Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 10 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 7

Provavelmente vou fazer um monte de besteira.

— Tudo bem, somos todas de início ainda. Vamos começar devagar. Você faz aquilo, como chama? Perseguir outro fotógrafo?

— Acompanhar.

— Ah, isso. Você acompanha um fotógrafo de casamento, aprende primeiro, depois você se forma, e começa a fazer. Mas se você não gostar dessa coisa de fotografar casamento, então não precisa entrar para o negócio da família, está tudo bem.

Pego suas mãos entre as minhas. É difícil para ela me dizer que está tudo bem, que não preciso entrar no negócio da família, porque posso ver nitidamente quanto ela está entusiasmada com a ideia de todas trabalharmos juntas.

— Vou trabalhar com vocês, Ma.

— Sério? — A felicidade que ela demonstra parte meu coração.

— Sim, é lógico. Vou pesquisar sobre fotografia de casamentos. Quero fazer

isso com vocês.

— Aduh, sayangku. — Ma me puxa para um abraço. Não é tão apertado quanto os que a família de Nathan me dá, mas é doce à sua maneira. — Você deixa sua mãe muito feliz.

Eu a abraço também e fecho os olhos. Acho que vou lhes contar sobre Nathan em outra hora.

 

7

Presente Sentada na garagem pelo que parecem horas, fico refletindo sobre como diabos minha vida saiu tanto do controle. E o que, afinal, estou fazendo aqui? Por que estou em casa, e não na delegacia? Talvez não seja tarde demais. Talvez eu ainda possa procurar a polícia e explicar tudo. Eles entenderiam, quem sabe. Porém, quando penso em ligar o carro e sair da garagem de novo, cada gota de energia do meu corpo desaparece. Desabo no volante, sem forças. Só preciso ficar aqui um pouquinho. Reunir coragem. Decidir o que vou dizer à polícia.

Ouço uma batida seca à janela. Levo um susto tão grande que dou com a cabeça no teto do carro. Agora sei o que significa “pular de medo”.

— O que você está fazendo aí? Está bêbada? Aduh, você dirigiu bêbada? —

grita Ma em indonésio, a voz abafada pela janela fechada.

Abro a porta do carro, o coração palpitando.

— Ma, a senhora me assustou!

Ela faz uma careta.

— O que foi, Meddy? O que aconteceu?

Eu não tinha intenção de lhe contar nada. É lógico que não; a última pessoa para quem quero contar é Ma. Ela não saberia o que fazer ou o que dizer ou…

— Ma, eu matei o cara. — As lágrimas brotam dos meus olhos quando me ouço dizer aquelas palavras em voz alta. Eu matei um homem. Quantas vezes mais terei que admitir isso?

— Matou? Matou o quê? Aduh, Meddy, quantas vezes tenho que lhe dizer para não beber demais? Olha só, você está falando coisas sem sentido.

— Eu matei o cara, Ma. Jake. O cara com quem a senhora marcou um encontro para mim! — Finalmente deixo as lágrimas escorrerem, porque mencionar o nome dele é horrível. Não há apenas um corpo no meu porta-malas, mas um corpo que antes era uma pessoa.

Ma se interrompe. Fecha a boca e me encara por uns minutos. Quando volta a falar, muda para um inglês hesitante.

— É como você e Selena gostam de dizer? Quando vocês dizem “Uau, você me matou de rir!”? É assim, não é?

— Não! — grito. — Estou dizendo que matei de verdade, Ma! — Sem saber o que fazer, tiro a chave do carro e pressiono um botão. O porta-malas se abre com um estalo que podia muito bem ser um tiro de revólver dentro da nossa pequena garagem. De repente, o barulho todo é amplificado; consigo escutar os batimentos do meu próprio coração, e a inspiração pronunciada e profunda de Ma.

— Meddy — sussurra ela —, isso é uma brincadeira, não é? Brincando comigo?

— Não, Ma, não é brincadeira.

Ma abafa uma risada, depois balança a cabeça.

— Vocês, jovens, sempre querendo fazer graça. — Ela agita um dedo para mim e caminha até a traseira do carro, ainda balançando a cabeça. — Minha filha, tão brincalhona, tão… AIYA wo de tian ah! — Ela recua, cambaleando, as mãos cobrindo a boca.

Eu me retraio.

— Meddy — sibila ela. — Meddy! Isso não tem graça nenhuma. — Ela olha para o porta-malas e para mim sem parar. — Essas pernas são de mentira? Como você chama… manequino?

