Disque T para titias
Capítulo 31
O resto do que estou prestes a dizer morre na minha boca. Fico lá parada, congelada, enquanto a porta se fecha com um clique. Todos os meus planos, toda a coragem que eu reuni nos últimos minutos, tudo escorre para fora de mim, me deixando vazia.
Porque sentadas na cama estão Ma e todas as minhas tias, de mãos amarradas, e parada atrás delas com uma arma apontada para suas cabeças está Maureen.
— Ah, Meddy — diz ela, erguendo os braços de modo que a arma aponta agora direto para o meu rosto. — Agora podemos começar de verdade.
Acho que, afinal, alguém pode me impedir de fazer a coisa certa.
31
Na TV, vemos armas apontadas para pessoas o tempo todo. Tornou-se tão lugar-comum que nem pisco quando acontece na tela. Mas na vida real, ah, cara, na vida real é muito, mas muito diferente. Com o cano do revólver me encarando como um… Bem, não existe comparação, é a porra de uma arma apontada direto para o meu rosto, o que pode ser mais apavorante? Minhas pernas ficam moles, e, quando dou o primeiro passo, meus joelhos vacilam e cambaleio para a frente.
O quarto explode em gritos de “Não atire!”, “Aiya, não!”, “Tiro, não!”.
— Shh. Nossa, parem de surtar, por favor — manda Maureen para minhas tias e minha mãe.
— Desculpa! — exclamo enquanto me endireito. — Eu só… Estou tão assustada. Mal consigo andar. — Pensando melhor, mal consigo respirar.
Maureen revira os olhos.
— Não vou atirar. Só se sente naquela cadeira ali. Meu Deus. Vocês. Se acalmem. — Ela olha para o revólver, como se lembrasse que ele está ali. — Certo.
Tudo bem, vou apontar isso para outro lugar por enquanto. — Ela abaixa os braços de modo que o revólver aponta para as minhas pernas. Acho que isso é um pouqui inho melhor.
Praticamente rastejo para a cadeira e me afundo nela, agradecida. Meu corpo inteiro é basicamente uma poça. Agora sabemos: quando se trata de lutar ou fugir, eu não faço nenhum dos dois. Eu congelo como um hamster e depois derreto em uma poça trêmula e inútil.
— Sayang, você está bem? — pergunta Ma.
Consigo assentir de leve e assisto impotente enquanto Maureen se levanta e caminha na minha direção. Quando está a alguns passos de distância, ela diz:
— Nem pense em me atacar. — É um pensamento risível; meus membros pesam como chumbo. De algum jeito, consigo balançar a cabeça. Agora ela está bem na minha frente, e meu coração não bate mais direito. Está rápido demais. É
praticamente um zumbido. Maureen balança a arma para trás, e aperto os olhos instintivamente. Minhas tias inspiram com força e Ma grita:
— Por favor, não! — Ah, meu Deus, lá vem.
Mas nada vem.
Abro um olho. Maureen suspira.
— Droga, eu estava sonhando com esse momento há horas. Eu ia dar a porra de uma coronhada em você.
Estremeço. Novamente, é uma coisa que você vê na TV, mas agora que estou vivendo isso, a ideia de ser atingida por um revólver é nauseante.
— Mas não tenho coragem de fazer isso. — Maureen suspira novamente.
Um suspiro de alívio está a meio caminho de sair da minha boca quando Maureen subitamente corre para perto e coloca o rosto bem na frente do meu, como uma cobra dando bote. Ma e minhas tias gritam de novo. Dou um salto para trás e bato a parte de trás da cabeça no espelho da penteadeira.
— Aiya! Não a assuste! — grita uma das minhas tias.
— Ah, merda. Desculpa, não achei que você pularia desse jeito — diz Maureen.
— Você está bem?
Tonta, eu me sento novamente. Acho que faço um “sim” com a cabeça.
— Não vou fazer isso de novo. Foi meio que um movimento babaca da minha parte. Eu só queria assustá-la um pouco; não achei que você fosse reagir assim.
Nossa, garota.
— Você é tão malvada! — repreende Ma. — Não assuste a menina assim de
novo!
Para minha surpresa, Maureen parece arrependida.
