Disque T para titias
Capítulo 29
— Ah, Tuhan — murmura ela. — Está tudo bem. Está tudo bem.
Não está tudo bem. Estou prestes a ser presa. Observo, petrificada, cada parte de mim inerte, enquanto o delegado McConnel sai do altar e vai para o corredor.
Vindo direto na minha direção.
Mas ele para na frente de Nathan e anuncia, com uma voz estrondosa que combina com o tempo:
— Nathan Chan, você está preso pelo assassinato deste homem. — Ele puxa
um par de algemas com prazer e, sorrindo orgulhoso, as fecha nos pulsos de Nathan.
29
O delegado McConnel mal dirige o olhar para mim e para Ma quando passa por nós, as mãos carnudas nos ombros de Nathan.
Nathan tem os olhos arregalados, mas sussurra quando me vê:
— Vai ficar tudo bem.
E eu fico…
Eu fico…
Furiosa. Será que Nathan me acha tão patética a ponto de precisar me consolar enquanto ELE está literalmente algemado? Por que as pessoas à minha volta sempre querem resolver todos os meus problemas? Será que irradio incompetência? Desamparo? Já cansei dessa atitude. Balanço inquieta. Quero berrar com Nathan, falar para ele parar de me proteger, parar de me tratar como se eu fosse uma coisa frágil, porque não sou. Quero descontar em alguém, qualquer um, e infelizmente a pessoa mais perto de mim no momento é minha mãe.
Minhas tias aparecem na porta do hotel, imóveis e boquiabertas, enquanto todos os seguranças saem em fila, seguindo Nathan.
— Vai ficar tudo bem — diz a Grande Tia em indonésio, ao se aproximar, a voz cheia de insegurança, e eu aproveito. Aproveito a chance de gritar com alguém.
— Não vai ficar tudo bem! — berro. — Não vai ficar, parem de dizer que vai, porque não vai! Eu não queria que nada disso acontecesse. Eu só queria que… Eu só… — Eu só o quê? O que eu teria feito sem a minha família? Estaria presa em casa com um cadáver no meu carro e sem conseguir me explicar. Mas talvez tivesse
sido melhor. Qualquer coisa teria sido melhor do que Nathan ser preso por algo que eu fiz.
— Meddy, você está chateada, eu sei, mas só estamos tomando conta de você
— argumenta Ma.
Eu me esquivo quando ela estende a mão para mim, e a dor que rasga seu rosto me enerva ainda mais.
— Eu não preciso que a senhora tome conta de mim. Não sou mais um bebê, Ma. Meu Deus, tudo isso é um fardo muito grande!
Elas ficam perplexas com a palavra que começa com “F”. É seu pior pesadelo, ser um fardo para os filhos.
— Meddy, como você pode falar isso? — pergunta a Grande Tia em inglês, o peito estufando. — Nós somos família, trabalhamos juntas, sempre estamos perto, ajudando a outra.
— Sim, e é exatamente esse o problema. Sempre estamos perto uma da outra.
Não sei como é a vida sem vocês. Tive uma amostra quando fui para a faculdade, aí voltei para casa e agora faço parte do pacote de novo. Não sei quem eu sou sem todas vocês no meu pé. Nem sei se quero ser fotógrafa de casamento, mas não posso realizar minhas próprias coisas, não posso abandonar o negócio da família, porque vocês sempre falam sobre sacrifício e quanto se sacrificaram por mim, então é isso, o ciclo do sacrifício que continua, e continua, e continua.
Elas parecem ter levado um tapa.
— Você não quer ser fotógrafa de casamento? — sussurra Ma.
— Eu detesto casamentos! — exclamo.
Elas dão um passo vacilante para trás, os rostos brilhando de horror.
— É verdade, eu detesto…
— Isso não é verdade. Eu já vi como você olha para os vestidos de casamento
— diz a Quarta Tia. — É como se você sentisse tesão por eles; na verdade, é bem perturbador.
Suspiro.
— A senhora tem razão, eu amo algumas coisas nos casamentos. Amo as noivas; adoro ver como elas ficam lindas e felizes usando um grande vestido branco.
Mas todo o resto, todo o resto eu detesto. Detesto que os noivos ficam loucos pela expectativa irreal de que o dia precisa ser perfeito. Detesto que tenha se transformado em uma indústria que faz as pessoas gastarem muito mais do que deveriam, e detesto o fato de que nossa família faz parte disso!
