Disque T para titias
Capítulo 23
— Vamos dar um jeito isso — diz a Grande Tia.
Surpreendentemente, a Segunda Tia nem vem com uma resposta ácida. Ela concorda enquanto se agacha em uma pose que devia se chamar algo parecido com
“Carregando uma cabaça extra grande” e diz:
— Não se preocupe, Meddy. Vamos dar um jeito nisso.
— Não.
Todas elas me encaram. Ma dá um passo na minha direção.
— Meddy…
— Não, já me ajudaram o suficiente. Posso cuidar dessa sozinha. Sei exatamente o que preciso fazer. Vou me livrar dessa… — Puxo a bolsa para fora do armário. — E depois eu volto para resolver o que fazer com o corpo.
23
Uma vantagem de ser uma das fornecedoras principais do casamento: a cerimonialista compartilhou comigo uma planilha no Google que inclui o cronograma do dia, os telefones das pessoas importantes e uma lista muito útil dos números dos quartos de todo mundo.
Faço uma rápida pesquisa pelo nome de Maureen, e lá está ela.
Nome: Maureen Halim
Papel: Madrinha
E ladra, a voz na minha cabeça ironiza.
Número de telefone: (626) 526-1755
Número do quarto: 317
Minha boca vira uma linha reta. Penduro a bolsa de viagem no ombro e caminho rapidamente em direção à escada. Terceiro andar. Coloco a cabeça para fora antes de sair para o corredor, com cuidado para garantir que não há ninguém à vista. A sorte está do meu lado, e me apresso em direção ao quarto 317. Não acredito que estou fazendo isso. Eu me desloco rápido demais para pensar duas vezes. Não há tempo para pensar duas vezes mesmo, e se eu congelar agora, se eu me apavorar, então provavelmente vou ser pega com uma mala cheia de itens roubados, e que bem isso faria a alguém? Então prossigo, ignorando todas as vozes em pânico que tumultuam minha cabeça e, antes que eu me dê conta, cheguei.
Quarto 317.
Tudo bem. Merda. Tudo bem. Vou fazer isso. Vou, sim. Há um dia, a pior coisa que eu já havia feito era. . bem, provavelmente ter terminado com Nathan. Agora, eu já (1) acidentalmente matei alguém, (2) ocultei o cadáver e (3) carreguei por aí mais de dois milhões de dólares em itens roubados.
Maureen deve estar com Jacqueline, então o quarto provavelmente está vazio, mas, por via das dúvidas, bato à porta.
— Olá. Serviço de quarto — anuncio. Espero dois segundos. Bato novamente.
Verifico o corredor mais uma vez. Ninguém à vista. Tiro a chave-mestra do bolso e a coloco contra a trava da porta. Uma luzinha verde pisca e a trava abre com um zumbido. É agora ou nunca. Seguro a maçaneta e entro no quarto de Maureen.
Maureen está hospedada em uma suíte júnior, com uma sala e um quarto separado. Certo. Se eu fosse uma madrinha ladra, imunda e traidora, onde eu esconderia uma mala cheia de itens roubados que minhas mãos ladras, imundas e traidoras afanaram da minha melhor amiga?
No quarto com certeza.
Corro para dentro do quarto e olho em volta. Embaixo da altíssima cama de dossel? Óbvio demais. Dentro do armário? Abro o armário e o examino. As prateleiras sobem até o teto, o que é estúpido porque ninguém conseguiria alcançar lá em cima. Eu nem consigo ver o que está na prateleira de cima…
O que faz dali o esconderijo perfeito. Pego uma cadeira da escrivaninha, atravesso o quarto com ela e subo no assento. Quando me endireito, cambaleio e, por um segundo assustador, quase caio com a bolsa pesada, mas consigo segurar em uma das prateleiras buscando equilíbrio. Levanto a bolsa por cima da cabeça e a empurro o mais fundo que consigo, depois salto da cadeira. Olho para cima e, com satisfação, confirmo que não consigo ver a bolsa. Nem mesmo na ponta dos pés. O
topo da prateleira é alto demais.
