Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 4 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 1

 

1

Presente

Inspiro profundamente antes de passar pelas portas vaivém. Há barulho em todo canto, uma cacofonia de mandarim e cantonês. Dou um passo para o lado e deixo minha mãe entrar antes de mim. Não se trata de educação — quer dizer, estou sendo gentil, mas também sensata. Minha mãe cresceu na Chinatown de Jacarta, um local apinhado de gente, por isso sabe abrir caminho na multidão. Qualquer multidão. Se eu fosse na frente, toda hora balbuciaria: “Com licença… Ah, desculpe, Ah Yi… Hum, será que eu podia só… Tenho uma reserva…”. Minha voz nunca seria ouvida em meio ao tumulto, e não conseguiríamos entrar no restaurante. Pelo menos não até passar a hora do rush do dim sum, por volta das duas da tarde.

O que acontece é que as pessoas se amontoam atrás da minha mãe à medida que ela atravessa a multidão de famílias à espera de suas mesas, e eu me perderia dela se não segurasse seu braço com força, como se eu ainda tivesse três anos de idade. Ela não se dá ao trabalho de parar na recepção, apenas passa direto como se fosse dona do lugar, com os olhos de águia esquadrinhando o enorme refeitório.

Como posso descrever o caos em que se transforma um restaurante de dim sum no coração do Vale de San Gabriel às onze horas? O espaço está repleto de mesas redondas, quase cem, cada uma ocupada por uma família, muitas delas com três ou quatro gerações presentes: há as Ah Mas grisalhas, de rosto enrugado, com bebês rechonchudos no colo. Carrinhos fumegantes são empurrados pelas garçonetes —

se bem que se você as chamar de “garçonetes”, elas nunca o atenderão. Tem que chamá-las de Ah Yi — Tia — e acenar freneticamente enquanto elas se deslocam pelo ambiente até se aproximarem de você. E, assim que elas param, os fregueses atacam como urubus e disputam as cestinhas de bambu, onde os dim sums são cozidos a vapor, fumegando no carrinho. As pessoas gritam, perguntando se elas têm siu mai, har gow ou lo mai gai, e as Ah Yis localizam os pratos solicitados no fundo dos carrinhos.

Meu mandarim é horrível; meu cantonês, nulo. Ma e minhas tias sempre tentam me ajudar a melhorar, conversando comigo em mandarim ou em indonésio, mas logo desistem e mudam para inglês porque só consigo entender cerca de metade do que falam. O conhecimento delas da língua inglesa é um pouco limitado, mas mil vezes melhor do que meu mandarim ou indonésio. Esse é outro motivo pelo qual acho ainda mais difícil pedir comida no dim sum. Com muita frequência, tudo o que é bom já acabou na hora em que a Ah Yi repara em mim e entende meu pedido. Então, o que sobra são as coisas sem graça, como os bolinhos vegetarianos massudos ou o bok choy cozido no vapor.

Mas hoje, ah, hoje é um ótimo dia. Consigo pegar duas porções de har gow, algo que a Grande Tia certamente vai apreciar, e um lop cheung bao — um pãozinho com salsicha chinês. Quase faz valer a pena todo o suplício de comparecer ao dim sum semanal.

A Grande Tia faz um gesto de aprovação quando a Ah Yi coloca as cestas de bambu no centro de nossa mesa, e sinto uma necessidade quase irresistível de bater no peito e me gabar. Eu consegui esses bolinhos de camarão! Eu!

— Coma mais, Meddy. Você tem que manter suas forças para amanhã — diz a Grande Tia em mandarim, jogando dois pedaços de costelinha de porco refogada no meu prato enquanto cuidadosamente distribuo os bolinhos e sirvo chá.

A Segunda Tia parte os char siu baos em dois e coloca cada metade no prato de cada pessoa. Como a mesa é redonda, os presentes conseguem alcançar todas as

travessas, mas uma refeição familiar chinesa só é tradicional quando todos servem comida para os outros, um gesto de amor e respeito, e todos temos que fazer isso chamando o máximo de atenção possível. Qual é o sentido de dar à Grande Tia o maior siu mai se ninguém vai reparar?

— Obrigada, Grande Tia — agradeço respeitosamente, deixando um gordo har gow em seu prato.

Sempre respondo em inglês, seja lá qual for a língua que minha família estiver falando, porque a Segunda Tia diz que escutar meu mandarim ou indonésio macarrônicos faz sua pressão subir.

