Disque T para titias
Capítulo 3
Nesse momento, percebo que chegou a hora. Não existe ninguém como Nathan, não da maneira como ele me abraça, com tanta firmeza, meu corpo todo grudado no dele. No instante em que noto isso, sei que estou completamente ferrada.
3
Presente
Meddy [19:03]: Essa ideia é horrível. Que droga, como fui deixar que elas me convencessem a fazer isso?
Selena [19:04]: Sendo você mesma?
Meddy [19:04]:
Meddy [19:05]: É tudo culpa sua! Se você tivesse ido ao dim sum, teria interferido e eu não estaria aqui esperando um cara que a minha mãe conheceu fingindo ser eu!
Selena [19:06]: É lógico, como se eu fosse me atrever a impedir os planos da sua família de armar uma para você. Além do mais, estou achando engraçado!
Meddy [19:08]: Você é péssima. Sabe o que eu vou fazer? Vou contar para elas que o encontro foi tão bom que elas deviam fazer a mesma coisa para você.
Selena [19:09]: Se a sua mãe conseguir me achar um cara rico e dono de hotel, estou dentro. Qual é o problema?
Solto um suspiro e pouso o celular na mesa. Se eu dissesse a verdade, que ainda estou apaixonada pelo Nathan, ela ia me mandar parar de ser ridícula.
— Olá, Meddelin? — fala uma voz baixa e afetuosa.
Levo um susto, o que faz dissipar todos os pensamentos sobre Nathan. Não comece esse encontro assombrada pelo fantasma de Nathan. Ergo o olhar e… Ok, Ma, mandou bem. A Quarta Tia estava errada. Jake definitivamente não é um trol . Ele não é tão arrasadoramente maravilhoso quanto Nathan — ei, pare com isso, menina —, mas é com certeza atraente. Sem dúvida se encaixaria em um grupo de K-Pop. Alto, gracioso, pele perfeita e um sorriso ligeiramente travesso que achei impossível não retribuir. A Quarta Tia logo ia se engraçar para o lado dele. Eu me levanto para dar ao belo homem diante de mim um… Ah, meu Deus, um abraço ou um aperto de mão? Ele estende o braço e me puxa para um abraço, resolvendo minha pequena crise e ocultando minha inépcia social, a mão se prolongando na parte inferior das minhas costas. No momento em que nos separamos, estou corando de leve. Esse não foi um abraço normal do tipo “prazer em conhecê-la”. Ou foi? Será que fiquei fora de circulação tanto tempo assim?
Jake deve ter sentido meu ligeiro desconforto, porque sorri de modo constrangido e diz:
— Desculpa se exagerei. É que estou muito animado de finalmente conhecer você pessoalmente.
É lógico. Para ele, não somos totalmente estranhos. Estamos batendo papo há semanas. Que ingênuo, coitado. Não acredito que minha mãe se passou por mim para me conseguir um namorado. Tudo bem, foco. Consigo abrir um sorriso.
— Hum, eu também.
— Você é ainda mais bonita ao vivo — diz ele, estendendo os braços sobre a mesa para pegar minhas mãos.
Errr.
Minha boca congela em um sorriso-careta à la Chrissy Teigen, mas Jake não parece notar. Ele chama um garçom.
— Traga uma garrafa do seu melhor champanhe.
Será que existe uma forma educada de retirar minhas mãos? Minha mente está
entrando em curto-circuito, tentando pensar em uma solução no meio dessa bagunça. Certo, obviamente as coisas ficaram mais sérias para esse cara. Mais sérias do que Ma me levou a acreditar. Maldição, por que não insisti mais para ver as mensagens do bate-papo? Se eu puxasse as mãos, ele se sentiria magoado? Traído?
Ah, Jesus, pior ainda, e se ele perceber que não estava conversando comigo, mas com a minha mãe? Vai perder a cabeça, sem sombra de dúvida, e aí será que vai nos demitir? Ou, no mínimo, falar mal de nós para os noivos? E se nos processar? Será que isso é possível?
— Você está bem? — pergunta ele.
Pisco e me concentro nele de novo. Inspiro profundamente.
— Desculpe, sim, estou bem.
— Está preocupada com alguma coisa?
Com a possibilidade de você processar minha família e a mim por fraude.
— Err, não. São só… questões de trabalho, acho.
Ele assente.
— Como eu disse antes, acho seu trabalho incrível.
Sinto um calor subir pelo pescoço. Quase deixo escapar “Você já viu meu trabalho?”, mas consigo me controlar a tempo. É óbvio que ele viu meu trabalho.
Seria uma das primeiras coisas que Ma revelaria sobre mim. Nosso site, com milhares de fotos de casais felizes, é bem impressionante, modéstia à parte.
— Você capta todas aquelas emoções tão bem — continua ele. — Para falar a verdade, às vezes penso, puxa, Jake, como você teve tanta sorte?
