Disque T para titias
Capítulo 9
Não importa. Eu… eu vou embora. Eu, bem, volto mais tarde para pegar minhas coisas.
Consigo emitir um fraco “Tudo bem” e permaneço imóvel enquanto ele sai do quarto. Deus do céu, o que acabei de fazer? Sinto como se tudo dentro de mim tivesse sido arrancado, deixando apenas a casca vazia de uma pessoa. Não consigo olhar. Não posso ficar aqui vendo o homem que amo sair da minha vida. Mas faço isso mesmo assim. Quando as lágrimas finalmente caem, eu me obrigo a encarar, porque sei que vai ser a última vez que vou ver Nathan e não quero perder um único segundo dele, mesmo quando está indo embora.
9
Presente
A Quarta Tia se anima um pouco quando saímos da cozinha.
— Nunca vi um homem morto — revela.
— Você é muito nova — comenta a Grande Tia. — Espere até chegar aos cinquenta, aí os pais de todos os seus amigos morrem aqui, morrem ali, e aí você vê gente morta o tempo todo.
— Bem, obviamente já fui a enterros. Já vi corpos em caixões. Isso aqui é diferente. Quero dizer que nunca vi um homem morto que não estivesse, sabe, em um funeral.
A alguns passos da garagem, a Segunda Tia de repente engole em seco e diz:
— Esperem! Não podemos ir lá!
Todas nós levamos um susto e, no silêncio que se impõe, juro que posso ouvir nosso coração batendo em um ritmo alucinado.
— O que foi? — pergunta Ma.
O rosto da Segunda Tia mostra sua aflição.
— Não podemos ver o corpo! Não podemos nos aproximar!
— Por que não? — questiona a Quarta Tia, obviamente irritada. Ansiosa, dá uma espiada em direção à garagem.
— Amanhã é o fim de semana do grande casamento. Muito azar se ficamos perto de cadáver agora e depois levamos o azar para o casamento. Como podemos fazer isso? Vamos amaldiçoar noivos e famílias deles!
— Não venha com essa besteira de superstição de novo — resmunga a Quarta Tia.
Não costumo concordar com a Quarta Tia, mas quase acompanho seu resmungo em voz alta, porque, assim que a Segunda Tia faz seu comentário, tanto Ma quanto a Grande Tia efetivamente param e avaliam o que ela disse. Meu pulso está tão acelerado que sinto como se fosse desmaiar. Não acredito que posso acabar indo para a cadeia por causa de uma superstição.
— Mas a crença não é que você não deve comparecer a um casamento depois de ir a um enterro? — observo.
Minhas tias erguem as sobrancelhas.
— Quer dizer, isso não é um enterro, tecnicamente. Não estamos fazendo nenhum ritual ou coisa parecida.
Com os olhos brilhando, Ma estala os dedos e aponta para mim.
— Meddy está certa. Só não enterramos corpo agora. Talvez colocá-lo no freezer? Aí na segunda-feira, depois do casamento, podemos enterrar corpo.
A Quarta Tia empalidece.
— Ei, espere um pouco, eu não queria dizer…
A Grande Tia concorda.
— Está certo, parece bom.
A Segunda Tia morde o lábio, hesitante, e a Grande Tia olha para ela de cara feia.
— E de qualquer modo — diz a Grande Tia —, já que dono do hotel está morto, casamento provavelmente é cancelado amanhã, quando ele não aparece.
Então voltamos cedo e aí enterramos corpo.
Com isso, elas retomam o caminho da garagem, a Quarta Tia na liderança, a Segunda Tia sendo arrastada pela minha mãe, e eu por último.
— Ah, deixe a luz acesa — pede a Grande Tia, atravessando a porta dos fundos para entrar na garagem.
— Sim, morto não pode ficar no escuro — explica Ma.
— Isso, bem pensado — concorda a Grande Tia.
— Mais uma superstição besta — murmura a Quarta Tia.
— Espere até ver o que Meddy fez com o corpo. Ela mostrou muito respeito —
elogia Ma, orgulhosa.
Não acredito que ela está aproveitando esse momento para se vangloriar da minha atitude respeitosa. É o cúmulo da parentalidade asiática.
Todas nós nos juntamos ao redor do porta-malas do carro. Fico sem fôlego, meu peito dói de tão apertado, sem espaço suficiente para os pulmões se expandirem e absorverem o ar. Acho que vou desmaiar. Como se sentisse que eu estava em vias de ter uma crise de pânico, Ma dá um tapinha no meu braço antes de abrir o porta-malas.