Balanço a cabeça, novas lágrimas brotando nos meus olhos.

— Não, Ma, não é um manequim. É o Jake mesmo, juro por Deus. Ela solta um ruído que é algo entre um uivo e um ganido, depois para um pouco e se endireita antes de examinar o porta-malas mais de perto. Choraminga de novo quando vê o restante do corpo. Fico pensando o que ela vê, de sua posição.

Primeiro os sapatos (mocassins marrons, sem meias), depois as pernas, o tórax e, por fim, o moletom cobrindo o rosto dele.

— Por que você cobriu o rosto dele? — pergunta ela. — Aconteceu alguma coisa horrível com o rosto, foi? — Ela estremece. — Tem alguma coisa espetada nos olhos? Aiya, não conta, não quero saber. — Ela faz uma careta. — Tem caco de vidro no olho dele?

— Não, Ma. Não tem nada espetado no olho dele. Só achei que seria, sei lá, mais respeitoso.

— Ah. — Ela assente. — Sim, você tem razão, mais respeitoso. — Ela me dá um tapinha na bochecha. — Eduquei você tão bem.

Sinto a histeria emergir e tenho que engolir o sentimento. Só Ma mesmo para ficar orgulhosa da boa educação que me deu depois de lhe mostrar um homem morto no porta-malas do meu carro.

— Eu acabei de matar uma pessoa, então não sei se a senhora pode dizer que me educou bem.

— Ah, ele deve ter merecido.

Mordo o lábio para não cair no choro de novo. Estou tão agradecida de não ter que me explicar para ela.

— Tudo bem! — exclama minha mãe, se empertigando, de repente assumindo o controle. Ela não está mais com a respiração forçada. Há um brilho em seu olhar, aquele que aparece na semana anterior ao Ano-Novo Chinês, quando ela fica absolutamente frenética e limpa a casa como Marie Kondo à base de crack. —

Você. Para. Dentro. Já. — Ela fecha o porta-malas e me conduz pela porta dos fundos.

No interior, me manda sentar junto à bancada da cozinha. Sigo suas instruções,

exausta e abalada demais para argumentar. E, por mais que odeie admitir, fico feliz por ela tomar as rédeas, porque não sei o que diabos fazer em uma situação dessas.

Assim, desabo em uma cadeira, descanso os cotovelos na bancada da cozinha e enterro o rosto nas mãos. Por favor, quero acordar e descobrir que tudo isso não passa de um pesadelo.

Uma xícara de chá fumegante aparece na minha frente.

— MTC — diz Ma. — Beba agora. Você está yang demais, seu interior está muito quente. Seu hálito cheira mal. — Ela sai da cozinha arrastando os pés.

Eu a observo enquanto ela se afasta. É sério? Medicina tradicional chinesa?

Quem ia pensar em mau hálito num momento como esse? Mesmo assim, tomo um gole, e o chá de ervas desce como um elixir, espalhando seu calor doce por todo o meu corpo, até minhas mãos geladas. Tomo outro gole, depois outro, e em pouco tempo bebo a xícara toda e, de fato, me sinto um pouco melhor.

Minha mãe volta para a cozinha a passos largos.

— Muito bem, já liguei para a Grande Tia. Ela vai chegar em poucos minutos.

— O QUÊ? — Salto da cadeira. — Ma, ai, meu Deus, não acredito que a senhora fez isso.

Por um segundo, ela parece genuinamente confusa, mas aí seu rosto se ilumina e ela ri, fazendo um gesto de desdém.

— Ah, não se preocupe, não se preocupe, ela diz que vai chamar todo mundo, tá bom? Não vai ser apenas a Grande Tia, não se preocupe, todas as suas tias também vêm.

— O QUÊ? — grito. Jogo a cabeça para trás e fito o teto. Isso não pode estar acontecendo. — Ma, essa não é a… a gente não deveria contar isso para todo mundo!

Ma franze a testa.

— Não é todo mundo. São as suas tias.

— É todo mundo!

— Meddy — Ela estala a língua, em um gesto de desaprovação. — Elas são da família. É diferente.

— É assassinato! — grito. — Quer dizer, não assassinato exatamente, está mais para legítima defesa, mas mesmo assim… Ma, tem um homem morto no meu carro. Não é o tipo de coisa que você compartilha com todo mundo, ainda que todo mundo seja da família.

— É exatamente o tipo de coisa que você compartilha com a família — rebate Ma.

— Como assim, “é exatamente o tipo de coisa que você compartilha com a família”? Que outras coisas a senhora compartilhou com as minhas tias?

Minha mãe abana a mão com desdém.

— Venha, me ajude a cortar manga para as suas tias. Se não oferecermos alguma coisa para comer, não vai ser nada bom.

— Sério, Ma? A senhora está preocupada em manter as aparências justo agora?

Acho que já passamos dessa fase, não?

Ela me lança um olhar significativo enquanto se curva para abrir a gaveta de frutas da geladeira.

— Meddy, como pode dizer uma coisa dessas? Suas tias vêm aqui, tão tarde da noite, para ajudar a sumir com um corpo, e nem oferecemos comida? Como pode?

Ah, temos pitaia, ótimo, ótimo. A preferida da Grande Tia. Wah, tem pera também.

Excelente. Me ajude a descascar, não seja grosseira com suas tias, você vai passar vergonha.

— Ah, certo, não ter frutas para oferecer é o que vai me fazer passar vergonha, não o corpo no porta-malas.

Porém, menos de um minuto depois, estou na bancada da cozinha com um descascador em uma das mãos e uma pera-asiática na outra. Minha mente continua repetindo: Aaaah, isso é surreal. Tem um homem morto no meu carro e estou aqui descascando fruta! Por algum motivo, continuo a descascar e picar. Suponho que

deva fazer isso porque não tenho nenhuma ideia melhor.

Assim que termino de cortar a pera gigantesca, a campainha toca.

— Abra a porta — ordena minha mãe, enquanto termina de fatiar a última pitaia.

Eu ando até a porta da frente, ainda naquele estado catatônico. Nem sei o que dizer para as minhas tias. “Obrigada por virem ajudar a decidir o que fazer com esse cara que eu matei”?

No entanto, sou poupada dessa tarefa, pois, no minuto em que abro a porta, a Grande Tia dá uns tapinhas na minha bochecha e fala em indonésio:

— Minha querida Meddy, está tudo bem, não se preocupe. Vá se sentar —

manda ela, e passa por mim apressada. A Segunda e a Quarta Tia a seguem, cada uma delas cacarejando:

— Não se preocupe, estamos aqui agora, pare de chorar.

— Não estou chorando…

A Segunda Tia faz um ruído de censura, como se o fato de não chorar fosse uma afronta pessoal, antes de se juntar às irmãs na cozinha. Ouço barulhos explodindo no aposento, mas nada do tipo “Ah, meu Deus, Meddy fez o quê?”. Eram mais do tipo “Wah, pitaia! Aduh, não precisava ter esse trabalho!”. Posso ouvir Ma puxando as cadeiras e gritando alegremente para elas se sentarem e comerem as frutas.

— Ah Guan me deu uma caixa inteira quando voltou da Indonésia. Uma caixa inteira!

Respirando fundo, eu me estabilizo e entro na cozinha.

— Meddy! — grita a Grande Tia.

Ah, meu Deus, lá vem. Agora vão começar a ficar histéricas por causa do corpo.

— Já comeu? — indaga a Grande Tia. — Venha! Venha cá e se sente. Ah, você está tão pálida. — Ela se levanta.

É como se eu virasse uma chave dentro de mim. Automaticamente aperto o passo e me aproximo, conduzindo-a de volta para a cadeira e dizendo:

— Por favor, Grande Tia, não se preocupe. Vou pegar uma cadeira. Sente-se a senhora e aproveite as frutas, tá bom? Está precisando de mais alguma coisa?

Do canto do olho, sinto a aprovação de Ma, e isso me faz querer gargalhar e chorar. Quer dizer, não é possível, acabei de matar um homem, e ela ainda fica preocupada se estou tratando os mais velhos com respeito.

A Grande Tia espeta uma fatia de manga e dá uma mordidinha.

— Wah, tão gostoso. — Dá outra mordida e suspira. — Nada se compara às mangas da Indonésia.

— Sim, as mangas da Indonésia são as mais doces — concorda Ma. — Alguém quer chá de ervas? Fiz um bule para Meddy e ainda sobrou.

— Tchi, não, obrigada, não acredito nessa coisa antiquada de MTC — diz a Quarta Tia.

Minha mãe a olha de cara feia.