Todas elas ficam em silêncio.
— Então está dizendo que nós prendemos você? — pergunta Ma depois de um tempo.
Não respondo. Não posso. O que quer que eu diga, não será suficiente. Não será correto. Não é um não, mas também não é um sim. E, no fim das contas, só posso culpar a mim mesma. Meus primos cresceram no mesmo ambiente e conseguiram ir embora, bater as asas. Eu sou a única que continuo dentro do ninho, e certamente isso prova que a culpa é só minha.
Depois de uma eternidade, balanço a cabeça.
— Eu não culpo a senhora. — Isso também não é totalmente correto. Eu culpo a todos, incluindo a mim mesma.
Ma começa a chorar, e imediatamente todas as minhas tias, incluindo a Quarta Tia, a abraçam. Elas murmuram palavras reconfortantes em indonésio para a irmã:
— Está tudo bem, ela é só uma criança, não sabe o que está falando.
— Meu Hendra também dizia coisas assim, está tudo bem.
— Essas crianças, elas só vão entender do que abrimos mão quando tiverem seus próprios filhos.
Isso é o que sempre acontece quando alguém da minha geração ousa responder os pais. Eles se unem e nos reduzem a crianças birrentas, rejeitando nossas palavras para não furarmos suas armaduras. Uma parte de mim quer berrar até que elas de fato me escutem, mas é óbvio que isso só confirmaria sua crença de que eu não
passo de uma criança boba.
Fecho os olhos e respiro fundo antes de falar:
— Sinto muito, Ma, eu não quis magoar a senhora. Só… por favor. Não tente me ajudar aqui. Voltem para o quarto e eu cuido disso. Eu amo todas vocês, mas é hora de eu crescer e limpar minha barra sozinha.
Os olhos de Ma encontram os meus, e, apesar da dor que vinca seu rosto, vejo compreensão surgir na expressão dela. Mas está embaixo de uma coberta de tristeza e raiva. Ela não fala uma palavra, apenas balança a cabeça, decepcionada, e deixa minhas tias a guiarem até o quarto. A Grande Tia me fita, brava; a Segunda Tia está ocupada consolando Ma, e até mesmo a Quarta Tia não tem nada desagradável para dizer à minha mãe, o que me dá a certeza de ter partido o coração de Ma.
Ainda assim, fico firme e não as sigo. Porque sempre fui atrás delas, e aí acabo pedindo desculpas e prometendo que não vou mais ser uma filha de merda, e foi assim que acabei, aos vinte e seis anos, ainda morando com minha mãe e passando meus fins de semana fotografando casamentos imensos e fingindo amar a produção toda.
Não. Tenho coisas mais urgentes para resolver. Como Nathan. Pensar nele me mobiliza ainda mais. Caminho resoluta em direção ao edifício principal, subindo os imponentes degraus de pedra até a recepção. Lá, encurralo um recepcionista e pergunto para onde levaram Nathan.
— Não tenho autorização para informar, senhora — diz ele, com delicadeza, mas percebo um quê de hesitação. De súbito, a imagem da Grande Tia me vem à mente. A Grande Tia, que caminha com as costas absolutamente eretas e o queixo sempre empinado. A Grande Tia, que sempre consegue fazer as pessoas a escutarem. O que ela diria? Levanto o queixo e olho para ele de forma imperiosa.
— Entrei em contato com a polícia de Los Angeles e eles disseram que o delegado não tem jurisdição para prender ninguém. Não vou ficar parada e deixar aquele idiota debochar do sistema de justiça, e nem você. Você não vai me obstruir.
Agora me leve até onde estão mantendo Nathan. — Obviamente não dou a mínima para o sistema de justiça, mas pareceu ser uma boa expressão para despejar na minha fala.
Depois de um instante de hesitação, o recepcionista diz:
— Ele foi levado lá para cima. Para o escritório do sr. Chan. O delegado disse que a tempestade está ficando ruim demais para ele dirigir.
— Ótimo. Me leve lá. Agora — acrescento quando o recepcionista abre a boca.
— Imediatamente, senhora. — Ele se apressa para sair de trás do balcão e acena com a cabeça para eu segui-lo. Assim que ele se vira, encolho um pouco. Não acredito que funcionou. Incorporei minha Grande Tia interior e agora estou sendo conduzida até Nathan. Ufa, eu deveria fazer isso com mais frequência. Essa sensação é bem viciante, na verdade.
