Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 23 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 20

Olho para ela, boquiaberta, pasma.

— É Maureen Halim.

 

20

— Quem é Maureen Halim? — pergunta a Segunda Tia, voltando para o quarto.

— A madrinha — respondo, atordoada.

Por que Maureen estaria ligando para Ah Guan? Assim que penso nisso, chega uma mensagem de texto.

Maureen [13:32]: Cadê vc, porra???

Maureen [13:32]: Tá tudo pronto!

Maureen [13:33]: Isso foi ideia sua, não me diga que vai dar para trás agora!

Dando para trás no quê? Meus dedos se movem mais rápido do que minha mente, e, antes que eu perceba, digitei uma resposta.

Ah Guan [13:33]: Não vou dar para trás, mas não posso falar agora.

Maureen [13:34]: Não pode falar?! Você tá de sacanagem comigo?

Ela liga de novo e, dessa vez, atendo. Não preciso falar nada antes de ela engatar um sermão. Nem preciso colocar no viva-voz; no quarto pequeno e silencioso, a voz de Maureen sai dolorosamente clara.

— Seu imbecil, é melhor você vir aqui agora e pegar essa merda ou vou dedurar você. A porta está destrancada. Estou indo para o restaurante antes que percebam que eu sumi. Mexa. Esse. Rabo. — Com isso, ela desliga, e fico encarando o telefone.

— Nossa, essa Maureen, muito irritada — fala a Segunda Tia atrás de mim. —

Precisa fazer tai chi.

— Acho que preciso ir atrás desse negócio que o Ah Guan tinha que pegar para ela não perceber que ele morreu — digo com a voz fraca.

— Vou com você — diz a Segunda Tia. — Já fiz meu tai chi, então muito calma agora. Você precisa de alguém calmo.

Errada ela não está. Agradeço e saímos do quarto.

— Para onde vamos?

— Bem, quando eu saí, Maureen estava na suíte da noiva, então acho que vou começar por lá. — Há uma suspeita desagradável se formando na minha mente enquanto andamos, e espero com todas as forças que não seja o que estou pensando. Porém, quando chego à suíte da noiva, a porta está entreaberta, mas o ferrolho está para fora; dessa forma, a porta não bate automaticamente ao fechar.

Meu estômago está revirando, mas me obrigo a bater e chamar:

— Maureen? Você está aí?

Nenhuma resposta. Abro a porta ligeiramente para espiar lá dentro.

— Maureen?

Silêncio ainda. A Segunda Tia escancara a porta. Ou tenta, pelo menos. Alguma coisa está bloqueando nossa passagem. Trocamos um olhar e empurramos com mais força, até que o espaço seja grande o suficiente para que possamos passar. O objeto que encontramos atrás da porta é uma pesada bolsa de viagem. Eu me agacho, abro o zíper e…

— Ahhh, merda. — Suspiro.

— O que é? O que tem dentro… Ah.

Inspiro entre dentes cerrados.

— Os presentes da cerimônia do chá.

***

— Waaah, esse aqui é lindo — exclama a Quarta Tia, abrindo uma caixa de veludo e encontrando um colar de brilhantes. Ela o acaricia com tanta adoração quanto uma mãe fazendo carinho em seu recém-nascido. — Não posso ficar com um?

— Não! — grito, arrancando a caixa dela. Eu a fecho com força e a coloco de volta na bolsa de viagem. Quando olho para trás, a Segunda Tia ergue o olhar com ar de culpa. Ela está fazendo tai chi no meio do meu quarto de hotel, e num dos braços esticados está uma grossa pulseira de ouro Cartier; no outro, um relógio Patek Philippe. — Segunda Tia!

— Não vou ficar com eles — murmura ela. — Só quero ver como ficam quando faço tai chi. — Ela muda para uma pose diferente. — Pose “agarrar cauda de pássaro”. Aaah, fica bonito, não?

A Quarta Tia faz um gesto de aprovação.

Estendo a mão ao me aproximar dela.

— Devolva.

— Estraga-prazeres. — Ela tira os itens e, fazendo bico, joga-os na minha mão.

— Eu… ou melhor nós… precisamos descobrir o que diabos está acontecendo. — Ando pelo quarto. — Tudo bem, então parece que Maureen e Ah Guan de alguma maneira se conhecem e planejaram roubar os presentes da cerimônia do chá. Maureen deslocou os presentes das caixas para a bolsa, e Ah Guan precisava pegar tudo, o que fizemos no lugar dele, e agora… agora o quê?

— Beba um chá, Meddy, você está ansiosa demais — diz a Quarta Tia, me passando uma xícara fumegante do meu chá preferido, Tie Guan Yin.

— Chá tem cafeína, deixa Meddy ainda mais agitada. Melhor fazer tai chi, Meddy. Venha, faça comigo. — A Segunda Tia tira a xícara de chá da minha mão e a coloca na mesa antes de iniciar uma pose de tai chi. — Acariciar Crina de Cavalo Selvagem — diz ela, esticando as duas mãos.

Isso é impossível.

— Vou para a varanda pensar. — Caminho depressa até o lado de fora e fecho a

porta de correr. Apoiada no parapeito da varanda, solto um longo suspiro. Na minha frente está a vista das montanhas, que é uma maneira simpática de dizer “não é a vista do mar”, mas contemplar todas as árvores e o verde me acalma. Certo.

Então Ah Guan era um merda ainda maior do que eu pensava. Fecho os olhos.

Vamos fingir ser ele por um segundo. Estou com uma bolsa cheia de presentes caros. O que eu faço?

Saio da ilha o mais rápido possível.

Eles haviam nos mandado um e-mail com detalhes da viagem. Pego meu celular e abro o e-mail, rolando para baixo até encontrar “Horários dos barcos para os fornecedores”. Dito e feito, há um barco programado para sair em quinze minutos.

O próximo sai em seis horas. Ah Guan ia querer sair de lá o mais rápido possível.

Mas como ele faria para tirar a bolsa na surdina?

Os lírios. Ele deveria ter chegado aqui com caixas de lírios. Acho que ele poderia simplesmente enfiar a bolsa em uma dessas caixas e ninguém ia perceber.

Certo. Então provavelmente o plano era esse. Agora que descobri, o que eu faço?

Peguei a bolsa porque não queria que Maureen descobrisse que ele não está aqui.

Achei que talvez fosse melhor manter a aparência de que ele ainda está vivo. Mas, se eu seguir com o plano, significa que eu estaria roubando de Jacqueline e Tom. E

eles não merecem isso. Já sou uma assassina: não quero de jeito nenhum adicionar

“ladra” à minha lista cada vez maior de crimes.

Vou devolver os presentes a eles. Só preciso descobrir como. Não posso exatamente ir até Jacqueline e lhe contar que sua madrinha é uma ladra desgraçada e mentirosa, porque aí teria que explicar como obtive essa informação. Talvez eu pudesse só deixar a bolsa do lado de fora da suíte da noiva? Mas então Maureen saberia que alguma coisa deu errado na parte de Ah Guan. Argh. Tudo bem. Vou resolver isso de alguma forma. Nesse meio-tempo, só vou ficar com um maldito corpo e uma bolsa cheia de objetos roubados no meu quarto.

Alguém bate à porta de vidro. Abro, e a Quarta Tia diz: