Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 19 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 16

Precisamos sumir com esse cooler, e rápido.

 

16

Estar no quarto do hotel traz um alívio enorme. Assim que entramos, fecho a porta, tranco o ferrolho, e aí… êxtase. Por apenas um minuto, eu me permito uma chance de relaxar. Apoio a cabeça na porta, fechando os olhos e respirando fundo. Vamos superar isso tudo, digo para mim mesma. Sei que vamos.

— Wah, olhe só este quarto. Bagus banget! — exclama Ma.

Com relutância, abro os olhos e me viro. Ela tem razão. Apesar de ser o quarto mais barato do resort, é lindo: há duas camas queen-size com pilhas de travesseiros fofos e edredons ainda mais fofos, uma janela do teto ao chão que se abre para uma ampla varanda e mobiliário moderno por toda parte. O ar-condicionado proporciona uma temperatura agradável, nos dando uma trégua do calor impiedoso.

Tiro os sapatos e os coloco perto dos da minha mãe e das minhas tias na entrada. A Grande Tia e a Quarta Tia já pegaram os grossos robes atoalhados no closet e os vestiram por cima das roupas. Ma olha brava para a Quarta Tia.

— Com licença, seu quarto também tem robe, não use o meu.

A Quarta Tia dá de ombros, apertando com um nó o cinto do robe.

— Vou trazer o meu robe assim que eu fizer check-in no meu quarto.

Corro para o meio das duas, interrompendo o concurso de cara feia. Ma nunca pensaria em pedir à Grande Tia que tirasse o robe. Então, se quiser usar um, terá que disputá-lo com a Quarta Tia.

— Vou ligar e pedir um robe extra, Ma. Mas, antes disso, precisamos resolver o

problema do cooler.

— Que problema? — pergunta a Grande Tia. Ela já está bem à vontade na espreguiçadeira, recostando-se como uma dama do século XV.

— Bom, infelizmente, gente demais nos viu carregando o cooler para todo lado.

Tenho quase certeza de que pareceu suspeito pra cacete. Por isso, acho que devemos nos livrar dele. Além do mais, está claro que, se deixarmos o corpo dentro do cooler, nunca vamos conseguir tirá-lo da ilha antes de amanhã à noite, e tenho quase certeza de que vai começar a cheirar antes disso.

— Aduh, amit amit deh — diz Ma.

A Grande Tia mira o teto, ficando calada por um tempo.

— Nada de amit amit — retruca ela, afinal. — Meddy está certa, até amanhã corpo começa a cheirar. Não podemos esperar tanto tempo. Precisamos plano novo.

— Para nossa sorte — diz a Quarta Tia, pulando em uma das camas —, estamos cercadas pelo oceano. Vamos simplesmente jogar o corpo no mar e acabar com isso de uma vez por todas!

Meu instinto é recusar a sugestão, porque a maior parte das ideias da Quarta Tia é leviana e nem um pouco bem pensada e, como sempre resmunga Ma, a Quarta Tia não é a pessoa mais responsável do mundo. Mas depois me dou conta de que ela tem certa razão. Com exceção da ideia de enterrar o corpo no deserto, o mar não é uma opção ruim. Podíamos colocar o corpo em uma bolsa de lona, enchê-la de pedras e depois jogá-la na água. Com sorte, quando for encontrado, vai estar tão inchado que não serão capazes de identificá-lo.

Uau, meus pensamentos viajaram para um local sombrio. É chocante a rapidez com que me adaptei à ideia de, bem, matar um cara e descartar seu corpo. Nunca pensei que seria capaz de pensar numa coisa dessas. Uma vez encontrei uma carteira com duzentos dólares na pista de dança de uma boate e é óbvio que a devolvi. Sou esse tipo de pessoa, que segue as regras. Porém, a perspectiva de ir para

a cadeia — e não apenas eu, mas também minhas tias, porque, sem querer, elas ajudaram a matar Ah Guan — é impensável.

— Na verdade, é uma ideia muito boa, tia — digo. — Só precisamos…

Há uma batida à porta, e todas congelamos.

