Disque T para titias
Capítulo 2
Encaro minha mãe e minhas tias. Elas me encaram de volta, sorrindo e assentindo daquele jeito que os gatos fazem quando encurralam um rato.
— Tudo bem. — Solto um suspiro. — Me contem tudo que eu preciso saber sobre esse cara.
2
Segundo ano da faculdade, sete anos atrás
— Você NÃO está colocando salsicha e kimchi no seu bolo — digo, franzindo o nariz.
— Ah, beleza, você pode pôr esse negócio de panda no seu, mas eu não posso colocar salsicha e kimchi no meu? — reclama Nathan, batendo sua bizarra massa de bolo de caneca.
— Pandan é um sabor de bolo legítimo, seu homem das cavernas. Que tipo de bolo de caneca tem salsicha e kimchi?
— O melhor — rebate Nathan sem pensar duas vezes. — Você sabe que o meu vai ficar mil vezes mais gostoso do que o seu, e aí você vai acabar comendo tudinho.
— Impossível.
Dez minutos depois, dou um grito de frustração quando raspo o fundo da caneca do bolo de Nathan.
— É só isso? Acabou?
Nathan ri.
— Eu falei. Se bem que, preciso admitir, esse panda é delicioso.
— É pan-DAN. Não estamos comendo o bicho. É uma planta.
— Ah! Esse tempo todo achei que estávamos comendo, tipo, uma secreção das glândulas do panda ou coisa parecida.
Agora é minha vez de rir. Sério, esse cara é uma piada.
— Você é bobo demais. Ai, meu Deus, não acredito… Que glândula?
— Anal, é lógico.
— Que nojo.
Ele abre aquele sorriso, aquele que quase faz seus olhos se fecharem. Aquele que me dá vontade de vomitar. Só para elucidar, me dá vontade de vomitar porque é tão fofo que me causa umas coisas estranhas na barriga, não porque me deixa enojada. Quando contei a Selena sobre o sorriso que me deixa enjoada, ela disse:
“Bom, ou você tem gastroenterite ou está apaixonada. Seja qual for, fique longe de mim. Não posso ficar doente.”
Apaixonada. Observo enquanto Nathan se levanta e vai até a geladeira para fazer outro bolo de caneca de salsicha e kimchi para mim, e eu sei, é óbvio que sei, que estou apaixonada por ele. Uma paixão idiota, do tipo irritante, que me faz checar o celular a cada cinco minutos. Desde que nos conhecemos durante a semana dos calouros, Nathan e eu nos tornamos ótimos amigos. Parece predestinado. Até temos o mesmo sobrenome: Chan. Uma incrível coincidência.
Tudo bem, sei que é o sobrenome mais comum em Hong Kong, a terra natal do pai dele, e um dos mais populares da China, a terra natal do meu avô, mas parece destino. A gente se vê quase todo dia e fazemos um monte de coisas aleatórias.
Encontramos os melhores lugares para cochilar na biblioteca, descobrimos o melhor combo de sanduíche de sorvete no Diddy Riese (chocolate branco, biscoito de macadâmia com creme amanteigado de noz-pecã), e hoje ele veio até o espaço comum do meu dormitório para preparar bolos de caneca. É como a minha amizade com Selena, só que com essa atração que me dá um frio na barriga. Quanto a ele…
Bom, não sei dizer. Às vezes, acho que ele também se sente atraído por mim. Às vezes, eu o pego me observando com carinho, o que faz meu estômago revirar (obrigada, estômago). Mas depois ele faz coisas como descansar o cotovelo na minha cabeça quando estamos esperando o sinal abrir, e aí tenho certeza de que ele me vê apenas como amiga. O que é bastante aceitável. Eu topo amizades platônicas,
sim. Estou tranquila. Totalmente de boa.
Nathan coloca a mão no meu ombro e quase dou um pulo na cadeira.
— Ei, você está bem?
Bufo.
— É lógico, por que eu não estaria? — Não é como se ele tivesse interrompido meus devaneios diurnos sobre seu abdômen, que, juro, dá para ver através do moletom da UCLA.
— Você ouviu o que eu disse?
— Sobre o quê?