Ele me guia através de uma porta lateral até um elevador exclusivo para funcionários. Entramos, e ele usa seu cartão-chave para chegar ao último andar.
Tento manter o ar de autoridade, o que é muito mais difícil no silêncio mortal do elevador. Preciso me policiar para não suspirar com um alívio óbvio quando as portas finalmente se abrem.
O andar superior abriga inúmeros escritórios. Nunca havia estado nessa parte de nenhum hotel, mas acho que faz sentido que grandes resorts tenham escritórios para fiscalizar o funcionamento das coisas. O recepcionista me guia por meia dúzia de escritórios até chegar ao fim do corredor. Um segurança está parado do lado de fora. Quando ele nos vê, muda a postura para parecer que está em posição de sentido.
— Oi, Dave — diz o recepcionista. — Esta é… ahn…
— Sou Meddy, advogada do Nat… do sr. Chan.
O segurança arregala os olhos.
— Graças a Deus a senhora chegou — sussurra ele. — Eu nem sei… Por que me mandaram vigiar o escritório dele? Não acredito nem por um segundo que o sr.
Chan fez isso.
Assinto para ele, inspiro profundamente e passo pela porta.
O delegado McConnel está sentado atrás da mesa de Nathan, com Nathan empoleirado em uma cadeira na frente dele.
— O que é isso? — indaga o homem, me olhando de alto a baixo de um jeito lascivo que me faz ter vontade de tomar um banho quente e prolongado para me limpar.
— Esta é a advogada do sr. Chan — apresenta o segurança.
O delegado McConnel ergue as sobrancelhas. Ele me encara novamente, mas, dessa vez, o olhar está muitos graus menos lascivo e demonstra mais descrédito, como se não acreditasse que alguém com a minha aparência pudesse ser advogada.
Estou prestes a me ofender quando percebo que, bem, ainda estou com a minha roupa toda preta de fotógrafa e tão ensopada que pareço um pinto molhado. Meu cabelo está pingando água na toalha. Ai, Ma e minhas tias estavam certas. Preciso da ajuda delas. Sempre precisei da ajuda delas. Elas não estavam me prendendo. Eu já atingi meu potencial. É isso, esse é o meu auge — como fotógrafa de casamentos para o negócio da família, sempre protegida do mundo pela minha família.
Mas há um brilho no rosto de Nathan. Algo que já vi antes, muitos anos atrás, quando ele me convidou para ir para Nova York com ele. Apenas uma faísca, mas ainda está lá. Esperança pura, intensa. Minhas bochechas queimam. Mesmo depois desse tempo todo, mesmo depois de tudo, ele ainda tem esperança em nós. E eu…
Eu sinto. Vibrando profundamente dentro do meu peito, como se estivesse acordando de um sono profundo. Esperança. Eu a bloqueei pelos últimos quatro anos, deixei de lado qualquer pensamento de ser independente, disse a mim mesma que estava sendo burra, egoísta ou pouco realista. Pouco realista — esse sempre foi o meu mantra, transmitido por Ma e minhas tias. “Você tem que ser realista”, diziam elas. Elas precisaram ser pragmáticas a vida toda; não havia espaço para
sonhos e idealismo. “Olhe só a Quarta Tia”, argumentava Ma. Ela foi atrás de seus sonhos, da Indonésia até Los Angeles, e olhe onde isso a deixou. É isso que acontece quando você é pouco realista, quando deixa o sonho tomar conta.
Mas tudo o que aconteceu nos últimos dias foi pouco realista. Se houvesse uma hora para usar a expressão, seria agora. Minha mãe se passando por mim na internet, isso é bem pouco realista, porra. Eu acidentalmente matar o rapaz do meu encontro. Quer dizer, menos realista impossível. E todas as peças do dominó estão caindo uma por uma — o corpo sendo transportado para cá, o corpo acabando no altar —, tudo isso passa longe de ser realista. Por que ainda estou tentando agir por regras realistas?
Endireito as costas e estico o pescoço. Encaro o delegado McConnel e o vejo pelo que ele realmente é: um peixe fora d’água, completamente perdido sobre o que fazer. Nada assim jamais aconteceu na ilha, e ele está dividido entre a repentina adrenalina do poder e o oceano inteiro do medo. Invisto nesse medo.
— Meu nome é Meddelin Chan, e sou advogada. Do que meu cliente foi acusado? — Minha voz sai como um punho de aço, batendo na mesa.
Há um instante de silêncio, e então o delegado McConnel se inclina para a frente, apoiando os cotovelos na mesa antes de pensar melhor, voltar a se sentar e cruzar as mãos no colo.
— Aham, sim, advogada dele, hein? Você chegou rápido. — Ele faz uma pausa.
— Espere aí, tenho quase certeza de que já vi você por aqui…
— Sim, já estou aqui há um tempo. Estava tratando de uma papelada.
Nathan balança a cabeça de leve, mas não preciso que ele me guie. Não vou deixar o palhaço desse policial me pegar. Eu me inclino para a frente, coloco as mãos na mesa e pronuncio as palavras muito devagar.
— Do. Que. Meu. Cliente. Foi. Acusado? — Esqueça as batidas; meu coração está esperneando. Juro que criou pernas e está dando coices, se chocando sem parar contra as minhas costelas. A qualquer momento, vai sair com tudo do meu peito,
bem ao estilo Alien. Mas, de alguma forma, meu rosto permanece firme, meu olhar inabalável, fixo no delegado McConnel .
Ele muda de posição novamente; descruza e cruza as mãos.
— Certo, sim. Bem. Houve um assassinato.
— Do que o meu cliente foi acusado?
O olhar dele flutua, desviando como uma borboleta assustada, antes de voltar a se fixar no meu rosto.
— Bem, ou seja, é…
— Se ele não foi acusado de nada, então não pode ser mantido preso. Vou tirá-lo daqui agora.
— Bem, então eu o acuso de assassinato!
Merda, merda, merda. De alguma forma, eu o encaro, embora tudo dentro de mim esteja gritando: “Nãoooo, você fez isso, você foi e piorou tudo!”
— Assassinato de quem?
O delegado balança a cabeça de leve, o que me lembra um cavalo.
— Do corpo. Lá embaixo, no altar.
— Então o senhor não identificou o corpo?
— Bem, não, claro que não, isso vai ser elucidado mais tarde…
— Qual foi a causa da morte?
— Eu não…
— Hora da morte?
— Bem, quer dizer…
— Encontrou uma arma com o meu cliente?
— Ainda não…
— Então o senhor não tem a causa nem a hora da morte, mas já prendeu meu cliente. Baseado em quê? — Sério, quem sou eu agora? É como se a Grande Tia tivesse me possuído, e, caramba, está funcionando mesmo. O delegado McConnel está suando como se tivesse acabado de correr uma maratona sob um sol
escaldante. Na verdade, sinto um pouco de pena dele. — Delegado, acho que nós dois sabemos que o senhor deu um passo maior do que as pernas. Pelo menos já solicitou que tirassem o corpo da chuva?
Ele me fuzila com os olhos.
— O protocolo diz que… — Sua voz vai sumindo. É óbvio que ele não tem ideia do que o protocolo diz quando há um corpo misterioso e uma tempestade.
Por um lado, ele deveria deixar cenas de crime o mais intocadas possível. Por outro, a tempestade pode destruir muitas provas.
É bom que ele não saiba qual é o protocolo, porque eu com certeza não tenho a mais vaga ideia. Espero que o protocolo seja o que quer que o delegado McConnel não tenha feito.
— O protocolo diz que o senhor deveria preservar o máximo possível da cena do crime, o que nesse caso significa pedir aos funcionários do hotel que montem algum tipo de cobertura, talvez? Para tentar manter o máximo de água da chuva fora da cena do crime? — digo, como se fosse óbvio, como se não tivesse acabado de tirar aquilo do meu traseiro, e a expressão de Nathan quase me faz soltar uma gargalhada histérica.
Nathan está me olhando como… nem sei como descrever… Como se estivesse testemunhando o mais incrível nascer do sol do mundo, o rosto bonito iluminado de deslumbramento.
— Bem, eu estava prestes a fazer isso quando a senhora interrompeu —
murmura o delegado McConnel .
Olho diretamente para o copo de uísque na frente dele.
— É mesmo? Porque me parece que o senhor estava se acomodando no escritório do meu cliente.
Ele olha para o copo e fica corado, o rosto ganhando tons de tomate.
— Isso era dele.
