Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 37 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 33

Respiro fundo. Forço minhas mãos a pararem de abanar. Inspiro. Pego as mãos de Jacqueline. Olho dentro dos olhos dela.

— Jacqueline, você confia em mim?

Ela faz uma inspiração trêmula e então confirma com a cabeça.

— Bom. Então preciso que você faça uma coisa.

 

33

Bato à porta do meu quarto e abro uma fresta antes de chamar:

— Sou eu, Meddy. Não atira, estou entrando.

Alguns gritos alegres de “Ah, você voltou” e “Ayo, masuk, masuk! ” me recebem.

Minha família parece animada demais para quem está na mira de uma arma, devo dizer. Quando entro, estão todas sentadas tomando chá, até Maureen.

— Sério?

— O quê? — pergunta Ma, parecendo muito surpresa, como se eu não tivesse acabado de flagrá-la tomando chá com minha arqui-inimiga.

— Nada. É óbvio que vocês estariam tomando chá com a sequestradora, por que não?

— Não sou uma sequestradora — diz Maureen, parecendo ofendida.

— Yah, por que está sendo tão grosseira, Meddy? Não eduquei você assim —

repreende Ma.

Reviro os olhos.

— Enfim. Aqui está. Peguei. — Jogo a bolsa de viagem no chão, fazendo uma careta quando ela bate no piso com um tilintar alto. Merda, espero que eu não tenha acabado de quebrar um relógio Cartier de valor incalculável ou algo do tipo.

— Hati-hati! — exclama a Grande Tia.

— Desculpa, não pensei direito… — É difícil tentar causar impacto.

— Aaah, sensacional — diz Maureen, levantando-se da cadeira. Ela começa a se inclinar, então pausa e aponta a arma para mim, dizendo:

— Abra.

Faço o que ela manda e dou um passo atrás quando ela cutuca a bolsa com os dedos dos pés. Joias e relógios brilham lá dentro.

— Uau! — exclama Maureen depois de uma pausa. — Achei que você não ia conseguir.

— Vou falar, minha filha é muito esperta — diz Ma, balançando a cabeça e sorrindo para mim com orgulho.

Sinto um lampejo de orgulho antes de perceber como é errado sentir orgulho por causa disso. Ainda assim, é bom ser elogiada.

— Como você conseguiu? — pergunta Maureen, me encarando. — Como você conseguiu abrir o cofre? A suíte deve estar cheia de gente. Como você passou por eles?

— Bem, vejamos. Eu disse que estava lá para falar com Jacqueline, e depois conversei sozinha com ela e disse que você queria os presentes. Então ela me deixou ficar com eles.

Todas me fitam como se tivesse crescido outra cabeça em mim.

— Ah, certo, claro, ela simplesmente deixou você pegar — vocifera Maureen.

— Sim, deixou. Ela disse que não quer os presentes mesmo, agora que estão manchados por todas as coisas ruins que aconteceram, e ainda disse que você deveria ficar com eles.

— Mentira. Pare de mentir! — Maureen segura a arma com as duas mãos e mira direto na minha cabeça.

Minha família dá um grito agudo.

— Aduh, não aponte arma para pessoas — repreende a Grande Tia.

— Por favor, Maureen, abaixe revólver, seja boa garota — suplica Ma.

— Silêncio, estou tentando pensar! — Maureen olha para mim. — Como você conseguiu, de verdade?

— Eu disse a eles que queria falar com Jacqueline. Ela estava sozinha no quarto.

Entrei lá, apontei a arma para ela e mandei-a esvaziar o cofre ou eu atiraria.

O queixo de Maureen treme.

— Ela ficou bem?

— Não, ela não ficou bem. O que você achou que aconteceria?

— Sei lá! Não achei que você fosse conseguir!

— Bem, eu consegui, e aqui estão suas malditas coisas. Agora você pode pegar, deve ter pelo menos dois milhões de dólares aqui, e IR EMBORA.

Os olhos de Maureen desviam para a bolsa. De volta para mim. Para a bolsa de novo.

— Ela… ahn… ela perguntou por mim?

— Por que você quer saber? Você acabou de roubá-la.

— Só porque eu não… Eu queria…

— O quê? — disparo, dando um passo na direção dela. — Você queria o quê?

— Eu ia… Pensei que talvez dessa maneira, Jackie viria aqui e falaria comigo.

Sem chamar a polícia nem nada do tipo. Se ela visse que eu estava com os presentes, mas eu os devolvesse, talvez ela… não sei…

— Por que ela falaria com você de novo depois de ser roubada por você? Duas vezes!

— Eu não ia roubar. Esse não era o plano!

— Qual era o plano? Como você conheceu Ah Guan para começar?

— Eu… Nós éramos amigos. Foi ele que me fez sugerir sua mãe como florista para Jackie. Disse que ela faria um bom negócio. Ele sabia que eu estava chateada com o casamento, então bolou esse plano todo para a cerimônia ser cancelada. Ele disse que podíamos pegar os presentes da cerimônia do chá, esconder por um tempo até que o casamento fosse cancelado, e depois devolveríamos.