— Desculpe, tia. Não vou fazer mais isso. — Ela se endireita e ajeita o cabelo, colocando-o todo para trás. — Tudo bem, vamos deixar uma coisa bem explícita: eu preciso que você faça uma coisa para mim.
Consigo emitir um único:
— O quê?
— Os presentes da cerimônia do chá, idiota. O que mais você achou que seria?
Devo ter parecido confusa, porque Maureen revira os olhos novamente e diz:
— Pegue. Para mim.
— Ah, certo. Como?
Maureen joga as mãos para cima.
— Sei lá, descubra! Engane eles, diga que você quer tirar fotos dos presentes.
Coloque uma arma na cabeça da noiva… Não, da noiva, não. Coloque uma arma na cabeça do noivo.
— Eu não tenho arma.
— Aqui. — Ela mexe no bolso de trás e joga uma coisa em cima de mim. Uma arma. O pensamento Merda, uma arma está sendo jogada em cima de mim mal tem tempo de atravessar minha mente antes que o revólver me atinja bem no peito.
Eu nem registro a dor. Estou me preparando para… algo. Não sei, estou meio convencida de que essa coisa vai disparar e matar alguém, quando a arma cai no chão. Solto um grito agudo. Minha família berra novamente. Maureen balança a cabeça.
— Cara, seus reflexos, francamente.
Agarro o revólver e me atrapalho com ele até apontá-lo para Maureen.
Ela franze o cenho.
— Tudo bem, eu não sou uma vilã de TV, então não vou estender mais isso. O
revólver não está carregado.
Engulo em seco. Olho para a arma. Nunca toquei em uma. Não sei nem como checar se está carregada.
— Aperta esse negócio — diz Maureen. — O botão, isso.
O tambor desliza para fora e, como ela disse, está vazio. Coloco de volta no lugar e pouso o revólver na cômoda.
— Eu não… Eu não consigo apontar uma arma para alguém. Nem mesmo descarregada. — Neste momento, percebo que estou secando as mãos na calça sem perceber.
— Você acaba se acostumando — comenta Maureen, tentando me convencer.
Ela balança a própria arma e a aponta para mim novamente. — Viu só? —
Estremeço e mexo a cabeça de forma que não fique diretamente na linha de fogo.
Maureen abaixa a arma novamente. — Tudo bem, é uma merda, mas é necessário, sabe?
— Não sei, não!! — exclamo. — Você não precisa fazer isso. Por que você está fazendo uma coisa dessas?
— Porque está tudo uma droga! — grita ela. — Não quero fazer nada disso.
Deu tudo errado, os presentes nem deveriam… Eles deveriam voltar para Jackie quando tudo se acalmasse. Eu só queria… não sei, eu queria… — A voz dela vacila, e ela faz uma pausa para conter as lágrimas. — Enfim, não importa agora, porque deu tudo errado e foi tudo por sua causa.
— Por que por minha causa? — Mas, quando falo, tudo fica nítido. Óbvio. FOI por minha causa. Porque matei o cúmplice dela.
— Porque você matou Ah Guan. Era para ele me ajudar com tudo isso, esconder os presentes e depois devolvê-los e tudo, e você o matou e… Meu Deus, Meddelin. Eu até posso ser ladra, mas você e suas tias são assassinas — diz ela em um tom de voz supercrítico.
— Por que você acha que nós o matamos? — indago com a voz mais inocente.
— Ouvi vocês falando sobre isso na lateral do hotel quando estava voltando.
Desculpem, tias, mas vocês falam muito alto, e eu falo indonésio muito bem. E
mandarim. Vocês sabem como é.
— Wah, ela fala indonésio e mandarim muito bem — avalia Ma, melancólica.
— Seus pais devem ficar muito orgulhosos. — Ela me encara de um jeito acusador.
Eu a ignoro.
— Você não estava sendo levada para fora da ilha?
Maureen dá de ombros.
— Sou faixa preta em caratê. — Com minha expressão de horror, ela suspira e diz: — Eu não fiz nada, nossa! Só nocauteei um pouco o cara e peguei a arma dele.
Isso ainda não é tão ruim quanto matar Ah Guan.