Assim que devolvo a cadeira para seu lugar, ouço o pior som do mundo. A
fechadura da porta da frente destravando. Uma fração de segundo depois, a porta abre e alguém surge fazendo barulho. Minha mente entra em curto-circuito e, por um momento precioso, fico lá parada, congelada, como um hamster que sabe que está prestes a ser avistado por um gavião. Então meus instintos agem e eu corro…
mas para onde? Olho em volta desesperada. O armário onde eu acabei de esconder a mala? Não, está cheio de vestidos brilhantes e é provável que Maureen possa precisar de alguma coisa lá de dentro. O banheiro? A…
A cama!
Eu me jogo no chão no lado mais distante do quarto bem na hora em que a porta do cômodo se escancara. Eu me deito no carpete e, quando a pessoa entra, rolo para baixo da cama. Por sorte, Maureen parece estar aflita demais para ouvir quaisquer barulhinhos que eu faça enquanto rastejo para baixo da cama. Ela está fungando alto, a respiração saindo em soluços rasos. A cama range e afunda ligeiramente quando ela se senta e chora. Que diabos ela está fazendo? Se eu não soubesse que Maureen é uma mentirosa ladra imunda, estaria me sentindo muito mal por ela nesse momento. Na verdade, eu estou me sentindo mal por ela. Não acho que seja humanamente possível escutar aqueles soluços e não sentir nem um pouquinho de empatia.
Com o máximo de silêncio, tiro o celular de Ah Guan do bolso e ativo o modo silencioso. Apenas para o caso de ela…
E bem quando penso nisso, ela liga para ele. Graças a Deus pela presciência.
Aperto o telefone contra o peito, incapaz de olhar para o rosto dela aparecendo na tela. Quando cai no correio de voz, Maureen emite um gritinho e atira o celular, que atinge a parede e cai no chão. Oops.
É agora que ela vai pegá-lo e perceber outra pessoa no quarto com ela.
Mas não. Ela fica lá chorando pelo que parece ser uma hora inteira, mas na verdade são só dois minutos. Eu sei porque estou olhando para o celular de Ah Guan o tempo todo. Depois ela vai até o banheiro, provavelmente para lavar o
rosto. Será que eu deveria aproveitar essa chance para sair? Mas, logo que penso nisso, Maureen sai do banheiro e pega o celular do chão. Congelo, mas ela não me vê. Seus pés permanecem lá por um tempo, imóveis, e fico imaginando que diabos ela está fazendo quando percebo que ou ela está ligando para alguém ou digitando uma mensagem. Dito e feito: quando checo o celular de Ah Guan, há uma nova mensagem de texto.
Maureen [14:15]: Não sei pq vc não está atendendo, mas melhor estar tudo pronto. Vou pedir para eles checarem o quarto da fotógrafa.
Checar o quarto da fotógrafa. O quarto da fotógrafa. O QUARTO DA FOTÓGRAFA ONDE ESTÁ O CADÁVER DE AH GUAN. Cada célula do meu corpo se desfaz em gritos apavorados, e preciso de toda a minha força de vontade para me impedir de saltar de debaixo da cama e estrangulá-la. De alguma maneira, consigo ficar imóvel até ela sair do quarto. Instantes depois, ouço a porta da frente bater. Rastejo para fora da cama imediatamente e ligo para Ma. Um toque. Dois toques. Vamos, Ma.
— Alô?
Graças. A. Deus. Nunca na minha vida fiquei tão agradecida por ouvir a voz dela.
— Ma, ainda está no meu quarto?
— Iya, claro. Cortei mangas e fiz mais chá, suas tias todas comendo…
Mangas? Onde ela conseguiu… Não importa. Balanço a cabeça.
— Ma, escuta, vocês precisam se livrar do corpo agora. Maureen vai pedir que vasculhem meu quarto à procura dos presentes da cerimônia do chá. Eu vou voltar… — Meu telefone apita com uma chamada. É Jacqueline. Merda. Maureen foi ainda mais rápida do que pensei. — Não posso voltar. A noiva está me ligando, provavelmente vai me chamar para ir ao quarto dela.
— Tudo bem, sem problemas, vamos nos livrar do corpo, sem problemas. Você
vai para quarto de noiva, você arruma tudo, nós arrumamos corpo, sem problemas.
— Tudo bem… — Ela está soando confiante demais para alguém que acabou de receber um pedido para esconder um corpo às pressas. — Para onde estão pensando em levar o corpo?
— Aiya, não se preocupe, temos plano. Ok, tchau, vamos esconder Ah Guan agora, ok, tchau, te amo, tchau.
