Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 25 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 22

Mas fico lá, piscando que nem uma idiota, deixando o amor da minha vida pensar que eu sou uma traidora babaca que ficaria com ele enquanto ainda estou saindo com um cara qualquer que pelo visto está cochilando no meu quarto.

— Enfim. — Nathan sorri com a boca fechada, o tipo de sorriso que você dá para o caixa tagarela do mercado na tentativa de fazê-lo parar de falar. — Vejo você por aí, Meddy. — Com essa frase, ele vai embora. Desabo dentro do quarto, fecho a porta e me encosto nela, as lágrimas já inundando meus olhos. Meu peito dói, como se alguém tivesse acabado de atingi-lo com um punho de ferro, estraçalhando minhas costelas, agarrado meu coração e o arrancado, mas não há nada que eu possa fazer para impedir Nathan de partir.

 

22

Ma me encontra encolhida na outra cama, chorando como se tivesse acabado de ver um de seus dramas coreanos.

— Meddy? — Ela corre para o meu lado e dá uma leve sacudida no meu ombro. — Kenapa? O que aconteceu? Por que chora?

Olho para ela e a visão de seu rosto redondo e com marcas da idade é demais para suportar. Uma nova onda de lágrimas irrompe de mim.

— Me desculpe, Ma. Me desculpe. — É demais, isso tudo. Ah Guan. Ma e minhas tias me ajudando sem uma única palavra de reclamação. E o fato de que, na verdade, estou planejando sair do negócio da família há meses.

E, lógico, Nathan. O fato de que conheci minha alma gêmea na faculdade, me apaixonei perdidamente e nunca contei isso para Ma. É idiota, mas de alguma forma parece a maior traição. E agora eu o perdi novamente.

— É só… — Respiro. — As coisas ficaram complicadas demais. E sinto muito ter envolvido a senhora nisso tudo.

Ela suspira.

— Aiya. É óbvio que me envolvo. — Ela gesticula vagamente na direção de Ah Guan. — Sou sua mãe. Preciso proteger você.

— Mas é isso, Ma. Não quero que me proteja. A senhora tem feito isso esse tempo todo e eu agradeço, mas eu queria não ser um problema tão grande, sabe?

Queria que a senhora não precisasse me proteger.

Ma abre um sorriso contido e triste e coloca a mão no meu rosto, como ela faz

desde que eu me entendo como gente.

— Você não é problema. Você só matou por acidente. Má sorte. Pode acontecer com qualquer um.

Isso me faz rir apesar de tudo.

— Acho que matar seu acompanhante não é uma coisa que acontece com qualquer um, Ma. — Suspiro. — Não fui honesta com a senhora e, com tudo o que está acontecendo, não sei se vou ter a chance de contar a verdade sobre Nathan, então… Eu quero contar, Ma. Não quero mais esconder as coisas.

O rosto da minha mãe se ilumina, tirando-lhe anos e a deixando tão jovem e vibrante que tenho um vislumbre dela aos vinte e poucos anos, cheia de energia e risadas.

— Sim — diz ela. — Me conte.

Minutos depois, estamos sentadas na varanda, segurando xícaras quentes de chá.

— Conheci Nathan na primeira semana da faculdade. Foi amor à primeira vista, e eu sei que isso é brega até dizer chega, mas… foi isso.

Ela ri.

— Sabe, eu conheci seu pai em casamento. Ele ficava sorrindo, sorrindo para mim, aduh, fiquei tão irritada com ele. Eu disse: “Ei, você me olha por quê, hein?

Não pode parar de olhar?” E ele disse: “Gosto de olhar para beleza.” E foi assim, BUM, nos apaixonamos.

Pensar em meu pai e minha mãe jovens e apaixonados me traz uma sensação agridoce.

— Como a senhora ainda consegue falar nele com tanto carinho, depois de tudo o que aconteceu?

— Ah, Meddy. Porque eu tenho você. E seu pai muito gentil no início. Sempre me escutava, homem muito bom. Tentamos muito ser bons um para o outro. E não funcionou, mas tudo bem, tivemos você, isso é bom o suficiente.

Aperto a mão dela. É macia, mais macia do que a minha, e me lembro do toque dela quando eu era pequena, afagando meu cabelo quando eu chorava em seu colo depois de ter brigado com algum colega ou ido mal em uma prova. Minha mãe sempre teve mãos macias, mas agora também vejo rugas e manchas de idade nelas, e a visão é muito chocante. Quando ela ficou velha?

— Então o que aconteceu com esse rapaz?

Suspiro.

— Tudo. Ele era meu tudo, e acho que era isso que mais me assustava. Eu tinha dezoito anos. Ainda não estava pronta para encontrar meu tudo, sabe? E lógico que tem a maldição da família.

