Disque T para titias
Capítulo 34
34
— Deixa eu ver se entendi — diz o delegado McConnel . — O cara morreu porque… Espere, por quê?
Preciso reunir toda a minha força de vontade para não saltar da cadeira e esganar o cara. Por sorte, estou cercada da minha família, além de Jacqueline e Maureen. Jacqueline aperta o meu ombro e dá um sorriso de incentivo. Eu posso fazer isso. Posso inventar uma história para enganar esse homem e nos deixar fora disso.
— Na verdade, é bem simples, delegado. Ah Guan, o falecido, queria roubar os presentes da cerimônia do chá…
— São os presentes que a sua gente recebe antes do casamento?
Estremeço com as palavras “sua gente”, mas sigo em frente.
— Isso. Na tradição chinesa, normalmente fazemos uma cerimônia do chá, em que os parentes dos noivos dão dinheiro e joias e por aí vai. Depois da cerimônia do chá, Maureen e eu levamos os presentes de volta para a suíte da noiva.
— Espere, você não é a advogada? — pergunta o delegado McConnel . Meu Deus, ele só percebeu isso agora? Eu vesti roupas secas, mas ainda assim. Como se estivesse lendo a minha mente, ele balança a cabeça e murmura: — Vocês são todos muito parecidos para mim.
— Sim, porque somos todos família — diz Ma, sorrindo com orgulho.
— O quê, vocês são todos parentes?
— Não, ela quis dizer alguns de nós — explico rapidamente. — E eu sou meio
que… um tipo de pessoa que advoga. — Do tipo que assistiu a todas as temporadas de The Good Fight. — Enfim, então Maureen e eu levamos os presentes de volta para a suíte da noiva e voltamos para a cerimônia, e foi aí que Ah Guan pegou os presentes. Ele deve ter ficado lá o tempo todo, disfarçado como um dos padrinhos.
Acho que ele não esperava que os noivos descobrissem o sumiço dos presentes tão cedo; normalmente, o casal só olha os presentes no dia seguinte, mas… não sei, vai ver Tom queria olhar que tipo de Patek Philippe ele tinha ganhado. Quando Ah Guan soube que estavam fazendo uma busca, deve ter entrado em pânico e colocado as joias roubadas no quarto de Maureen. Ela era a pessoa mais suspeita porque foi a última a estar com os presentes.
O delegado McConnel assente lentamente, franzindo a testa o tempo todo.
— Então ele precisava de um lugar para se esconder, e onde melhor do que à vista de todos? — digo, gesticulando com animação. — Ele estava disfarçado de padrinho mesmo, e os outros padrinhos estavam bêbados e não sabiam bem o que estava acontecendo. Além disso, eles nem se conheciam.
— Sim, wah, eles muito bêbados. Um deles, não sei qual, mas um deles —
comenta Ma de forma significativa — traz, sabe, álcool, tipo muito ruim. Acho que se chama “abstinência”.
— Bem, eu soube que um deles trouxe maconha — acrescenta a Quarta Tia.
— Santo Deus — balbucia o delegado McConnel .
— Pois é — interrompo. — Então ele foi para a suíte do noivo e, quando o grupo de busca entrou lá, ele se apavorou e se escondeu dentro de um cooler. Sabe, um dos coolers da confeiteira desapareceu hoje mais cedo, e acho que Ah Guan estava planejando usá-lo para esconder as joias roubadas. Encontramos o cooler na suíte do noivo. Foi trancado por engano, aí ele sufocou e morreu.
Os olhos do delegado McConnel estão tão arregalados nesse momento que parecem prestes a saltar das órbitas. Mas, por mais que eu me prepare para o inevitável grito de “Que mentira deslavada!”, a frase não vem. Em vez disso, o que
ele diz é:
— E depois o que aconteceu?
— Depois os padrinhos devem ter encontrado Ah Guan em algum momento, e àquela altura já estavam muito chapados e fora de si. Estavam viajando tanto, mas tanto, que nem perceberam que ele estava morto. Devem ter pensado que era uma brincadeira. Aí tiraram o cara do cooler e o carregaram animados para o altar. O
senhor pode interrogar os rapazes; nós fizemos isso, e eles só se lembram de algumas partes. Alguns se lembram de encontrar Ah Guan e de carregá-lo até o altar. Eles pensaram que ele só estivesse desmaiado.
— Eu não… O qu… — O delegado se recosta, parecendo confuso. Não posso culpá-lo. É uma história rocambolesca que criamos. Mas foi o melhor que conseguimos. Prendo o fôlego enquanto ele esfrega a testa. — Como vocês descobriram todos esses detalhes? Vocês não estavam lá, né?
— Não, encaixamos as peças com base nas informações que coletamos das testemunhas — explico, minha voz muito mais confiante do que realmente me sinto. — Converse com os padrinhos, se quiser. Eles estão do lado de fora da sala.
Ele assente em silêncio, ainda parecendo confuso.
Jacqueline corre até a porta e a abre. Como prometido, os padrinhos estão todos esperando do lado de fora, e parecem péssimos. Suas roupas estão sujas, seus cabelos estão despenteados e vários deles têm o que parecem ser manchas de vômito na camisa. O delegado McConnel franze o nariz e faz uma careta. Não posso julgá-lo; o cheiro é tão ruim que praticamente dá para ver a fumaça da sujeira irradiando deles. É um fedor de suor, vômito e outros fluidos corporais nos quais nem quero pensar. Eles cambaleiam para dentro e piscam para nós, sérios.
— Então — diz o delegado McConnel , levantando-se da cadeira de Nathan.
— Vocês são os padrinhos.
Eles estreitam os olhos contra a claridade do escritório e dão de ombros.