E lá está ele, exatamente como o deixei, deitado com suas pernas compridas dobradas, os joelhos na altura da cintura, o moletom cobrindo o rosto. Ouço uma mistura de ruídos vindos das minhas tias: a Grande Tia estala a língua e murmura
“É isso que acontece quando pais não educam filho direito”; a Quarta Tia o encara, boquiaberta, com o que só posso descrever como um júbilo horrorizado; e a Segunda Tia está…
— O que a senhora está fazendo, Segunda Tia?
Ela mal olha para mim enquanto se agacha, esticando-se.
— Serpente que rasteja — murmura.
— O quê?
— Ela fazendo tai chi — explica Ma. — Médico mandou para pressão alta.
— Hum. Tudo bem. — Imagino que cada um tem sua estratégia para lidar com a tensão.
A Quarta Tia estende o braço para pegar o moletom, e Ma dá um tapa na mão dela.
— Ai! O que foi?
— O que você acha que vai fazer? — indaga Ma.
— Não é óbvio? Quero ver o rosto dele!
— Aiya! Você tão desrespeitosa. A pessoa já morta, quer ver rosto para quê?
— Ela tem razão, Mimi — intervém a Grande Tia, delicadamente. — Vamos tentar não perturbar muito o morto.
Tenho que desviar o olhar do corpo. A visão traz de volta o trauma do acidente, e não consigo deixar de vislumbrar cenas de Jake, uma atrás da outra. Jake sorrindo, sua mão no meu joelho. Agora suas mãos estão caídas inertes junto aos quadris.
— E agora? — pergunta a Segunda Tia, fazendo os exercícios de tai chi chuan bem mais rápido do que costumam ser. — Esse rapaz tão alto. Como vamos nos livrar dele? — Ela estremece antes de assumir uma pose diferente, com os braços esticados. — Quem sabe podemos cortar em pedaços, cozinhar com curry e depois descartar?
— Precisa de muito curry — observa a Quarta Tia.
Meu estômago se revira. Calma. Elas não estão falando sério. Não estão, não.
Estão apenas agindo da maneira habitual. Da maneira habitual, em modo assassinato. O que está acontecendo agora?! Talvez uma das novelas chinesas a que elas sempre assistem seja um thril er. Ou talvez seja uma coisa de mãe: depois que você tem um filho, perde toda a capacidade de se chocar de verdade com qualquer coisa. Quer dizer, isso não é normal, certo? Certo?
— Nada de curry — repreende a Grande Tia.
A Segunda Tia a olha de cara feia e questiona:
— Tem ideia melhor, é?
A Grande Tia solta um suspiro.
— Estou pensando.
— Humm — falo, a voz esganiçada, e todas me fitam. Despejo tudo de uma vez antes de perder o pouco de coragem que ainda me resta. — Quem sabe pudéssemos levar o corpo para o deserto e enterrá-lo?
Elas refletem sobre a sugestão. Já fizemos viagens em família para Vegas algumas vezes; todas conhecem bem o caminho, a aridez vazia entre Califórnia e Nevada, onde as pessoas atravessam, mas nunca param.
— Boa ideia — diz Ma, sorrindo e se sentindo visivelmente orgulhosa.
— Sim, muito boa — concorda a Segunda Tia.
— Melhor do que a sua ideia do curry — critica a Grande Tia. — Muito bem, fazemos isso quando voltarmos do casamento. Definitivamente sem tempo para fazer hoje, precisamos estar no cais amanhã lá pelas oito e meia.
Ai, meu Deus. No meio de tanto pânico e confusão, ainda precisamos trabalhar em um casamento amanhã. Não me esqueci disso, mas me esqueci dos detalhes: o fato de que o evento é em Santa Lucia e temos que nos encontrar amanhã de manhã no cais para apanhar um dos barcos particulares que vai nos levar até a ilha. A perspectiva de fazer isso tudo me deixa exausta. Dirigir até o deserto, cavar um buraco, preenchê-lo e voltar está fora de cogitação para hoje à noite. No momento, mal consigo ficar de pé.
— Não podemos deixar o corpo no porta-malas durante o fim de semana inteiro — argumenta Ma. — Mais tarde vai cheirar mal na minha casa, e aí vai ser muito difícil tirar cheiro.
A Grande Tia concorda de novo.
— Temos que colocar na geladeira.
Deus nos acuda, estamos literalmente falando de congelar o cara.
— Minha geladeira não é grande — diz Ma.
— Só você tem geladeira grande o suficiente — retruca a Segunda Tia se referindo à Grande Tia.
O único sinal que trai a contrariedade da Grande Tia ao se dar conta de que teria que usar a geladeira dela é um tremelique de desagrado, mas depois ela concorda.