— A medicina tradicional chinesa é uma medicina autêntica! — Ela despeja um de seus discursos sobre como foi comprovado que a MTC realmente funciona em termos médicos e se mostrou muito melhor do que a medicina ocidental.

Estou presa em um pesadelo. Sei disso. Talvez tenha batido a cabeça no acidente. Talvez eu tenha entrado em coma, e meu cérebro inventou esse cenário bizarro, porque não é possível que eu esteja realmente sentada aqui, na cozinha, observando minhas tias mais velhas comendo manga, e Ma e a Quarta Tia discutindo enquanto Jake jaz cada vez mais frio no porta-malas do meu carro. Justo quando estou a ponto de explodir, a Grande Tia pousa o garfo com um barulho significativo.

Todas prestam atenção.

— Então — começa ela, virando-se para mim e mudando para o inglês. Por trás das gentis rugas que conheço tão bem a ponto de poder desenhá-las dormindo, seu olhar é aguçado como o de uma águia. — Conte para a Grande Tia o que aconteceu. Desde o início. Não hesito. Existe algo na Grande Tia, uma mistura de autoridade firme e calor maternal, a que ninguém consegue dizer não. Estou me sentindo tão culpada por elas terem vindo aqui às pressas no meio da noite — sobretudo por terem vindo me ajudar a lidar com um cadáver — que tento relatar a história em indonésio. Porém, antes de terminar uma única frase, a Segunda Tia diz que meu indonésio terrível está lhe dando dor de cabeça e que devo voltar ao inglês. Com certo alívio, eu narro o encontro com Jake, sobre como ele insistiu em dirigir meu carro até aqui, e as coisas que ele falou.

Minhas tias e minha mãe cobrem a boca, horrorizadas, e balançam a cabeça.

— Como você pôde marcar um encontro para Meddy com um desgraçado desses? — dispara a Quarta Tia para Ma.

O rosto de Ma está vermelho como a sola de um Louboutin.

— Ele era tão gentil na internet! Um perfeito cavalheiro, até ofereceu para cozinhar terong para mim… quer dizer, para Meddy.

— O que é terong? Aquela pasta de camarão fermentado? — pergunto.

— Tchi, não — diz minha mãe, mudando para inglês. — A pasta de camarão é terasi. Terong é berinjela.

Alguma coisa estala dentro de mim.

— Ele se ofereceu para cozinhar berinjela para mim? Muito específico e esquisito.

Ma assente furiosamente.

— É por isso que eu acho, wah, que esse rapaz foi feito para você. Ele até sabe qual é sua comida favorita.

— Preciso ver as mensagens do bate-papo.

Ma pega o celular do bolso, e todas as minhas tias colocam os óculos. Quando Ma vai me entregar o aparelho, a Quarta Tia o surrupia de sua mão.

— Ei! — exclama Ma.

A Quarta Tia a ignora e começa a rolar a tela. Suas sobrancelhas se erguem,

quase desaparecendo na linha de seu cabelo, e ela explode em uma risada histérica.

— Por que está rindo? O que é tão engraçado? — dispara Ma.

Ainda gargalhando a ponto de perder o fôlego, a Quarta Tia empurra o celular para mim. Passo pelas mensagens e… Ai. Meu. Deus. É muito pior do que eu pensava.

Jake1010Hoteleiro: Ei

Meddelin Chan: Olá!

Ergo o olhar para Ma, horrorizada.

— A senhora usou meu nome verdadeiro nesse site? E essa é… — Toco no pequeno ícone perto do meu nome, e a imagem aumenta para mostrar uma foto real minha.

— Não sabia que você devia usar um nome falso! Como eu ia saber disso?

— Talvez não fingindo que sou eu e criando um perfil de relacionamento falso?

Quer dizer, pelo amor de Deus, olha isso, Jake não postou nenhuma foto dele! —

Ma parece tão magoada que imediatamente me arrependo de criticá-la. —

Desculpa, Ma. Sei que a senhora só queria ajudar.

Ela assente muito de leve, e continuo a ler.

Jake1010Hoteleiro: Adorei sua foto

Meddelin Chan: Obrigada! Você tão gentil!

Cerro os dentes, fazendo esforço para não reclamar de novo. Quantos pontos de exclamação uma mulher pode usar em uma única resposta?

Jake1010Hoteleiro: Então, fotógrafa de casamento, hein? Deve ser interessante.

Meddelin Chan: Ah, é sim! Muito interessante! O que você faz?

