Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 32 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 28

Posso ligar os pontos agora. Vejo tudo com muita nitidez na minha cabeça. Um dos padrinhos atendeu à ligação de uma cerimonialista em pânico, perguntando onde diabos eles estavam, pois a cerimônia começaria em breve. Eles se atrapalharam para vestir a roupa. O quarto girava, eles cambaleavam para todo lado, e então um deles talvez tenha ido até o quarto para pegar alguma coisa e viu Ah Guan na cama.

Vejo a cena passando como um filme na minha mente. Ele cambaleia até Ah Guan e o cutuca. Imagina que Ah Guan provavelmente desmaiou e, em sua mente confusa pelo absinto e pela maconha, acha que a melhor atitude é arrastar Ah Guan para a cerimônia. Ele pede ajuda, e um dos outros padrinhos aparece. Juntos, arrastam Ah Guan para fora da cama, rindo de como ele é leve. O chão se inclina sob seus pés, e eles quase caem, mas é tudo parte da diversão. Eles nem sabem mais para que lado fica o teto.

E foi assim que um cadáver acabou no altar.

 

28

No minuto em que Ma e minhas tias terminam de me atualizar sobre o que aconteceu, elas começam uma discussão em mandarim, indonésio e inglês.

— Tuh kan? Viu, é isso que acontece quando vocês não me escutam! —

exclama a Grande Tia.

— Ah! Você só está com ciúmes porque, para variar, eu tomei o controle da situação, não ficamos só seguindo você que nem zumbis — replica a Segunda Tia.

— Por que você deu tanto absinto para eles? Eles não são bêbados como você!

— questiona Ma.

— Esperem aí, não é minha culpa se os padrinhos não dão conta. Além disso, não fui eu quem drogou aqueles rapazes — defende-se a Quarta Tia.

Isso é bem típico delas. A Grande Tia e a Segunda Tia com sua rivalidade, Ma e a Quarta Tia com seus ciúmes. Não consigo aguentar nem mais um segundo disso, então, enquanto elas discutem, saio de fininho.

Como se para refletir o nosso humor, o vento aumentou e está uivando como uma viúva em luto. Ele ergue meu rabo de cavalo, que chicoteia meu rosto. Até este momento, a adrenalina havia me deixado alheia ao que se passava ao meu redor, mas agora percebo que estou congelando com minhas roupas molhadas. Meus dentes estão batendo muito, e cada inspiração faz minha mandíbula estalar. Aperto a toalha ao redor do corpo e ando em direção à piscina de borda infinita. Estou morrendo de medo de ver o que aconteceu enquanto eu fazia um balanço da situação com a minha família, mas preciso olhar. Preciso saber.

Estou meio que esperando policiais espalhados, barulho de sirenes e luzes vermelhas e azuis piscando. Mas, quando chego lá, o lugar está quase vazio. A equipe de segurança do hotel está conduzindo os últimos hóspedes para fora do local, pedindo, com a voz firme, que todos voltem aos seus quartos e permaneçam lá. Jacqueline e Tom — graças a Deus — não estão à vista. Checo meu celular e vejo meia dúzia de mensagens de Seb, dizendo que o mandaram voltar para o quarto. Meu coração quase para quando avisto Nathan no altar, a silhueta de sua figura alta contra o céu tempestuoso. Ele está fitando o corpo no chão e, da minha posição, é impossível ver seu rosto. Suas costas estão eretas, mas sua cabeça está curvada como se estivesse imersa em pensamentos.

— Senhorita, por favor, precisa voltar para seu quarto — diz o segurança.

Nathan se vira e me vê.

— Não, tudo bem, ela está comigo! — grita ele, correndo na nossa direção.

Bem quando estou prestes a andar até ele, um vozerio se faz ouvir; viro para trás e avisto o delegado que havia encontrado hoje mais cedo empurrando com o ombro alguns seguranças do hotel.

— Passando — diz ele pomposamente. — Delegado passando. — Quando ele se aproxima de mim, coloca a mão carnuda no meu ombro, embora a passagem seja ampla o suficiente para nós dois, e me empurra para o lado como se eu fosse um carrinho de compras. — Afaste-se, senhorita, o delegado está passando — anuncia o homem, com uma voz arrogante que me faz ter vontade de dar um soco na cara dele. Em vez disso, observo calada enquanto ele desfila em direção a Nathan, com ar de superioridade.

Chego mais perto, não perto o suficiente para eles mandarem eu me afastar, mas perto o suficiente para escutar o que estão falando. Não é difícil ouvir o delegado; mesmo por cima do uivo do vento, ele está praticamente berrando.

— Eu sabia que isso não ia dar certo — comenta ele a título de cumprimento.

— Vocês, ricos, acham que podem só aparecer aqui na minha ilha e construir

resorts gigantes… Rá! Eu estava esperando acontecer uma coisa dessas, garoto.

Nathan enfia as mãos nos bolsos, talvez para se impedir de socar o delegado também.

— E agora um passarinho me contou que vocês têm um cadáver. Alô, o que temos aqui? Um cadáver.

