Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 31 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 27

— Não! — O instinto me domina e eu a empurro para o lado. Não posso deixar que ela descubra, não a linda e perfeita Jacqueline, não dessa maneira, não…

Ela tropeça para trás, os olhos arregalados, e, antes que eu perceba, tomba por cima do corredor e cai direto dentro da água.

 

27

Pela primeira vez na vida, não hesito. Nem mesmo uma fração de segundo para me perguntar: O que eu faço agora? No momento em que Jacqueline cai dentro da piscina, largo todo o meu equipamento de fotografia e mergulho atrás dela.

Estamos na parte mais funda — a piscina tem mais de dois metros de profundidade ali, e todo aquele tule, as camadas volumosas de renda, parecem leves e arejadas, mas na terra aquilo tudo pesa quase sete quilos. Embaixo d’água, o vestido deve parecer uma armadura de metal. Agarro os braços dela e a puxo para cima, mas é como tentar mover uma bigorna. Nem preciso pensar Ah, meu Deus, ela vai se afogar. Eu a carrego para cima, batendo as pernas freneticamente. De alguma maneira, nós duas emergimos na superfície. Jacqueline arfa de maneira desesperada, então minha força acaba, e nós duas afundamos outra vez. Meus pulmões estão gritando, meu peito está ardendo e meus músculos estão moles. Bato as pernas novamente, mas elas estão muito fracas.

De repente, bolhas espumam à nossa volta. Pés e pernas são lançados para baixo. Corpos mergulham. Mãos se estendem e nos agarram, envolvendo nossos braços com firmeza, e, antes que eu me dê conta, estou rompendo a superfície pela segunda vez. Sinto o ar entrando, livre, afiado e doloroso. Tento engolir tudo.

Tusso, talvez vomite um pouco, tento respirar novamente.

— Calma, calma, está tudo bem — diz uma voz baixa.

Meus olhos continuam rolando nas órbitas e sinto que posso desmaiar a qualquer momento, mas, ainda assim, de alguma forma, reconheço a voz e o braço

em torno do meu peito, me mantendo boiando.

— Nathan… — digo. Ou melhor, tento dizer. O nome dele sai como um balbucio engasgado. — Jacqueline. Salve a Jacqueline!

— Ela está bem, ela está bem. Os salva-vidas a resgataram.

De fato, alguns centímetros à minha direita, dois salva-vidas ajudam Jacqueline.

Eles jogaram uma boia em volta dela e estão se dirigindo à beira da piscina. Meu alívio dura pouco. Olho para o altar, onde cerca de metade da comitiva dos noivos ainda está lutando para se retirar e, como se o universo inteiro estivesse esperando que eu olhasse, é nesse momento que uma das madrinhas, com pressa para sair do palco, tropeça no corpo inerte de Ah Guan.

Ela cai com força; mesmo de onde estou dentro da água, consigo ouvir o barulho.

— Quase lá — comenta Nathan, tentando me tranquilizar, mas eu mal registro.

A madrinha se levanta com dificuldade, o rosto uma máscara de pavor. Quando fica de pé, ela chuta Ah Guan sem querer. Ele não se mexe, apenas fica deitado ali como um saco de batatas. A mulher abre a boca, horrorizada. Seu grito me perfura inteira, uma punhalada no meio de todo o caos e o pânico da multidão.

— Ele está morto!

Eles não a escutam de primeira. Pelo menos não a maior parte da multidão.

Estão todos muito concentrados no espetáculo que é Jacqueline. Celulares foram sacados, todos mirando a massa branca e felpuda que é arrastada até a beira da piscina por salva-vidas musculosos.

Mas então outra madrinha vai ajudar a primeira.

— Ele está morto! — grita a primeira novamente.

— O quê?

— Aquele cara! Ele está morto!

A segunda madrinha olha para Ah Guan. Estende a mão, o rosto incrédulo.

— Ei, cara. — Ela o cutuca. E então recua, o rosto dominado pelo pavor. Ela

não grita, mas, quando sua boca se mexe, posso ver claramente o que diz. — Merda.

Ele está morto.

***

A equipe de segurança do hotel está fazendo seu melhor para manter a paz, mas isso é quase impossível quando dois mil convidados privilegiados acabaram de descobrir um cadáver. Há gritos, suspiros dramáticos, desmaios ainda mais dramáticos e muitas solicitações para “falar com a pessoa responsável”. A pessoa responsável é Nathan, e no momento ele está dando ordens para isolar o altar e para que os convidados sejam acompanhados de volta aos seus quartos enquanto ele liga para a delegacia.

Alguém me envolveu com uma toalha, que eu rapidamente encharquei, já que minhas roupas estão ensopadas. A brisa do mar, antes quente, ficou fria. A tempestade está chegando, e o vento corta minhas roupas molhadas como uma faca. Estremeço. Eu deveria entrar, mas não consigo ir embora, não quando o corpo do homem que matei está bem no meio de toda a confusão e há milhares de pessoas à minha volta apontando para ele e gritando.

Nathan caminha por todo lado, dando ordens em seu walkie-talkie. Ele também está encharcado, mas não parece notar. Designa dois seguranças para impedir qualquer convidado acometido de uma mórbida curiosidade (o que vem a ser todo mundo) de se deslocar pelo corredor. Embora os convidados pareçam horrorizados, também parecem fascinados, a atenção totalmente voltada para o cadáver.

— Meddy!

Quase choro quando me viro e vejo Ma e minhas tias atravessando a multidão.

Enquanto as observo, a Grande Tia afasta um homem alto do caminho com cotoveladas e abre espaço para Ma e as outras tias. Meu peito infla de amor. Minha família mandona, barulhenta e sufocante está ali comigo. Tudo vai ficar… Bom, é

improvável que alguma coisa vá ficar bem, mas pelo menos não passarei por isso sozinha.

Ma finalmente se espreme para fora da multidão, e corro para recebê-la com um abraço. Ela nunca foi de abraços, mas não me importo, não agora. Só quero sentir o cheiro dela. Por um momento precioso e fugaz, sinto o cheiro de casa — roupas recém-lavadas e um toque de molho de peixe — e o inspiro, tirando força daquele aroma.

— Meddy, você está bem? Como? Aconteceu o quê? — Minhas tias tagarelam à nossa volta. — Aduh, por que corpo está ali?

— Não sei, eu… — Estou cercada de gente. — Vamos sair daqui primeiro. —

Juntas, abrimos caminho entre a multidão, minhas tias dando cotoveladas em peitos e pisando em pés sempre que precisam (e algumas vezes mesmo quando não precisam), até nos afastarmos da confusão, na lateral do prédio principal do resort.

Não há ninguém aqui. Acho que todos nas imediações seguiram o barulho e a energia da multidão para satisfazer sua curiosidade. Mesmo assim, todas nós olhamos em volta por um instante para nos certificar de que estamos completamente sozinhas.

— Tudo bem, então. — Inspiro profundamente. — Não tenho ideia de como Ah Guan acabou no altar. Alguma de vocês sabe como isso aconteceu?

Fico surpresa quando minhas tias fitam os próprios pés, sentindo-se culpadas por um instante. Então todas apontam uma para a outra, acusando-se mutuamente.

Quer dizer, acho que estou surpresa, mas também não muito.

— Tudo bem. — Outra inspiração profunda. — Vamos ver. — A Grande Tia olha de cara feia para a Segunda Tia, que está apontando um dedo acusatório para a irmã mais velha. Ma e a Quarta Tia estão apontando uma para a outra. Certo. Então nenhuma novidade. — Por que vocês acham que é culpa da outra? — Ergo as mãos. — Esperem, uma de cada vez. Grande Tia, a senhora primeiro.

— Por que ela primeiro? — pergunta a Segunda Tia.

Dou de ombros.

— Não sei, porque ela é a mais velha? Não é assim que são as regras? Enfim, não temos o dia todo, então… Grande Tia? O que aconteceu segundo o seu ponto de vista?

A Grande Tia fuzila a Segunda Tia com os olhos uma última vez antes de se voltar para mim. Seu rosto se suaviza, e ela começa a contar sua história em mandarim rápido.

— Voltei para a cozinha para procurar um uniforme de garçom para Ah Guan.

Há tantos garçons e outros tipos de copeiros por aí, então pensei que seria o disfarce perfeito. Foi uma boa ideia, não foi?

Levo um momento antes de perceber que ela está realmente esperando uma resposta, e concordo apressada.

— Sim, muito boa ideia.

