Disque T para titias
Capítulo 4
Aquelas mensagens que você me enviou, eu sei que lá no fundo você é uma garota safada. Então, vou contar o que vai acontecer. Vamos encontrar um lugar legal e ficar bem juntinhos…
Os dardos do taser são disparados e o atingem direto no pescoço. Jake dá um solavanco como um boneco. O carro dá uma guinada para o lado.
Abro a boca para gritar.
Escuridão total.
4
Terceiro ano da faculdade, seis anos atrás
— Isso é surreal. — Suspiro enquanto olho pela janela do avião.
— Pois é.
Baixo o olhar para minha mão, aninhada na de Nathan. Parece tão pequena perto da dele. Ele a aperta, e sorrimos um para o outro. Puta merda, estou realmente fazendo isso. Em cerca de dez horas, vamos aterrissar no Aeroporto de Heathrow, em Londres, onde seremos recebidos pelos pais dele. Ah, meu Deus. Não vou conseguir.
— Pare de surtar.
— Não estou surtando.
— Tudo bem, então diga para a sua cara parar de surtar.
Forço um sorriso, que mais parece uma careta.
— Esse é oficialmente o sorriso mais esquisito da história dos sorrisos —
retruca ele, inclinando-se para me beijar. — Hum, adoro beijar seus dentes.
Isso me arranca uma risada, o que faz eu me sentir um tiquinho melhor. Mas não muito. Porque, PUTA MERDA, cara! Estou em um avião com Nathan! Para conhecer a família dele! No Natal! Na Inglaterra! Que vida é essa?
— Ei, como é que você não tem sotaque britânico?
Nunca pensei no assunto, mas, agora que efetivamente estamos viajando para Londres, me dou conta de que Nathan soa tão norte-americano quanto qualquer outro.
— É porque meus pais se mudavam bastante quando eu era criança. Por isso, sempre estudei em escolas internacionais. Mesmo na Inglaterra, eles me matricularam em uma escola internacional. Mais fácil de fazer a transferência de notas. Quer que eu pareça inglês? Posso falar com um sotaque britânico para você, amor.
— Ah, meu deus. Tá bom, você não consegue. — Estremeço, e ele ri.
— Aliás, dei de Natal para Selena aqueles AirPods que ela estava louca para ter.
Assinei com os nossos nomes.
Fico perplexa.
— Sério? Que generoso. — Eu tinha dado a ela um conjunto de cremes hidratantes da Bath and Body Works.
— Bom, sim, nada disso teria sido possível sem a ajuda dela.
— Verdade.
Nos últimos dois anos, Selena foi para minha casa em muitos fins de semana.
Ela é um sucesso na minha família; minhas tias dizem que ela é a filha que gostariam de ter tido (o quê… oi, e eu?), e Ma diz que ela é a irmã que eu não tive, e aí eu sou obrigada a concordar. E quando Nathan me convidou para passar o Natal na casa dele, Selena me deu o melhor presente que alguém poderia oferecer. Ela disse a Ma que queria que eu fosse passar o feriado com ela no norte da Califórnia, e Ma concordou sem hesitar, já que minha família não celebra o Natal mesmo.
Nathan tira o tablet da mochila e o abre em nossa mesinha.
— Baixei Imortais para o voo.
— Ah, você é um presente dos deuses, Nathan Chan.
— Imaginei que cenas de Henry Cavil sem camisa iam ajudar a distrair a sua cabeça da perspectiva de conhecer meus pais.
Reviro os olhos.
— Tem muita mulher mostrando o peito em Imortais, você não está sendo altruísta.
— Verdade. — Ele ri e depois se inclina e abaixa a voz: — Mas os seus são os meus favoritos.
Dou um tapa no braço dele, mas, francamente, estou meio que sorrindo com o comentário. Ele me puxa para perto e descanso a cabeça em seu ombro. Assim, nos acomodamos para ver o filme. Em algum momento, nós dois caímos no sono.
Quando a comissária nos desperta algumas horas mais tarde, descubro, com imenso pavor, que minha cabeça está presa em um ângulo esquisito.
— Ah, não. Não, não. — Tento girá-la, mas a dor percorre a minha espinha e solto um grito agudo.
Nathan se espreguiça, bocejando.
— O que foi, tampinha?
— Dormi de mau jeito e agora minha cabeça não quer virar.
Ele me encara por dois segundos antes de explodir em uma gargalhada.
— Você é uma mulher de noventa anos disfarçada?
— Não me insulte, garoto. Só tenho oitenta e sete. Argh. Não posso conhecer seus pais assim! — Faço um gesto descoordenado em direção à minha cabeça torta.
— Calma. Venha cá. — Nathan coloca a mão na minha nuca e começa a massagear.
— Au, ai, ah. — Está doendo ou está gostoso? Não consigo me decidir.