— Pior trabalho da vida — murmuram alguns.
— Qual de vocês está sóbrio o suficiente para me contar o que diabos aconteceu?
Algumas mãos se levantam hesitantes. O delegado McConnel escolhe uma.
— Você primeiro. Diga seu nome e profissão.
Um cara baixo de aparência amigável dá um passo à frente. Seu cabelo está espetado para todo lado e sua camisa rasgada, mas seus olhos são os menos vermelhos de todos.
— Hum, meu nome é Henry, e eu sou ator.
— E você conhece o noivo… de onde?
— Não conheço. Não de verdade. Eu só tinha visto o noivo uma vez até hoje.
Fomos todos contratados para atuar como padrinhos.
— Mil ennials — resmunga o delegado McConnel .
— Tom contratou a maioria separadamente. Não sei esses outros caras, acho que alguns são de agências, mas quase todos são atores independentes.
Jacqueline balança a cabeça com tristeza, e Maureen lhe dá um abraço apertado e um beijo na bochecha. Apesar de tudo, vê-las faz meu coração se aquecer, só um pouco.
— Ele nos pagou por, tipo, a experiência inteira do casamento, então isso incluía a despedida de solteiro, que foi ontem à noite. A gente se empolgou; acho que nenhum de nós queria decepcionar o noivo. Meu Deus, eu me lembro de beber e ver o céu clarear e fiquei, tipo, “Merda, já é dia?”. Foi louco, cara. E a manhã foi só um borrão, tipo… sei lá, as pessoas ficavam entrando e mandando a gente se arrumar, uma coisa assim, então a gente se levantou e tentou se vestir, mas estava uma zona. A suíte estava um chiqueiro depois da noite de ontem, as roupas misturadas e, merda, acho que um dos caras perdeu o smoking, outro perdeu a calça, e as pessoas continuavam entrando e saindo do quarto. Foi horrível. Ah, e muitos de nós estavam vomitando por causa da festa. — Henry afunda na cadeira e segura a cabeça. — Minha cabeça está me matando. Isso é tudo o que vocês querem
saber?
— Não! — vocifera o delegado McConnel . — Não, seu idiota, quero saber do corpo.
— Ah, certo, sim, claro. Sim… Cara, eu não tenho ideia de como isso aconteceu.
O delegado McConnel parece prestes a explodir. Quando ele fala, sua voz sai devagar e ponderada, como se estivesse conversando com uma criança particularmente desatenta.
— Bem, vamos começar com quando você percebeu que se tratava de uma pessoa morta.
— No altar, quando Joshua… Hum, era Joshua ou Kegan, não faço ideia de quem estava mantendo o corpo em pé. Quando eles o deixaram cair. Aí eu percebi que o cara estava morto. Não, espere, foi depois disso. Porque eu estava rindo, pensei que o cara só estivesse muito bêbado, mas alguém gritou que ele estava morto, então foi aí que eu soube — diz Henry, anuindo com orgulho como se tivesse resolvido o mistério todo.
Não ouso olhar ninguém nos olhos. Posso cair na gargalhada ou no choro. É
surreal ver nosso plano realmente funcionando.
— Antes disso — pressiona o delegado McConnel —, você sabe quem encontrou o corpo? Devia estar na suíte do noivo, certo? E um de vocês deve ter encontrado, senão como ele iria acabar no altar?
— Hum, acho que sim? Não sei quem encontrou. Como eu falei, estava uma zona. Eu nem sei… ah, cara, eu nem sei como eu acabei no altar. Foi como se eu tivesse piscado e lá estava eu. Foi louco. Eu estava muito doido mesmo.
— Quem drogou vocês? — indaga o delegado McConnel .
— Olha, não sei. Eu gostaria de saber, porque era coisa boa. Quer dizer, pois é, não foi nada legal, nos drogar daquela maneira — conclui ele, sem convicção. —
Você pode esperar até os outros caras ficarem sóbrios e perguntar para eles. Mas eu duvido que algum saiba. A gente estava muuuito doido.
O delegado McConnel se recosta em sua cadeira com um grunhido e brada:
— Saiam daqui. Todos vocês, para fora!
— O senhor não vai soltar Nathan?
Ele me encara, e há tanto ódio e fúria em seus olhos que quase dou um passo para trás. Quase, mas não dou, porque, atrás de mim, Ma coloca uma mão tranquilizadora nas minhas costas e eu fico firme.
— Não vou sair daqui até o senhor soltar Nathan. Olha, não há dúvidas de que foi tudo um acidente infeliz que não teve nada a ver com ele, e o senhor não tem provas contra ele nem contra ninguém. Então encerre o caso. Resolvemos tudo para o senhor. Pode dizer à polícia do continente que descobriu tudo sozinho; podemos confirmar. Eles vão ficar muito impressionados com o seu trabalho. Imagina só os artigos que vão escrever sobre o senhor! Por desvendar uma morte e um roubo envolvendo dois milhões de dólares em presentes!
— Wah, o senhor é o melhor policial — elogia Ma.
— O melhor mesmo, número um! — exclama a Grande Tia, com os polegares para cima.
— Ah, sim, vou contar a todos meus amigos de WhatsApp, wah, sorte ter policial tão bom — diz a Segunda Tia.
— Que herói forte! — Sorri a Quarta Tia.
Ele está dividido, todos podem ver, entre a falta de plausibilidade da situação e a vontade de acreditar no que estamos falando. Ele quer tanto acreditar. Ele sabe que está num mato sem cachorro, que errou nessa além da conta. Melhor declarar que desvendou tudo antes que os garotões do continente cheguem e assumam o caso. Então Maureen, contadora extraordinária, avança e fala as palavras que levam o delegado para o nosso lado de uma vez por todas: