Disque T para titias
Capítulo 21
— Você vai ficar aqui um tempo, não vai? Er Jie e eu vamos almoçar. Estamos morrendo de fome.
— Ah. Sim, claro. Vão. Obrigada por olhar o… você sabe… enquanto eu não estava aqui.
— Lógico, para isso que serve família — diz a Segunda Tia.
Elas calçam os sapatos, me dão tchau e saem do quarto. Volto para dentro, fechando a porta da varanda, e tomo um gole do chá que a Quarta Tia fez para mim.
Com um suspiro, caio na outra cama, fitando Ah Guan. Ou melhor, o volume coberto pelo edredom. Ah, meu Deus, acabei de me tocar que uma de nós vai ter que dormir nessa cama que foi ocupada por um morto por tanto tempo.
Inconcebível. Eu vou só… vou dormir na banheira. Ou com Ma. Ou no chão. Em qualquer lugar, menos na cama onde o cadáver de Ah Guan está esfriando. Olho para o pé com meia saltando para fora. É surreal que haja um humano de verdade embaixo daquilo. Um humano que eu matei. E lá, na mesa, a mala. Eu a pego e a guardo dentro do armário. Parece errado deixar uma mala cheia de dinheiro e joias roubadas à vista assim.
Bem quando estou fechando a porta de correr, ouço outra batida à porta. Sem pensar, eu a abro, falando:
— Você esqueceu alguma coisa, Quarta… — A última palavra fica engasgada na garganta. Porque lá, parado na minha frente, não estão a Quarta Tia nem a Segunda Tia.
Está Nathan.
21
— Nathan! — exclamo, torcendo para que aquilo tenha saído mais
“agradavelmente surpresa” do que “chocada e apavorada”. Não que eu fosse ficar chocada ou apavorada por vê-lo sob circunstâncias normais, ou seja, quando eu não tivesse um morto e uma bolsa cheia de coisas roubadas na minha suíte de hotel.
Deslizo para fora do quarto e fecho a porta, e só então respiro com mais facilidade.
E lá está ele. Meu Nathan.
— Oi.
— Oi — diz ele, sorrindo para mim como se eu fosse a única pessoa que ele quisesse ver no mundo inteiro. Ele tem esse efeito nas pessoas desde os tempos da faculdade. Ele sorria para a caixa no Safeway, e a garota se derretia. — Eu tinha algum tempo livre. Tudo bem, não tinha. Na verdade, eu arranjei um tempo…
Meddy, não consigo parar de pensar em você.
— Eu também. — Tecnicamente, é uma mentira. Não consegui parar de pensar no cadáver. Mas também não é exatamente uma mentira, já que passei os últimos quatro anos obcecada por ele. Acho que era isso que ele queria ouvir, porque, quando me dou conta, os braços dele envolvem a minha cintura, me puxando para perto. Ele para, os lábios a apenas um único e solitário centímetro dos meus, e o desejo dentro de mim toma conta, me fazendo acabar com a distância.
Cada beijo que damos rouba meu fôlego, faz o mundo parar de girar, e esse não é diferente. O tempo para, as moléculas de ar congelam e, naquele momento, não existe eu, ele nem nada mais. Só nós. Eu o beijo avidamente, e ele me beija de volta
com o mesmo ardor. Meus lábios se abrem de leve, e ele desliza a língua para dentro da minha boca. O calor invade minha barriga. Nunca estou saciada dele. Seu gosto é inebriante, o toque delicado da língua dele na minha me deixa fora de órbita. Suas mãos me seguram com força, de forma dominante, e quando uma delas se move para segurar meu seio, arqueio as costas como um gato, enchendo a palma da mão dele, sentindo minha pele queimar com seu toque. Meu Deus, eu o quero tanto.
— Podemos ir lá para dentro? — murmura ele, os lábios traçando as palavras contra meu pescoço, me fazendo gemer de desejo. Eu o envolvo com os braços ainda mais apertados, as palavras saindo da minha boca sem muito significado.
Dentro. Onde poderíamos arrancar as roupas um do outro, pele beijando pele, o calor dele contra o meu, dentro de mim…
Dentro. Onde jaz o cadáver de Ah Guan, esfriando. Meus olhos se abrem de repente. Parece que levei um choque. Todos os meus músculos estão tensos, e fico petrificada.
