Disque T para titias
Prólogo
Espero que esta história lhe proporcione uma pequena amostra do intenso amor com que minha família nos criou e que nos protege até hoje.
Saudações,
Jesse
Prólogo
Oito anos atrás
Minha família sofre com uma maldição que nos segue desde a China, onde vitimou meu bisavô (um acidente bizarro na fazenda envolvendo uma porca prenhe e um ancinho lamentavelmente fora de lugar), até a Indonésia, onde atingiu meu avô (um derrame aos trinta anos, nada tão dramático quanto o falecimento do meu bisavô, mas ainda assim bastante perturbador). Minha mãe e minhas tias imaginavam que uma maldição chinesa não as seguiria até o Ocidente; assim, depois de se casarem, todas se mudaram para San Gabriel, na Califórnia. Mas a maldição não apenas as encontrou, como sofreu uma mutação. Em vez de matar os homens da família, fez com que eles as abandonassem, o que é muito pior. Pelo menos Yeye morreu amando minha Nainai. O primeiro a ir embora foi o Grande Tio. Depois foi a vez do Segundo Tio, e aí… aí foi meu pai, que foi embora na calada da noite, sem dizer uma palavra sequer. Simplesmente desapareceu, como um fantasma. Acordei uma bela manhã, perguntando por ele, e Ma me jogou uma tigela de congee, um mingau de arroz chinês, e ordenou: “Coma.” Foi então que eu soube que a maldição o alcançara. Quando meus primos homens acabaram a escola, também foram embora, optando por universidades como a NYU ou a Penn State, em vez de qualquer uma das excelentes universidades da Califórnia.
— Ah, Nat, você é sortuda demaaaais — diz a Grande Tia, no dia em que minha mãe anunciou que me inscrevera em oito universidades, todas na Califórnia.
A mais distante foi a de Berkeley, e tivemos uma infinidade de discussões por causa
disso. Ma acha que qualquer universidade mais distante que a UC Irvine é longe demais; assim, ela não vai poder aparecer sem avisar e limpar meu dormitório e importunar minha colega de quarto para dormir cedo e beber litros de água. O filho da Grande Tia, Hendra, está matriculado em Boston e ignora 99,99 por cento de seus telefonemas. O 0,01 por cento restante acontece quando ele fica sem dinheiro e precisa pedir mais.
— Ah, sortuda demais — repete a Segunda Tia, dando tapinhas no peito e sorrindo tristemente, talvez pensando no meu primo Nikky, na Filadélfia, que nunca liga e só aparece uma vez por ano. Seu outro filho, Axel, está em Nova York.
A última vez que o vi foi dois anos atrás, quando ele saiu de casa. Até que enfim, dissera ele. Quando chegar a sua vez, Meddy, voe para bem longe e não olhe para trás.
— As filhas nunca te abandonam. Ter menina é uma bênção — continua a Segunda Tia, enquanto estica o braço e belisca minha bochecha.
A Quarta Tia resmunga alguma coisa e continua a descascar sementes de abóbora torradas e salgadas. Ma é sua maior rival, e ela prefere se engasgar com uma semente de abóbora a concordar que minha mãe é a mais sortuda das irmãs.
Quando Ma não está olhando, porém, ela se vira na minha direção e pisca para mim. Estou orgulhosa de você, menina.
Abro um sorriso amarelo. Porque eu meio que menti descaradamente para Ma.