Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 39 de 42

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Disque T para titias

Epílogo

— Eu ajudo com a papelada.

 

Epílogo

Inspiro profundamente e abro as portas vaivém do Top Dim Sum. O barulho se espalha, uma cacofonia de mandarim, cantonês, hokkien e outros dialetos chineses que não consigo identificar. Na mesa, a recepcionista já está cercada por multidões de tios e tias barulhentos perguntando sobre suas mesas.

— Ufa! — suspiro. Não sei se algum dia vou me acostumar com o barulho do dim sum de domingo. Uma mão forte encontra a minha e dá um aperto tranquilizador.

— Estou com fome — diz Nathan, sorrindo para mim. — Mal posso esperar.

— Rá — dou uma risada fraca. Ainda estou meio convencida de que qualquer dia desses ele vai perceber que confusão louca é a minha família e vai decidir que fica melhor sem mim. Mas não. Eu me contenho. Não, ele tem sorte de eu ser dele.

E eu tenho sorte de ele ser meu. Fomos feitos um para o outro. Sorrio para ele e, dessa vez, meu sorriso está menos nervoso. — Venha, elas já pegaram uma mesa.

Abrimos caminho entre a multidão agitada, para dentro do salão principal.

— Meddyyyy! — berra alguém em meio ao barulho, e examino o salão, avistando Ma e a Quarta Tia agitando os braços como se fossem um daqueles bonecos de posto de gasolina. — Aqui i ! — gritam elas novamente, embora eu já tenha acenado em reconhecimento e já estejamos visivelmente andando na direção delas. Minha família, francamente.

— Wah, até que enfim vocês chegaram — diz Ma, levantando-se e dando um abraço em Nathan. Ela aperta minha bochecha como se eu tivesse dois anos de

idade. Cumprimentamos o resto das minhas tias, e todas sorriem e começam a colocar comida nos nossos pratos.

— Ayo, makan!

— Makan, makan!

Por alguns minutos, ficamos quietos enquanto nos atracamos com pratos fumegantes e deliciosos de siu mai e har gow.

— Você parece saudável, Meddy — comenta a Grande Tia em mandarim.

— Sim, parece mesmo — concorda Nathan. Diferente do meu, o mandarim dele é impecável. Mais uma razão para Ma e minhas tias o adorarem.

— É mesmo? Acho que você parece um pouco cansada, querida — diz Ma, antes de a Quarta Tia obviamente chutá-la por baixo da mesa.

— Lembre-se: você precisa ser acolhedora — sussurra a Quarta Tia, em um volume alto o suficiente para ser ouvido por cima do ruído do restaurante.

Ma assente e volta a olhar para mim.

— Ah, sim, eu estava errada. Você não parece cansada. Você está radiante, muito bem alimentada, tão diferente de quando a vi pela última vez. — Ainda assim, quando ela sorri, é óbvio que está tentando ao máximo esconder a tristeza.

Estendo o braço para pegar a mão dela.

— Ma — digo, com delicadeza. — Eu a vejo todos os dias. A senhora sabe exatamente como eu estou. — O que é verdade. A mulher aparece no meu apartamento logo de manhã com um monte de comida feita em casa, e na maioria das noites eu janto na casa dela. Não é tão ruim; meu apartamento é na Broadway, a um quarteirão de distância do supermercado asiático aonde ela costuma ir, então ela arruma qualquer desculpa para dar uma passada lá. E, por mais que eu odeie admitir, adoro ver minha mãe todos os dias. Isso tornou a mudança muito menos difícil para nós duas.

— Aiya, sua mãe apenas sente saudade de você — repreende a Segunda Tia, nada incisiva.

— Eu sei, sinto saudade dela também — digo, apertando a mão de Ma.

— Não gosto dessa coisa moderna em que mulheres jovens moram sozinhas —

comenta a Grande Tia.

— Sim, é muito perigoso — assente a Segunda Tia. Elas estão muito mais irritantes agora que passaram a concordar uma com a outra.

— Sim, Nathan, é tudo culpa sua. Meddy saiu da minha casa por sua causa —

diz Ma.

— Ei, por que eu? — reclama Nathan, levantando as mãos de um jeito incrivelmente adorável.

— Talvez para fazer muito sexo — resmunga Ma em inglês.

— Ma! — Faço uma careta de desculpas para Nathan, mas ele só balança a cabeça com uma risada silenciosa. Quer dizer, ela não está errada, mas AINDA ASSIM.

— Tudo bem, eu sou muito moderna — continua Ma, voltando para o mandarim.

— Desde quando? — murmura a Quarta Tia.

— Eu sou tão moderna que nem me importo se vocês vão se casar ou não, desde que me deem netos.

— Ma… — resmungo. Mas Nathan nem de longe parece assustado. Ele está rindo fácil, os olhos brilhando enquanto me observa interagindo com a minha família. — A senhora já acabou de me envergonhar? Porque eu tenho uma coisa para mostrar — aviso.

Ma acena para que eu continue. Vasculho minha bolsa e pego uma revista brilhante, que coloco no meio da tábua giratória. Há um momento em que a Grande Tia e Ma procuram os óculos de leitura. Então todas se inclinam para a frente e estreitam os olhos para a revista.