— Coma mais também. Estamos todas contando com a senhora amanhã. E a senhora também, Segunda Tia.

O segundo maior har gow vai para o prato dela. O terceiro vai para a Quarta Tia e o último para Ma. Isso mostra que minha mãe me educou bem: devemos cuidar dos outros antes de nós mesmos.

Com a mão cheia de joias, a Grande Tia acena para mim em desdém.

— Todas contamos umas com as outras. — Cabeças com grandes e esmerados penteados assentem. A Quarta Tia tem a maior cabeleira, algo sobre o qual Ma sempre reclama quando estamos a sós.

— Sempre quer ter o cetro das atenções — disse minha mãe uma vez, o que foi hilário.

Perguntei onde tinha ouvido aquela expressão, e ela alegou que foi da nossa vizinha, Tia Liying, uma mentira deslavada. Mas morei vinte e seis anos da minha vida com minha mãe e sei que não dá para discutir com ela. Apenas falei que o certo era “ser o centro das atenções”, e não “ter o cetro das atenções”, e ela assentiu e resmungou “centro, como cem”, antes de voltar a picar cebolinha.

— Ok — diz a Grande Tia, batendo palmas uma vez. Todo mundo se endireita na cadeira. A Grande Tia é dez anos mais velha que a Segunda Tia, e basicamente criou as irmãs enquanto Nainai ia para o trabalho. — Cabelo e maquiagem?

A Segunda Tia assente, pegando o celular e colocando os óculos. Ela usa o dedo indicador para teclar e murmura:

— Apa ya, o nome daquele aplicativo que Meddy me faz usar para ver penteados. Pin alguma coisa.

— Pinterest — arrisco dizer. — Posso ajudar a senhora a encontrar…

A Grande Tia me lança um olhar sério, e eu me retraio.

— Não, Meddy. Você não tem que ajudar. Se a Segunda Tia não conseguir encontrar o aplicativo amanhã quando estiver com a noiva, vai ser um constrangimento para todas nós. Temos que mostrar que somos profissionais —

argumenta ela. Ou pelo menos acho que é o que ela diz. Ela fala tão rápido que é difícil acompanhar, mas definitivamente captei as palavras em mandarim para “vai ser um constrangimento”, uma de suas expressões favoritas.

A Segunda Tia franze os lábios, o que faz sua bochecha esquerda estremecer um pouco. Assim como a Quarta Tia vive irritando Ma, existe uma baita tensão entre a Segunda Tia e a Grande Tia. Não me pergunte por quê. Talvez tenha a ver com o fato de serem as mais velhas. Talvez tenha acontecido algo em seus passados complicados. A família da minha mãe passou por muitos momentos dramáticos, principalmente quando moravam em Jacarta. Há anos escuto trechos dessas histórias aqui e ali, quase sempre contadas por Ma.

— Rá! — gaba-se a Segunda Tia, brandindo seu celular com o Pinterest aberto como se fosse a Excalibur. — Consegui. Esse é o estilo que a noiva escolheu.

Pratiquei no cabelo de Meddy e ficou maravilhoso. — Ela se volta para mim e passa a falar inglês: — Meddy, tem foto do seu penteado?

— Tenho — respondo, rapidamente pegando meu celular. Localizo a imagem, e a Segunda Tia a compara com a do telefone dela, exibindo as duas fotos para todo mundo.

— Uau — exclama minha mãe. — Ficou tão parecido com o da modelo! Muito bom, Er Jie.

A Segunda Tia lhe dá um sorriso cálido.

A Quarta Tia assente e responde em inglês:

— Sim, são quase idênticos. Impressionante.

Seu inglês é o melhor dentre elas, outra coisa que Ma nunca vai perdoar, mesmo que ainda fale melhor do que as irmãs mais velhas. Ma insiste que a Quarta Tia tem uma inclinação para usar palavras longas (isto é, qualquer coisa com mais de duas sílabas) só para provocá-la. Acho que Ma talvez tenha alguma razão aqui, mas é uma das muitas verdades que nunca vamos descobrir.

— Cachos não combinam bem com o cabelo asiático — comenta a Grande Tia.

O fato de estar falando inglês significa que a crítica é meio que dirigida a mim.

Minhas entranhas se contorcem de culpa, mesmo que eu definitivamente não possa ser responsabilizada.