— Que maldição da família?

Eu a encaro.

— Sabe, aquela que leva todos os homens da família! A senhora e as tias sempre falavam dela quando eu era criança. Vocês falavam: “Ah, somos tão azaradas, temos a maldição dos nossos maridos nos deixarem.”

Ma ri.

— Você quer dizer a bênção da família?

— O quê?

— Aiya, chamamos de maldição primeiro porque é óbvio que ficamos tristes que maridos nos deixavam. Mas, depois de alguns anos, percebemos que na verdade não é maldição. É bênção de família. Porque seu pai me deixa, eu fico ainda mais próxima de suas tias. E elas ficam mais próximas umas das outras também, porque elas não têm marido nem filho. E você, elas veem você como filha. É como crescer com quatro mães. Isso é bênção, Meddy. Somos muito abençoadas, temos família próxima.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Todos esses anos, eu nunca havia olhado dessa maneira, mas Ma tem razão. Realmente cresci com quatro mães, e foi incrível mesmo. Recebi tanto amor na minha vida, mas não dei o devido valor.

— A senhora tem razão, Ma.

— De qualquer forma, não foi maldição que levou seu pai. Só não funcionamos juntos, tudo bem, seguimos em frente. E suas tias a mesma coisa com seus tios.

Talvez triste no começo, mas depois tudo bem. Não deixe amor escapar porque acha que temos maldição. Tão boba, você. Achei que fosse mais esperta.

Solto uma risada. Minha mãe supersticiosa está me repreendendo por acreditar em maldições. A vida não tem como ficar mais estranha.

— É por isso que você nunca me fala sobre esse Nathan?

— Sim e não. — Inspiro profundamente. — A verdade é que eu era uma pessoa na faculdade e outra em casa. Não sei bem como explicar. Não é nada contra a senhora ou as tias, é só que… não sei…

— Você se sente mais livre para descobrir quem você é.

Eu a fito com assombro.

— É. Exatamente. Como a senhora sabi…

— Aiya, você acha que é única que vai para faculdade, é? Eu vou para faculdade também, eu sei do que você fala. Em casa, eu sou só Terceira Irmã, ninguém especial, nem mais velha, nem mais nova. Nem mais bonita, nem mais inteligente.

Mas na escola eu posso ser minha própria pessoa. Não apenas Terceira Irmã, mas eu. Natasya.

— É, é exatamente isso. — Desde o início, ela entendeu. Claro que sim. Como eu, ela cresceu em uma família enorme e muito unida repleta de parentes superprotetores. — Primeiro, eu não queria levar Nathan lá em casa por causa disso. Então, quando ficamos ainda mais próximos e ele se tornou uma parte ainda mais importante da minha vida, eu não sabia como levá-lo e dizer à senhora que já estávamos juntos havia mais de um ano. Parecia uma traição, e eu não sabia como a senhora reagiria. Me desculpe, Ma. Eu devia ter confiado mais.

— Sim, você devia — retruca ela, simplesmente. Eu me preparo para um sermão, que faria eu me sentir ainda mais culpada, mas, desta vez, Ma fica quieta.

— Enfim, então nos formamos, e ele recebeu uma oferta para trabalhar em Nova York, e eu não queria me mudar para o outro lado do país só para ficar com ele. Não sei. Ou talvez eu quisesse, e tivesse me apavorado pra cacete por querer.

Por estar disposta a desistir de tudo por ele. Então me forcei a escolher outra coisa.

Uma coisa que fosse nos afastar. Mas nunca consegui esquecer Nathan, porque eu sabia que ele era a pessoa certa, Ma. — E, ao admitir aquilo em voz alta pela primeira vez, as lágrimas rolam novamente. — Ele era o meu amor, e aquilo me matou, perder Nathan daquela primeira vez, e não acredito que acabei de perder de novo.

— Por que perder de novo? — Ela franze a testa, confusa.

Uma risada trêmula sai de mim.

— Ele viu os pés de Ah Guan e achou que fosse meu namorado, dormindo na minha cama. Eu não podia contar a verdade, claro, então deixei que ele pensasse isso.

Minha mãe contrai os lábios.

— Ah. Má sorte, muita má sorte.

— Bota má sorte nisso.

— Então como? Você vai atrás desse rapaz?

Balanço a cabeça.

— Não sei se existe alguma coisa que eu possa falar para ele mudar de ideia sem contar a verdade. E, para ser sincera, não quero mentir para ele. Não quero inventar alguma história doida sobre como era só a minha tia ou sei lá quem estava dormindo… — Claro, quando falo isso, tenho um vislumbre de esperança, tipo, ahn, talvez eu possa dizer a ele que era uma das minhas muitas tias embaixo do edredom. Mas assim que me imagino mentindo para ele, tudo dentro de mim murcha. Não quero fazer isso. Não consigo suportar ter que olhar dentro dos olhos dele e enchê-lo de palavras mentirosas. — De qualquer modo, eu provavelmente não deveria me distrair com… o que quer que isso seja.