— Está bem. Aliás, eu me sinto melhor com corpo na minha geladeira do que
na geladeira de outra pessoa. Quem sabe, talvez outra pessoa não seja tão responsável. — Ela olha para a Segunda Tia de soslaio. As narinas da Segunda Tia inflam e sua boca se abre para falar, mas a Grande Tia acrescenta: — Vamos agora.
— Hum, será que podemos levar o corpo para o seu porta-malas? — digo. —
Meu carro nitidamente sofreu um acidente e não quero que um guarda nos pare no caminho.
— Está bem. Meu carro na sua entrada. Venha, vamos levar corpo.
Todas nos juntamos em torno do corpo de Jake.
— Não podemos carregar o corpo de qualquer jeito — digo. — E se alguém encontrar a gente?
— Sim, vamos cobrir com alguma coisa — sugere a Segunda Tia. — Nat, você tem sacola grande? Sabe, quando Hendra vai esquiar, ele leva esqui numa sacola bem grande. Sempre penso, wah, eu caibo dentro da sacola.
— Por que você pensa isso? Que maneira infeliz de pensar — repreende a Grande Tia.
Antes que a Segunda Tia possa retrucar com outro comentário sarcástico, Ma interrompe:
— Não, Meddy não esquia. Talvez saco de lixo? Será que dá?
Observamos o cadáver.
— Acho que ele é muito alto para caber num saco de lixo, Ma — respondo.
— Primeiro íamos ter que cortar o homem em pedaços — diz a Quarta Tia, os olhos brilhando com o que só posso descrever como um júbilo horrorizado. Será que ela sempre teve essas tendências homicidas? Será que elas sempre foram tão indiferentes com a perspectiva de retalhar um corpo?
— Que ideia boba — zomba Ma. — Vai fazer muita bagunça, e sacos de lixo sempre vazam. Você vai fazer bagunça enorme na minha garagem.
— Isso porque você sempre compra os mais baratos — rebate a Quarta Tia. —
Eu já te disse para comprar da marca Glad. Não viu os anúncios deles? Os sacos
Glad vão armazenar os pedaços do corpo dele direito, sem vazar!
Inclino a cabeça e olho para o teto. Tenho certeza de que, quando o pessoal da Glad planejou a campanha de marketing, ninguém pensou que seu público-alvo fosse um bando de mulheres chinesas de meia-idade discutindo sobre como se livrar de um cadáver.
— E um cobertor? — sugiro. — Só precisamos cobrir o corpo enquanto levamos para o carro da Grande Tia. É só deixar o corpo parecer menos… um morto.
— Boa ideia — diz a Grande Tia.
Ma cora de orgulho. Essa mulher realmente precisa rever suas prioridades.
Corro para dentro de casa, pego dois cobertores velhos da nossa despensa e disparo de volta para a garagem, onde elas continuam a discussão, substituindo a questão do saco de lixo por alguma outra coisa.
— Aqui está! — digo em voz alta.
Entrego um cobertor para a Grande Tia e sacudo o outro. Nós nos aproximamos do corpo, cobertores erguidos, e nos detemos.
— Vamos logo! — resmunga a Quarta Tia.
Com os dentes cerrados, ponho meu cobertor na metade superior do corpo.
— Enfie as laterais por baixo dele — instrui a Quarta Tia. — Enrole como se fosse um burrito.
— Ai, meu Deus — choramingo, mas faço o que ela manda, enfiando as pontas do cobertor embaixo do corpo, me retraindo ao perceber como ele está quente. —
Ele ainda está quente — sibilo, o rosto contorcido de nojo. Hesito. — Nós não devíamos… ahn. Acho que temos que verificar o pulso dele.
— Não, não, traz muito azar tocar cadáver — diz Ma, balançando a cabeça com firmeza.
Eu a encaro.
— Do que a senhora está falando? Eu acabei de tocar nele. Posso também
lembrar que há cinco minutos vocês estavam falando de cortar o corpo em pedacinhos? E aí não precisariam tocar nele?
— É diferente — diz Ma. Todas concordam, com exceção da Quarta Tia.
— Como assim, é diferente? — grito.
— Tocar cadáver para cortar em pedacinhos e se livrar dele, tudo bem. Mas tocar cadáver para tentar ver se ainda tem vida, ahhh, muito azar mesmo.
— O QUÊ? — Juro que minha cabeça está explodindo. — Como assim, cortar um cadáver é melhor do que um leve toque para ter certeza de que está morto mesmo?
— Aiya, se você não entende, não adianta tentar explicar — comenta a Segunda Tia.