— Hum. Bem, é óbvio que o senhor falhou em seguir qualquer tipo de
protocolo, então não acho que possa legalmente acusar meu cliente de nada sem provas. — O que são essas palavras saindo da minha boca? Tenho certeza de que qualquer policial legítimo teria percebido meu blefe há muito tempo, mas o delegado McConnel foi pego completamente de surpresa. Seus olhos são círculos perfeitos; sua boca se mexe, mas nenhuma palavra sai. — Então, por fav… então libere meu cliente. Agora — acrescento, quando sinto a necessidade de falar “por favor”, e, para minha surpresa, o delegado McConnel realmente se levanta. Fico tensa, meio esperando que ele, não sei, me agarre, me segure pelo colarinho e me prenda.
Ele anda até o outro lado da mesa, seus passos ecoando no grande escritório.
Aproxima-se de Nathan, que está tentando ao máximo não rir. Pega um molho de chaves, segura as mãos de Nathan e…
Ah, meu Deus. Eu consegui.
O delegado McConnel abaixa as mãos de Nathan. Elas ainda estão algemadas.
Merda. Não consegui. Ele vem atrás de mim. Não vem? O que está acontecendo?
O delegado McConnel enche seu peito de barril.
— Não me importa de qual firma chique de advogados você é, mas aqui é o meu território. E alguma coisa está me cheirando mal. Não sei o que seu cliente aqui fez, mas eu sei que ele fez alguma coisa, e vou descobrir o que é.
— O senhor não pode mantê-lo aqui porque acha que ele fez alguma coisa. Não é assim que a lei funciona. O senhor precisa realmente encontrar uma prova e depois acusá-lo — argumento rispidamente. Pelo menos é assim no CSI.
— Se a senhora tem um problema com a maneira como eu lido com as coisas, pode reclamar com a polícia do continente. — Ele olha para a sala dramaticamente, as mãos em conchas nas orelhas. — Ah, hum, não estou ouvindo o barulho das sirenes, e a senhora? É porque aqueles policiais maricas metidos a besta não têm coragem de vir aqui na tempestade, então parece que eu estou no comando. E eu
digo que ele fica aqui.
— Quando eles chegarem, o senhor vai perder sua licença. — Ou seja lá o que os policiais têm.
O delegado McConnel dá de ombros, seu rosto carnudo se franzindo em um sorriso espertalhão.
— É, eles dizem isso há anos, mas continuo aqui.
O chão está desmoronando. Eu me agarro a qualquer coisa em que consigo pensar.
— Preciso falar com o meu cliente. A sós. Ele ainda tem esse direito.
— Tem mesmo. Cinco minutos. — Assim, o delegado McConnel sai, as mãos enfiadas nos bolsos. Ele está praticamente assobiando de alegria.
Assim que a porta se fecha, afundo no sofá e descanso a cabeça entre as mãos.
Cheguei tão perto. Pensei que tinha conseguido.
— Você foi ótima, Meddy.
Continuo com o rosto enterrado. Não vou suportar ver a decepção estampada no rosto de Nathan.
— Meddy. — Nathan se ajoelha na minha frente, tirando minhas mãos do meu rosto com delicadeza. — Ei — diz ele suavemente. — Aí está você. — Há tanta coisa na expressão dele. Nossa história: cada briga, cada beijo, cada risada, tudo impresso, claro como o dia em seu rosto perfeito.
— Sinto muito. — As palavras saem entrecortadas por soluços. — Fiz uma confusão.
— Não, você ajudou. Ele não teria nos deixado conversar em particular se você não tivesse encenado isso tudo. Quer dizer, foi incrível, todas as coisas que você disse para ele. — Ele ri. — Você estava com tudo.
— Você não entende — sussurro. — Eu… eu fiz aquilo. — Está na hora. A verdade por inteiro. Estou cansada demais de esconder as coisas dele. Eu poderia mentir para o mundo inteiro, mas não para ele. Não para Nathan. — Aquele cara
morto. Fui eu que matei.
Ali está ela, a verdade, saindo da minha boca como uma cobra, contorcendo-se no ar entre nós. Não tiro meus olhos do rosto de Nathan porque quero memorizar a maneira como ele está me olhando. Ele nunca mais vai olhar para mim da mesma maneira, não com essa informação horrível que acabei de deixar cair em seu colo.
Eu me preparo para o pavor que certamente vai dominá-lo assim que minhas palavras forem assimiladas.
Mas o pavor não aparece. Nathan apenas suspira. Então ele fala as duas palavras que me deixam atônita:
— Eu sei.