A chamada é desligada e aceito a ligação de Jacqueline.
— Alô? Meddelin? — Sua voz está agitada, estridente e entrecortada, quase falhando. — Você pode… ahn, você pode vir ao meu quarto agora? Por favor?
— Oi! Sim, claro. — Engulo em seco. — Tudo bem?
— Aham! — exclama ela, ainda mais estridente do que antes. — Só venha ao meu quarto agora, está bem?
Fecho os olhos, meu estômago se revirando. Então Maureen vai de fato seguir com seu plano. Jacqueline provavelmente está fingindo bom humor para garantir que eu não fuja assustada.
— Já chego aí.
— Ótimo!
Respiro fundo. Embora eu tenha me livrado das coisas roubadas, ao sair de fininho do quarto de Maureen e atravessar o corredor em direção à suíte da noiva, não consigo evitar a sensação de que estou me encaminhando direto para uma armadilha. Do lado de fora da suíte, faço uma pausa para me recompor. Minha respiração continua travando, então preciso focar em continuar inspirando e expirando. Lembre-se: você não sabe que tem alguma coisa errada. Certo. Pelo cronograma, estou ali para tirar o retrato da família ou algo do tipo. Tranquilo.
Seguro a câmera de forma protetora e quase a deixo cair; as palmas das minhas mãos estão muito suadas. Eu as enxugo na calça e bato à porta.
A suíte da noiva está apinhada, mas dessa vez as pessoas não são madrinhas esbeltas vestidas em cores pastéis, mas homens sisudos com uniforme de segurança.
Um deles abre a porta e me encara enquanto entro, fazendo eu me sentir novamente como um hamster, dessa vez me arrastando para o ninho do gavião.
Sorrio para ele e digo:
— Oi, estou aqui para os retratos da família. — Aceno com minha câmera para ele.
Seus lábios se curvam com escárnio, e ele pega o meu braço. Olho para sua mão carnuda no meu antebraço. Olho de novo para ele.
— Você poderia não fazer isso? — Tento puxar meu braço, mas ele só aperta mais.
— Você acha que vai fugir, ladra…
— Rob! — Nathan sai apressado do quarto e anda rápido na nossa direção. —
Pare com isso. Solte-a.
— Mas, senhor, ela é…
— Não sabemos nada ainda — interrompe Nathan. Sua voz fica baixa e autoritária, os olhos se estreitando para o segurança. — Solte o braço dela.
Com uma última careta para mim, Rob larga meu braço. Eu o esfrego devagar.
Juro que toda a minha cabeça está pegando fogo. Eu nunca fui maltratada assim. Foi rápido demais.
— Meddy, que bom que você está aqui — diz Nathan. — Desculpa pelo Rob.
— O que está acontecendo? — Eu o sigo para um lado, longe da multidão de seguranças pisando por toda a linda sala. — Onde estão as madrinhas?
— Mandaram todas voltarem para os seus quartos. A noiva não quer que elas descubram.
— Descubram o quê?
Nathan suspira.
— Os presentes da cerimônia do chá… todos aqueles relógios e joias e dinheiro… sumiram.
Solto uma pequena arfada. Abro a boca, arregalo os olhos e ergo as
sobrancelhas. Será que pareço genuinamente surpresa?
Nathan pega minha mão, então parece se lembrar de onde estamos e a solta.
Com outro suspiro, ele diz:
— E a madrinha disse que foi você quem pegou.
— O quê? — Será que estou representando a combinação certa de choque e raiva? Eu deveria ficar com raiva? Ou só chocada? Nossa, eu sou muito ruim nisso.
Preciso parar de duvidar de mim mesma. Sim, eu definitivamente deveria estar com raiva. — Por que ela pensaria isso?
Ele balança a cabeça.
— Ela alegou que foi você que a ajudou a carregar as caixas de volta para o quarto e que você viu a senha do cofre. — Ele sussurra: — Olha, Meddy, claro que eu não acredito em uma palavra disso, quer dizer, meu Deus. Mas ela está pressionando para que eles revistem seu quarto, e preciso seguir o protocolo…
— Eu entendo — digo rapidamente. Dói ver o rosto dele tão torturado. É
óbvio que ele está se odiando por ter que me falar essas coisas. — Está tudo bem.
Não tem problema revistarem o meu quarto. — Desde que minha mãe e minhas tias consigam se livrar do corpo antes. Eu provavelmente devia ganhar mais tempo.