Sabendo o que eu sei sobre Ah Guan, ele provavelmente não tinha planos de devolvê-los, mas acredito que Maureen esteja falando a verdade. Dou outro passo na direção dela.

— Por que Ah Guan achou que você estava chateada com o casamento?

— Porque…

— Por quê, Maureen?

— Porque eu amo Jackie!

Minha família dá um suspiro coletivo.

— Eu a amo, ok? — grita Maureen, as lágrimas rolando pelo rosto. — Eu amo Jackie desde o dia em que nos conhecemos, quando estávamos na faculdade. Eu disse a mim mesma para não ser egoísta, que ela não gosta de mulheres. Eu a apoiaria em todos os relacionamentos. Apoiei a maioria deles, mas Tom é um…

— Um merda!

Todas nos viramos para olhar a porta, por onde Jacqueline entra, o peito arfando. Mais uma vez, minha família dá um suspiro coletivo.

— Wah, maquiagem ainda está boa — diz a Grande Tia com aprovação.

A Segunda Tia olha surpresa para a irmã mais velha. Todas olhamos, na verdade. Pelo que me lembro, é a primeira vez que a Grande Tia diz alguma coisa legal para a Segunda Tia.

— É… Sim, rímel não sai. É porque aplico cola de cílios por cima, sabe… —

explica a Segunda Tia, sorrindo com um orgulho evidente.

— Shhh — sibilo.

Jacqueline entra de modo tempestuoso. Embora não esteja mais com seu imenso vestido branco, há alguma coisa nela que chama a atenção. Talvez seja porque ela é etereamente linda. Ou talvez seja a maneira como ela está olhando para Maureen, meio encarando, meio outra coisa. Ela está incandescente. Pode ser raiva ou tristeza ou…

— Jackie…

— Eu também te amo!

Amor. É o amor que a ilumina com tanto brilho, é o amor que chamou toda a nossa atenção, é o amor que agora a impulsiona para dentro do quarto.

Eu estava certa. As duas se amam. Era um palpite, mas eu estava disposta a arriscar tudo por isso. Eu me afasto para deixar Jacqueline passar, e finalmente ela fica cara a cara com a melhor amiga.

Lentamente, Jacqueline levanta a mão e a coloca no revólver. Maureen não reage quando Jacqueline tira a arma da amiga e solta o negócio das balas. Eu realmente preciso aperfeiçoar meu vocabulário sobre armas.

— Vazio — diz Jacqueline, um sorriso surgindo em sua boca. — Sabia que você nunca machucaria ninguém. Não de verdade.

— Eu… Jackie… Há quanto tempo…

— Meddy me fez esperar lá fora enquanto ela trazia a bolsa para dentro. Eu ouvi tudo. — Jacqueline toca delicadamente o rosto de Maureen. — Por que você não me disse antes?

— Eu não achava que… Eu… Você é hétero, eu não queria…

— Eu só namorava homens porque não queria que você sequer suspeitasse que eu estava interessada em você — murmura Jackie. — Eu não queria que você se assustasse. Eu achava que você fosse hétero.

As duas riem, depois caem uma nos braços da outra. Jacqueline ergue o rosto, Maureen abaixa a cabeça e, finalmente, suas bocas se unem em um beijo de tirar o fôlego que faz meus olhos se encherem de lágrimas. Desvio o olhar para lhes dar um pouco de privacidade e vejo que Ma e minhas tias estão sentadas lá, encarando e sorrindo na cara de pau, nem mesmo fingindo olhar para o outro lado nem nada.

Eu as repreendo, e elas parecem ligeeeiramente envergonhadas. Fico lá parada, constrangida, mirando o teto enquanto minha família continua dando umas espiadas nelas. Depois do que parece ser uma eternidade, as duas finalmente se afastam, ofegantes e sorridentes.

— Olhe, batom não saiu — diz a Segunda Tia.

— Sim, sua maquiagem número um. Com licença, desculpe incomodar, mas pode nos desamarrar? — pergunta a Grande Tia. — Minhas pernas com muita dor.

— Ah! Sim, claro. Desculpa — fala Maureen, e todas nós corremos até a mesa para ajudar a desamarrar as cordas.

Eu me ajoelho na frente de Ma e começo a desatar os nós em volta de seus tornozelos. Agora que estou agachada tão perto dela, posso ver cada linha em seu rosto, cada ruga e vinco, todas as linhas de riso e de preocupação, os caminhos de sua vida tão explicitamente escritos em suas feições.

— A senhora está bem? — pergunto suavemente.

Quero falar tanta coisa para ela, mas, ao mesmo tempo, parece que nesse momento ela sabe de tudo, de cada segredo que eu mantive enterrado no meu coração.

— Estou — diz ela, sorrindo para mim. Seus olhos brilham com lágrimas não derramadas. — Estou tão orgulhosa de você, Meddy. E, naquele momento, sinto um orgulho como nunca senti, de mim e da minha família.