— Serviço de quarto. Trouxe sua bagagem.

Bem na hora! Corro para abrir a porta e depois recuo para o lado enquanto o carregador deposita toda a nossa bagagem no quarto. Eu só trouxe uma pequena mala para a estadia de uma noite, mas minha mãe e as tias sempre trazem coisas demais. Em poucos minutos, nosso quarto está cheio de malas gigantescas. Dou uma gorjeta para o carregador e ele vai embora.

Em seguida, eu me viro, sorrindo, e digo:

— Muito bem, só precisamos colocar o corpo em uma dessas malas e enchê-la com pedras para fazer peso. Aí, hoje à noite, nós… — Hesito. Nós o quê? Subimos até o topo do penhasco com uma mala pesada pra cacete e a jogamos nas rochas escarpadas embaixo? Roubamos um barco e o levamos até o meio do Oceano Pacífico e o descartamos lá? Todas essas coisas são fáceis na teoria, mas, quando estou prestes a proferi-las em voz alta, parecem ridículas. Como conseguiríamos carregar a mala até o topo da colina no breu total? Seria pedir para um acidente acontecer. E roubar um barco? Não sei nem como começar a fazer isso. Mesmo que de alguma forma conseguíssemos pôr as mãos nas chaves de um barco, nenhuma de nós saberia dirigi-lo. É assim que se fala? Dirigir? Ou você pilota um barco? Não tem jeito.

— Nós o quê? — pergunta Ma, os olhos arregalados de ansiedade. Não consigo admitir que não tenho a porra de uma mísera ideia do que vamos fazer daqui para a frente.

Meu celular apita com uma mensagem de texto. Resmungo, lembrando que estou superatrasada para chegar à suíte da noiva.

Seb [11:35]: Ah, não, alguém contou à noiva que o noivo e os padrinhos estão

bêbados como gambás e ela mandou a madrinha principal para a suíte do noivo.

Seb [11:36]: Aaah, a madrinha está acabando com eles. Sério, que imbecis.

Seb [11:40]: Ah, meu Deus, parece que eles só pararam de beber, tipo, às nove da manhã. Não é de espantar que os babacas ainda estão desmaiados! !

Meddy [11:41]: Isso significa que tenho mais tempo antes de correr para a suíte da noiva?

Seb [11:41]: Tem, sim, acho que ela não vai acabar o esporro tão cedo. Mas você está perdendo um showzão.

Meddy [11:42]: Vou praí daqui a pouquinho.

Enfio o celular no bolso de novo, a cabeça zumbindo, e, com um clique praticamente audível, tudo começa a fazer sentido. Os padrinhos desmaiados. Os engradados de álcool na cozinha. O evento começa com um coquetel assim que o resto dos convidados chegar.

— Já sei! — grito.

As três mulheres me encaram, intrigadas.

— Já sei o que fazer! Esqueçam a mala e tudo o mais. Vamos esconder o corpo à vista de todos. Vamos fingir que ele é um dos convidados bêbados e então, de noite, quando todo mundo estiver ocupado na festa, podemos levar o corpo para o cais. Ninguém vai reparar em mais um cara bêbado. Assim que a barra estiver limpa, jogamos o corpo na água. Mesmo se ele aparecer na praia, vão só pensar que ele estava bêbado, caiu na água e se afogou.

— Eles não vão saber há quanto tempo ele morreu? — pergunta a Quarta Tia.

— No CSI, eles conseguem descobrir isso, sabe.

— Bem, tecnicamente, ele só está morto há… sei lá, menos de dez horas?

Porque, sabe, ele não estava morto quando foi colocado no cooler… — Minha voz

falha pois, sinceramente, quando coloco nesses termos, a completa barbaridade de toda a situação é estarrecedora. Pobre coitado. Ele era um bosta, mas não merecia morrer desse jeito.

— Ah! Sim, sim, bem pensado, Meddy. Sim, é como se fosse peixe de restaurante, sabe, que fica vivo em aquário até alguém matar antes de comer… —

Ma para de falar quando percebe nossos olhares de quem não está entendendo nada. — Não importa, é nada igual — completa.

No entanto, adoro o fato de ela ter se esforçado.

— Bom, tenho quase certeza de que ficar na água por um tempo vai atrapalhar a autópsia, ainda mais o tempo estando tão quente nesses últimos dias. Uhul, aquecimento global! — Dou um viva sem graça. Ruim para o meio ambiente, bom para os assassinos.

— Isso não má ideia — diz a Grande Tia. — Não boa ideia, mas nós encurraladas aqui, não podemos sair da ilha sem chamar atenção, então sem outra opção. Ok, Meddy, bom trabalho, vamos executar sua ideia.

Tenho que morder o lábio para não abrir um sorriso de orgulho. É quase impossível obter a aprovação da Grande Tia e, por um momento fugaz, tenho vontade de alardear o acontecido para Selena. Depois me dou conta de que nunca vou poder alardear isso para ninguém. Não é como se eu pudesse mandar um WhatsApp para Selena dizendo “A Grande Tia aprovou minha ideia de como ocultar um cadáver!!!”.

Não acredito que estou sentada aqui mentalmente me gabando desse momento. Devo estar desidratada.

— Acho melhor nos livrarmos do cooler nesse meio-tempo. Tipo, inventar uma manobra de distração, sabem?

— Manobra de quê? — pergunta a Grande Tia.

— Uma pista falsa, algo para enganar as pessoas. Por exemplo, pensei em encher o cooler com comida de verdade. Aí, se alguém estiver desconfiado, e acho

que todo mundo na recepção deve estar, podemos dizer “Não é nada, tem só comida aqui dentro, está vendo?”.

A Grande Tia assente.

— Ok, sim, boa ideia, essa pista falsa. Vou até cozinha trazer ingredientes que estão sobrando.

— Vamos levar o corpo primeiro, depois tenho que ir para a suíte da noiva tirar fotos.

Todas nós nos levantamos, sentindo o ambiente do quarto ficar mais sombrio, e cercamos o cooler.

— Abra — diz a Quarta Tia.

— Por que eu? Abra você! — exclama Ma.

— Eu abro — me intrometo. Tem que ser eu. A bagunça é culpa minha. O

mínimo que posso fazer é abrir essa merda. Eu me aproximo só um pouquinho e, quando estendo o braço direito, parece que a pele da minha mão faz força para me impedir. Ai, meu Deus, lá vai…

Abro de uma só vez e recuo rápido, tremendo.

Minha mãe e minhas tias esticam o pescoço para a frente.

— Está muito ruim? — pergunto, me colocando atrás delas. — Ele está… argh, escorrendo?

— Hum — diz a Quarta Tia.

— Humm — murmura a Grande Tia.

— Meus lírios — lamenta Ma, suspirando.

Isso é impossível. Eu me meto no meio delas e olho. Hum. Quer dizer, no que concerne a cadáveres, podia ser pior. A primeira coisa que noto é como ele está pálido, o que era de esperar. Na teoria, eu sabia que ele não estaria com as bochechas rosadas, mas mesmo assim ver isso com os próprios olhos é um pouco chocante.

— Muito bem. Vamos em frente. — Ninguém se mexe.

A Grande Tia começa a dar ordens:

— San Mei, você pega braço esquerdo, Si Mei, você pega direito, Meddy, você pega perna esquerda. Eu pego perna direita. — Nós três aceitamos. Graças a Deus temos a Grande Tia. Mas nenhuma de nós se mexe, nem mesmo a matriarca.

Ninguém quer tocar um cadáver. A Grande Tia bate palmas com força e ruge: —

Cepat! — E todas avançamos. Chegou a hora. Não me permito pensar duas vezes antes de agarrar uma das pernas, logo abaixo do joelho.

Ai, meu Deus, ai, meu Deus. Estou tocando no corpo. Argh. O que quer que eu pensasse sobre cadáveres e como seria tocar em um, o ato de verdade é um milhão de vezes pior. O rigor mortis deve estar acontecendo, porque ele está muito rígido. É

como se ele estivesse contraindo todos os músculos. O que é um pensamento absolutamente esdrúxulo, pensar nele contraindo qualquer coisa.

— Muito bem, agora levantar — ordena a Grande Tia, e assim fazemos, simultaneamente.

Então Ah Guan arrota. Todas nós gritamos, deixamos o corpo cair e passamos umas por cima das outras para nos afastarmos dele. Ficamos amontoadas na outra extremidade do quarto, ofegantes e encarando o cooler aberto.

— Ele está vivo? — grita a Quarta Tia.

— Ah Guan, ahn, sou eu, Tia Natasya. Olá, Ah Guan? Você acordado ou não?

— diz Ma, sorrindo de um jeito meio louco, como se ele pudesse vê-la dali.

Sou a primeira a imaginar o que deve ter acontecido.

— Acho que é só o ar preso dentro dele saindo. Faz parte do processo de morrer.

Todas me fitam com uma mistura de horror e admiração.

— Meddy, como você sabe essas coisas? — pergunta Ma.

Dou de ombros.

— Internet? Sei lá, a gente aprende um monte de coisa aleatória navegando na internet. — Ou, para ser mais precisa, passando as noites se entupindo de batata

chips e debatendo no Reddit.

A Grande Tia assente, ainda com um ar chocado.

— Muito bem, Meddy, você estuda bastante.

E novamente uma parte de mim quer se gabar: “A Grande Tia acha que estudo bastante!” Mas é só uma pequena parte. Minúscula.

Ma praticamente incha de orgulho quando a Grande Tia diz isso, e a Quarta Tia revira os olhos.

— Muito bem, vamos fazer de novo — digo, encorajada pelo meu conhecimento. — E não fiquem chocadas se ele arrotar de novo. Ou peidar.

Fazendo uma careta, voltamos na ponta dos pés para perto do cooler. Acho que estamos andando na ponta dos pés porque, apesar de racionalmente sabermos que estou correta sobre os gases escapulindo de um corpo morto, ainda meio que esperamos ele saltar para fora do cooler e, sei lá, nos atacar por tê-lo assassinado. O

que não faz absolutamente nenhum sentido, mas é difícil seguir a razão quando se está prestes a carregar um cara que você matou na noite anterior.

— Certo. Todo mundo pega um dos membros. — Dessa vez, elas efetivamente fazem o que mandei. Acho que nunca mandei a Grande Tia fazer qualquer coisa, e é uma sensação incrível quando ela pega a perna direita de Ah Guan. Nós o erguemos de novo e, dessa vez, não sai nenhum barulho do corpo, graças a Deus.

Cambaleamos em direção à cama mais próxima e o soltamos em cima dela, depois recuamos e examinamos nosso trabalho.

— Se for para fingir que Ah Guan é um convidado bêbado, precisamos limpá-lo um pouco. — Felizmente, não há muito sangue nele. Apenas um pouco de sangue seco que escorreu do ouvido na lateral do pescoço. Assim que limparmos e o vestirmos com um terno e óculos escuros, ele vai ficar devidamente disfarçado.

Um terno. Óculos escuros. Onde diabos vamos encontrar essas coisas?

— Precisa arrumar roupa melhor para ele — diz Ma, como se lesse minha mente.

— Roupa melhor? Você quer dizer um terno? — pergunta a Quarta Tia. —

Onde vamos conseguir um terno?

— Não é ideia ruim — elogia a Grande Tia.

Ela pegou um palito de algum lugar (a Grande Tia sempre tem um estoque de palitos) e está limpando as unhas. Ela sempre tem açúcar e pasta americana e outras coisas embaixo das unhas, o que faz sentido. Em geral, acho meio nojento vê-la limpar as unhas, mas agora traz uma calma surpreendente. Tipo, o céu pode estar desabando e pode haver um cadáver na minha cama, mas, por Deus, a Grande Tia vai estar com as unhas limpas. — Eu consigo arrumar terno.