— Tem certeza? — Os olhos de Nathan procuram os meus e estão repletos de sentimentos velados. Preocupação, raiva, mas, acima de tudo, desejo. Ver aquilo acende o fogo dentro de mim e, nossa, não acredito que estamos aqui nesse momento e não posso nem tocar nele por causa de todos esses malditos seguranças.
Bem, e pela acusação de roubo contra mim. Controle-se, Meddy. Agora não é uma boa hora. Desvio o olhar.
— Sim, tenho certeza.
— Certo. Vamos lá para dentro.
Eu me preparo mentalmente enquanto Nathan me guia para dentro do quarto principal. Lá, está pior do que imaginei. Ou melhor, é bem como eu imaginei, mas pior porque agora é real. Estou realmente parada lá, testemunhando os
desdobramentos do crime de Maureen.
Jacqueline está sentada aos pés da cama, em uma névoa fofa de babados e seda branca, chorando. Maureen está ao lado dela, um braço protetor por cima dos ombros pálidos da noiva, entregando-lhe mais lenços. Tom está digitando furiosamente em seu celular na janela panorâmica, e os pais de ambos estão lá. O sr.
Sutopo está falando rispidamente com alguém ao telefone, e a sra. Sutopo está falando rispidamente com outra pessoa ao telefone dela, e os pais de Jacqueline estão discutindo um com o outro:
— Você devia ter vindo aqui para garantir que estava tudo bem depois da cerimônia do chá.
— Eu? Era VOCÊ que devia ter feito isso! O que você estava fazendo?
Está um caos total e absoluto, e todas as minhas entranhas gritam para que eu dê o fora dali. Mas a mão de Nathan está nas minhas costas e, como se pudesse ler meus pensamentos, ele me dá um tapinha tranquilizador.
Naquele momento, Jacqueline olha para mim.
— Meddy! — grita ela, ficando de pé em um sobressalto.
Ela tropeça no vestido e só não cai porque Maureen a ampara. Maureen me fuzila com os olhos enquanto Jacqueline corre até mim e agarra minhas mãos. As dela estão frias e trêmulas.
— Meddy — diz ela, seu olhar perfurando o meu. — Meddy, Meddy, por favor, me diga a verdade… — Ela volta a chorar.
O sr. Sutopo marcha na minha direção e grita:
— Lá está a ladra!
— Não! — diz Nathan. — Todos se acalmem, por favor. Vamos ouvir o que Meddy… a srta. Chan tem a dizer.
O quarto fica em silêncio, todos os olhos em mim. Jacqueline puxa uma inspiração trêmula e sussurra de forma hesitante:
— Você pegou os presentes da cerimônia do chá?
— Não. — A palavra sai com facilidade.
O quarto rompe em um suspiro coletivo, então todos reagem ao mesmo tempo.
— Ela está mentindo! — grita Maureen.
— É óbvio que ela diria isso — diz o sr. Sutopo.
— Até parece, vamos chamar a polícia — sugere Tom.
Jacqueline me encara entre lágrimas.
— Verdade? Eles sumiram, Meddy, e eu não sei…
— Eu não peguei os presentes. — Minha voz sai sólida. Aperto as mãos dela, esperando que o gesto me dê forças, e depois deixo meu olhar se deslocar para Maureen. — Ela foi a última que pegou os presentes. Eu só ajudei a trazer as caixas para cá, mas deixei tudo com ela.
É uma coisa estranha acusar alguém de um crime. Embora eu saiba com certeza que Maureen é a ladra, embora ela queira colocar a culpa em mim, ainda assim não é legal. Eu não me sinto vingada nem nada; só me sinto uma merda. Minhas entranhas se contraem como se estivessem tentando rastejar para fora da minha pele, principalmente quando Jacqueline emite um soluço engasgado e olha para Maureen. A expressão no rosto da madrinha é uma mistura de medo, raiva e algo mais que não consigo exatamente distinguir, mas é doloroso de ver.
— Não fui eu! — grita Maureen. — Por favor, Jackie O, você me conhece, eu nunca faria isso! Revistem o quarto dela; ela provavelmente escondeu tudo lá.
Jacqueline se vira de novo para mim, a expressão no rosto pedindo desculpas, mas ao mesmo tempo desesperada.