— Para dentro? — guincho.
Nathan se afasta um pouco. Procura os meus olhos.
— É, eu pensei… — Ele cora. — Desculpa se estou indo rápido demais…
— Não! Não, não está. Eu quero muito, muito, ir lá para dentro com você.
Você não faz ideia de quanto eu fantasiei sobre isso. É só que… Merda, na verdade, eu acabei de me trancar por fora. — Tateio os bolsos à procura do cartão-chave.
Nem estou mentindo. No meu pânico de fechar a porta quando descobri que Nathan estava ali, esqueci de pegar a chave na mesa.
— Ah. Tudo bem, eu tenho a chave-mestra. — Ele tira um cartão do bolso e sorri. — Olha, eu sei que isso está indo muito rápido, mas, bem… na verdade, eu adoraria só poder sentar com você e conversar. Ficamos tanto tempo longe um do outro e, para ser sincero, ainda não entendo por que terminamos. Eu enlouqueci tentando descobrir o que fiz e não quero cometer o mesmo erro agora.
— Você não fez nada. Não foi nada que você fez.
A confusão atravessa o rosto dele.
— Eu estava com muito medo de ir para Nova York com você e surtei. Queria ficar e ajudar no negócio da minha família, mas não queria correr o risco de você desistir da oferta de emprego. Pois é. Foi o maior erro da minha vida. Sério, eu me arrependo todos os dias por ter deixado você ir.
Nathan sorri e, nossa, é lindo. É como se anos fossem subtraídos do rosto dele.
— Então… eu não estraguei tudo?
— Deus, não! Você era o amor da minha vida. Quero conversar também, direitinho…
Ele passa o cartão-chave na porta antes que eu possa falar “mas”, e a luz sobre a maçaneta muda de vermelha para verde. A fechadura desliza com um clique, e Nathan abre a porta para mim. Meu coração para. Todo o meu ser congela.
Mas, em vez de entrar como achei que ele iria, Nathan continua do lado de fora.
Ele vê meu olhar surpreso e confuso e sorri com tristeza.
— Está óbvio que você está insegura, Meddy. E não vou forçá-la a fazer nada que você não queira. Temos todo o tempo do mundo depois desse fim de semana para conversar sobre nós. — Ele pega minha mão, envolvendo-a com seu calor, e a leva aos lábios. Meus joelhos ficam bambos quando ele beija minha mão com uma reverência delicada. — Por você vale a pena esperar. — Ele enfia uma mecha rebelde de cabelo atrás da minha orelha e passeia os dedos da minha bochecha até o meu pescoço, me fazendo estremecer de prazer.
— Depois desse fim de semana — prometo —, vou ser toda sua, e prometo que vou explicar tudo sobre a minha família e por que fui tão idiota e arruinei as coisas com você.
O sorriso dele ilumina seu rosto. É o mesmo velho Nathan, o garoto por quem me apaixonei perdidamente tantos anos atrás, e é como assistir ao nascer do sol. Eu o beijo novamente, querendo muito memorizar cada curva deliciosa de sua boca, seu gosto viciante. Quando nos separamos, estamos os dois sem fôlego de novo.
Deslizo de volta pela porta, quase salva. Seu olhar se movimenta para algum lugar atrás do meu ombro, e seu sorriso congela.
— Aquilo é…? — Uma ruga surge em sua testa enquanto ele estica o pescoço para espiar pela fresta da porta. Quando fala novamente, sua voz perde todo o calor, e ele olha para mim como se eu fosse uma estranha. — Tem um homem na sua cama?
Uma supernova explode na minha cabeça. Ah, meu Deus, ele viu o corpo. ELE
VIU O CORPO.
Em vez de uma expressão de terror, entretanto, o que se instala no rosto de Nathan é decepção.
Ele ri meio constrangido.
— Achei que você não estivesse saindo com ninguém, mas… — Ele ri novamente, um som totalmente sem humor, e é insuportável ver a expressão em seu rosto. Traição. Meu coração se aperta ao ver aquilo. Uma pequena parte de mim insiste que isso é pior, muito pior do que um choque de horror. Uma pequena parte de mim quer gritar: “Não! Não é meu namorado! É só o cara de um encontro às cegas que eu matei ontem à noite; ele não significa nada para mim, juro! Eu nem sabia o nome verdadeiro dele antes de matar o cara!”