— Martha Stewart Wedd… Ah, meu Deus — diz a Quarta Tia. — Não! Sério?

Aparecemos aqui?

Abro um sorriso.

— Sim, é sério. Na página vinte. Uma matéria de três páginas com fotos de tudo. O bolo, as flores, a maquiagem maravilhosa.

— O resort — acrescenta Nathan. — Tudo capturado lindamente por Meddy.

— Ele sorri para mim, e meu coração se abre. O sorriso de Nathan sempre faz isso com ele.

Minha mãe e minhas tias dão gritinhos e conversam com animação ao folhear as páginas que exibem o casamento de Jacqueline e Maureen.

— Wah, o bolo é tão, tão bonito — elogia a Segunda Tia.

A Grande Tia sorri para ela e diz:

— E as noivas estão muito lindas.

Ma sorri entre lágrimas.

— Olhe, o nome do nosso negócio está aqui. — E, de fato, embaixo do grande título, está uma lista de fornecedores, exibindo claramente o nome da empresa da família. E, logo embaixo: “Fotografado por MC Fotografia.”

Não faço mais parte da empresa da família. Somos parceiras, e sempre as indico para clientes e vice-versa. Às vezes, como no caso do casamento de Jacqueline e Maureen, trabalhamos juntas. Mas, fora isso, quase não faço mais casamentos grandes. No início, a separação foi difícil para todas nós, mas elas logo se acostumaram com Seb, o que não é nenhuma surpresa, porque ele é incrível, e eu rapidamente encontrei o meu nicho: fotografar as entrelinhas, os breves e emocionantes momentos que ficam no meio dos grandiosos. Faço absolutamente tudo, de noivados e recém-nascidos a famílias que só querem capturar a alegria de suas vidas, e eu adoro. Meu site é recheado de casais se beijando e bebês rindo.

Acho que não faz mal eu sugerir com frequência o lindo resort de Nathan como locação para os ensaios. A indicação cruzada tem sido boa para todos nós.

— E a Martha Stewart Weddings é só a primeira a publicar nossa história — diz Nathan. — Fechamos com muitas outras publicações on-line de casamentos também. Preparem-se para ficar ocupadas pelos próximos dois anos.

A Grande Tia, que lida com todos os agendamentos, tinha jurado se manter em silêncio. Mas, com isso, ela grita:

— É verdade! Já estamos sem agenda para este ano todo!

As outras mulheres a encaram.

— O quê? Outro dia mesmo você estava falando que estava preocupada porque não tínhamos nenhum cliente — fala Ma.

— Aiya, claro que eu só estava inventando. Viu, Meddy? Sou boa em guardar segredos, não é? Meddy tinha muita certeza de que eu não ia conseguir. — Ela sorri com orgulho, enquanto as outras balançam a cabeça, e depois diz: — E adivinhem quem fechou conosco ontem à noite? — Antes que alguém consiga responder, ela exclama: — Os Sutopo!

— O quê? — Todos nós nos alvoroçamos.

— Os Sutopo do… Tom Cruise Sutopo? — pergunto. — Por que diabos eles iam querer contratar vocês de novo depois do que aconteceu da última vez?

— Eles sabem que não é nossa culpa — diz a Grande Tia, abanando as mãos para mim.

— Quer dizer, meio que com certeza foi nossa culpa — murmuro.

— Tudo bem, mas eles não sabem disso. Quando nos viram na Martha Stewart Weddings, falaram: “Vocês são as melhores nesta área. Precisamos superar o casamento de Jacqueline e Maureen para salvar nossa reputação! Vamos pagar em dobro; garantam que o casamento seja melhor em todos os aspectos.”

— Uau. Um brinde ao Tom, eu acho. Espero que ele tenha encontrado uma mulher mais… adequada para ele. — Alguém com mais chance de aguentar sua babaquice.

Ma suspira alto. Ela espera até que todas as atenções estejam nela antes de falar em inglês:

— Todas essas pessoas se casam… — E então olha de um jeito meio acusador

para mim e para Nathan.

— Ma, por favor — resmungo. — A senhora disse que não…

Nathan aperta minha mão de novo e diz:

— Tudo bem. Eu sei, tia, sinto muito por demorarmos tanto. Tivemos que cuidar de muitas coisas, mas a senhora está certa.

— Estou? — pergunta Ma.

A mesa cai em silêncio.

— Nathan — sussurro. — Acho que elas estão entendendo errado.

Como resposta, ele acena para um garçom próximo, que sorri e caminha na nossa direção com uma panelinha de bambu a vapor. O quê. Como se estivesse em câmara lenta, eu me viro para encarar Nathan. Ele sorri para mim. Eu olho para o garçom.

— Ah, meu Deus — sussurro.

A panela de bambu é colocada na minha frente, e o garçom a abre com um floreio, revelando uma caixa de veludo azul-marinho lá dentro.

— Nathan. É sério? — Não consigo dizer mais nada. Minha garganta se fecha de emoção. Vagamente, sinto minha família abanando como galinhas decapitadas, e a comoção chama a atenção dos outros clientes, que se viram e assistem à cena com interesse evidente.