— Amor é boa distração. Talvez eu tenha netinhos logo — diz Ma com um sorriso.

Reviro os olhos, mas não consigo impedir um sorriso se insinuar nos cantos da minha boca. Como minha mãe faz isso, toda vez? Ela me encontra despedaçada e, de alguma maneira, de alguma forma, consegue me colocar de volta no lugar.

Aperto sua mão.

— Obrigada, Ma.

— Aiya, obrigada por quê? — Ela me afasta e inspira brevemente. — Ah!

Esqueci de dizer que encontrei isso lá fora. Aduh, você tão descuidada, como pode esquecer sua própria chave? — Ela procura nos bolsos da calça e tira de lá um cartão todo branco.

Franzo a testa ao pegá-lo.

— Este cartão não é a minha chave. Coloquei o meu em cima daquela mesa. —

Nós duas olhamos para a mesa e, de fato, meu cartão está lá. Viro nas mãos o cartão que Ma encontrou. Do outro lado, em letra bastão, está a inscrição CHAVE-MESTRA. Suspiro.

— É o cartão do Nathan. Ele deve ter deixado cair depois de abrir a porta para mim. Ai, vou ter que dar um jeito de devolver para ele. — Uma ideia surge na minha cabeça. — Logo depois de usar para devolver os presentes da cerimônia do chá. —

Caminho pelo quarto, pensando em como e quando devo fazer isso. Tem que ser esta noite, logo depois da festa, enquanto todos estiverem do lado de fora assistindo aos fogos de artifício. Vou voltar para cá, pegar a bolsa, usar a chave para abrir a suíte da noiva e deixar as coisas lá. Em algum lugar. Talvez embaixo da cama da noiva ou algo assim, onde não seria encontrado na hora, para que nos dê mais tempo antes de Maureen perceber que alguma coisa deu errado no plano dela.

Penso no meu plano novamente, passando os detalhes a limpo, procurando por falhas, e, sim, claro que há falhas, mas no geral é o melhor plano que alguém poderia sugerir numa situação como essa. Pela primeira vez desde que essa enrascada

começou, me sinto um pouco bem. Sim, ainda há um cadáver na minha cama e um estoque de joias roubadas no meu armário, mas, olha só! Pelo menos agora tenho um plano viável para cuidar do segundo problema. Em breve vou pensar em um plano para me livrar do primeiro. Tomara.

— Pensa em algo? — pergunta Ma.

Eu me viro para ela, com o sorriso largo, e estou prestes a lhe contar meu plano para devolver as joias roubadas quando o celular de Ah Guan vibra. O som corta o ar, silenciando nós duas. Acho que nem sequer ousamos respirar. Nossos olhos miram o aparelho, vibrando na mesa como um enorme besouro. Relutante, eu me aproximo, ainda prendendo a respiração, e vejo o rosto de Maureen na tela. Argh, ótimo. O que foi agora? Meu Deus, espero que o plano deles não envolva se encontrarem depois que ele pegar a bolsa. Deixo cair na caixa de mensagem.

Ma morde o lábio.

— Talvez você possa só ignorar…

O telefone vibra com uma mensagem.

Maureen [14:02]: SOS. Sério, cadê vc?

SOS. O pavor enche meu estômago, que está pesado e quente. Isso não vai ser nada bom. Com uma respiração profunda, pego o telefone e digito: Ah Guan [14:04]: Que foi?

A resposta é praticamente instantânea.

Maureen [14:04]: ATENDE O TELEFONE FDP

Ah, meu Deus, ela vai ligar de novo, não vai? Digito rapidamente: Ah Guan [14:04]: Não posso, c/ gente agora

Maureen [14:05]: Se livra deles! É uma emergência!

Ah Guan [14:05]: Só diga o que aconteceu.

Maureen [14:06]: Por msg? Vc tá louco?

Certo. Ela não pode me contar porque senão a mensagem poderia ser usada como prova se as coisas derem errado. Tudo bem. Pensa, Meddy.

Ah Guan [14:08]: Ligo já já mas não vou poder falar mto pq tem gente em volta

Maureen [14:08]: BLZ

— Vou ligar de volta para ela. Não fale uma palavra enquanto eu estiver ao telefone.

Ma concorda, e levo um segundo para me recompor. Respiro fundo. Certo.

Toco no nome de Maureen no celular e ligo para ela. Ela atende no primeiro toque.

