Disque T para titias
Capítulo 19
— Ounnn.
Ele levanta o véu e lhe dá — conforme a tradição sino-indonésia — um beijo
casto no rosto. Os pais dela sorriem com aprovação. Fotografo os momentos emocionantes em que Jacqueline abraça os pais antes de sair da suíte, e a acara penjemputan termina. As festividades do casamento começaram.
19
Em seguida, vem a cerimônia do chá, a preferida de muitos casais. Os noivos servem chá aos mais velhos, e os mais velhos lhes oferecem presentes. Tradicionalmente, os presentes vêm na forma de envelopes dourados ou vermelhos recheados de dinheiro. Nos casamentos sino-indonésios mais luxuosos, as tias e os tios costumam tentar superar uns aos outros; já fotografei um casamento em que um tio deu um carro ao sobrinho favorito. É raro, mas pode acontecer. Com as famílias ostentosamente ricas de Tom e Jacqueline, quem pode dizer qual é o teto quando se trata da cerimônia do chá?
A atmosfera dentro do salão é elétrica. Seb e eu assumimos nossas respectivas posições, eu atrás das cadeiras dos mais velhos para tirar fotos dos noivos e Seb do outro lado do salão. Todas as tias e tios e avós olham de soslaio uns para os outros enquanto aguardam sua vez de serem servidos. A cerimonialista está parada perto dos noivos, chamando os parentes, que entram de dois em dois.
O primeiro casal são os pais de Tom. Meu obturador capta dúzias de fotos enquanto Maureen passa uma bandeja com duas xícaras fumegantes de chá oolong para Jacqueline e Tom. Cada um pega uma xícara e a oferece aos pais de Tom, com a cabeça curvada. Os pais dele aceitam, sorrindo de maneira graciosa, tomam um gole e depois colocam as xícaras de volta na bandeja. Tom e Jacqueline fazem uma reverência para o casal, e depois o pai de Tom tira algo de seu paletó e entrega um pedaço de papel com um floreio.
A cerimonialista anuncia:
— A escritura da casa nova de vocês! — Os convidados fazem “ooh” e “ahh” e batem palmas. Tom e Jacqueline abraçam o sr. e a sra. Sutopo, e tiro fotos deles segurando a escritura antes de Maureen a colocar em uma caixa preparada para isso.
Os próximos são os pais de Jacqueline, que dão a ela o conjunto de joias de brilhantes que fotografei mais cedo naquela manhã e um relógio Chopard para Tom.
— Edição limitada, vale mais do que uma BMW — anuncia a cerimonialista. A plateia bate palmas de admiração, e os presentes são levados para se juntar à escritura na grande caixa de veludo. A cerimônia continua, indo dos parentes mais velhos aos mais novos.
Há mais relógios — Cartier e Patek — e notas fiscais de itens maiores, como um fogão La Cornue de uma das tias de Jacqueline, ou uma cama Hastens de um tio. Então há joias — novamente, mais Cartier, algumas Bulgari, e um punhado de Tiffany. E, óbvio, como sempre, há os envelopes vermelhos. São inchados, recheados de maços de notas de cem dólares. Avisto uma tia recheando seu envelope vermelho com mais maços de dinheiro; é evidente que ela está se sentindo superada por todos os presentes insanos. Fico me sentindo mal por ela. Sem dúvida, a cerimônia do chá é a mais estressante para a família estendida.
Maureen precisou pedir outra caixa para guardar todos os presentes. Ao fim da cerimônia, todos batem palmas e se encaminham a um salão diferente para almoçar.
— Você ainda precisa de mim? — pergunta Seb, olhando por cima da tela de sua câmera. — Ou posso almoçar?
— Pode ir, vou ficar bem. Obrigada por lidar com os padrinhos e tudo.
— Sem problemas. Até mais tarde.
Vejo Maureen se esforçando para levantar as duas caixas e corro na direção dela, pendurando a alça da câmera no ombro.
— Deixa que eu ajudo.
Ela olha para cima, assustada.
— Ah, tudo bem, eu consigo.
Assisto, hesitante, enquanto ela empilha as caixas e solta um grunhido, levantando-as. A caixa de cima balança precariamente, e dou um salto para a frente, pegando-a bem na hora antes que ela tombe e chova joias caras para todo lado.
— Ufa, obrigada. Pelo jeito, eu não consigo.
— Por que ninguém mais está ajudando com isso? Esse negócio é pesado.
Maureen dá um sorriso.
— Sou a única em quem eles confiam para essa tarefa.
— Ah, faz sentido. Você é uma ótima madrinha. Ela tem sorte de ter você.
Seu sorriso mingua um pouco ao ouvir isso, e fico pensando se falei alguma besteira. Andamos rápido o resto do caminho até a suíte da noiva em silêncio.