— Por que você escolheu penteado louro?

A Segunda Tia fecha a cara.

— Não escolhi. A noiva escolheu. A cliente sempre tem razão, lembra? — Ela enfia a faca no seu har gow e dá uma mordida com raiva.

— Humm. — A Grande Tia solta um suspiro. — Devia ter dito a ela que o penteado fica diferente no cabelo asiático. Mas — acrescenta, quando a Segunda Tia parece estar prestes a explodir — não tem importância. Agora é tarde demais.

Vamos seguir na frente…

— Em — intervém a Quarta Tia.

— Quê? — pergunta a Grande Tia.

— Em. É “seguir em frente”, não “seguir na frente”. Seguir na frente é quando todo mundo está atrás de você.

— Vamos seguir em frente. Tudo bem. — A Grande Tia sorri para a Quarta Tia, e a Quarta Tia abre um sorriso tão largo que parece criança de novo. Ma diz que a Quarta Tia é a favorita da Grande Tia porque é a caçula da família, e era um

bebê tão carente que roubou o coração da irmã mais velha.

— Ela o arrebatou direitinho — resmungou Ma muitas vezes.

Não tive coragem de lhe perguntar se, por ser a segunda mais nova, ela fora a favorita da Grande Tia até o nascimento da Quarta Tia.

— Flores? — indaga a Grande Tia em mandarim mais uma vez. Relaxo um pouco.

Ma se empertiga.

— Tudo providenciado. Lírios, rosas, peônias. Ah Guan vai levar tudo para a ilha de manhã.

A ilha a que ela se refere é Santa Lucia, uma grande ilha particular na costa do sul da Califórnia que ostenta praias douradas limpíssimas, penhascos impressionantes e, desde o mês passado, um dos resorts mais luxuosos e exclusivos do mundo: o Ayana Lucia. Amanhã tem início a espetacular festa de casamento, que vai durar o fim de semana inteiro, de Jacqueline Wijaya, filha do maior empresário da indústria têxtil da Indonésia, e — não estou brincando — Tom Cruise.

Quer dizer, Sutopo. Sim, o nome verdadeiro do noivo é Tom Cruise Sutopo.

Eu verifiquei. É exatamente o tipo de coisa que os sino-indonésios adoram fazer: dar a seus filhos nomes de pessoas famosas e/ou marcas conhecidas (tenho um primo chamado Gucci, que viajou para bem longe assim que teve condições para tanto), ou com a grafia diferente de um nome ocidental popular. Um exemplo claro: Meddelin. Meus pais estavam pensando em Madeleine. Na infância, meus primos me chamavam de Meddelin Metida, e é por isso que jamais, em tempo algum, me meto nos problemas dos outros, jamais. Bom, por causa disso e porque minha mãe e minhas tias já se metem o suficiente nos problemas da família toda.

Seja como for, os pais de Tom Cruise Sutopo são donos de… alguma coisa.

Alguma coisa imensa. Plantações de dendê, minas de carvão, esse tipo de coisa.

Assim, o casamento entre duas famílias bilionárias em um resort recém-inaugurado

explica por que a Grande Tia e todas nós estamos compreensivelmente nervosas.

Como conseguimos conquistar esse pessoal como clientes, não faço ideia. Quer dizer, faço, sim. O marido da Quarta Tia é — vou deixar bem claro — irmão do sogro da prima de Jacqueline. Então, somos praticamente parentes. Na cultura sino-indonésia é assim: de uma forma ou de outra, todo mundo é aparentado com todo mundo, e os negócios acontecem porque o cunhado ou o sogro de uma pessoa conhece o primo do amigo de outra pessoa.

Achei que o slogan absurdamente brega da nossa empresa — Para o seu grande dia, não dê chance ao azar. Dê chance às Chans! —, que enche a Grande Tia de tanto orgulho, afugentaria os noivos, mas na verdade eles acharam engraçado. Disseram que ficaram ainda mais confiantes de que queriam nos contratar para o seu grande dia.

Ma continua tagarelando sobre como conseguiu as flores mais raras.

— Os arranjos vão parecer… Como se diz em inglês, Meddy? Requentados?

— Você quer dizer “requintados”? — sugere a Quarta Tia, e Ma lança para a irmã o olhar de soslaio mais fulminante da história de todos os olhares de soslaio.

— Muito bem — interveio logo a Grande Tia, rompendo os olhares radioativos entre minha mãe e a Quarta Tia. — Última coisa: as músicas, está tudo certo?

A expressão da Quarta Tia muda do olhar gélido para um sorriso de satisfação.

— É lógico, a banda e eu estamos praticando noite e dia. As pessoas não param de ir ao estúdio para me ouvir cantar, sabe.

Existem duas versões para a história da vida da Quarta Tia. A primeira tem a ver com a criança prodígio que ela foi, dotada de uma voz que os jornais descreviam como “angelical” e “um tesouro nacional”. Ela estava a caminho de alcançar a fama, mas decidiu deixar tudo para trás quando as irmãs resolveram se mudar para a Califórnia. Na segunda versão, ela era uma cantora mediana que espertamente convenceu a família inteira a abandonar a cidade onde haviam criado raízes e a se mudar para a Califórnia, de modo que ela pudesse perseguir seu sonho impossível

de conquistar a fama em Hol ywood. A primeira versão é da Quarta Tia; a segunda, de Ma.

— E o bolo? — pergunta a Segunda Tia, mirando a Grande Tia com o canto do olho. — Nosso centro de mesa precisa ser perfeito, ao contrário daquele negócio triste que você preparou para o casamento da filha de Mochtar Halim. — Ela solta um suspiro afetado. — Todo mundo ficou imoral. — Humm, a frase pode não estar correta. Analiso as palavras lentamente na cabeça. Acho que ela quer dizer que a Grande Tia nos deixou desmoralizadas. Preciso aprimorar meu mandarim.

Bom, a verdade é que foi golpe baixo Segunda Tia. O casamento de Cheriss Halim é o seu assunto predileto, porque Cheriss pediu um bolo diabolicamente complicado: uma torre de cinco andares de cabeça para baixo, com a camada de baixo sendo a menor e a de cima a maior. A Grande Tia, com anos de experiência como chef confeiteira do Ritz-Carlton Jacarta, tinha certeza de que era capaz de realizar o desejo. Porém, algo deu errado. Não sei, talvez ela não tivesse construído uma estrutura sólida ou talvez fosse uma tarefa impossível para um casamento na praia em pleno verão do sul da Califórnia. Seja lá qual tenha sido o motivo, em meio aos suspiros horrorizados dos convidados, a imensa torre arriou em câmera lenta antes de desabar em cima de uma das daminhas. Foi a única vez que viralizamos, e desde então a Segunda Tia não deixa a Grande Tia esquecer o incidente.

As narinas da Grande Tia inflam.

— Só estou aqui para comprar molho de soja.

Bem, isso definitivamente não pode estar correto. Eu me aproximo de Ma e sussurro:

— Por que a Grande Tia está falando de comprar molho de soja?

— Tsc — faz minha mãe. — É por isso que sempre digo para prestar atenção nas aulas de mandarim! A Grande Tia está dizendo para a Segunda Tia cuidar da própria vida.

— Obrigada por ser tããão zelosa, Meimei — diz a Grande Tia.

Nossa, ela agora está bem irritada. Só se refere às outras como Meimei, irmãzinha, quando quer salientar que é a mais velha.

— É óbvio que está tudo pronto. O bolo vai ficar excelente. Por favor, não se preocupe comigo. — Ela dirige à Segunda Tia um sorriso que só posso descrever como “tão doce que faz mal” e depois volta sua atenção para mim.

Eu me remexo na cadeira. A Grande Tia faz jus ao seu título e é maior do que todas as irmãs. Acho que isso é o resultado de vinte anos como chef confeiteira. Ela faz bom uso de seu porte, que a torna ainda mais majestosa, mais convincente. Há um motivo para ela ser a pessoa que se reúne com os clientes em potencial. Detesto pensar em decepcionar Ma, mas a ideia de decepcionar a Grande Tia na verdade me tira o sono. Talvez seja o efeito de passar a maior parte da minha vida na mesma casa que minha mãe e as irmãs dela. Ma e eu acabamos nos mudando para nossa própria casa apenas um ano atrás, depois que o negócio da família começou a dar lucro de forma consistente. Ainda moramos no mesmo bairro, a apenas dez minutos a pé umas das outras, e sinto o peso da expectativa delas, como se eu tivesse quatro mães e todos os sonhos e esperanças estivessem sobre os meus ombros. Sou movida a uma mistura de cafeína e culpa familiar.