— Cara, meu Deus, as coisas estão indo muito mal. Nem posso… Está dando tudo errado! — A voz dela está trêmula, rouca pelas lágrimas.

O instinto me incita a falar alguma coisa. Parece tão errado ficar parada ali em silêncio. Opto por um Hugh Jackman como um grunhido de Wolverine.

— Hum.

— Eles… merda… eles descobriram que as paradas sumiram! — sibila ela.

Ah! A esperança é a última que morre. Talvez isso seja bom. Vão pegar Maureen e… ah. E vão interrogá-la, tentar descobrir a verdade, e se ela deixar escapar? E se ela disser que Ah Guan pegou as coisas, e então eles… Não sei, o que eles fariam? Talvez vasculhassem o resort inteiro? Eles fariam isso? Quem estou tentando enganar? Há facilmente dois milhões de dólares em joias e relógios caros naquela bolsa; claro que fariam isso. Fariam qualquer coisa para recuperá-la. Isolar a ilha do continente. Dizer para cada convidado ficar em seu quarto enquanto eles vasculham em detalhes todos os quartos. Ah, meu Deus. Isso é ruim. Isso é muito, muito ruim.

— E a batata quente está comigo — continua Maureen. — Porque eu fui a última com as paradas. Não posso deixar que eles suspeitem… Não ela, ah não, não posso… Mudança de planos, você me ouviu?

Dou meu grunhido de Wolverine de novo.

— Vamos ter que jogar nas costas da fotógrafa.

— O quê?!

— Foi ela que me ajudou a carregar as caixas de volta para o quarto… Sua voz está esquisita, você está resfriado?

Reúno todas as minhas forças para conseguir dar outro grunhido.

— Enfim, ela me ajudou a carregar as caixas. Posso dizer que eu fui descuidada, que ela ainda estava no quarto quando abri o cofre. Talvez ela tenha visto a senha do cofre ou sei lá, e depois voltou para pegar as paradas. Isso é plausível, né?

Podemos ganhar um tempo. Você precisa… Merda, o que você vai fazer com as coisas? Você precisa colocar tudo no quarto da fotógrafa e…

Desligo na cara dela. Meu coração está disparado, minha mente embaralhada.

Mal consigo formar um pensamento coerente.

— O que ela disse? — pergunta Ma, esfregando os cotovelos, o rosto enrugado de preocupação. Ela está tão preocupada que esquece de falar inglês e troca para indonésio. — Meddy, você parece tão assustada, o que é?

Fito o celular. Fito minha mãe. Não sai nada.

— Meddy! — Ela estala os dedos. Ao mesmo tempo, o aparelho vibra novamente. Dou um salto, e a realidade volta correndo, como uma inundação.

Aperto o botão de rejeitar, e então mando outra mensagem de texto: Ah Guan [14:11]: Não posso falar agora, mas vou dar um jeito com as paradas. Não esquenta.

Quando olho para cima novamente, Ma ergue as sobrancelhas.

— E aí?

— Descobriram que os presentes da cerimônia do chá sumiram, e Maureen quer colocar a culpa em mim.

Quando eu tinha cinco anos, havia um garoto no jardim de infância que sempre puxava meu cabelo e me beliscava. Quando Ma reclamou com a escola, eles riram e disseram: “Ahhh, é tão bonitinho! O pequeno Bobby tem uma queda pela sua filha.

Isso não é fofo?” Ma cresceu em todos os seus cento e cinquenta e sete centímetros (até seus seios cresceram) e ficou com uma expressão no rosto, como se tivesse incorporado a alma de um guerreiro. A sra. Mal one, minha professora, ainda sorria que nem uma besta para ela. Ela nem sabia o que estava por vir. Mas, quando Ma terminou o sermão, a sra. Mal one estava em lágrimas e prometeu conversar com os pais de Bobby sobre limites.

A expressão no rosto da minha mãe me fez lembrar aquele momento. Tudo nela está maior, orgulhoso e furioso.

— Aquela ladra ruim quer culpar minha filha?

Bem nesse momento a porta destranca e minhas tias entram. Elas se amontoam, esfregando a barriga e conversando animadas em mandarim, mas então a Grande Tia percebe a expressão no rosto de Ma.

— O que houve? — indaga ela. — Algum problema?

— A ladra quer culpar Meddy! — grita Ma.

Minhas tias arfam, arrebatadas pelo choque e pela raiva. A Grande Tia grita um palavrão cabeludo em mandarim, a Segunda Tia imediatamente inicia uma pose tai chi que sem dúvida tem algum nome ridículo e a Quarta Tia crava as unhas exageradas no pescoço, assobiando. Eu quero matá-las de tanto abraçar. Estão todas enfurecidas por minha causa.