— Quando alguém não entende, aí é exatamente a hora de explicar. — Balanço a cabeça. Por que estou perdendo um tempo precioso discutindo com elas? Antes de perder a coragem, agarro o pulso de Jake, toda retraída, e tento sentir sua pulsação. Argh, meu Deus, isso é nojento demais. Tento um pouco, pressionando aqui e ali, mas minha mão treme tanto e minha palma está suada e…
— Sudah! — dispara Ma, puxando minha mão com força. Ainda a segurando, ela estica o braço e bate na porta, dizendo:
— Aduh, bate na madeira, por que minha filha insiste em trazer azar para nós?
Bate na madeira deh.
— Aiya, vem cá, deixa comigo. Ele está obviamente morto. — A Quarta Tia me afasta e resmunga enquanto levanta a parte superior de Jake. — Nossa, ele está quente mesmo. Interessante! Eu tinha pensado que ele já ia estar todo rígido. Deve ser porque a noite está muito quente. Meddy, puxe o cobertor por baixo dele. Isso, certo, ótimo. Bem embalado. Vamos fazer a mesma coisa com as pernas. Todas nós a encaramos, aturdidas. A Quarta Tia é uma cantora de pouca fama, uma diva total com cabelo comprido e roupas apertadas e cheias de lantejoulas.
Embalar cadáveres com eficiência não é uma qualidade que eu imaginaria para ela.
Porém, seu tom de voz é tão autoritário que até a Grande Tia obedece sem questionar. Levantamos as pernas de Jake enquanto a Quarta Tia termina de as enrolar com o segundo cobertor. Quando acabamos, todas recuamos visivelmente trêmulas.
— Muito bem, para o carro de Da Jie! — ordena a Quarta Tia.
Contenho Ma antes que ela abra a porta da garagem, dizendo-lhe que primeiro vou apagar as luzes.
— Ah, sim, bem pensado — diz ela, visivelmente perturbada pela situação toda.
Fico de coração apertado ao ver seu rosto marcado. Sou a culpada disso. Deixei-a preocupada. O mínimo que posso fazer é consertar tudo, tentar me manter no controle.
Assim que as luzes se apagam, abrimos a porta da garagem, nos retraindo com o zumbido. Devíamos ter carregado o corpo para dentro da casa e saído pela porta da frente. Meu Deus, espero que o zumbido alto e louco da porta da garagem não acorde nenhum vizinho.
— Vamos — sussurro. Eu me preparo e, antes de perder a coragem, agarro a parte superior do corpo de Jake. Pelo que me lembro, ele não era tão pesado quanto agora. Como diabos consegui carregá-lo do assento do motorista até o porta-malas?
Adrenalina. Certo. Meu sangue podia muito bem ser praticamente um Red Bul na hora. Eu poderia ter carregado uma rocha, se tivesse precisado. Agora, porém, horas após o acidente, estou exausta; os braços, fracos; as pernas, rígidas e lentas.
Tento levantar o tórax de Jake alguns centímetros, mas meus músculos estão tremendo muito.
— Não consigo fazer isso sozinha — digo arfando. Estou a ponto de deixá-lo cair quando Ma agarra a cabeça dele.
— Er Jie, você pega quadris — vocifera ela. — Da Jie, você pega pernas.
A Grande Tia corre para pegar as pernas de Jake, como minha mãe mandou, mas a Segunda Tia está paralisada, os olhos arregalados.
— Não consigo… Eu não… — A Grande Tia bufa, e a Segunda Tia a olha de cara feia. — O quê? Não quero tocar em um cadáver, estou errada?
— Sua família precisa de ajuda e você nem quer socorrer — reprova a Grande Tia. — Me diz você: está errado ou não?
— Tudo bem, eu pego os quadris — diz a Quarta Tia, se adiantando. Ela faz um gesto para a Segunda Tia se afastar. — Você abre o porta-malas de Da Jie. —
Ela ergue os quadris de Jake, e juntas o tiramos do porta-malas.
É difícil descrever a caminhada até o carro da Grande Tia, que, como prometido, está esperando por nós a apenas alguns metros de distância. Jake está pesado, quente e inerte, e, mesmo sob as camadas dos cobertores, estou totalmente consciente que estamos carregando um homem morto. Nós nos deslocamos o mais rápido possível, mas temos que nos ajustar ao ritmo umas das outras, o que nos faz perder a velocidade. A qualquer momento, o Sr. Kim, nosso vizinho, vai acordar, buscar um copo d’água na cozinha, olhar pela janela e nos ver. Ou talvez, no outro lado da rua, o chihuahua de Mabel vai acordar e pedir para sair.