Para minha surpresa, o delegado estende uma das pernas e cutuca o braço de Ah Guan com a ponta do sapato. Isso não me parece o protocolo correto de cena de crime, mas quem sou eu para julgar? Só tenho como referência episódios de CSI e Law & Order. Até onde eu sei, talvez todos os delegados usem a ponta dos sapatos para… Tudo bem, quem estou tentando enganar? Esse cara é louco.

— Delegado McConnel — cumprimenta Nathan —, estou muito feliz por tê-lo aqui novamente.

O delegado bufa, e é incrível como ele me lembra uma foca.

— Ah, sim, aposto mesmo que você está feliz. Que confusão. Mas não se preocupe, agora vocês têm alguém por aqui que sabe o que está fazendo! — grita ele para o pequeno público. Ele olha em volta e franze a testa. — Onde está todo mundo?

— Pensamos que seria melhor ter o mínimo possível de gente aqui, então mandamos todos os convidados de volta aos quartos.

— Ah, sim! Não querem testemunhas, é isso? — O delegado coça o queixo com um esforço consciente, como se fosse algo que ele viu na TV e quisesse copiar.

Uma ruga se forma entre as sobrancelhas de Nathan.

— Bem, não, todos testemunharam o corpo…

— Por que ele está usando essa roupa ridícula, então? Ele é um daqueles artistas New Age? Girando cassetete ou coisa assim?

— Girando cassetete? — Nathan parece tão confuso que quero abraçá-lo e me desculpar por tudo. — É… Não, ele era um dos padrinhos.

— Padrinho, é? — O delegado caminha em volta do corpo e, novamente, o

cutuca com a ponta do sapato. Dessa vez, entretanto, ele empurra com mais força, até Ah Guan virar de costas para o chão. Vejo um vislumbre de seu rosto inerte antes de olhar para o outro lado, a bile subindo pela minha garganta. Com um esforço sobre-humano, engulo-a de volta. — Preciso conversar com os outros padrinhos.

— Certo, eles devem estar todos nos quartos. Por favor, venha…

— Não, traga todos aqui.

— Eles estão… Bem, não sei se eles são capazes.

O delegado estreita os olhos.

— Traga. Todos. Aqui. Não me faça acusá-lo de obstrução de justiça, garoto.

Minhas mãos se fecham com força. Impossível esse cara ser mais detestável.

Nathan liga seu walkie-talkie e pede que alguém acompanhe os padrinhos de volta ao altar. Quando termina, olha para as nuvens cinzentas borbulhantes e diz:

— Devemos levar o corpo para dentro? Parece que está prestes a cair um temporal.

O delegado dá o que ele provavelmente acha que é um autêntico olhar de soslaio perspicaz.

— Entendi. Então você quer mover a vítima da cena do crime, é?

— Hum… não? Faça o que achar melhor — diz Nathan.

Ele pega o celular e digita alguma coisa. Um instante depois, meu telefone vibra.

Nathan [16:25]: Eu odeio muito esse cara. Ele é um picareta.

Meddy [16:26]: Sério. Como ele virou delegado??

Nathan [16:26]: Não faço ideia. Meu palpite é que ele matou todos os outros candidatos. Ou talvez não tivesse nenhum mesmo. É uma ilha pequena.

Meddy [16:27]: Verdade. Espero que isso se resolva logo.

Nathan olha na minha direção e me dirige um sorrisinho que derrete todos os

meus músculos. Músculos que quase imediatamente se enrijecem quando vejo dois seguranças acompanhando alguns padrinhos pelo corredor. Eu me afasto para deixá-los passar. Os padrinhos ainda estão visivelmente fora de si, os olhos loucos, as cabeças pendendo.

— Esses são os mais sóbrios, senhor — informa um dos guardas a Nathan em tom de desculpa.

— Está ótimo. Sinto muito por fazer vocês virem para cá de novo — diz Nathan aos padrinhos.

Em resposta, um deles abre um sorriso chapado e diz algo como “Tushbem”, e o outro simplesmente encara Nathan de forma cansada. Eu me retraio. Ma e a Quarta Tia realmente aprontaram com esses pobres rapazes.

O delegado McConnel não perde tempo. Ele anda a passos largos até os padrinhos e aponta para o corpo de Ah Guan.

— Quem é esse homem?

Os dois olham para onde ele está apontando e parecem chocados novamente com a imagem do cadáver. Não os julgo. Mesmo após um dia inteiro deslocando o corpo de um lado para outro, ver um cadáver de verdade ainda é chocante para mim.

— Sei lá, cara — responde o primeiro padrinho.

O segundo continua encarando o corpo, a boca aberta. Juro que ele está prestes a babar.

— Ele devia ser um amigo seu. Não era padrinho também?

O primeiro padrinho ri.

— Nãoooo. Não conte para ninguém, está bem? — Ele se inclina para a frente como se estivesse prestes a revelar um segredo, mas sua voz continua tão alta quanto antes. — O noivo não tem amigos. Então ele contratou todos nós para sermos padrinhos dele. A maioria não se conhecia até ontem à noite. — Ele ri novamente. — Essa porra é muito engraçada.