Jake1010Hoteleiro: Como você deve ter adivinhado pelo meu nome de perfil, sou hoteleiro. Proprietário de hotéis. Muitos hotéis, para falar a verdade.

Meddelin Chan: Wahhh! Estou impressionada!

A conversa continua nesses termos durante um tempo, Jake se vangloriando, descrevendo nos mínimos detalhes cada um de seus hotéis, e Ma respondendo do jeito mais idiota possível. Qualquer um que lesse as conversas pensaria que estou desesperada para obter a aprovação de Jake, mas eu sei que essa é a maneira de Ma demonstrar polidez. Foi assim que ela me criou, encorajando os outros a falarem de si mesmos e depois descobrindo as coisas boas nessas falas e demonstrando grande interesse. Não sei dizer se é um traço chinês ou indonésio, mas, seja o que for, funcionou com Jake. Após apenas alguns dias de conversa, ele enviou esta mensagem:

Jake1010Hoteleiro: Eu me sinto tão à vontade conversando com você, Meddy.

Meddelin Chan: Eu também!

Jake1010Hoteleiro: É muito difícil encontrar alguém com quem eu me conecte de verdade, sabe? É como se eu te conhecesse há muito tempo.

Meddelin Chan: Concordo!

Jake1010Hoteleiro: Entããão, quer se encontrar comigo?

Meddelin Chan: Quero! Tão feliz que você perguntou! Ontem meu corpo não delicioso, mas hoje está melhor.

Ai. Meu. Deus. Nããão. Em indonésio, a expressão tidak enak badan significa

“não se sentir bem”, mas sua tradução literal é “corpo não delicioso”. Atrás de mim, a Quarta Tia volta a gargalhar, enquanto as outras perguntam:

 

— O que foi? O que é tão engraçado?

Prossigo a leitura.

Jake1010Hoteleiro: Ah. Uau, ótimo. Puxa, garota, você tem ainda mais sede do que eu pensava.

Meddelin Chan: Haha! Não, não, não é sede! Tenho muito que beber. Estou bem molhada agora.

Jake1010Hoteleiro: Uau. Nossa. Se eu soubesse, tinha te convidado para sair antes.

Meddelin Chan: Wah! Como você sabe que gosto tanto de berinjela??

Jake1010Hoteleiro: Gosta mesmo? Bom, tenho uma bem grande para você.

Meddelin Chan: Ah! Mal posso esperar! AMO berinjela!

Largo o celular com força na mesa e encaro Ma. A Quarta Tia está literalmente no chão, rindo.

— O quê? O que foi? — pergunta a Grande Tia. — Ele parece um rapaz muito simpático, oferecendo para cozinhar berinjela para você.

— Não é? — exclama minha mãe, fazendo gestos descoordenados. — Li isso e pensei, wah, que rapaz tão simpático, tão carinhoso com a minha filha, até perguntando se ela está com sede!

Enterro o rosto nas mãos.

— Nããão! Ma, esses emojis de gotas d’água e berinjela são indiretas de conotação sexual!

Três pares de olhos me encaram completamente confusos enquanto a Quarta Tia urra de tanto rir.

— O quê… sexual? Con-nota-a-ação? — pergunta a Segunda Tia.

Não acredito que estou tendo essa conversa com minhas tias e minha mãe justo agora.

— Indiretas de conotação sexual. Sabe, como trocadilhos sexuais. A berinjela simboliza o… hum… o, hum, masculino.

Isso é ridículo. Tenho vinte e seis anos, pelo amor de Deus, e ainda não consigo falar a palavra “pênis” na frente da minha mãe e das minhas tias porque uma parte de mim tem certeza de que elas vão me repreender. Em vez disso, uso meu dedo indicador para desenhar no ar o símbolo universal para pênis.

— Berinjela — diz a Grande Tia. — Sim, ele diz berinjela, sabemos disso.

— Não…

— Ela quer dizer PÊNIS! — berra a Quarta Tia, e aí se dobra de rir novamente.

— O quê? — Ma engole em seco. — Não. Mas…

— Isso não soa bem. Acho que você está errada — acusa a Grande Tia, a voz estridente. Ela arrebata o celular de mim e o olha com a testa franzida. — Veja, ele diz: “Se eu soubesse, tinha te convidado para sair antes… Tenho uma bem grande para você…” Ah. — Ela deixa cair o celular na bancada como se o aparelho tivesse se metamorfoseado em uma barata.