— Pare de se mexer.
— Por favor, apertem os cintos de segurança e sentem-se com as costas eretas
— pede um comissário com um olhar sério.
Fazemos o que mandaram. Apesar dos esforços de Nathan, minha cabeça ainda está empacada em um ângulo estranho. Sempre que isso acontece, tenho que dormir para recuperar a flexibilidade normal do pescoço. Quer dizer. Vou realmente conhecer os pais de Nathan com a cabeça torta. Tudo bem, está tudo ótimo. Não estou surtando nadinha por causa disso.
Quando descemos do avião, Nathan tenta de novo uma massagem para eu
poder recuperar os movimentos da cabeça e dos ombros, e depois diz:
— Bom, isso vai ser engraçado. — Ele ri quando dou um soco nele, agarrando meu punho e o beijando. — Você é tão fofa quando me dá um soco com sua mãozinha em miniatura. Vai dar tudo certo. Eles vão gostar tanto de você que não vão deixá-la voltar para os Estados Unidos.
E, apesar de meu pescoço torto, ele tem razão.
Assim que coletamos nossa bagagem e nos encaminhamos para a área de desembarque, ouvimos um grito, e de repente os pais dele estão logo ali. A mãe, uma mulher branca, loura alta e bonita, me dá um abraço rápido, e o pai, um homem com traços asiáticos cuja aparência é aquela que imagino que Nathan terá daqui a uns trinta anos, me dá um daqueles abraços esquisitos que minha mãe e minhas tias fazem com frequência.
— Ah, é maravilhoso ter vocês dois aqui!! — exclama a mãe de Nathan.
— Olá, sra. Chan.
Ela faz um gesto de desdém.
— Me chame de Annie, nada dessa história de sra. Chan. E esse é o Chris. —
Ela aponta para o pai de Nathan, que está sorrindo.
— Tudo bem, filho? — pergunta Chris.
— Tudo bem, pai.
Hum. Afinal de contas, Nathan tem mesmo sotaque britânico.
Quando saímos do terminal, engulo em seco com o frio intenso e implacável, que atravessa meu moletom com capuz. Nathan pega um casaco que trouxe para mim, três tamanhos maior que o meu, mas deliciosamente quente e com o cheiro dele.
O trajeto do aeroporto até Oxford leva quase duas horas e, quando saímos da rodovia, estou exausta. Embora sejam muito simpáticos, Chris e Annie são tão diferentes de Ma e das minhas tias que estou sempre nervosa, desesperada para passar a melhor impressão. A conversa com eles é um pouco afetada, e fico
pensando se esse é o jeito dos ingleses, se todos usam palavras como “adorável” e
“encantador” em vez de gritar e se agitar como a minha família.
Isso apenas consolida a decisão que tomei de manter Nathan afastado da minha família o máximo possível. O que está se tornando cada vez mais difícil. Nathan quer conhecer Ma. E todas as minhas tias. É o ponto fraco de nossa relação, pois, fora isso, é perfeita. Fico preocupada de ele pensar que não o apresentei a elas porque tenho vergonha dele. Ele costuma perguntar por que não o levo para casa em algum fim de semana. Elas ficariam encantadas. Ficariam mesmo, se soubessem da existência dele.
Porém…
Não são nem mesmo apenas as gritantes diferenças entre nossas famílias que me impedem de levá-lo à minha casa. Durante toda a minha vida, segui todas as regras de Ma. Até escolhi ficar em Los Angeles por causa dela. Amo a minha mãe, mas também quero ter uma vida independente. Estremeço só de pensar nisso; parece muito uma traição. Mas eu quero. Sou uma pessoa horrível e egoísta, e sei que preciso enterrar essa parte de mim. Sei que, após a faculdade, terei que voltar para casa e ficar com Ma. Mas, por enquanto, quero Nathan todo para mim. Quero mantê-lo o mais longe possível dela e das minhas tias. Se isso é egoísmo, então sou mesmo egoísta, por enquanto, só até a nossa formatura. Não quero que ele seja engolido pela minha família barulhenta e dominadora. Não quero que ele veja como sou calada e pacata perto delas. Quero que ele veja o meu verdadeiro eu —
como quando estou na universidade, sendo eu mesma, livre, sarcástica e perspicaz.
Um desafio, e não uma sombra. Aí, certamente, entra a questão da maldição. E se levá-lo para casa significar que a maldição vai me atingir mais cedo do que atingiu minha mãe e minhas tias? Já tentei explicar meu raciocínio para mantê-lo afastado, mas nunca consigo colocar em palavras, e aí a conversa termina com Nathan magoado e decepcionado.
A residência dos pais dele merece estar em uma revista de decoração. Na
realidade, já foi matéria da Home & Garden, como Nathan me conta quando entramos na casa e fico boquiaberta.