Agora é minha vez de ficar boquiaberta. Isso explica muita coisa. Não é de admirar que Tom agisse tão esquisito perto dos padrinhos. Não é de admirar que estivesse dando ordens como se fossem seus empregados. Porque eram! Ele os contratou para o dia. E explica por que os padrinhos carregaram Ah Guan bem felizes pelo corredor; além do fato de que estavam fora de si, drogados e bêbados, eles simplesmente não se reconheciam.

O delegado balança a cabeça.

— Então nenhum de vocês conhecia esse cara? — Ele cutuca o ombro de Ah Guan com o sapato mais uma vez. Qual é a necessidade de ficar cutucando Ah Guan com o pé?

Ambos os padrinhos balançam a cabeça.

— Será que os outros conhecem?

O primeiro padrinho dá de ombros.

— Quer dizer, quem sabe? Talvez? Tom teve que contratar pessoas de três agências diferentes porque ele precisava de muitos corpos. Opa, má escolha de palavra, hahaha. — Ele fala “hahaha” como se fosse uma palavra de verdade.

Alguém cutuca meu cotovelo. Viro para trás e vejo Ma e minhas tias atrás de mim.

— O que você faz parada aqui assim? — sussurra Ma. — Venha, vamos voltar para dentro, ou mais tarde você pega resfriado.

Não consigo evitar um ronco alto. Aqui estamos nós, com o delegado e o cadáver, e minha mãe preocupada com resfriado?

— Já acabou a briga? — digo, incapaz de disfarçar o azedume na minha voz.

Pelo menos elas têm a decência de parecerem um pouco envergonhadas.

— Por enquanto — responde a Quarta Tia. Ela olha para o delegado e os padrinhos e troca para indonésio. — O que eles descobriram até agora?

— Não muito. Mas quero ficar aqui e ver o que mais eles vão supor.

— Vou entrar. — A Quarta Tia aperta minha bochecha, depois se vira e

caminha na direção do quarto, seguida pelas outras tias. Só Ma fica comigo.

A alguns metros de distância, o delegado McConnel está perdendo a paciência rápido.

— Tragam os outros padrinhos! — vocifera ele para os dois seguranças. Eles olham para Nathan, que assente. Enquanto eles saem, o delegado McConnel caminha pelo altar, seu peso fazendo a plataforma inteira tremer. Ouvimos o barulho de um trovão, e pulo assustada.

— É melhor entrarmos mesmo, o tempo está horroroso — diz Nathan. —

Podemos interrogar o resto dos padrinhos nos quartos.

— Ah, aposto que você gostaria disso, não é?

Nathan parece confuso.

— Hum, gostaria mesmo. A chuva não vai… sei lá, fazer alguma coisa com o corpo? Dificultar a identificação da hora em que ele morreu ou algo assim?

— Ei, o profissional aqui sou eu — retruca o delegado. — Todos vocês do continente acham que são supersofisticados com toda a sua tecnologia e equipamentos caros e toda essa merda moderninha de DNA.

— O quê?

— Bem, tenho uma novidade para você: vou resolver isso sem toda essa merda tecnológica metida a besta. Vou resolver o caso com um bom e velho trabalho de detetive. — O delegado McConnel bate na lateral da cabeça em mais um de seus típicos trejeitos de astúcia.

— Hum. Tudo bem. Ainda acho que deveríamos entrar…

Ele é interrompido pela chegada de mais dois padrinhos. Eles estão em pior estado do que os anteriores: ficam dando risadinhas e apontando para qualquer coisa no ar.

— Ma, tem certeza de que vocês não, sei lá, estragaram a cabeça deles para sempre? — sussurro.

— Aduh, claro que não, lah. Medicina tradicional chinesa é muito boa para saúde. Muito boa! — Ainda assim, percebo como Ma, na verdade, parece preocupada.

O delegado McConnel pergunta se eles reconhecem Ah Guan, e os dois dão risadinhas e balançam a cabeça.

— Ei, cara, é hora de acordar. Você está deitado no altar — diz um deles.

— De que agência vocês são? — pergunta o delegado McConnel .

— Agência Melhores Dias — responde um deles.

— Amigos de Festa — diz o outro, com a língua enrolada.

— E provavelmente vocês sabem quem é de qual agência?

Os dois padrinhos o encaram sem entender nada.

— Eu o quê? — fala um deles.

O delegado McConnel aperta a parte superior do nariz.

— O que eu estou perguntando é: esse homem, ele não é das agências de vocês?

Um dos padrinhos balança a cabeça com segurança, enquanto o outro replica:

— Numsei.

Estou esperando que o delegado McConnel fique frustrado com isso, mas, ao contrário, ele esfrega as mãos com satisfação e assente.

— Vocês dois podem ir. Eu sei quem fez isso.

Não consigo evitar um aperto na mão de Ma. Ela aperta de volta e bate na minha de forma tranquilizadora.