Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 13 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 10

De alguma forma, conseguimos chegar até o porta-malas da Grande Tia sem nenhum vizinho gritar “Ei, o que estão fazendo?”. Com uma sincronia não combinada, baixamos o cadáver lentamente em vez de deixá-lo cair sem cerimônia.

Imagino que, afinal de contas, todas nós temos um coração, apesar de termos acabado de mudar um homem morto de lugar.

 

10

Presente

O trajeto até a confeitaria da Grande Tia, que fica a apenas dez minutos a pé, é tenso e interminável. Ma, a Quarta Tia e eu estamos apertadas no banco traseiro, e ninguém fala uma palavra. A confeitaria da Grande Tia fica no Vale, a alguns quarteirões de distância do enorme supermercado Rancho 99, entre um salão de beleza, que convenientemente pertence à Segunda Tia, e uma floricultura, que convenientemente pertence a Ma. Ela estaciona nos fundos da loja, e pulamos para fora do carro. Respiro fundo, grata por me livrar do silêncio pesado e sufocante do carro.

A essa hora da noite, não há carros circulando, ninguém à vista. É como se o mundo inteiro estivesse dormindo e esse momento pertencesse a nós, esse momento lúgubre e horrível que estará marcado para sempre na memória como a pior noite da minha vida. Sou muito grata que minha família esteja comigo. É algo estranho para se pensar enquanto puxamos Jake do porta-malas do carro da Grande Tia e o carregamos, com extrema dificuldade, pelo estacionamento até a porta dos fundos da confeitaria.

Depois que entramos, a Grande Tia tranca a porta e acende a luz. Uma luz branca brilhante inunda a cozinha, nos cegando.

— Aiya! Apague a luz! Alguém vai nos ver! — grita Ma.

— Ninguém vai ver, não tenho janelas aqui — explica a Grande Tia. — Deixe o corpo ali. Não, ali não, perto demais da minha farinha. Sim, aí, ótimo. Cuidado para

ele não tocar nada. — Com isso, ela corre até a imensa geladeira de tamanho industrial. Segura o puxador e abre a porta pesada com algum esforço. Nós nos juntamos atrás dela e…

— Wah — exclama Ma. — Muito bonito.

Só posso assentir, sem palavras diante da imensa peça de arte que surge em toda a sua glória refrigerada diante de mim. É esplêndida: oito camadas de um bolo impecavelmente redondo coberto de buttercream perfeito, cada camada com cobertura marmorizada em matizes diferentes de cinza e rosa-chá. Está enfeitado com uma cascata de flores delicadamente entrelaçadas, peônias, hortênsias e rosas, as pétalas finas como lenços de papel, confeccionadas com pasta americana por mãos carinhosas. É incrível. Já vi os bolos de casamento da Grande Tia uma porção de vezes, é lógico, mas ela se superou. Sempre fez bem seu trabalho, mas isso não é apenas um bolo, é uma verdadeira obra de arte.

— É impressionante, Grande Tia — sussurro. — Perfeito.

— O mais bonito que você já fez — diz a Quarta Tia.

A Grande Tia é tradicional demais para demonstrar prazer ao receber elogios.

Ela faz um gesto, desdenhando dos comentários, e murmura:

— Ah masa? Não é nada.

Porém, há uma curvinha nos cantos de seus lábios que torna óbvio que ela está se esforçando para não exibir um enorme sorriso.

— Não está ruim — resmunga a Segunda Tia, e a curva desaparece da boca da Grande Tia.

Sua expressão se endurece.

— Bom, não tem espaço na geladeira para corpo. E agora?

— Tire bolo, ora — diz a Segunda Tia. — Coberto de pasta americana, pode durar para sempre fora de geladeira.

— Não é pasta americana — corrige a Grande Tia, sorrindo triunfante. — Eu sei que talvez você pense que é pasta americana porque superfície muito lisa, certo?

Mas é buttercream. A noiva pediu, nada de pasta americana, e eu disse que poderia fazer com buttercream. O cliente sempre tem…

— Não acredito que não é pasta americana — interrompo. Não há como saber quanto tempo vai durar o discurso da Grande Tia, se não for contido. — A Grande Tia tem razão, não podemos correr o risco de estragar o bolo. Talvez possamos colocar o corpo em um dos coolers até de manhã, e aí, depois de tirar o bolo, transferimos o corpo para a geladeira.

A Grande Tia reflete sobre a ideia, mordendo o lábio inferior.

— Podemos. Amanhã Xiaoling e homem do transporte chegam às sete e meia, colocam bolo em caminhonete, e aí vocês podem vir ajudar a colocar corpo na geladeira.

Eu me retraio só de pensar em Xiaoling, a jovem e alerta chef confeiteira que a Grande Tia contratou para ser sua assistente, no mesmo ambiente que o cadáver.

Precisamos ter certeza de que ela e o carregador não se aproximem do cooler errado.

— Homem morto na minha geladeira, tão pouco higiênico — diz a Grande Tia com um suspiro.

Uma onda esmagadora de culpa quase me derruba quando penso no problema que estou causando para todo mundo.

— Mil desculpas, Grande Tia. Vou comprar uma geladeira nova para você, ou pagar para fazerem uma limpeza profissional nessa aqui depois.

— Aduh, não seja boba, está tudo bem. — Ela se dirige às prateleiras, onde há três coolers gigantescos e numerosas caixas empilhadas em filas organizadas. Ela aponta para o maior cooler e faz um sinal para nos aproximarmos e ajudarmos a deslizá-lo para fora.

É uma coisa monstruosa, certamente grande o suficiente para acomodar Jake, contanto que consigamos dobrar suas pernas, o que é uma coisa horrível de se pensar, mas aqui estamos nós. Olhamos umas para as outras e assentimos. Mãos à

obra. Desenrolamos Jake dos cobertores e o carregamos até o cooler. São necessárias algumas tentativas, mais discussões entre minhas tias e minha mãe e uma porção de xingamentos, mas conseguimos enfiar Jake lá dentro. Felizmente, por ser uma noite quente, fomos capazes de dobrar as pernas e os braços de Jake com facilidade, mas tivemos que tirar seus sapatos. Dobramos os cobertores com cuidado e os colocamos em cima dele, cobrindo-o totalmente, e então a Grande Tia nos faz empilhar todo tipo de suprimentos de confeitaria sobre os cobertores, tampando-os. Quando terminamos, estamos todas suadas e o cooler parece cheio de sacos de farinha e de açúcar de confeiteiro.

Ela escreve PROIBIDO ABRIR em um post-it e o cola na tampa do cooler.

— Se você escreve “Proibido abrir”, pessoas com certeza abrem — diz a Segunda Tia.

A Grande Tia fica brava com ela.

— Talvez você seja dessas pessoas que abrem as coisas que não são delas, mas a maioria não é assim.

A Segunda Tia dá um estalo de reprovação com a língua e pega uma caneta. Ela escreve o seguinte em um post-it: SUPRIMENTO DE BOLO, NÃO ABRIR, TEM

QUE FICAR NO FRIO. E tasca o post-it em cima do bilhete original da Grande Tia.

— Acho que está bom assim — digo rapidamente. — Obrigada, Grande Tia.

Obrigada, Segunda Tia — agradeço em indonésio. Elas me ajudaram a carregar um cara que eu matei; o mínimo que posso fazer é agradecer em sua língua preferida.

Eu me viro para a Quarta Tia e para Ma e agradeço a elas também.

— Aiya, obrigada por quê, não fizemos nada — retruca a Grande Tia, fazendo um gesto com a mão.

— A senhora literalmente acabou de me ajudar a carregar o corpo de um homem. — Não sei como expressar em palavras o que estou sentindo, por isso eu lhe dou um abraço apertado, as lágrimas brilhando nos meus olhos. Normalmente

não nos tocamos muito na minha família, mas a Grande Tia aceita o abraço sem reservas, seus braços fortes me envolvendo com força. — Obrigada — sussurro.

— Ya, sayang — diz ela, dando tapinhas na parte de trás da minha cabeça.

Nós nos afastamos e empurramos o cooler para perto dos outros, e empilhamos os sacos de farinha em cima. Quando terminamos, parece o cooler mais inocente do mundo, não um recipiente que contém um ser humano morto.

— Amanhã voltamos aqui às sete e quarenta e cinco. Xiaoling já termina de transportar bolo, e aí carregamos corpo para geladeira e eu tranco — diz a Grande Tia, murmurando para si mesma: — Preciso trazer cadeado.