Disque T para titias
Parte 2
— E você deve ser a fotógrafa? — pergunta ele.
Inspirando profundamente, em uma tentativa de me estabilizar, eu me viro para encará-lo. O homem que foi embora. O homem que levou consigo um pedaço imenso do meu coração, da minha alma.
Seu sorriso congela em seu rosto, e vejo anos de história voarem em sua mente quando digo com a voz rouca:
— Sou eu, sim. Oi, Nathan. Quanto tempo.
PARTE 2
GAROTA ENCONTRA RAPAZ
(em circunstâncias muito bizarras)
12
Os anos foram generosos com Nathan. Fica óbvio que ele continuou malhando; mesmo usando uma camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, posso ver seus bíceps marcando o tecido. Seu rosto perdeu a suavidade da adolescência, dando lugar a um maxilar anguloso que faz meus dentes trincarem porque, porra, ele é muito gostoso. Muito mais do que me lembro, e me lembro dele como o garoto mais lindo em que já pus os olhos na vida. Meu olhar desliza para suas mãos.
Nada de aliança. Uma parte de mim — uma parte muito pequena — dá um gritinho de triunfo.
Sua expressão é um mistério — surpreso, evidentemente, mas também exibe toda uma gama de outras emoções que não consigo decifrar. Será que está feliz de me ver? Horrorizado? Talvez as duas coisas?
— Meddy… — diz ele, e sua voz está mais grave, mas ainda dolorosamente familiar.
Por um momento sou distraída pela discussão meio sussurrada da minha família.
— Setan! — diz a Segunda Tia. Fantasma!
— Shh — repreende a Grande Tia.
— Itu setan! It ownernya, kan? — sibila a Segunda Tia.
— Está tudo bem, senhoras? — pergunta Nathan.
— O senhor é o dono deste hotel? — indaga Ma. — Sr. Jake, não é?
— Não, Ma, este é…
— Meu nome é Nathan. É muito bom finalmente conhecer todas vocês.
Merda, minha família vai ficar tipo “Finalmente? Como assim, finalmente?”.
— Só precisamos dar um pulo na cozinha bem rápido — intervenho. — Só precisamos… checar o bolo. É o centro da mesa, sabe. Temos que garantir que vai ficar perfeito. Certo, vejo você depois, tchau!
— Eu levo vocês até lá. — Ele me toca de leve nas costas, e apenas esse breve toque é suficiente para transmitir uma corrente elétrica que acelera até chegar aos meus pés.
— Você deve ter mil coisas para conferir…
— Tenho tempo para isso.
Com minha mãe e minhas tias nos seguindo e cochichando entre si, Nathan me faz atravessar uma porta com a placa “Funcionários”, e caminhamos pelo que parece ser um labirinto interminável de corredores.
— Como você tem passado? — pergunta ele, me espiando com o canto do olho.
— Bem! E você?
— Parece que o negócio da sua família realmente decolou. Aposto que você tira fotos incríveis. — Ele abre um sorriso indecifrável.
— É verdade. Para o seu grande dia, não dê chance ao azar. Dê chance às Chan!
— Dou uma risada fraca. Meu estômago não está lá muito bom.
Ele retribui com um largo sorriso.
— Você inventou esse slogan?
— É lógico. E você se saiu muito bem. Meu Deus, Nathan. Você é o dono desse lugar?
— Bom, um deles — responde ele, com um sorriso que faz aquela covinha aparecer. — São muitos investidores.
— Mas é você que administra?
— Isso.
O orgulho toma conta de mim. Esse sempre foi o sonho de Nathan, desde que o conheci. Ele sempre quis trabalhar no ramo de hotelaria, administrar seu próprio hotel, e definitivamente conseguiu isso com o Ayana Lucia.
— Nathan, uau…
— Com licença, com licença — diz Ma, se metendo entre nós. — Como vocês dois se conhecem? Oi, sou a mãe de Meddy. Pode me chamar de Tia Natasya, ok?
Nathan para de andar e aperta a mão de Ma, olhando direto em seus olhos, e diz:
— Olá, sra. Chan… quer dizer, tia. Sou Nathan. Meddy e eu éramos…
— Colegas de faculdade — completo rapidamente.