— Sobre a festa na Phi Kappa?
Faço uma careta.
— Festa de fraternidade? O que é que tem?
— Humm, quer ir comigo? Tenho um amigo que faz parte, e ele disse que as festas de lá são ótimas. Pode ser divertido.
— Você sabe que festa de fraternidade é onde tudo de ruim acontece, né?
Intoxicação por álcool, estupro, trotes…
— Tá bom, tá bom. — Nathan ri. — Já entendi, não precisa ir se não quiser.
Argh, por que eu tenho que ser tão desmancha-prazeres? Na verdade, eu quero ir. Eu só… Não sei, acho que morro de medo de Nathan notar que estou a fim dele, e isso seria muito constrangedor.
Felizmente, o micro-ondas apita. Nathan se levanta para tirar o bolo de caneca.
Ele se move com tanta facilidade na cozinha comunitária, sempre com essa graça fluida, que me faz pensar em uma criatura felina. Como um leão ou um lince. Ele salpica cebolinha recém-cortada na caneca e me oferece. Agradeço, mesmo tendo perdido o apetite.
— Bom, tenho que ir agora. Prometi a Matt que vou à academia com ele.
— Obrigada pelo bolo — digo com a voz mais casual do mundo. — Boa malhação! — grito no último minuto, mas me arrependo na mesma hora. Parece
que estou pegando no pé dele.
Ele abre aquele sorriso de novo e sai. Volto para o meu quarto, desanimada.
Selena mal ergue os olhos do livro de cálculo quando desabo teatralmente na cama.
— Tá na seca, é? — pergunta ela, escrevendo no caderno.
— Uma seca sem fim — resmungo, enterrada no travesseiro.
— Certeza absoluta de que o filme se chama A história sem fim.
Viro o rosto e a encaro, emburrada.
— Você não está ajudando.
— Ele te convidou para ir à festa da Phi Kappa?
— Como é que você sabe?
Selena revira os olhos.
— Porque eu tenho vida social? E Nathan me perguntou se você iria, assim, como quem não quer nada.
Solto um resmungo.
— Sou péssima em festas. Se algum dia ele me vir em uma, vai perceber que sou a pessoa mais desinteressante do mundo.
— É por isso que você não vai a nenhuma festa da faculdade? — Selena olha para mim, pasma. — Nossa, você é complicada mesmo. Está decidido. Nessa festa você vai.
— Não.
— Vai, sim.
— Não, você não pode me obrigar. Eu não vou, não!
***
Na noite de sexta-feira, Selena e eu nos encontramos diante da Phi Kappa, uma casa que está literalmente vibrando com a música. Quer dizer, posso ver de fato as janelas chacoalhando a cada batida.
— Não é uma boa ideia — resmungo.
Só gosto de festas em que posso ficar sentada jogando jogos de tabuleiro.
— Foco — diz Selena, segurando meus ombros. — Você está gostosa pra cacete, nós vamos entrar ali, você vai encontrar Nathan, eu vou encontrar um cara gostoso ou uma garota gostosa, o que aparecer primeiro, e a gente vai se dar bem hoje.
— A gente vai se dar bem? — pergunto.
— Você sabe, trepar.
Estreito os olhos ao encará-la.
— Foder? Fornicar? Preciso mesmo dizer “ter um intercurso sexual”?
Minha voz sai várias oitavas mais alta do que as vozes humanas em geral.
— Eu não ia… não estou pronta para…
Selena cai na gargalhada.
— Meu Deus, olha a sua cara. Estou brincando. Nada de trepar hoje, ok? Você e Nathan são fofos demais para fazer sexo casual à base de álcool. Vamos só encontrar Nathan, ele vai dar uma olhada em você nessa roupa, e pronto. Ele vai MORRER.
— Não literalmente, espero — murmuro baixinho, só para o caso de a maldição estar escutando. Inspiro profundamente e vou atrás de Selena, que desfila segura de si rumo à fervilhante casa da fraternidade.
