono daquele jeito, um nos braços do outro, e acordei com ele duro contra mim, e…

De repente volto ao presente, com Nathan — meu Nathan — sorrindo para mim. Sorrio debilmente, o estômago flutuando com a memória vívida da nossa primeira noite juntos. Será que ele mencionou a história dos pés de propósito, para me fazer lembrar aquela noite?

— Esse deve ser o fim de semana mais importante da minha carreira — diz Nathan. — O sucesso desse evento vai alavancar ou detonar o hotel.

Assinto levemente.

— Entendo.

— Eu deveria me concentrar no trabalho e garantir que tudo corra bem, mas, Meddy… meu Deus, não consigo parar de pensar naquele beijo. — Ele se inclina sobre mim, e tudo nele invade meus sentidos. Seu perfume me inunda, aquele seu cheiro bom, limpo e fresco que nada tem a ver com colônia. Ele sempre teve cheiro de roupa recém-lavada. — Eu devia me concentrar em garantir que tudo corra bem, mas continuo voltando para você.

É lógico, agora que ele está falando nisso, também é tudo em que consigo pensar. Ele está tão deliciosamente próximo de mim que posso ver seus cílios ridiculamente longos e espessos, e o modo como os músculos de seu maxilar se mexem quando ele abre os lábios de leve. Ele inclina a cabeça em direção à minha.

Seus lábios estão a apenas alguns centímetros dos meus quando meu celular toca.

Nós nos afastamos num pulo, e me atrapalho toda para pegar o aparelho. Na verdade, foi o meu alarme, ajustado para tocar cinco minutos antes do penjemputan.

— Alarme. Está na minha hora — digo, balançando o celular distraidamente.