Dou uma risada fraca. Ele está totalmente envolvido, o pobre coitado. Vou ser agradável. Tenho que tentar me esforçar nesse encontro, ao menos para não decepcionar esse cara. Quase pergunto, feito uma idiota, no que ele trabalha, quando lembro que na verdade sei o que ele faz.
— Você é muito gentil. Então, me conta, como entrou no ramo hoteleiro?
Jake dá de ombros.
— Comecei a trabalhar com finanças logo depois da faculdade. Trabalhei em Wal Street por um tempo, então pensei: Bom, já ganhei uma fortuna… uma fortuna imensa, na verdade… — Ele ri. Não vejo a menor graça, mas rio também, e depois me sinto uma idiota completa. — Fiquei brincando com algumas ideias e aí decidi que queria construir um resort onde minha família e meus amigos pudessem se divertir. Por que não, certo? É um dos privilégios de ser podre de rico.
Sou poupada de ter que responder quando o garçom aparece com nosso champanhe. É difícil imaginar como esse cara conseguiu encantar minha mãe para… Ah, quem estou enganando? Com vinte e seis anos, sou quase considerada uma solteirona. Ma teria me empurrado para qualquer sujeito contanto que ele estivesse vivo. Já estou tão nervosa que tomo um gole de champanhe antes de Jake dizer “Saúde”.
— Certo, desculpa. Saúde. — Bato minha taça na dele e viro a bebida. Se vou ter que atravessar essa noite toda, será preciso um bocado de champanhe.
Talvez seja o álcool, talvez seja o fato de que a comida do restaurante é excelente. Seja qual for o motivo, no meio do jantar percebo que até estou me divertindo. Jake tem uma forma de enfiar na conversa pequenas pistas detestáveis sobre como é rico — “tão rico que, quando suo, transpiro gotas de diamantes” —, mas, fora isso, ele tem senso de humor e parece genuinamente interessado em mim, o que é uma surpresa agradável. Em geral, meu trabalho não interessa aos homens; na realidade, a maioria deles parece pensar que, só porque estou no ramo de casamentos, isso significa que também estou louca para casar. A verdade é que estar nesse ramo é uma maneira infalível de me fazer fugir de casamento a todo custo.
Digo isso a Jake, que começa a rir.
— Talvez seja apenas porque você não encontrou o homem certo — concluiu ele.
Meu coração se aperta e meu sorriso desaparece. Não é que eu não tenha encontrado o homem certo, quero dizer a ele. O fato é que eu o encontrei, e sei que
ninguém chega aos pés dele. No entanto, tenho bom senso suficiente para não fazer esse comentário. Além do mais, já faz quatro anos desde que Nathan e eu terminamos, e preciso mesmo esquecê-lo. Tenho quase certeza de que ficar presa a um ex por quatro anos, se não é patético é, no mínimo, bizarro.
— Você deve encontrar muitas noivas neuróticas — comenta Jake.
— Para falar a verdade, as noivas em geral são legais, com exceção de uma ou duas. O surpreendente é que os noivos é que são os mais complicados.
— Sério? É difícil acreditar. As noivas não costumam pedir que você use o Photoshop para parecerem mais magras, ou coisa parecida?
Dou de ombros, tomando outro gole de champanhe.
— Com certeza, às vezes. Mas emagrecer alguém é fácil. Sabe o que é realmente trabalhoso? Quando os noivos me pedem que os façam ficar mais altos. Posso deixar o noivo mais musculoso, mas altura é um saco para editar. — Ah, não, estou perto demais de reclamar sobre o meu assunto favorito: noivos neuróticos. Existe uma porção deles, mas, por algum motivo, são as noivas que acabam levando a má fama. — E você? Deve lidar com clientes complicados uma boa parte do tempo, não é?
— Não, contrato pessoas para fazerem isso por mim. É por isso que temos uma equipe completa de serviços dedicada ao cliente, sabe? — Ele ri de novo. Está começando a me irritar. Bebo mais champanhe.
Na hora em que terminamos a refeição, estou alta o suficiente para saber que não devo ir para casa dirigindo.
— Vou chamar um Uber — digo a Jake, pegando meu celular e reparando, desanimada, que a bateria está em quatro por cento.
— O quê? Não. Eu dirijo para você. Me dê as chaves.
— Não tem problema, sério. Vou pegar um Uber e volto para buscar o carro amanhã de manhã.
— O estacionamento abre às oito horas. Você não disse que precisa estar no
porto às oito e meia? Não vai dar tempo.
Solto um xingamento em silêncio. Ele tem razão. Preciso do meu carro de manhã cedo. Que droga, garota! Por que você tinha que beber além da conta?
— Mas e você? Não precisa do seu carro de manhã? Não quero atrapalhar seus compromissos porque fiz você se atrasar.
— Tenho outros carros, e o hotel já vai estar funcionando sem problemas a essa altura. As coisas não vão desmoronar só porque vou chegar atrasado umas horinhas.