Lá dentro é ainda pior do que eu imaginava. A música está tão alta que trinco meus dentes com a batida. Selena mergulha na multidão, deslizando entre corpos quentes e pulsantes, me arrastando junto. Não faço ideia de aonde estamos indo ou mesmo como ela sabe aonde ir. Alguém derrama uma bebida gelada no jeans justo que Selena me emprestou e dou um gritinho, soltando a mão dela, mas qualquer som que emito é imediatamente engolido pelo barulho. Os corpos se agitam e se fecham atrás de Selena. Grito seu nome, mas nem eu consigo ouvir minha própria voz.
E aí fico sozinha. Inspiro profundamente, o que é um erro. Casas de
fraternidade provavelmente não cheiram bem nem nos melhores momentos e, depois de uma hora de festa animada, o odor é radioativo. Engasgo, me preparo e mergulho de novo na multidão, chamando por Selena. Um cara bêbado cambaleando esbarra em mim, me fazendo tropeçar com o impulso repentino.
Estou prestes a ser pisoteada. Não é um bom jeito de morrer…
— Opa, ei — diz alguém, me erguendo do chão grudento.
— Nathan — sussurro.
Ele pisca repetidamente.
— Meddy? — Depois ele parece me enxergar pela primeira vez, pois arregala os olhos. — Uau.
Mordo o lábio. Selena ficaria tão orgulhosa pela reação dele, mas eu me sinto uma idiota, como se estivesse usando as roupas de outra pessoa. O que é um fato.
Selena me enfiou em uma calça jeans tão apertada que com certeza vai precisar ser cortada na hora de tirar, e uma blusa cintilante de frente única, que não permite o uso de sutiã. Ela disse que não tem importância, porque os sutiãs só servem mesmo para mulheres com peito. Cruel, mas verdadeiro.
— Ah, oi — falo, como se eu não estivesse esperando vê-lo ali, como se eu não tivesse ido à festa seminua com o objetivo exclusivo de surpreendê-lo e fazê-lo retribuir o meu amor.
— O quê? — grita ele.
— Eu disse “Oi!” — grito de volta.
— Oi você — grita ele. Pelo menos, acho que é isso.
— O quê? — grito. Balançamos a cabeça e rimos, e qualquer sensação de estranheza que havia entre nós se dissolve como marshmal ow. Ele pega minha mão e a pressiona antes de me conduzir para o outro lado da sala. Meu coração se aperta terrivelmente (argh, ele vai reparar como a palma das minhas mãos está suada e então vai soltá-la e vou perdê-lo no meio da multidão do mesmo jeito que perdi Selena), mas Nathan continua segurando meus dedos com firmeza e ziguezagueia
no meio da multidão lentamente, virando-se para trás a cada poucos passos para se assegurar de que estou bem. Então, de repente, estamos do lado de fora, no quintal, o frio noturno gelando meu rosto e minhas costas nuas, me provocando arrepios.
Nathan fecha a porta de vidro quando saímos, acabando com a batida da música, graças a Deus.
— Você veio — diz Nathan, me dando um abraço de um braço só. — Cadê a Selena?
— Lá dentro em algum lugar. — Checo meu celular e lhe envio uma mensagem avisando que estou no quintal.
Enquanto digito, Nathan cumprimenta outras pessoas por perto. Todas têm nas mãos copos de plástico vermelho ou garrafas de cerveja. Tudo bem, eu consigo fazer isso. Está muito mais tranquilo aqui fora. Enfio as mãos nos bolsos ou pelo menos tento. Acontece que essa calça jeans idiota está tão apertada que mal dá para encaixar o dedo mindinho. Nathan me apresenta aos amigos, cujos nomes esqueço imediatamente, mas, quando digo o meu, alguns deles se iluminam e lançam um olhar para Nathan, que os encara com os olhos semicerrados. Meu coração bate com força no meu peito. Será que isso significa que ele contou aos amigos sobre mim?
SERÁ QUE ISSO SIGNIFICA QUE ELE ME AMA E NÃO ME VÊ APENAS
COMO AMIGA?
Tudo bem, vá com calma, sua obcecada. Isso não significa nada. Uma garota me passa uma garrafa de cerveja e me oferece um abridor.
— Depois de usar, pendure ali. — Ela aponta para um gancho pregado em uma árvore no meio do quintal.
Faço o que ela manda e, quando me viro para me afastar da árvore, dou de cara com o peito de Nathan.
— Opa.
— Você está bem? Desculpa, pensei que você soubesse que eu estava logo atrás de você.
Esfrego o nariz.
— Nossa, você está usando uma armadura embaixo da camisa?
Ele flexiona os bíceps de um jeito dramático.
— O que posso dizer? Meu peitoral é muito bem definido.
— Está mais para ossudo.
Mas não é verdade. Nem de longe. Desvio meu olhar de tesão. Por que eu gosto tanto do peitoral dos homens? É como um homem tarado por seios, mas ao contrário. Uma garota tarada por peitos masculinos. Depois olho para as mãos de Nathan e penso: Hum, ele tem mãos bonitas. Talvez eu seja uma garota tarada por mãos. Ou talvez eu seja uma garota tarada por tudo o que Nathan tem.
Eu me encosto no tronco da árvore em um esforço para parecer, hum, espontânea, mas acaba sendo um enorme erro. Dica de quem entende: não se aproxime do tronco de uma árvore se estiver usando uma blusa de frente única.
— Merda — sibilo, passando a mão. — O que tem nessa árvore idiota? Gilete?
— Hum, só a casca da árvore. Deixa eu ver as suas costas.
E antes que eu dê por mim, os dedos de Nathan estão tocando minha pele nua.
Uma mão forte e quente contra as minhas costas geladas. Meus músculos se derretem. Meu estômago se transforma em uma poça. Engulo em seco, prestando atenção em respirar.
— É só um arranhão. Você vai sobreviver. — Mas a mão dele não sai das minhas costas. Ao contrário, seus dedos correm pela pele, fazendo meu corpo todo arrepiar. — Está com frio?
Mal consigo responder quando ele tira o casaco e o coloca sobre os meus ombros. Chegou a hora. Chegou a hora de contar que tenho tido sonhos eróticos com ele; não, que sou totalmente a fim dele, que o acho o ser humano perfeito. O
casaco dele é tão largo que nem encaixa nos meus ombros.
— Alguém já lhe disse como você é ridiculamente pequena?
— Espere aí, tenho um metro e cinquenta e sete…
— Em um bom dia, usando salto alto — murmura Nathan, sorrindo com aquelas covinhas. Ele me cobre melhor com o casaco e me dá um aperto gentil, como se não quisesse soltar. Não quero que ele solte. — Oi — diz ele, a voz suave como veludo.
Ergo o olhar e o encaro.
— Oi.
Dessa vez, não trocamos piadas nem comentários sarcásticos. A camada de amizade entre nós se esvai. Só ele e eu, e a noite fria e deserta, e os cordões de luzinhas brilhando como estrelas ao nosso redor.
— Estou feliz por você ter vindo — diz Nathan.
E, dessa vez, sou cem por cento sincera com ele.
— Vim para ver você.
Ele abre aquele sorriso de novo, então ele inclina a cabeça para baixo enquanto eu ergo a minha, e nossos lábios se tocam num encontro suave que apaga qualquer pensamento.
Tudo bem, tudo bem. Tudo bem. Já beijei outros garotos. Tá bom, dois garotos. Tá bom, um dos beijos foi nas costas da minha mão. O beijo com o outro garoto não foi legal. Quer dizer, para falar a verdade, minha mão foi melhor. Jamais gostei daqueles beijos hol ywoodianos de boca aberta; eu como pasta de camarão demais para me considerar alguém que sabe beijar bem. Quando o assunto é beijar, só aceito de boca fechada.
Mas isso… Puta merda. Nathan é o oposto perfeito para a minha boca recatada.
Seus lábios são macios, e seu hálito é uma mistura inebriante de rum e hortelã, e ele não apenas enfia a língua como Christian Mil er fazia no nono ano. Nathan vai tranquilo, tocando seus lábios nos meus de um modo tão delicado, suave como uma pluma, e faz eu me sentir uma gelatina. Passo os braços em torno de seus ombros largos e fortes, e ele quase me ergue do chão. E aí, antes que eu me dê conta, minha boca se abre, e estou beijando Nathan Chan de verdade, e é gostoso demais.