Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 18 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 15

Meddy [10:48]: Vá para a suíte da noiva. Te encontro já, já.

Enfio o celular no bolso de novo e inspiro profundamente. As horas estão voando.

— Está na hora! — grito.

As outras parecem confusas.

— Hora do check-in! Lembram? Não disseram que nossos quartos ficariam prontos só às dez horas? Já passa das dez!

Eu poderia berrar de alívio. Vamos poder guardar o cooler sem nos preocuparmos de alguém topar com ele. Talvez saiamos dessa confusão ilesas.

 

15

A recepção está lotada de tias com terninhos Gucci e enormes viseiras, e tios usando Patek Philippe. Todas as bolsas penduradas nos braços das tias são Birkin ou Kel y. Nada de Louis Vuitton ou Prada; esse grupo usa estritamente Hermès. O

que acontece com a comunidade sino-indonésia e esse tesão todo por Hermès?

Parece que todos os convidados já chegaram, embora eu saiba racionalmente que não é verdade; a maioria vai chegar às duas da tarde, a tempo para o check-in e para se arrumar antes da hora do coquetel. Mas os membros da família já estão na ilha —

as tias, os tios, os primos e as primas que vieram cedo para a cerimônia do chá — e, no típico estilo sino-indonésio, isso significa por volta de cem parentes, todos chegando ao mesmo tempo.

— Wah, olhe aquela ali, uma Kel y de pele de crocodilo — sussurra Ma para a Grande Tia.

A Quarta Tia gira tanto a cabeça para olhar a cobiçada bolsa que o cooler escorrega de sua mão, bate no chão, e uma das rodinhas estala imediatamente.

— Aiya! — A exclamação parte de nós quatro.

Cabeças se viram. Olhares curiosos nos seguem. Algumas conversas param no meio enquanto as tias e os tios nos observam.

— Tchi, por que você tão kaypoh? — repreende Ma.

— Você me distraiu!

— Tudo bem, só pegue o cooler de novo — sussurro, o que parece ridículo, sussurrar em um local tão amplo lotado de gente. No entanto, sinto o peso daqueles

olhares rastejando sobre a minha pele. Preciso sair desse lugar. A Quarta Tia agarra seu canto do cooler mais uma vez e corremos para o balcão da recepção, onde encontro, para meu desespero, uma longa fila de convidados esperando para fazer o check-in.

— Nada de preocupação, eu falo com eles — diz a Grande Tia. Baixamos o cooler e ela contorna a lateral do balcão. Fala algumas palavras para a recepcionista atarefada, que a fita e depois se vira para a tela do computador, aparentemente ignorando a Grande Tia. O rosto dela fica vermelho, e ela fala mais alguma coisa para a recepcionista. De onde observamos, posso sentir, por sua expressão contraída, o exato tom de voz que a Grande Tia está usando. É o mesmo que ela usa quando fica insatisfeita conosco, uma voz baixa mas implacável, impossível de ignorar. O motivo pelo qual a Grande Tia é a matriarca da nossa família inteira não é meramente o fato de ser a mais velha. Se esse fosse o único motivo, ela teria sido destronada décadas atrás. Não, o motivo é que ela tem A Voz.

Observo enquanto ela usa seu superpoder sobre a recepcionista agora. Seja o que for que a Grande Tia lhe diz, a recepcionista levanta bruscamente a cabeça e a encara com a testa franzida de preocupação. A Grande Tia ergue as sobrancelhas e assente. Com um suspiro, a recepcionista começa a digitar com grande violência e, em poucos minutos, a Grande Tia recebe um cartão-chave com um sorriso apertado. Ela volta para perto de nós, sorrindo triunfante e agitando o cartão.

— Wah, Da Jie, bom trabalho! — exclama Ma.

— Sim, foi absolutamente incrível — diz a Quarta Tia.

Sua admiração e seu respeito estão estampados no rosto delas e, por um minuto de consciência pesada, fico contente que a Segunda Tia não esteja aqui para azedar o momento de glória da Grande Tia. É bom ver as irmãs se dando bem.

— Aiya, não foi nada — retruca a Grande Tia, apesar de exibir um largo sorriso, e apesar de ser, sim, alguma coisa para ela. — Eu só disse para ela…

— Oi, Meddy.

Meu corpo inteiro reage à voz de Nathan antes que meu cérebro se dê conta, dando um giro e posicionando minha cabeça para cima a fim de retribuir seu olhar.

Já estou mordendo meu lábio (pare com isso!), mas a expressão em seu rosto deixa claro que não há nada romântico nesse momento. Ele está com a testa franzida, intrigado.

— Ei. Oi.

— Tudo tranquilo aqui? — pergunta ele.

— Sim, estamos só fazendo o check-in para os nossos quartos — respondo rapidamente, superconsciente dos olhares curiosos da minha mãe e das minhas tias.

— Espero que tudo esteja correndo bem para vocês — diz ele.

Minha mãe se aproxima e se intromete:

— Que rapaz simpático — comenta ela e, para meu terror, estende a mão para dar um tapinha em sua bochecha. — Muito bonito também.

Murcho por completo. Quero morrer.

— Posso pedir que alguém a ajude a encontrar seu quarto, Tia? — oferece Nathan. Ele olha para o cooler e seu sorriso desaparece. — Vejo que vocês ainda estão tendo problemas com o mesmo cooler? — Ele me fita com um mundo de perguntas nos olhos.

— Sim, não queríamos ocupar muito espaço na geladeira, e isso aqui é material não essencial, então pensamos em tirá-lo do caminho — balbucio.

Ma ainda está tocando Nathan em vários lugares, avaliando, como se ele fosse uma melancia que ela está pensando em comprar.

— Muito alto — murmura ela —, boa altura. Você usava aparelho quando era pequeno?

— Eu… O quê?

— Ma!

— Aparelho, sabe, em dente.

A Grande Tia e a Quarta Tia sorriem para Nathan, ansiosas.

— Ahn, não? — O rosto de Nathan tem aquela expressão vazia que vejo frequentemente nas pessoas quando Ma fala com elas.

— Wah, então dentes naturalmente retos? Que bom! Meddy, ele espécime muito bom, vai dar prole boa. Não vai precisar gastar dinheiro com aparelho em filhos.

Meu queixo cai até o chão de mármore. O rosto de Nathan está tão vermelho que com certeza daria para ferver um bule de água nele.

— MA! — Lanço um olhar de súplica para minhas tias, e elas finalmente param de sorrir por tempo suficiente para agarrar os braços da minha mãe e levá-la para longe. Mesmo assim, ainda a escuto dizer:

— Dentes dele muito bons, kan?

Eu me viro para Nathan.

— Mil desculpas por tudo isso. Por favor, ignore a minha mãe.

— Não esquenta. Eu sempre quis que as pessoas reparassem em como meus dentes são retos. — Ele abre um sorriso.

Eu rio.

— Tá bom, eles são tão retos que chegam a assustar.

— Também esperei a vida toda para alguém dizer como sou um bom espécime.

— Aham. Você é um puta de um bom espécime. — Só depois que as palavras saem da minha boca percebo como soam fortes. Será que ele sabe que nenhum outro homem chega aos seus pés? Que, depois do nosso relacionamento, eu não conseguia deixar de comparar todos os homens que conheci com ele e que nenhum era sequer comparável? E também que nada disso importa, porque tenho literalmente um cadáver escondido no cooler ao nosso lado?

Felizmente, a atenção de Nathan é desviada por um tio usando um gigantesco Rolex de ouro, que se aproxima a passos largos e berra: — NATHAN! Meu garoto, que lugar, hein? Seu velho deve estar muito orgulhoso!

— Oi, tio Timmy. É muito bom ver o senhor aqui.

— Escute, Nathan. Tia Sofie está cansada da viagem de barco até aqui. Você podia providenciar nosso check-in agora? — O homem faz um gesto para a longa fila diante do balcão de recepção.

— Estou tratando de um assunto agora, mas vou chamar alguém para tomar conta disso para o senhor…

— Não, tudo bem — digo rapidamente. — Pode ir ajudar o seu tio. Tenho que correr, mesmo.

Nathan sorri para mim, desculpando-se.

— Tudo bem. Eu te vejo mais tarde, Meddy. Venha, tio, vou tratar disso para o senhor.

Assim que Nathan e o homem mais velho se afastam, corro para perto das minhas tias e da minha mãe.

— Muito bem, vamos.

— Meddy, wah, você deve escolher aquele rapaz, sua mãe tem razão, ele é melhor espécime — diz a Grande Tia.

A Quarta Tia dá um risinho dissimulado.

— Podemos falar da minha vida amorosa mais tarde, por favor? Quando não tivermos que lidar com vocês sabem o quê?

Minha mãe e minhas tias resmungam, mas então se curvam para pegar um canto do cooler. Um carregador se intromete:

— Por favor, deixem que levo isso para as senhoras — oferece ele.

— Não… — começo.

— Não se preocupe, madame, vou levar para o seu quarto. Quarto 202, não é?

— Não…

Ele nos dá um sorriso educado e agarra uma ponta do cooler. Minha mente entra em curto-circuito, mas, antes que eu possa dizer alguma coisa, Ma fala:

— Aiya! Vocês, carregadores, sempre querendo gorjeta. Não tenho gorjeta para

você, vá embora.

Parecendo chocado, o rapaz balbucia:

— Eu não ia…

— Vai embora, xô. — Minha mãe literalmente o enxota como se ele fosse um cachorrinho levado, e o rapaz se afasta, balançando a cabeça e murmurando:

— Asiáticos.

Eu me retraio, sentindo-me dividida entre a raiva pelo comentário e o constrangimento pelo nosso comportamento horrível. Ainda assim, não tenho tempo para me preocupar.

— Vamos embora antes que outro carregador venha nos abordar.

Pegamos o cooler e nos apressamos em direção aos elevadores, seguidas por olhares curiosos. Não os culpo. Somos um grupo estranho: eu toda de preto, a Grande Tia e Ma com grandes aventais brancos e a Quarta Tia cintilante, com paetês e plumas. É só depois que as portas do elevador se fecham que solto a respiração, mas ainda não consigo me livrar da terrível sensação de que gente demais nos viu com o cooler. Muitos olhos curiosos nos acompanharam.