A Grande Tia se volta para me encarar, e instintivamente ajeito minha postura.

Talvez ela perceba meu nervosismo sobre o evento de amanhã, porque abre um sorriso de incentivo e passa a falar inglês por minha causa.

— Meddy, tudo certo com a câmera, ya? Pronta para o grande dia?

Assinto. Ontem verifiquei duas vezes minha câmera, minha câmera reserva e todas as minhas cinco lentes. Elas foram enviadas para manutenção e limpeza semanas atrás, como um dos preparativos para esse casamento. Detesto ser a responsável por registrar o árduo trabalho da minha família: os bolos de vários andares da Grande Tia, os penteados complicados e a maquiagem impecável da Segunda Tia, os lindos arranjos de flores de Ma e os dinâmicos espetáculos da Quarta Tia . Em cada casamento, tento capturar tudo e, em cada um deles, perco

alguma coisa. No último, esqueci de tirar fotos da Quarta Tia no seu “lado bom, que me faz parecer ter vinte anos de novo” e, no evento anterior, deixei de fotografar o centro da mesa 17, que, ao que tudo indica, era significativamente diferente de todos os outros centros de mesa.

— Meu equipamento está em perfeitas condições — respondo, tentando tranquilizá-la —, e memorizei a lista de fotos que preciso tirar para nossas redes sociais.

— Que boa menina, que boa filha, Meddy — elogia a Grande Tia, e forço um sorriso.

Ah, piedade filial, a base da família asiática. Desde que me entendo por gente, me ensinaram a colocar os mais velhos (ou seja, minha mãe e minhas tias) acima de qualquer coisa. É por isso que, dos sete filhos da minha geração, eu sou a única envolvida nos negócios da família, mesmo querendo desesperadamente sair.

Verdade seja dita, eu finjo amar tudo isso — a confusão, a megaprodução e tudo o mais —, mas o trabalho vem lentamente erodindo aquilo que amo na fotografia. Já faz alguns meses que penso em deixar o ramo de casamentos, em voltar ao que realmente gosto: trabalhar no meu ritmo e experimentar a luz, as lentes e os ângulos diferentes, em vez de disparar várias fotos do mesmo material em tempo recorde.

Não que algum dia eu possa revelar esse sentimento para a minha família.

— Sim, você é uma boa menina, uma boa filha — reafirma Ma em indonésio.

Ela e minhas tias são fluentes tanto em mandarim quanto em indonésio e vivem trocando de um para o outro. Ma exibe um sorriso largo demais. Opa. . por que ela está sorrindo? — É por isso que temos uma surpresa para você.

Agora todas as minhas tias sorriem maliciosamente para mim. Eu me encolho no assento, o siu mai na minha boca virando pedra.

— O que está acontecendo? — pergunto, minha voz em um tom ainda mais baixo do que costuma ser quando estou com a família.

— Encontrei o marido perfeito para você! — revela minha mãe.

Ao mesmo tempo, todas as minhas tias exclamam:

— Surpresa!

Começo a pestanejar, perplexa.

— Desculpe, a senhora encontrou o quê?

— O marido perfeito! — repete Ma.

Olho por cima do ombro, esperando que algum rapaz que Ma provavelmente emboscou no mercado apareça atrás de mim.

— Aiya, ele não está aqui, bobinha — avisa ela.

— Ele está amarrado dentro do porta-malas do seu carro?

— Sem brincadeiras, Meddy. — A Grande Tia faz um ruído de desaprovação.

— Sua mãe está fazendo tudo isso para que você possa ter uma vida confortável.

Assinto, contrita. Sou adulta, mas uma mera reprimenda da Grande Tia é o que basta para que eu me sinta com três anos de novo.

— Desculpe, Ma. Mas eu não…

— Não venha com nenhum “mas” — interrompe. — Por que é tão difícil levar você para um encontro? Tentei marcar um entre você e o filho do Tio Awai, mas, não, você não deixou. Tentei marcar com o meu fornecedor de lírios, Ah Guan, que é muito atraente, sabe, mas você também recusou. Nem quis conhecer o rapaz.

— Meddy provavelmente está cautelosa porque a última vez que você tentou alguma coisa, com o filho de Wang Zhixiang, ele acabou se mostrando um… você sabe — comenta a Quarta Tia.