Ma está imóvel, paralisada, o pavor estampado no rosto.

— Ma, a senhora está bem?

Lentamente, ela se vira para me encarar e depois pergunta, a voz cheia de horror e perplexidade:

— Berinjela é pênis?

— É. — Suspiro, sentindo muita vergonha da minha geração.

— Achei que ele falava, sabe, de berinjela frita. Achei…

Ela parece tão miúda e perdida que não consigo deixar de sentir pena. Passo o braço pelos seus ombros e a aperto.

— Tudo bem, Ma. Eu sei.

— Sim, está tudo bem. Todo mundo tem que aprender a mandar mensagem safada em algum momento da vida — acrescenta a Quarta Tia.

Eu lhe lanço um olhar de censura.

— Safada? — repete Ma.

— Não se preocupe com isso — digo, dando um tapinha em seu ombro. —

Então, hum. Ok, isso explica algumas coisas. Não que justifique o comportamento de Jake, de jeito nenhum, mas deu para entender por que ele estava tão… hum…

— Com tesão? — sugere a Quarta Tia. Ela abre um sorriso quando lhe dirijo mais um olhar de censura.

Minha mãe bruscamente leva a mão à boca de novo.

— Meddy, será que… eu provoquei a morte desse rapaz porque disse que queria comer a berinjela dele?

Abro a boca para responder, mas minhas tias me interrompem, gritando em uníssono:

— NÃO!

— E daí que você disse que queria comer a berinjela? — indaga a Segunda Tia.

— Pode ser que um dia você queira comer berinjela, mas em outro você não queira mais, é normal mudar de ideia.

— Sim, ele é um rapaz muito mau, muito mau — critica a Grande Tia.

— Mas se eu não digo “Wah, sim, quero comer sua berinjela”, aí, quem sabe, ele não fosse tão… vocês sabem…

— Meddy, quando ele falou essas coisas no carro, o que você respondeu? —

pergunta a Quarta Tia.

— Eu disse que não, que não estava interessada naquilo. Tirei a mão dele do meu joelho. Fui bem explícita sobre o que eu queria e o que não queria.

— Estão vendo? — diz a Quarta Tia, triunfante. — A berinjela não importa.

Era apenas um flerte. Todo mundo faz isso. Mas ele resolveu insistir depois que Meddy disse não. Não é culpa sua.

Assinto de maneira bem enfática.

— De verdade, não foi culpa sua, Ma. — Uma vozinha dentro da minha cabeça sussurra: Bom, meio que foi, sim. Se ela não tivesse se passado por mim, para início de

conversa…

Abafo a tal voz. Não adianta culpar ninguém agora.

— Muito bem, voltando ao que aconteceu — diz a Grande Tia. — Quer dizer que o desengraçado tentou tocar em você…

— Desgraçado — corrige a Quarta Tia.

A Grande Tia gesticula, ignorando o comentário.

— O desgraçado tenta tocar em você…

— É, e aí eu meio que surtei, entrei em pânico, e ahn… Talvez eu tenha usado um taser nele um pouquinho.

Quatro pares de olhos me encaram horrorizados.

— Meddy — sussurra a Segunda Tia. — Você tem um taser?

Não consigo deixar de me retrair quando confirmo. Lá vem. Elas vão começar a…

— Podemos dar uma olhada? — pergunta a Segunda Tia.

Quê?

— Wah, imagino qual é o modelo do seu — comenta a Grande Tia. — É igual ao meu? — Ela pega a bolsa na bancada da cozinha e vasculha lá dentro, olhando por cima dos óculos de leitura.

A Quarta Tia suspira.

— Elas estão divagando de novo. Ei! — Ela bate palmas, como se as outras fossem cachorrinhos barulhentos. — Foco! Já é muito tarde e temos que acordar cedo.

A Grande Tia se empertiga, pigarreando.

— Ah, desculpe. Me mostra taser mais tarde. Muito bem, você usa taser nele.

Acerta onde? Pescoço? Bochecha?

Eu olho para ela, perplexa.

— Hum, no pescoço.

Todas assentem.

— Sempre mire o pescoço — diz Ma. — Ouvi falar que pescoço é melhor lugar para acertar taser. Muito sensível. Muito bem, Meddy. — Ela demonstra sua aprovação me dando um tapinha na bochecha.

Levo um segundo para organizar meus pensamentos no meio dessa bizarrice.