Todo mundo me encara. Está óbvio que nem minhas tias nem minha mãe estão acreditando.
— Colegas de faculdade — confirma Nathan, e depois me dá um sorriso forçado que consigo de fato ler. Um que transborda decepção.
Não é você, quero gritar. Sou eu, e minha mãe, e minhas tias, e o fato de que estamos indo conferir o cadáver de um cara que matei na noite passada, que era para ser VOCÊ, pelo visto. Mas não posso lhe dizer nada disso, então caminhamos o resto do trajeto em um silêncio doloroso.
Quase solto um suspiro de alívio quando finalmente atravessamos um conjunto de portas duplas e nos encontramos em uma cozinha agitada. Quase lá. O cooler deve estar por aqui, em algum lugar. Com Nathan como guia, passamos por chefs e assistentes ocupados, todos picando, tostando e misturando. Cada um deles ergue o olhar e cumprimenta Nathan à medida que avançamos, e ele retribui com um sorriso fácil aqui, um tapinha nas costas ali. Nathan tinha um carisma natural, mesmo durante a faculdade, mas agora tem ainda mais. É evidente que todo mundo na cozinha, desde o chef Miguel até o lavador de pratos Ming, o conhece e o adora.
— Esta é a sua estação de trabalho — diz ele para a Grande Tia quando nos aproximamos de uma bancada. Xiaoling já está lá com dezenas de flores de pasta
americana espalhadas à sua frente. Ela imediatamente se empertiga, sorrindo de maneira exagerada para a Grande Tia.
— Bom dia, chef — gorjeia ela, e logo arregala os olhos quando nos avista. —
Ah, oi, tias. Oi, Meddy. Não estava esperando ver vocês por aqui.
— Xiaoling — diz a Grande Tia, a voz tensa. — Onde estão os coolers?
— Ah! Bom, achei que eu podia começar cedo, fazer alguma coisa a mais, sabe.
Queria surpreender a senhora…
— Coolers! — dispara a Grande Tia, e todos levamos um susto, inclusive Nathan. A Grande Tia simplesmente provoca esse tipo de efeito nas pessoas.
— No frigorífico! — grita Xiaoling, correndo até a grande porta de aço. —
Tem algum problema? Fiz alguma coisa errada? Eu só queria ajudar…
— Não, você muito boa assistente — diz a Grande Tia, forçando um sorriso.
— Você fica aqui e termina as flores, certo? Bom trabalho.
Estou prestes a entrar na câmara frigorífica com minha família quando Nathan pega o meu braço.
— Podemos conversar? — pergunta.
— Agora não. Preciso ajudar com… ahn, os bolos.
Suas sobrancelhas grossas se unem, demonstrando sua confusão, e ele me fita por baixo de seus cílios espessos. Juro por Deus, esse homem e seus cílios.
— Você é a fotógrafa, não é? Por que precisa ajudar com os bolos?
— Para… as… fotos, é óbvio. — Sim, é isso. — Estou tirando fotos dos preparativos do evento. Sabe como é hoje em dia. As pessoas querem saber tudo sobre as festas de casamento, até os preparativos.
— Querem, é? Então tá… — Ele suspira. — Talvez mais tarde? Não sei como está a sua programação. Imagino que esteja bastante agitada, mas se pudéssemos…
Faço um esforço para manter o sorriso no rosto quando Ma surge na janela quadrada da porta de aço, me apressando para entrar lá.
— Tá bom! Certo, vamos conversar mais tarde.
— Ok.
— Ok. — Eu me viro para ir até a câmara, mas Nathan agarra minha mão, apertando-a.
— É bom ver você de novo, Meddy — diz ele suavemente, e a sinceridade em sua voz quase me faz explodir em lágrimas.
Quando ele dá meia-volta e se afasta, sou transportada na mesma hora a uma cena semelhante, alguns anos atrás, no dia em que terminamos: eu me forcei a permanecer imóvel e não fazer nada enquanto ele ia embora, de coração partido.
Todo tipo de emoções jorra de dentro de mim, e tenho que engolir o choro que ameaça brotar. Observo Nathan se afastar, lutando para manter a respiração sob controle, e então sigo para a câmara frigorífica.