Quando entramos, Maureen diz:
— Pode deixar a caixa na mesa de centro. — Faço o que ela pede e hesito novamente. Devo ir ou devo esperar por ela? — Pode ir — diz ela, como se estivesse lendo minha mente, e me dispensa com um aceno.
Do lado de fora, checo a programação e solto um suspiro de alívio. Está no horário do almoço, e depois temos algumas horas de intervalo enquanto todos descansam na parte mais quente do dia. Não vão precisar de mim por algumas horas até a sessão dos retratos à tarde, depois da qual acontecerá a cerimônia de casamento, seguida pela festa. Estou prestes a ir ao refeitório, onde o almoço é servido para todos os fornecedores, quando meu celular toca. O rosto da Segunda Tia aparece na tela.
— Meddy, problema.
Meu coração bate descompensado.
— O que é?
— Celular de Ah Guan. Fica tocando, alguém quer muito falar com ele. Talvez eu atendo e digo…
— NÃO atenda! Estou indo para aí.
Corro o caminho todo de volta até o meu quarto. Mesmo antes de abrir a porta, posso ouvir o suave som de música. Agitada, bato o cartão-chave no sensor da porta e irrompo para dentro do quarto. A Quarta Tia se sobressalta, depois solta um suspiro quando me vê.
— Você vai me matar do coração!
— Que música é essa? — digo, entrando apressada.
— Sapatos! — repreende a Quarta Tia.
É sério? Tiro os sapatos com um chute e corro em direção à cama. Alguém colocou o edredom em cima de Ah Guan, cobrindo seu corpo inteiro, menos os pés com meias, que despontam da beira da coberta. Seu celular está em cima da mesa, virado para baixo, e a música sai do aparelho, porque a Segunda Tia estava certa: alguém não para de ligar.
— Por que não colocou no silencioso? — Alcanço o telefone e paro. O que eu faço? Agora que estou ali, não sei o que devo fazer. Atender? Merda, não. Não posso fazer isso. Ainda estou lá parada, congelada, quando o telefone para de tocar. O
silêncio cai sobre o quarto, pesado e intenso.
— Vai tocar de novo — diz a Quarta Tia. — Tocou durante os últimos dez minutos. Er Jie não conseguiu aguentar; é por isso que ela saiu.
— Saiu para onde? — Olho para cima e finalmente avisto a Segunda Tia do lado de fora na varanda, fazendo tai chi.
— Essa posição se chama “Garça branca abre as pernas” — diz a Quarta Tia. Eu a fito desconfiada e ela emenda: — O quê? É sério. Você acha que estou inventando esses nomes?
— Na verdade, acho. — Balanço a cabeça. Por que diabos estou discutindo nomes de posições de tai chi neste momento? — Onde estão a Grande Tia e Ma?
— Foram almoçar. Você sabe como elas ficam irritadas quando estão com fome. Elas ficam… fulas de fome.
— Essa expressão não existe. É “fula da vida” ou “morto de fome”. E elas estão
as duas coisas. — Volto a me concentrar no celular. Tudo bem, Meddy. Pense. Tudo bem, uma coisa de cada vez: precisamos saber quem está ligando. Beleza. Tudo bem.
Inspirando profundamente, estendo o braço na mesma hora em que o resto do meu corpo se contrai para longe do celular. Até mesmo meus lábios recuam, como se toda a minha pele estivesse tentando se encolher. Pego o aparelho, fazendo uma careta, e toco na tela inicial. As luzes se acendem, pedindo uma senha para desbloqueio ou impressão digital.
Xingo alto.
— O que foi?
— Preciso da impressão digital dele.
— Ah. Hum, bem, não vou ajudar com isso. — A Quarta Tia continua a sua tarefa de fazer as sobrancelhas.
— Certo, não se preocupe — murmuro, indo para o lado da cama. — Tudo bem. Posso fazer isso. Nada de mais. Supertranquilo. — Corro para o banheiro, apanho uma toalhinha e a envolvo na minha mão. Respiro fundo. Levanto o edredom, rangendo os dentes quando vejo a mão dele. Sua mão pálida. Pálida como a de um manequim. Merda, merda, merda. Com cuidado, eu a manobro de modo que consiga pressionar seu polegar contra a tecla de início. Nada acontece. Argh.
Tudo bem, outro polegar. Ainda nada. Com um desespero crescente, tento o dedo indicador e finalmente dá certo. A tela se ilumina e o telefone destrava. Obrigada, doce menino Jesus. Largo a mão dele e meu corpo todo estremece. Eca.
Então olho para meu prêmio. O celular de Ah Guan destravado. Uma coisa de cada vez: vou nas configurações e desativo de vez o bloqueio, assim não vou mais precisar de sua impressão digital para acessar o telefone. Depois clico no histórico de chamadas e…
— Merda.
— O que foi? — indaga a Quarta Tia.