Na verdade, você provavelmente não deve me ver muito amanhã. Vou trabalhar mais nos bastidores — responde ele, descontraído, estendendo a mão. Não consigo encontrar uma maneira de cair fora. Se continuar recusando a oferta, Jake provavelmente vai ficar ofendido, e aí lá se vai nosso grande casamento do fim de semana. Quer dizer, é de esperar que ele seja profissional a ponto de não deixar um encontro ruim interferir nos negócios, mas será que estou mesmo na posição de arriscar o maior casamento do ano da minha família? E, de qualquer forma, é só uma viagem até a minha casa. Nada de mais. Moro com Ma; então, se ele insistir em entrar, posso muito bem usá-la como desculpa.
Quando vasculho a bolsa à procura das chaves do carro, minha mão roça o pesado taser que carrego para todo lado. Eu deveria parar de levá-lo: é pesado, é volumoso e me faz parecer uma paranoica idiota. Ainda assim, quando entrego a Jake as chaves do meu Subaru, não posso deixar de me sentir contente por ter o taser. E aí, obviamente, me sinto uma boba por me sentir aliviada.
Jake coloca a mão na parte inferior das minhas costas enquanto atravessamos o estacionamento, o que acho muito precipitado, mas, de novo, não estou à vontade o suficiente para lhe pedir que pare. Quando entramos no carro e fechamos as portas, de repente só consigo pensar no silêncio. Posso escutar cada ruído que fazemos, cada respiração, e até as batidas do meu coração. Então, Jake liga o carro e o som do Maroon 5 jorra do alto-falante. Relaxo um pouco. Ele sorri para mim, de forma tranquilizadora, enquanto ajusta os retrovisores. Retribuo o sorriso. Está tudo bem.
Vou chegar em casa antes que eu me dê conta e amanhã, quando nos encontrarmos, vamos ser amigáveis, simpáticos e totalmente profissionais. Tudo está óóótimo.
— Então, foi divertido, né? — comenta ele, saindo do estacionamento e entrando na rua escura.
Já é tarde e, apesar de estarmos em uma rua principal, quase não há carros circulando. Ele me dá uma espiada, e assinto.
— Foi, sim, superdivertido. — Superdivertido? Quantos anos eu tenho, quinze? — Gostei da noite — acrescento. É um pouco de exagero, mas acho que a noite não foi ruim, então…
— Eu também. Você é uma garota e tanto, Meddy. — Ele dá uma piscadela, e aí (ah, meu Deus) ele estica o braço e pousa a mão no meu joelho.
Eu me remexo, me encolhendo, mas a mão dele permanece lá, seu calor irradiando pela minha coxa. Vamos lá, cara, esse é o sinal universal para Tira sua maldita mão da minha perna! Tudo bem, não consigo. Não consigo continuar com isso. Nem mesmo pelo negócio da família. Ma e tias que me desculpem. Com o coração disparado, gentilmente empurro sua mão para longe, como se fosse um hamster que eu preciso tratar com cuidado. Ele me olha e abre um sorriso.
— Então, esse é o seu jogo, é?
Uma sensação de náusea borbulha no meu estômago.
— Hum. — Pense rápido, Meddy. — Acho que estou me sentindo bem agora.
Você pode parar bem aqui. Posso dirigir no resto do caminho.
Ele faz beicinho.
— E me abandonar no meio do nada?
— Hum. Vou chamar um Uber para você, e espero até ele chegar. Não quero mesmo incomodá-lo, e amanhã vai ser um longo dia para nós dois…
Ele ri.
— Meu Deus, você é um doce — diz ele de um jeito que não soa como um elogio. Soa malicioso, como se estivesse falando de um pêssego muito maduro que
ele não vê a hora de degustar.
Ele entra em uma rua secundária, e é como se tivéssemos deixado Los Angeles para trás. Tudo aqui é escuro, até as árvores parecem ameaçadoras, e não há um único carro ou uma única pessoa à vista.
— Pare o carro — peço, minha voz tensa de medo. — Pare agora!
Em vez disso, ele acelera. Tento abrir a porta de qualquer jeito, mas está trancada e, mesmo em pânico, sei que estamos andando rápido demais para eu tentar pular. Na melhor das hipóteses, eu ia quebrar um braço. Na pior, morrer.
Ah, meu Deus.
De repente, sou atingida por uma constatação nauseante. Posso de fato morrer hoje. A bile sobe pelo meu esôfago. Não sei dizer quanto tempo fico sentada ali, imobilizada, enquanto nos distanciamos cada vez mais da civilização. Não reconheço mais os arredores. Lá fora, só vejo construções que parecem fábricas abandonadas. Não há ninguém para me salvar.
— Calma, Meds. Ah, por favor, a gente só está se divertindo, né? — Ele me dá uma olhada e sorri. — Não fique me provocando; eu sei que você não é tímida.