Disque T para titias
Capítulo 8
A Grande Tia capta o olhar dela e faz um pequeno meneio com a cabeça, e imediatamente a Quarta Tia murcha, exalando um suspiro zangado.
— Façam o que vocês quiserem — resmunga.
É como se houvesse um incêndio debaixo da minha pele. Minhas bochechas estão ardendo. Minha mãe e minha tia estão brigando por minha causa. Quer dizer, beleza, Ma nunca se deu muito bem com a Quarta Tia, e elas discutem em qualquer oportunidade, mas ainda assim é horrível ser o motivo dessa discussão.
A Grande Tia concorda com um gesto.
— Certo, nada de polícia. Venham, vamos ver corpo.
8
Último ano da faculdade, quatro anos atrás
— … e eles dizem que querem doze torres de lírios! — Ma praticamente grita do outro lado do telefone.
— Uau, isso é incrível, Ma — digo, baixando o volume do meu celular para o mínimo. Não consigo ver o rosto dela. Como sempre, ela aponta a câmera muito para cima, de forma que só mostra sua testa e sua franja com permanente.
— Sim, tudo vai tão bem, Meddy. Quando você terminar a faculdade e vier para casa, vai ficar ainda melhor, principalmente quando tivermos fotos de tudo o que fazemos.
Nem preciso forçar um sorriso. O negócio da família tem obtido um sucesso surpreendente mesmo sem mim. Preciso admitir que minha mãe e minhas tias superaram minhas expectativas, ainda que eu tivesse dúvida sobre a ideia no início.
Eu as ajudo aqui e ali sempre que estou em casa, tirando a maior quantidade possível de fotos dos arranjos da minha mãe e dos bolos da Grande Tia. Até criei um site para elas. Não está ruim, mas mal posso esperar para poder passar um bom tempo aperfeiçoando tudo e deixando o site bonito e impactante. Por mais esquisito que seja, estou torcendo de verdade para me formar logo e entrar de cabeça no negócio. Quem imaginaria isso?
Alguém bate à porta. Um segundo depois, vejo a cabeça de Nathan.
Rapidamente me despeço da minha mãe e desligo. Ainda não contei a ela sobre Nathan. Estamos muito perto da formatura. Depois disso, com certeza vou contar
sobre Nathan para minha família, porque ele vai aparecer lá em casa o tempo todo.
Se elas derem atenção a ele toda hora, vou perdê-lo para elas. Então, até lá, decido ser egoísta de novo. Mantê-lo só para mim, apenas por enquanto. Há tempo de sobra para servi-lo aos tubarões. Pelo menos, com a formatura chegando, Nathan parou de perguntar quando vou apresentá-lo à minha família. Ele sabe que não vai demorar agora, por isso pode se dar ao luxo de ser paciente.
— Tenho novidades — anuncia Nathan, as covinhas visíveis ao extremo quando ele entra no quarto.
— É? — Três anos juntos e ainda fico sem ar quando o vejo. Talvez eu tenha asma. Eu não devia mais ficar sem fôlego por causa de um namorado de tanto tempo. Mas, sério, aquelas covinhas. Deviam ser proibidas.
— Nada de cara de tesão — repreende ele com um largo sorriso. — Pelo menos não ainda. — Ele pega minhas mãos. — Então, lá vai. Sabe o estágio que fiz na JLL no verão passado?
— Eles te ofereceram um emprego? Que notícia maravilhosa! Eu sabia que iam fazer isso.
— Ofereceram.
Dou um gritinho e pulo nos braços dele, e ele me levanta do chão, rindo.
— Espere, ainda não contei tudo.
Estou cobrindo seu rosto de beijos, por isso não escuto o que ele fala em seguida. Ou melhor, escuto, mas meu cérebro não registra a informação. Paro no meio de um beijo.
— Como é que é?
— A vaga é em Nova York. É onde fica a sede da empresa.
— Eu… ah. Pode me colocar no chão?
Com delicadeza, ele obedece. Assim que meus pés tocam o piso, começo a andar de um lado para outro no pequeno quarto. Na minha cabeça, os pensamentos sobre a novidade de Nathan estão a mil. O que significa? Significa, idiota, que ele vai
se mudar para Nova York. Espera, é isso o que significa? Ele não disse que aceitou.
Mas como pode não aceitar? É a maior empresa de consultoria de negócios do país, senão do mundo. E é em Nova York! Mas e quanto ao sonho dele de ficar aqui na Califórnia e abrir um hotel? E daí? Obviamente era apenas isso: um sonho.