— Então eu me certifiquei de ser extracautelosa. Fui até o vestiário e olhei se não tinha ninguém lá, aí procurei dentro dos armários um por um, e arrá! Encontrei um! Um uniforme de garçom! Peguei até os sapatos dele. Eu lembrei, sabe, que Ah Guan não estava calçado! Sou muito detalhista, você sabe, por causa do meu trabalho — acrescenta ela com óbvio orgulho.

Levo um momento para decodificar todas as palavras em mandarim e só então digo:

— Sim, a senhora é muito detalhista, Grande Tia. Então encontrou o uniforme do garçom… Mas por que Ah Guan não está usando?

— Exatamente! Por que não usando? Pergunte a ela! — exclama a Grande Tia, triunfante, trocando para o inglês e apontando para o rosto da Segunda Tia. Meu Deus, ela é boa. Agora que terminou de contar a sua parte, trocou para inglês para incitar a Segunda Tia a contar sua história em inglês também.

— Você demora tanto! — retruca a Segunda Tia, mordendo a isca. — E eu sei que você vai errar, esquecer uma coisa ou outra. Você já fez muita bagunça. Por que

eu devo ficar lá e esperar você cometer mais erros? Por quê? Não. Dessa vez, vou tomar controle. Preciso ir à suíte de noivo porque noivo e padrinhos querem arrumar cabelo, então, tudo bem, eu vou. Lá dentro, eu vejo, waduh, tantos deles.

Tantos! E todas as roupas de padrinho jogadas lá, e todos aqueles garotos bobos bebendo sem prestar atenção em mim, então eu penso: “Arrá! Este é disfarce perfeito. Tem tantos padrinhos aqui, quem vai notar mais um?” Então quando eles não olham, pego um conjunto e corro de volta para quarto.

— Se faz você se sentir melhor, sua mãe e eu ajudamos a colocar as roupas de padrinho nele — intromete-se a Quarta Tia.

Como isso poderia fazer eu me sentir melhor, mesmo que remotamente?

Ma deve ter lido minha expressão, porque diz:

— Estamos sempre escutando Grande Tia… — Ela se vira para a matriarca e acrescenta: — Da Jie, você sempre dá conselhos muito bons, mas dessa vez achamos que podemos talvez dar uma chance a Er Jie, já que ela chegou tão rápido com roupa de padrinho.

Bato na minha testa.

— Isso não tem nada a ver com escutar. O importante é avaliar quem tem o melhor plano!

A Grande Tia assente com uma expressão orgulhosa.

— Bem, na hora, parecia que vestir o morto como um padrinho era o melhor plano — argumenta a Quarta Tia.

— Eu só… quer dizer… Sem querer ofender, Segunda Tia, mas é uma péssima ideia! E o pobre padrinho de quem vocês roubaram o terno? Cadê ele?

— Provavelmente roncando, bêbado como um gambá, em algum armário por aí — diz a Quarta Tia, abanando a mão.

— Mas…

— Pare de interromper — pede a Quarta Tia. — Enfim, aí vestimos o morto com a roupa de padrinho e decidimos que, enquanto todos estivessem se

preparando para a cerimônia, tentaríamos nos livrar dele.

— Aí cada uma pega um braço e carregamos corpo para fora do quarto —

explica Ma. — Achamos que podemos levar para o jardim dos fundos, deixar corpo lá em banco, então vai demorar muito tempo até alguém encontrar. Ninguém vai ao jardim dos fundos, não é?

— Esse não é um plano bem pensado — reclamo.

— É muito bem pensado, sim! Como vão saber que temos alguma coisa a ver com corpo de padrinho? — grita Ma.

Abro e fecho a boca, mas nenhuma palavra sai.

— Mas, no meio do caminho para jardim, vocês todos vêm pelo corredor procurando presente de cerimônia do chá — diz a Segunda Tia. — Entramos em pânico! Waduh, e se nos veem com corpo? Então escondemos rápido atrás de carrinho de serviço de quarto.

Ah, meu Deus. Isso está ficando pior a cada segundo.

— Era um carrinho de serviço de quarto maravilhoso. Tinha todas aquelas garrafas de champanhe — diz a Quarta Tia. — O que me deu uma ideia. Corri de volta ao meu quarto e peguei uma garrafa de absinto…

— Por que a senhora trouxe uma garrafa de absinto? — Não consigo esconder o choque na voz.

— Sim, por que você trouxe garrafa de absinto? — pergunta Ma, o sorriso mais crítico do mundo dançando em seus lábios.

— Sou uma artista! — exclama a Quarta Tia. — Nenhuma de vocês entende a quantidade de energia que precisamos ter até para subir no palco. Depois, precisamos de alguma coisa para nos ajudar a descer. Vocês deveriam agradecer pela droga escolhida por mim ser só uma dose de absinto. A maioria dos artistas escolhe coca.

— Coca tem muito açúcar. — A Grande Tia torce o nariz. — Melhor beber Coca Zero, senão mais para frente você tem diabetes.

— Ela quis dizer cocaína… Não importa. Então o que aconteceu?

— Peguei o absinto e carregamos o corpo para a suíte do noivo. Só entrei no quarto e falei logo: “Prontos para se divertir?”, enquanto balançava uma garrafa. Os padrinhos ficaram assim: “UAU, uma mulher linda e álcool?”

— Acho que eles só notaram álcool — murmura Ma.

— Eles estavam assobiando!

— Por causa de álcool!

— Tudo bem, tudo bem — sussurro alto. — O que aconteceu depois?

— Bem, usei meus truques femininos para levar os rapazes até o lado mais distante da sala e, enquanto eles abriam a garrafa e serviam doses para todos, sua mãe e a Segunda Tia carregaram o corpo para dentro e colocaram em um dos quartos. Tudo correu tranquilamente, ENTÃO sua mãe teve uma daquelas ideias malucas…

— Maluca, não — bufa Ma. — Só quero ter certeza de que eles não estão, você sabe, muito alertas. Porque se eles estão muito alertas, se descobrem logo que tem corpo no quarto, então isso vai ser muito ruim.

— Ma, fale logo. O que a senhora fez?

— Eu só… Eu vejo muitas garrafas de champanhe na cozinha deles, então abro uma ou duas e coloco um pouco de… Você sabe.

Inspiro profundamente.

— Não sei. O que a senhora colocou nas bebidas?

— Só medicina chinesa, muito boa para saúde.

— É maconha — esclarece a Quarta Tia, triunfante.

— O QUÊ? — Meu Deus, não sei nem por onde começar. Talvez pelo fato de minha mãe ter drogado uma dúzia de padrinhos. Ou quem sabe pelo fato de que minha mãe carrega um estoque de maconha por aí. Mas que p…??

— Não, não, é medicina tradicional chinesa — bufa Ma.

Me poupem de outra rodada de rivalidade entre irmãs.

— Medicina tradicional chinesa não inclui maconha! — Quase grito, mas no último minuto me lembro de abaixar a voz.

— Não, receita original pede tipo de fungo, que chama dong chong xia cao —

admite Ma. — Mas wah, dong chong xia cao tão caro! Aí procurei muito por substituto, então alguém na internet me disse que existe erva muito boa, chamada Tetris Hydro Canned Oil. Muito boa para dor.

— Ela quis dizer tetra-hidrocanabinol — explica a Quarta Tia. Por um breve instante, eu me pergunto se ela memorizou o que THC quer dizer só para esse momento.

— THC? Ma, essa é a substância ativa da maconha! — Ah, meu Deus.

— Não, essa é diferente. Erva muito boa para fluxo sanguíneo, você sabe como inverno afeta muito meus ossos, muito mesmo, tanta dor, isso me ajuda. Tem um pouco de efeito colateral, me deixa um pouco tonta.

— Deixa você chapada — diz a Quarta Tia.

— Chapada não, só um pouco tonta.

Fecho os olhos.

— Então por causa de vocês duas, aqueles pobres padrinhos ficaram bêbados e chapados? Vocês podiam ter matado aqueles caras!

— Aduh, bata na madeira, não fale coisa que dá tanto azar — repreende a Segunda Tia, batendo em uma árvore por perto.

— Não falar uma coisa que dá tanto azar? — grito, dividida entre rir e chorar.

— Quer dizer, é um pouco tarde para isso, não acha?

— Tsc — desaprova Ma. — Não seja grosseira, Meddy. Não criei você assim.

Isso é surreal. Respiro fundo de novo.

— Certo, então vocês drogaram os padrinhos, e depois…

— E depois saímos, só isso — conclui Ma. — Quando saímos, todos eles ainda felizes, felizes, todos rindo.

— Mas como Ah Guan acabou no altar?

Minhas tias e minha mãe dão de ombros, mas não preciso que elas respondam.