— Nós não… Não era a minha intenção! Ele ia me atacar. Entrei em pânico e, quando acordei, achei que ele estava morto. Por favor, deixe a minha família ir. Elas só estavam tentando me ajudar. Nós não sabíamos que ele ainda estava vivo quando colocamos o corpo no cooler — declaro.
Maureen tira um celular do bolso e digita na tela.
— Rá, consegui gravar sua confissão. Certo, é o seguinte: programei essa gravação para ser liberada em todas as minhas redes sociais em uma hora. Se você não me trouxer os presentes da cerimônia do chá, todo mundo que você conhece vai saber o que você e sua família fizeram. Se eu for para a cadeia ou qualquer outra coisa, a gravação vai ser liberada nas redes sociais. Traga para mim os presentes da cerimônia do chá, eu deleto a gravação e podemos seguir nossa vida.
— Wah, essa garota muito esperta — divaga a Segunda Tia, concordando com relutância.
— Iya, pinter ya — diz a Grande Tia. — Meddy, deveria aprender a ser mais como ela. Muito esperta. Deve fazer bom negócio.
Agora é minha vez de jogar as mãos para cima.
— Sério? Ela está nos chantageando com uma arma apontada para nós!
A Grande Tia faz um som de reprovação.
— Aduh, claro que não queremos que você aponte arma para pessoas. Mas, só falando, essa Maureen muito… qual é a palavra… tão cabeça de negócios…
— Má? Louca? — grito.
— Ei! — reclama Maureen.
Gesticulo freneticamente para ela.
— Você está apontando uma arma para mim e pedindo que eu roube sua melhor amiga. Será que você consegue ser ainda pior do que isso?
— Ela vê oportunidade, ela aproveita — diz a Segunda Tia. — Você deveria ser mais assim.
A Grande Tia assente, e as duas se entreolham por um momento, como se estivessem surpresas de descobrir que estão concordando uma com a outra para variar.
— Mas não aponte arma para pessoas, é grosseiro — diz Ma.
— Ah, bem, fico feliz que estabelecemos essa diferença, pelo menos. — Porra.
Minhas tias, vou te contar. Elas realmente sabem como me irritar. Nunca sou boa o suficiente para elas, nem mesmo comparada a uma ladra assassina de arma em punho.
Então percebo que a raiva que elas atiçaram dentro de mim reacendeu minhas forças. Estou a mil. Preciso encontrar um jeito de provar que elas estão erradas, de lhes mostrar que não sou essa chorona inútil que elas parecem pensar que sou.
— Se vocês gostam tanto dela, então talvez ela devesse ser a maldita fotógrafa da empresa. — Na hora em que falo isso, percebo como soa infantil e patético.
— Aiya, Meddy, não seja assim — repreende Ma. — Só damos conselho para seu próprio bem, precisa aprender a ser esperta como Maureen. Olhe, Maureen quer pegar presente de cerimônia do chá, então precisa pensar em todas as possibilidades.
Maureen dá um sorriso afetado.
— Levei um tempo para descobrir tudo.
— Seja boazinha, descubra como pegar presente de cerimônia do chá e salve todas nós, certo? — incentiva Ma.
— Sim, estamos todas contando com você — diz a Quarta Tia.
Balanço a cabeça sem acreditar.
— Não estou podendo com vocês agora. — Pego a arma descarregada da cômoda e a enfio no bolso de trás.
— Espere, isso está muito óbvio. Está marcando no seu bolso — alerta a Quarta Tia.
— Elas são muito mais volumosas do que parecem, não são? — diz Maureen, solidária.
— Não preciso da sua ajuda — resmungo quando Maureen se aproxima.
— Está bem, nossa. .
— Meddy, não seja tão grosseira — repreende Ma. — Maureen só tentando ajudar.
Preciso reunir toda a minha força de vontade para não gritar com elas. Pego minha bolsa de fotografia e tiro duas das minhas lentes, colocando-as com o maior cuidado na cômoda.
— Não toquem nisso.
— Sim, não toquem, são muito caras. Quebrou, pagou — avisa Ma.
— Não vou tocar — promete Maureen, levantando as mãos.
Enfio a arma na bolsa e olho para elas.