— Você está bem? — pergunta Nathan, esfregando as mãos nos meus braços.
— Eu ainda não acabei.
— Ah, é? — Viro a cabeça para cima como a de um suricato. Talvez ele me conte que conseguiu uma oferta ainda melhor, de uma firma de consultoria ainda maior da qual nunca ouvi falar. O que seria totalmente plausível.
Os olhos de Nathan ficam mais suaves, e ele toma minhas mãos de novo.
— Eu adoraria que você fosse comigo, Meddy.
Minha boca se abre, mas nenhum som sai. Minha mente, ou o que sobrou dela, entrou em curto-circuito.
— Meddy? Humm. Estraguei você? — Ele abana a mão bem na frente do meu rosto. — Ei.
— Desculpa. O quê? Ir com você? Para Nova York?
— Isso. — Ele ri. — Venha comigo. Vamos explorar a cidade. Podemos morar juntos, acordar um ao lado do outro todas as manhãs. Vou preparar café com leite e comprar bagels para você todo dia. É uma cidade incrível para fotógrafos. Você poderia mostrar seu trabalho em galerias, Meddy, tenho certeza. Você é brilhante.
Meus joelhos fraquejam. Meu Deus, desejo tanto essas coisas. Quero ficar com Nathan em um conjugado em Nova York com paredes de tijolo aparente, pisos de madeira e aquecedores antiquados.
Mas há um porém.
Nova York. Fica tão longe que poderia ser até outro país. O que seria de Ma sem mim? Eu faria a mesma coisa que meus primos homens, que saíram de casa assim que possível. Não, eu seria até pior, porque dei falsas esperanças a Ma e às minhas tias, as fiz acreditar que ficaria, mas no fim iria despedaçar seus corações. Ma ficaria arrasada. A Grande Tia balançaria a cabeça, decepcionada, e diria: “Wah, acabou que ter uma filha não é uma bênção. Mesma coisa que filho, nos abandona.”
E a Segunda Tia e a Quarta Tia me lançariam olhares de censura enquanto confortam Ma.
Não, eu sou melhor que meus primos. Melhor que meus tios e, sem dúvida alguma, melhor que meu pai. Não vou abandonar minha família. Nem por amor nem por nada.
— Eu… — Faço uma pausa. Não posso simplesmente dizer a Nathan que não vou com ele para Nova York. E se ele decidir ficar na Califórnia por minha causa?
Não posso fazer isso com ele. Não vou fazer isso. Não vou deixá-lo desistir dos sonhos dele por mim, não quando não estou preparada para desistir dos meus sonhos por ele. E não vamos nos esquecer da maldição. Eu sempre soube que nosso relacionamento estava condenado, que chegaria uma hora em que Nathan me deixaria. Devo tomar as rédeas da situação e garantir que tudo corra bem para Nathan. Como deve ser. É uma oportunidade boa demais para ele. Isso tudo me dá vontade de vomitar, mas não há dúvidas do que precisa acontecer.
Este, então, será meu presente para Nathan.
Dou as costas para ele. Não conseguiria fazer isso olhando para seu rosto lindo que eu amo tanto. Forço uma risada.
— Bom, isso é ótimo. Eu, hum, não sabia bem como lhe dizer isso, mas, hum…
acho que é melhor nós, hum, terminarmos. É isso.
— O quê?
Meu olhar dispara para ele, só o tempo suficiente para registrar o completo choque estampado em seu rosto.
— Sim, estamos juntos durante quase toda a nossa vida adulta. Eu meio que quero saber o que mais existe no mundo. Você também não quer?
Nathan parece a ponto de dar um soco na parede.
— Não, não quero. Que loucura é essa, Meddy?
Meu peito aperta como se fosse um punho se fechando, ameaçando esmagar meu coração, meus pulmões. Sinto dificuldade para respirar.
— Desculpe. Eu pretendia conversar sobre isso depois da formatura, mas agora parece uma boa hora. Agora que você vai para Nova York e vou ficar aqui em Los Angeles… vai ser o melhor, sabe?
Seu rosto é o retrato da dor e da traição.
— Não, não sei. O que… Há quanto tempo você está sentindo isso?
Faço um esforço enorme para não desabar. Engulo o nó que sinto na garganta.
Não chore. Não chore, porra.
— Hum, um tempinho.
— Um tempinho? — Ele olha para mim perplexo por um instante e depois solta uma risada infeliz. — Meu Deus. — Balança a cabeça e passa a mão no cabelo.
Inspira longamente, estremecendo. — Eu ia… — Ele balança a cabeça de novo. —