Nathan me leva para seu quarto e me admiro de ver como tudo é arrumado e de bom gosto. É decorado em tons de azul-marinho, e posso imaginar que garoto organizado ele deve ter sido, porque tudo está em seu devido lugar. Penso no meu próprio quarto em San Gabriel e em como, só no fim de semana passado, encontrei uma caneca de café esquecida na qual estavam brotando cogumelos de verdade.
Não apenas fungo, mas cogumelos desenvolvidos, com caules, cabeças, tudo.
— Então, esta é a casa onde eu cresci e aquela é a minha família — diz Nathan, deixando nossas malas tombarem no chão acarpetado. — Você está bem?
Desculpe, sei que às vezes eles exageram.
— Você está brincando? Eles são incríveis. E sua casa é incrível.
Ou seja, nada parecida com a minha, mas não falo isso, porque, na verdade, estou envergonhada. Ma e minhas tias são acumuladoras. Elas dizem que é porque cresceram pobres. O banheiro, por exemplo, não tem menos que vinte e sete frascos de creme facial. Eu sei, eu contei quando tinha quinze anos, e a pilha não mudou nos últimos cinco. Estão todos quase vazios. Quando perguntei a Ma por que ela não jogava tudo fora, ela respondeu: “Talvez eu precise algum dia, quem sabe?”
Acho que uma pessoa que deixa cogumelos crescerem em canecas de café não tem moral para julgar.
Nathan coloca as mãos na minha cintura, seus dedos roçando por baixo da minha camisa. Estremeço quando ele toca minha pele.
— Ei, nada disso, não agora. Seus pais estão bem aqui embaixo — repreendo, dando um tapinha no braço dele.
Ele abre um sorriso e me beija.
— Não estou fazendo nada — diz, entre os beijos. — Só adoro tocar você aqui.
— Ele espalma as mãos nas minhas costas, e eu me derreto toda.
— Você está com a sua cara de tesão — digo.
— Como é a minha cara de tesão?
Eu me inclino para trás e tento imitar, e Nathan cai na gargalhada.
— Sério? Se essa é minha cara de tesão, por que é que você começou a transar comigo?
— Por pena. — Depois dou um gritinho quando ele me agarra e me joga por cima do ombro como se eu fosse um saco de batatas. — Não me faça peidar enquanto minha bunda está colada na sua cara! — Eu te desafio. — Nathan ri, mas então me coloca delicadamente na cama e me beija de novo, dessa vez lenta e profundamente. Quando para, estou sem fôlego e cheia de desejo. Ele pressiona a testa contra a minha. — Estou tão feliz por você estar aqui.
— Eu também.
Mordo o lábio ainda sorrindo, depois engulo em seco quando ele começa a chupar levemente o meu pescoço. Talvez seja porque éramos amigos antes de namorar. Seja o que for, Nathan parece saber exatamente o que eu quero e como eu quero. Cada toque é viciante, seu cheiro me deixa extasiada. É esquisito descobrir que não somos compatíveis apenas como amigos. Camisas voam, calças jeans são abaixadas, e logo estamos só de roupa íntima, e o toque de sua pele contra a minha é tão bom que todo o meu corpo enrubesce. Já fizemos isso umas cem vezes, mas, quando Nathan tira meu sutiã, ainda o faz com reverência, a respiração lenta e prazerosa à medida que meus seios ficam nus diante dele.
Como sempre, tenho que lutar contra o instinto de cobri-los, mas Nathan é doce demais, curvando-se para me beijar no queixo, no pescoço, no peito, antes que sua boca encontre meu mamilo e eu me perca. Esqueço tudo — a maldição, Ma, minhas tias, até o meu próprio nome. Enterro os dedos em seu cabelo, e só existimos Nathan e eu. Tudo de Nathan. A boca de Nathan, os dedos de Nathan, o corpo de Nathan. A primeira vez foi um pouco esquisita e durou só quatro minutos.
Mas agora já aprendemos um ritmo que expulsa todos os pensamentos e me
transforma em um ser cheio de desejo. E quando nossos olhos se encontram, nenhum dos dois desvia o olhar até o último gemido.
Mais tarde, deitada na cama ao lado dele, percebo uma coisa. Estamos juntos há quase dois anos, e ele é a primeira pessoa a quem conto tudo quando recebo de volta meus trabalhos da faculdade, quando nos passam uma tarefa insuportável, quando o líder do clube de fotografia fala alguma coisa idiota, o que acontece o tempo todo. E ele age da mesma forma, me contando cada detalhe interessante sobre suas aulas de economia, compartilhando seus sonhos mais malucos de ter um hotel chique no futuro, até mesmo me contando o peso que está levantando na academia. Acho que, nesse último caso, ele está se exibindo, mas não me importo.