— E aí, bem, ele bateu com o carro e, quando recuperei os sentidos, ele estava… err. Bom, já sabemos o resultado.

— Já estava morto — completa Ma, impassível.

Nenhuma das minhas tias parece demonstrar surpresa diante disso, o que significa que minha mãe deve ter contado ao telefone antes de elas chegarem ou talvez signifique que MINHA FAMÍLIA É PSICOPATA. Prefiro a primeira hipótese.

— Então como? — indaga a Segunda Tia.

Essa é a questão. Ficamos imóveis por um instante, caladas, cada uma concentrada nos próprios pensamentos. Para constar, meus pensamentos ainda estão empacados em POR QUE ELAS ESTÃO TÃO CALMAS?, O QUE ESTÁ

ACONTECENDO? e AI, MEU DEUS, EU MATEI UM HOMEM.

A Grande Tia tira os óculos de leitura com um suspiro.

— Certo. Onde está Jake agora?

— No porta-malas do meu carro — respondo, estremecendo novamente, porque aquilo parece loucura.

Ela assente.

— Ninguém te viu, certo?

— Acho que não. Não tinha ninguém por perto. Era uma rua deserta, acho que ele escolheu ir até aquela rua porque, ahn, sabe, ele queria… vocês sabem.

Tanto minhas tias quanto minha mãe murmuram xingamentos em vários idiomas: uma porção de palavras que começam com “F” lançadas em mandarim, cantonês, hokkien e indonésio.

— Vou lhe dizer uma coisa, ah — sibila Ma —, ainda bem que ele já está

morto, porque senão eu matava esse desgraçado.

Até a Quarta Tia assente, concordando solenemente com Ma. Ouvir isso faz meus olhos lacrimejarem mais uma vez. O fato de nenhuma delas questionar se fiz a coisa certa ao me defender é tão reconfortante quanto um abraço apertado, e só quero me dissolver em seus braços, chorar e deixá-las tomarem conta de tudo.

— Muito bem, então vamos nos livrar do corpo — diz a Grande Tia, com sua autoridade costumeira.

— Calma aí — rebate a Quarta Tia —, por que devemos fazer isso? Por que não procuramos a polícia? Quer dizer, parece um caso de legítima defesa.

Minha mãe a repreende:

— Sim, sabemos que foi legítima defesa, mas polícia não sabe. Se eles veem que tem um homem morto no porta-malas, vão dizer sem dúvida: “Ah, meu Deus, você matou esse homem!”

A Quarta Tia a olha de cara feia, abre a boca para falar alguma coisa, mas se vira na minha direção e pergunta:

— Por que você colocou o corpo no porta-malas?

Apesar de ser a mais nova do grupo, a Quarta Tia é incrível. Todas as mulheres na família são incríveis. Exceto por mim, acho. Estremeço sob o seu olhar e minha voz sai fraca.

— Hum. Entrei em pânico. Eu não queria ficar nem mais um segundo esperando alguém passar por ali, meu celular estava descarregado e eu não queria dirigir com ele do meu lado. Parando para pensar, acho que tomei a pior decisão.

— Não, a pior decisão era deixar o corpo lá, na beira da estrada — retruca a Segunda Tia.

— Ahhh, sim, essa é ainda pior — concorda Ma, assentindo com gratidão antes de fulminar a Quarta Tia com outro olhar. A Quarta Tia a ignora.

— Sem dúvida, se formos à polícia e explicarmos tudo, eles vão ver que Meddy não é uma assassina. Olhe só para ela!

De repente sou o foco de quatro pares de olhos perspicazes mais uma vez. Faço um esforço enorme para não me retrair. A Grande Tia troca um olhar com Ma.

Embora a pergunta não seja proferida, sei que ela está perguntando: “A filha é sua, o que você quer fazer?”

Ma se endireita.

— Não vamos procurar a polícia. Não, não confio neles. Não sabemos o que eles vão dizer. Eles podem alegar que ela adulou o corpo…

— Adulterou as provas, você quer dizer — corrige a Quarta Tia.

Ma lhe lança um olhar cheio do mais puro veneno.

— Podem dizer que ela bloqueou a justiça…

— Obstruiu a justiça — corrige a Quarta Tia.

— Está muito evidente o que eu quero dizer! — dispara minha mãe. — Sim, nós sabemos que o seu inglês é muito bom, não precisa se exibir, ok?

A Quarta Tia ergue os braços.

— Só estou tentando ajudar!