Minha mãe abanou a mão, irritada.

— Por que você vive lembrando essa história do filho do Zhixiang? Ele no fim das contas era um maníaco, e daí? Como é que eu ia saber?

— Cleptomaníaco — murmuro.

No momento em que nosso encontro terminou, ele já tinha pegado meu nécessaire de maquiagem da bolsa e, não sei como, um dos meus sapatos. Quer dizer, o rapaz é um babaca, mas merece algum crédito. Ou roubar você.

— Bom, sayangku — diz Ma, usando o termo afetuoso em indonésio que ela guarda para ocasiões muito especiais, como no dia em que me formei na UCLA —, esse rapaz é muito bom. Estou dizendo, não tem melhor. Tão bonito, tão gentil e tão inteligente. E…

Ah, meu Deus, aí vem coisa. O golpe de misericórdia. O que vai ser dessa vez?

Com a sorte que eu tenho, ele provavelmente é um primo em segundo grau ou coisa parecida.

— Ele é o dono do hotel! — grita a Quarta Tia.

Minha mãe a fuzila com o olhar.

— Eu estava prestes a contar. Você roubou a minha fala!

— Você demorou muito — diz a Quarta Tia.

Todas se voltam para mim, sorrindo, cheias de expectativa.

— Hum. — Abaixo meus kuàizi. — Quer dizer… é para eu ficar feliz com a notícia? Me parece uma responsabilidade colossal. Será que preciso atualizar vocês sobre como sou péssima em encontros? Qual parte disso tudo é exatamente uma boa ideia?

— Ah — murmura Ma, sorrindo convencida. — Eu sei que você não se sai muito bem nos encontros…

— É porque você é uma moça muito boa — intervém a Grande Tia, leal.

A Segunda Tia assente.

— Isso, você não é uma vagabunda, é por isso que seus encontros são tão ruins.

— Tia! Podemos não ser preconceituosas com as mulheres, por favor?

Ela dá de ombros, nem um pouco arrependida.

— Mesmo assim — diz minha mãe —, não importa. Tudo bem que você é um horror nos seus encontros amorosos, porque esse rapaz, ah, ele está tão apaixonado por você, Meddy. Ele conhece todos os seus defeitos e sabe que você é esquisita pessoalmente e tudo, mas já falou que isso o faz gostar ainda mais de você!

— Ei, ei. — Ergo as mãos. — Espere aí. Tudo bem. — Inspiro profundamente.

— Tem muita informação aqui para processar. Podemos, por favor, voltar para o inglês? Porque tenho certeza de que estou entendendo tudo errado. Em primeiro lugar, ele conhece todos os meus defeitos? Mas que p…? Como assim, Ma? Como é que ele sabe alguma coisa sobre mim?

— Ela encontrou o rapaz na internet! — grita a Quarta Tia, triunfante. Imagino que ela passou esse tempo todo morrendo de vontade de contar o segredo, porque seu rosto inteiro se ilumina. — Sua mãe entrou em um site de relacionamento e está conversando com ele há semanas!

— O quê? — Ah, meu Deus, então não me perdi na tradução. Ela realmente fez isso e marcou um encontro com um cara aleatório. — Ma, isso é verdade?

— É! Ótima ideia, não? Dessa forma, você e ele já se conhecem antes mesmo do encontro, que é hoje à noite.

— Hoje à noite? — pergunto, minha voz um chiado. — Mas eu não conheço esse cara! Não sei nada sobre ele, além do fato de que ele está batendo papo com a minha mãe há semanas. Quer dizer, pelo amor de Deus, isso é uma puta confusão, Ma.

— É por isso que estou contando agora — retruca ela, totalmente imperturbável. Enquanto isso, minhas bochechas ardem tanto que quase derretem.

— Ah, ele é um rapaz tão bom, que respeita tanto os mais velhos.

— E como a senhora sabe? — Percebo que estou quase gritando quando as cabeças da mesa vizinha se viram para nós. Falar alto a ponto de atrair a atenção em um restaurante de dim sum durante o horário de pico é uma tarefa quase impossível, o que mostra bem o nível da minha fúria.

— Ele comprou uma casa para os pais! Uma mansão em San Marino, localização excelente.

Minhas três tias assentem solenemente. San Marino é basicamente o Santo Graal da minha família — perto o suficiente do Vale de San Gabriel para aqueles bubble tea de Taiwan no fim de noite, longe o suficiente para ser cercado de não

imigrantes. Ma e as irmãs estão de olho em San Marino desde que se mudaram para a Califórnia.

— E ele adora cozinhar — continua Ma, lançando um olhar afiado na minha direção —, o que é muito bom, porque já te ensinei mil vezes, e você não consegue aprender. Como pode ser boa esposa se não sabe nem fazer arroz?

— Não mude de assunto — repreende a Quarta Tia.

Para variar, minha mãe escuta a irmã.

— Ele tem dois cachorros. Você sempre quis um cachorro. Agora pode ter dois!

Eles têm o pelo tão bem aparado. Olhe! — Ela exibe uma foto de dois golden retrievers brilhantes tão dourados e tão bem tosados que parecem ser modelos de revista de animais de estimação. — Eu digo para ele “Sou fotógrafa de casamento”, e ele diz “Uau, impressionante!” e eu digo…

— Espere aí. — Preciso de um segundo para compreender as palavras dela. —

A senhora simplesmente… Ma. A senhora… entrou em um site de relacionamentos como se fosse eu? — Permaneço boquiaberta, sem respirar, piscar ou qualquer coisa.

— É óbvio que sim! — responde a Segunda Tia. — Como é que ela ia encontrar o rapaz? Se ela diz a idade verdadeira, cinquenta e seis…

— Cinquenta e três — corrige Ma.

A Quarta Tia bufa.

— Se ela fala a idade verdadeira, então vai combinar com homens da mesma idade — explica a Segunda Tia bem devagar, assentindo e sorrindo de modo encorajador. — Viu? Por isso ela fingiu ser você.

Nem consigo acreditar. O que é a minha vida? Enquanto minha mente tenta desesperadamente entender a situação, Ma me mostra mais algumas mensagens profundas e comoventes que Jake, o dono do hotel, me enviou. Ele viu minhas fotos e aparentemente me acha “deslumbrante”.

— A senhora pelo menos tem alguma foto dele?

— Eu já pedi, mas acho que ele é um pouco tímido — responde ela.

— Você percebe que isso significa que ele é um completo trol ? — comenta a Quarta Tia.

Ma abana a mão, desconsiderando o comentário.

— Acho que ele é tão bonito que não quer se exibir, ele quer ter certeza de que você vai se apaixonar por ele, e não pela beleza.

— Outra coisa: ele é de Taiwan, então fala mandarim muito bem — argumenta a Segunda Tia. — Quem sabe você consegue melhorar seu mandarim com ele?

Sempre que você fala mandarim, nossa, me dá dor de cabeça.

— Desculpa — balbucio. Estou tão perturbada com a enxurrada de informações que não sei como reagir. — Preciso… Posso ver essas mensagens do chat?

— Aduh, não há mais tempo — diz Ma. — Confie em mim, está bem? Esse rapaz é muito bom. Muito bom. Se você não for, vai perder uma ótima oportunidade.

E, para meu horror, apesar da monstruosidade disso tudo, parte de mim está sendo conquistada, o que nitidamente significa que perdi a merda do meu juízo.

Mas a última vez que saí com um cara foi…

No verão passado? Outono passado? Meu Deus. Será que faz tanto tempo assim? E nem vou mencionar a última vez que fiz sexo. Como minha melhor amiga Selena gosta de me lembrar: “Menina, você precisa dar umazinha antes que essa coisa feche para sempre.” Olho para o meu colo, para a “coisa”. Por que Selena não diz simplesmente “vagina”? Você não vai fechar para sempre, vai?

Que bom, comecei a conversar com a minha vagina. Talvez Ma tenha razão.

Preciso desesperadamente de um encontro. E daí que foi marcado da maneira mais esquisita e bizarra possível?

— Você tem que ir, ya — fala minha mãe, sem saber que em silêncio já convenci a mim mesma, e à minha vagina, a concordar.

— Não pode cancelar — diz a Grande Tia. — Se você cancelar no último minuto, é tão ofensivo, sabe.

— Tão ofensivo — enfatiza a Segunda Tia. — Mas sabemos que você não vai fazer isso. Você é uma moça educada.

— Você iria pôr em risco o fim de semana do casamento — complementa a Quarta Tia. — Você tem que ir e mostrar essa pessoa doce e adorável que você é.

Ele vai se apaixonar, não tenho dúvidas.